sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O direito de morrer*



Por Paulo Nogueira


O filósofo e historiador inglês David Hume, um dos mais brilhantes e versáteis intelectuais do século 19, escreveu um livro em defesa do direito ao suicídio. Logo nas primeiras linhas ele disse: “Não conheço de alguém que tenha posto fim à vida enquanto ela valia a pena”.
Nem eu.
Hume me veio à mente depois que li a notícia da morte de uma ex-produtora da BBC, Geraldine McClelland. Aos 61 anos, Geraldine, com um câncer terminal no fígado, decidiu morrer na clínica suíça Dignitas, especializada em suicídios assistidos.
Ela deu uma entrevista, um dia antes de viajar, que comove – mas mais que isso faz pensar.
“Não estou triste”, disse ela. “Estou com raiva da covardia dos nossos políticos. Por causa disso não pude morrer no meu país.”
Na Inglaterra, os médicos não podem ajudar o doente a morrer. São muitos os ingleses que acabam indo para o Dignitas. É um assunto que está sendo objeto de intensa discussão. A pressão para que a legislação se altere é cada vez maior, e com certeza o caso de Geraldine vai inflamar ainda mais o debate.
A lei inglesa é dura.  Imagine que um filho acompanhe a mãe em estado terminal à Dignitas para ampará-la nos momentos finais. Ele pode ser preso ao voltar e pegar até 14 anos de cadeia. Tanto rigor é justificado pela possibilidade de que pessoas velhas e vulneráveis poderiam ser mortas por interessados em apressar o recebimento da herança.
É provável que isso mude, e em breve.
Ótimo.
O suicídio, como escreveu Sêneca, é uma porta de saída legítima para quem, como Geraldine, não vê mais sentido na vida. Na entrevista que ela concedeu, ela conta que poucos dias antes não conseguiu sequer entrar num táxi. “Isso não é vida”, afirmou. O que a esperava? Dor, mais dor, ainda mais dor, e a morte.
Há uma visão para mim errada segundo a qual o suicida é “egoísta”. Egoísta, para mim, é quem não vê que para se matar a pessoa certamente chegou a um estágio em que a vida já não tem nada de bom a oferecer.
Se você pensa  menos em você mesmo e mais no suicida, pode acabar chegando a uma conclusão capaz de mitigar a dor da perda: foi o melhor para ele.
No caso específico de Geraldine, consideradas as perspectivas cruéis que a aguardavam, tenho a convicção de que ir para a Suíça foi a melhor opção entre as poucas que lhe restaram.


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*Sei que a questão é por demais espinhosa, mas penso que a vida de um indivíduo deve estar resguardada pela noção de propriedade privada. Será que existe algo mais meu, mais particular, mais inalienável que minha própria vida? Será que é direito do Estado decidir sobre o melhor para mim, até mesmo na hora da morte? Me recuso a aceitar isso. Assim como me recuso a criticar suicidas. A vida é propriedade de quem a vive. Mas, como um bom republicano, aceito (com muitas ressalvas) quem pensa o contrário. Afinal, quantas coisas envolvem essa questão, não é verdade?
Há algum tempo li uma interessante entrevista do jornalista Geneton Moraes Neto sobre o tema: Bert Keizer, o médico que mata (se o paciente pedir para morrer). É só seguir o link, vale a pena.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nijinski*

Por Eduardo Galeano




Na Suíça, em 1919, num salão do hotel Suvretta de Saint Moritz, Vaslav Nijinski dançou pela última vez.

Diante de um público de milionários, o bailarino mais famoso do mundo anunciou que ia dançar a guerra. E à luz dos candelabros, dançou-a.

Nijinski girava em furiosos torvelinhos e se desprendia do solo e no ar se partia e ao solo caía, e se revirava como se fosse de barro o chão de mármore e outra vez se lançava a girar e subindo quebrava, uma vez e outra e outra, até que no fim aquele resto dele, aquele alarido mudo, espatifou-se contra a janela e se perdeu na neve.

Nijinski entrou no reino da loucura, sua terra de exílio. Nunca mais voltou.


Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p. 245.

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*Na dança existe um antes e um após Nijinski, um gênio encantado e de passos alucinantes. 

A escola pública no show da vida*



Por Rodolpho Motta Lima


Instigado por comentários que li/ouvi, resolvi assistir, no último dia 27, ao programa “Fantástico”. Fiz essa grande exceção  a um comportamento de muitos anos,  mantido para o bem dos meus fins de domingo, porque queria ver o quadro  “Conselho de Classe”, em que a Globo vem expondo o que resolveu editar depois de muitas dezenas de horas de gravação no colégio República do Peru, escola pública do Rio de Janeiro. A justificativa: enfocar como é o dia a dia de quatro professores da 6ª. série do Ensino Fundamental daquele estabelecimento.

Visto o programa – a terceira apresentação de uma série de cinco, tendo, em média, 12 minutos de duração cada uma -, resolvi acrescentar minha opinião a umas tantas outras, tendo antes o cuidado de procurar conhecer, na internet, o teor das duas primeiras  abordagens.

Lamentei muito do que vi e ouvi. Não se deve, seja em nome do que for, submeter um assunto sério como a educação pública a uma exposição do tipo “reality show”, em que professores, ingênuos talvez, expõem a si próprios e aos seus alunos em atitudes que mais parecem buscar os tão falados 15 minutos (no caso, seriam 12) de fama...

Julgo que, aos mestres em questão – cuja qualidade e intenções não coloco em discussão, até porque seria leviandade, já que não os conheço – talvez tenha faltado malícia para reconhecer que não seria deixando-se apresentar sob rótulos  como “exigente”, “linha dura”, “ mãezona” e outros, que estariam exemplificando o bom educador. Creio não ter havido sensibilidade nos momentos em que, na menção aos alunos, deixaram transparecer a visão (que espero que não tenham) de que o problema do ensino é o estudante, com seu “rebolation” em sala de aula, suas bolas arremessadas para o ar, sua preocupação com maquiagem, sua indisciplina  e sua desmotivação. A meu juízo, faltou-lhes, ao menos nesses três primeiros “blocos”, uma atitude crítica quanto às condições do ensino no país – não apenas o ensino público, mas a educação vista como um todo, em uma sociedade repleta de mazelas.  E então, em meio aos  novelescos perfis traçados para eles, perderam uma excelente oportunidade de não se deixarem levar pelo estrelismo, um dos perigos da minha profissão.  A quem serve uma negativa exposição dos alunos e do ambiente de uma escola pública? Serve a quem esse consentido clima “Big Brother Brasil”, com microfones e câmeras “escondidas” em busca de  “espontaneidade”?   
  
A “chamada” para o quarto bloco – que estará indo ao ar quando este texto já estiver circulando no DR – fala de uma festa dos professores, gente “que vai dançar até o amanhecer”. Nada contra as festas de congraçamento, nada contra a alegria e descontração. Mas tudo a favor, também, da sensibilidade para ao menos tentar imaginar hipotéticos objetivos e preservar-se.

Terão sido os “atores” previamente consultados quanto à versão final dos programas? Acredito – ou quero acreditar - que não. Penso que talvez percebessem, então, que em nada ajudaria os propósitos da educação uma frase dita sem pensar de professor confessando ter relação “de amor e ódio” com os alunos; que a autopromoção embutida em alguns depoimentos não é uma contribuição positiva; que o tom “tropa de elite” dos comandos de alguns  mestres, aí incluída a contagem de 72 “Senta!” proferidos por um único professor, não é pedagogicamente adequado; que, enfim, a edição deixou mal a eles e a nós, que defendemos a qualquer preço o democrático ensino público.    

Resta questionar, também, a Secretaria Municipal de Educação. Será que não se preocupou em analisar o que iria ao ar como resultado de tanto tempo de gravações? Será que considerou satisfatória a edição? Terão sido ingênuas as autoridades educacionais ou também elas terão aderido ao desejo da exposição , mesmo que do tipo “falem mal , mas falem de mim”?  Em alguns depoimentos na internet, que até defendem a edição, apontam-se aspectos positivos apresentados: as salas não estão infladas de alunos, a escola é de regime integral (7 horas), apresentam-se em alguns poucos momentos modernos recursos pedagógicos. Concordo. Mas esses aspectos aparecem no detalhe, não se aprofundam, e o que predomina mesmo, ao menos para mim,  é uma visão meio anárquica, até caótica, do ambiente.

Se falhou a Secretaria de Educação, não falharam os jornalistas do “Fantástico” no seu intento de transformar tudo em um “ show da vida”. Muitas das situações, claro, são do dia a dia de um colégio, seja ele público ou particular. Mas o que a edição acabou por mostrar - de forma subliminar - foi uma escola pública pouco confiável. Um tipo de escola que talvez preocupe  os pais  da emergente classe média carioca e que, nesta providencial época de renovação de matrículas, podem (quem sabe?) ser tentados a buscar a solução para as suas preocupações nos braços receptivos e onerosos – mas nem sempre eficientes - das escolas da iniciativa particular.


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*A ideia do quadro é simplesmente patética, não contribui em nada com a educação. Apenas expõe os professores (esses voluntariamente) ao ridículo. É preciso lembrar que existe uma grande distância entre o métier circense e o pedagógico. Professor não é palhaço, tampouco é estrela de Tv para apresentar performances cênicas diante de câmeras ou coisa que o valha. Detestei a ideia da globo e concordo com o Rodolpho, primeiro as finalidades da educação, depois o resto.  

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Antes que Anoiteça*



Por Josenias Silva


Queridos amigos:

Devido ao meu precário estado de saúde e à terrível depressão emocional que me impossibilita de continuar a escrever e a lutar pela liberdade de Cuba, estou pondo fim a minha vida. Nos últimos anos, mesmo me sentindo muito doente, pude terminar minha obra literária, na qual trabalhei por quase trinta anos. Deixo-lhes pois como legado todos os meus terrores, mas também a esperança que em breve Cuba será livre. Sinto-me satisfeito por ter contribuído, mesmo que modestamente, pelo triunfo da liberdade. Ponho fim a minha vida voluntariamente porque não posso continuar trabalhando. Nenhuma das pessoas que me cercam estão comprometidas nesta decisão. Só há um responsável: Fidel Castro. Os sofrimentos do exílio, a dor de ter sido banido, a solidão e as doenças contraídas no desterro – certamente não teria sofrido isto se pudesse ter vivido livre em meu país.

Conclamo o povo cubano, tanto no exílio quanto na Ilha, a seguir lutando pela liberdade. Minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas sim de luta e esperança.

Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça, 2009, p.377.



Há exatos 21 anos morria Reinaldo Arenas (1943-1990), escritor e poeta cubano dos mais perseguidos pela ditadura de Fidel Castro.




Arenas, como ele mesmo se considerava, era um dissidente em todos os sentidos, não era religioso, era homossexual e anti-castrista. Condições suficientes para mantê-lo sempre sob a mais rígida vigilância dos aparelhos de repressão montados por Fidel nos anos seguintes à “revolução”.

Embora ainda na juventude tenha se alinhado aos mesmos ideais revolucionários que motivou o bando de Castro a tomar o poder, Arenas nunca deixou de ser um fora de lugar, um exilado de si mesmo, alguém consciente da sua própria condição e a do seu povo.

“E nós, cubanos, que sofremos durante vinte anos uma perseguição violenta, num mundo terrível, somos pessoas que não podem encontrar tranqüilidade em lugar nenhum; o sofrimento nos marcou para sempre, e talvez possamos encontrar certa comunicação somente com pessoas que tenham sofrido como nós.” (Arenas, 2009, p.366).

Um pouco antes de suicidar-se, em 7 de dezembro de 1990, ele deixou várias cópias da carta transcrita no início desse texto. Nela, como se pode perceber, ele culpa única e exclusivamente Fidel Castro por todos os sofrimentos e infortúnios que passou enquanto viveu em Cuba. Arenas deixou várias obras publicadas, assim como uma autobiografia (Antes que Anoiteça) em que narra de forma crua a sua vida, as suas paixões e a sua luta contra a intolerância e a perseguição política durante a ditadura de Castro.

Reinaldo Arenas se tornou um símbolo da resistência e da luta a favor da liberdade na ilha cubana. Sua morte, mais que um brado de indignação, representa um ato de revolta contra todas as ditaduras, contra todas as formas de intolerância, principalmente a sexual, e contra toda e qualquer coerção, principalmente a do pensamento.


Arenas, que o mundo (sempre ingrato para os bons) não te esqueça.



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*Dica: Em 2000 a vida de Reinaldo Arenas foi levada ao cinema no filme Antes do Anoitecer (Before Nigth Falls), o filme foi inspirado na autobiografia do autor. Vale a pena assistir tanto ao filme quanto ler a obra, desta escreverei minhas impressões em outro post. 

Os super-humanos mais super*

Por Urariano Mota


A Rede Record apresenta no “Domingo Maior” um quadro que leva o nome de Super-Humanos. São os chamados super-heróis da vida real, “pessoas aparentemente comuns como nós, com habilidades especiais”, conforme o anúncio da série, que vem dos Estados Unidos. Um release mais extenso do original fantasia:

“OS SUPER-HUMANOS apresenta histórias impressionantes e reais de pessoas que possuem habilidades únicas. Com a ajuda de uma equipe de cientistas que tentará desvendar o segredo de seus DNAs, elas tentarão compreender seus ‘poderes’. Além de destacar os avanços tecnológicos e científicos que ajudarão no entendimento da próxima geração de ‘super-heróis’,OS SUPER-HUMANOS também mostrará como o homem deve evoluir”.   

Desnecessário dizer que desfilam indivíduos com sensibilidade acima de choques elétricos, outros com cabeças de resistência de ferro para pancadas, alguns de cérebros mais rápidos que calculadoras, ou estranhos seres que veem sem uso dos olhos, emitindo sons feito morcegos, entre atletas de extremos inenarráveis, inclusive de corridas de 24 horas sem parar. Na continuação das façanhas, os extraordinários super são levados para testes físicos, fisiológicos, mecânicos ou da neurologia com imagens de ressonância magnética, onde cientistas, estudiosos se mostram incapazes de explicar os fenômenos. Uma série que é uma coleção de assombros.   
  
De passagem, anote-se que há nesse quadro uma ideologia antiga de contrapor pessoas, numa competição que escolhe e exalta os mais e melhores, que sobrevivem à custa e acima, sempre acima, de pobres coitados, a maioria de todos nós, que não é excepcional. Dizendo de outra maneira, em séries do gênero há sempre a manifestação do gênio, do herói, do super, superior ao conjunto da massa cujo destino é ser burra, idiota, sem força, sem sentimentos, infeliz e satisfeita ainda assim. Vale dizer, o super acima da massa de normais na sua natural natureza de medíocres.  

Importa mais agora escrever, ainda que em um texto rápido, o quanto há de distorção na procura do super entre os supremos, o super como uma categoria mais que humana, como se o mercado da vida produzisse mercadorias com tarja e composição de ultra, plus, substâncias mais, qual bebida ou vitamina com aditivos que transformassem o comum na exceção. Se este colunista fosse um filósofo, saberia expressar o pensamento em ideias gerais, lapidares, dignas do respeito à tradição de Kant. Mas como sou apenas um escritor, falo do que pode vir de universal no destino particular de toda a gente.

No que posso, penso na busca estúpida, na exibição superestúpida que é o indivíduo “superior” por qualidades patológicas, acidentais, bizarras, no sentido de excêntricas. O estúpido que é a busca e mostra de indivíduos na concepção pobre de super-heróis de quadrinhos. Quem assim procura não vê que o maior milagre é a pessoa humana, a complexa e infinita possibilidade que saltou e salta do animal todos os dias. E aqui, entendam, não quero lembrar a fascinante aventura que é a realização do olho humano, ou, mais longe, o fascínio dos caminhos de mil e uma noites que se abrem para a imaginação. A essa qualidade, que separamos por rigor bárbaro de método, e que se mistura à memória e pensamento mais lógico, rebelde, a essa qualidade extraordinária da imaginação não me refiro para afirmar que mais espantoso que o super é o humano. Até porque, diriam, assim é, com os gênios. E seríamos postos de volta à desolada planície onde jazemos os comuns mortais. O nosso jaz é outro.

Aqui me refiro a todo humano que não se satisfaz com os limites de herança, condição ou azar. Entendam, para não cair no sinal oposto ao super à direita, e como um oposto falar em sua mesma língua e terreno, trazendo um super à esquerda, não quero nem devo lembrar as exceções de Lula, Machado de Assis, Edson, Aleijadinho ou Cartola. Não, prefiro abrir os olhos para o Kepler que há em todo homem, aqui e agora mesmo, que não desiste da sua luta, ao crer em objetivos na aparência inalcançáveis, ou mesmo impossíveis, mas que se tornam belos e fecundos pela rebeldia contra a sua impossibilidade. Aqui me refiro a todo comum que nos subúrbios agora, nas favelas mais inóspitas, quer ser músico, poeta, atleta, dançarino, cientista, mestre para os seus, quando tudo lhe é adverso e zombaria. Daí que pergunto: esse comum que se produz agora na fábrica de humanidades não seria superior a qualquer encenação vazia do superman ou homem-aranha?

Quantos deles eu mesmo vi, ouvi, conheci e conheço. Aqui perto da casa onde moro há um eletricista, de oficina de carro, que escreve poemas e os publica por sua conta e risco. E não se julga gênio ou super por isso. Entre amigos mais próximos, há uma pessoa que, cega, com uma perna amputada, na idade vizinha dos 70 anos, edita e faz rodar um jornal de denúncia e alerta para moradores. E quando lhe pergunto “como vai?”, ela me responde sempre “o jornal vai bem”. E aquela mãe, me perdoem lembrá-la, que ela nem sabe que a observo em segredo, e aquela mãe velha, alquebrada, a empurrar o filho adulto, paraplégico, em uma cadeira de rodas pelas calçadas da praia em Olinda? Todas as tardes, a tropeçar em pisos irregulares, com obstáculos, subindo e descendo rampas, ela o empurra com esforço, sem reclamar e sem que ninguém perceba o quanto ela é uma pessoa super. E aquele casal de homossexuais que cuida de uma velha prostituta, lá em Boa Viagem, dois homens que dão festa de aniversário para a velhíssima senhora, e não recebem nem uma placa ou aplauso por sua humanidade? E aquele carinho oculto nas mocinhas desprezadas por doença ou desgraça e que continuam a viver como se de nada soubessem, apenas baixam os olhos quando elogiadas em sua discreta elegância?

Não sei se expressei o que gostaria. Eu queria apenas dizer, enfim: como são idiotas, bobos e vazios os homens que calculam mais rápido que máquinas, os cabeças de ferro, os atletas incansáveis diante de tais super.



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*Concordo com o Urariano, realmente não existe esse negócio de “super”, e se existisse seria apenas para falar de quem, contra todas as expectativas,  supera as adversidades da vida... 

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Todas as cartas de amor...*



Por Josenias Silva




Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.

Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

(Poesia de Álvaro de Campos) 

In: Fernando Pessoa, Obra Poética, 1972, pág. 399.


Alguém ainda escreve cartas de amor?

Com toda essa onda de orkut, twitter, facebook e outras parafernálias atuais, o amor passou a ser declarado em mensagens coletivas e gifs "animados" (diga-se, coisa da mais total falta de criatividade). Acabou-se a pessoalidade, a letra tremida, o impulso em pegar um papel, uma caneta e declarar anonimamente ou publicamente um amor, uma paixonite, que seja.

Até mesmo a possibilidade de se guardar uma ou outra destas cartas de amor deixou de existir. Assim como deixou de existir o cheiro, a textura e até mesmo o sabor de algumas cartas mais adocicadas, aquelas que se enviavam junto com algum docinho ou coisa do tipo. Já receberam assim? Cartas doces, beijadas, cheirosas, manchadas de lágrima, cheias de ternura ou de sangue? Cartas de amor ou desamor, de início ou fim de alguma coisa. Cartas assim, deliciosamente palpáveis, hoje encontram-se num avançado estado de extinção.


Agora "arquivamos" tudo, quero dizer, transformamos a sequência binária recebida (o amor em Kb´s, Mb's e Gb's) em arquivos datados e referenciados e guardamos na  coisa mais surreal que já se inventou, a internet. Arquivamos tudo num poço sem fundo. É o destino desse amor que vem zipado, em forma de emotions, cards, carinhas e boquinhas das mais insossas possíveis. Esse é o amor no tempo da economia dos sentidos, na era da digitalização e da efemeridade. 

Enfim, não sou piegas e tampouco me considero romântico, sou realista o suficiente para entender que o tempo muda as coisas, mas também sou sincero para dizer que nem sempre essas mudanças são para melhor. No caso das cartas de amor, revela-se apenas que as declarações de amor estão cada dia mais rarefeitas, ficando virtualmente sem graça. Embora as pessoas continuem amando e tendo filhos, amando e tendo filhos, amando e tendo filhos.... ad infinitum.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

O violino*



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Man Ray
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*Só para os olhos...

O símbolo dos protestos*

Por Paulo Nogueira




A esquerda parece ter avançado.

O símbolo dos movimentos de protesto que se espalharam pelo mundo a partir do “Occupy Wall St”  não é o conhecido retrato de Che Guevara,  mas a máscara de Guy Fawkes usada pelo personagem de V de Vendetta e adotada, depois, pelos hackers do grupo Anonymous.

Já falei de Guy Fawkes aqui. Pronuncia-se “Gui”, de Guido, seu nome. Ele era de origem espanhola.

É um homem que tentou simplesmente explodir todos os políticos ingleses e mais o rei Jaime I no começo do século 17. Fawkes e mais um pequeno grupo de conspiradores cavaram uma passagem sob o Palácio de Westminster, a sede do Parlamento inglês, e nela planejavam colocar pólvora em dose suficiente para destruir tudo ali: o prédio e as pessoas. Em sua História da Inglaterra, David Hume define o episódio como “inacreditável”.

A conspiração fracassou quando um dos envolvidos disse a um amigo que não fosse a Westminster no dia marcado para a explosão. Ele não deu a razão do aviso, mas suas palavras foram suficientes para que fosse iniciada uma investigação que descobriu tudo.

Havia motivações políticas, religiosas e até xenófobas na trama. O rei era escocês e protestante. Fawkes e seus companheiros queriam devolver o catolicismo à Inglaterra. Fawkes foi interrogado pelo próprio rei e foi um bravo em todos os momentos.  Não negou nada. Não pediu nada. Sob tortura cruel, não revelou nada que já não fosse sabido. “Queríamos mandar o mais rápido possível os escoceses de volta à Escócia”, disse ele. Quando o rei perguntou por que tal extremismo, Fawkes respondeu: “Males desesperadores exigem medidas desesperadas.”

Os católicos ingleses imaginaram que Jaime seria mais suave com eles depois da perseguição implacável que lhes fora movida pela rainha Elizabeth, sua antecessora. Logo se frustraram, e aí estava a raiz do complô, que passou para a história como “A Traição da Pólvora”.

Fawkes foi executado ao modo da época: enforcado e depois esquartejado.

Mais de quatro séculos depois, sua máscara está aí, viva e militante, transformada numa arma de silenciosa contundência com a qual gente de todo o mundo parece dizer não aos políticos e à ganância corporativa.

Guevara pode, enfim, descansar.


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*Impressionante como a raça humana não vive sem símbolos... e por mais tortos que sejam, eles sempre emergem de algum lugar.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Germaine*

Por Henry Miller




Foi numa tarde de domingo, muito parecida com esta, que encontrei Germaine pela primeira vez. Estava andando pelo Boulevard Beaumarchais, enriquecido por uns cem francos que minha mulher remetera da América freneticamente por meio de cabograma. Havia um toque de primavera no ar, uma primavera venenosa e maléfica que parecia irromper das bocas de esgoto. Noite após noite, eu voltava a esse trecho, atraído por certas ruas leprosas que só revelavam seu sinistro esplendor quando a luz do sol se esvaía e as prostitutas começavam a ocupar seus postos.

A Rue Pasteur Wagner é uma que lembro particularmente, na esquina da Rue Amelot, que se esconde por trás de um bulevar, como sonolento lagarto. Aqui, no gargalo da garrafa, por assim dizer, havia sempre um bando de abutres que grasnavam e batiam as asas sujas, que estendiam as garras afiadas e nos empurravam para uma porta. Demônios joviais e vorazes que nem davam tempo de abotoar as calças depois de acabar. Levavam-nos para um quartinho ao lado da rua, geralmente um quarto sem janela, e, sentando-se na beirada da cama, com a saia erguida, faziam-nos uma rápida inspeção, cuspiam-nos no membro colocavam-no no lugar. Enquanto um se lavava, outro estava em pé na porta, e ela, segurando a vítima pela mão, observava indiferentemente o que dava os toques finais na toalete.

Germaine era diferente. Em sua aparência nada me dizia isso. Nada a distinguia das outras prostitutas que se reuniam à tarde e à noitinha no Café de L'Eléphant. Como disse, era um dia de primavera e os poucos francos que minha mulher conseguira juntar para mandar-me pelo cabograma tiniam-me no bolso. Eu tinha uma vaga premonição de que não chegaria à Bastille sem ter sido arrastado por uma daquelas aves de rapina. Caminhando ao longo do bulevar, eu a notara convergindo em minha direção, com aquele curioso ar vadio da prostituta, os saltos gastos dos sapatos, as jóias baratas e a aparência macilenta do seu tipo, que o ruge só consegue acentuar.

 Não foi difícil chegar a acordo com ela. Sentamo-nos no fundo do pequeno tabac chamado L'Eléphant e conversamos rapidamente. Poucos minutos depois, estávamos em um quarto de cinco francos na Rue Amelot, as cortinas fechadas e as cobertas puxadas para o fundo da cama. Germaine não fazia as coisas com pressa. Sentou-se no bidê, ensaboando-se e falando-me amavelmente sobre isto e aquilo; havia gostado dos knickerbockers que eu vestia. Très chic! pensava ela. Haviam sido antigamente, mas eu já lhes gastara os fundilhos. Felizmente, o paletó me cobria a bunda. Quando se levantou para enxugar-se, ainda falando amavelmente comigo, deixou cair de repente a toalha e, avançando devagar em minha direção, começou a esfregar a vagina afetuosamente, segurando-a com as duas mãos, dando-lhe palmadinhas, acariciando-a, acariciando-a.

Em sua eloqüência naquele momento e na maneira como jogava aquela roseira sob meu nariz, havia algo que permanece inesquecível; falava dela como se fosse um objeto estranho, um objeto que adquirira por alto preço, um objeto cujo valor aumentara com o tempo e que agora prezava acima de tudo no mundo. Suas palavras impregnavam-na de uma fragrância peculiar; não era mais apenas seu órgão privado, mas um tesouro, um tesouro mágico e potente, uma coisa dada por Deus - nada perdendo por negociá-la dia após dia em troca de algumas moedas de prata. Quando se jogou na cama, com as pernas bem abertas, pôs as mãos em concha sobre ela e deu-lhe mais algumas palmadinhas, murmurando todo o tempo, com aquela sua voz rouca e dissonante, que era boa, bonita, um tesouro, um pequeno tesouro. E era boa, aquela sua vaginazinha! Naquela tarde de domingo, com seu hálito venenoso de primavera no ar, tudo voltou de novo a correr bem. Quando saímos do hotel, olhei-a outra vez sob a luz clara do dia e vi claramente que puta ela era - os dentes de ouro, o gerânio no chapéu, os saltos gastos etc., etc. Nem mesmo por haver conseguido arrancar-me um jantar, cigarros e táxi, exerceu efeito perturbador sobre mim. Na verdade eu a encorajei. Gostei tanto dela que, depois do jantar, voltamos ao hotel e fizemos outra vez. "No amor", desta vez. E de novo aquela sua coisa grande e cabeluda mostrou florescência e magia. Ela começava a ter uma existência independente - para mim também. Havia Germaine e havia aquela sua roseira. Eu gostava das duas separadamente e gostava delas juntas.

Como disse, Germaine era diferente. Mais tarde, quando descobriu as verdadeiras circunstâncias em que eu vivia, tratou-me com nobreza - pagou-me bebidas, deu-me crédito, empenhou minhas coisas, apresentou-me a seus amigos e assim por diante. Chegou mesmo a pedir desculpas por não me emprestar dinheiro, o que compreendi muito bem depois que me apontaram seu maquereau. Noite após noite, eu descia o Boulevard Beaumarchais até o pequeno tabac onde todas elas se reuniam e esperava que ela chegasse e me desse alguns minutos de seu precioso tempo.
     
Quando, algum tempo depois, vim a escrever sobre Claude, não era em Claude que eu pensava, mas em Germaine... "Todos os homens com que ela esteve e agora você, precisamente você, e barcas passando, mastros e cascos, toda a maldita corrente da vida fluindo através de você, através dela, através de todos os caras antes de você e depois de você, as flores e os pássaros e o sol fluindo, e a fragrância disso sufocando-o, aniquilando-o." Isso foi para Germaine! Claude não era a mesma coisa, embora eu a admirasse tremendamente - embora tivesse mesmo pensado durante algum tempo que a amava. Claude tinha uma alma e uma consciência; tinha também refinamento, o que é ruim - numa puta. Claude sempre dava impressão de tristeza; deixava a impressão, sem querer, naturalmente, de que você era apenas mais um acrescentado à corrente que o destino criara para destruí-la. Sem querer, digo eu, porque Claude seria a última pessoa no mundo a criar conscientemente tal imagem no espírito da gente. Era excessivamente delicada, excessivamente sensível para isso. No fundo, Claude era apenas uma boa moça francesa, de criação e inteligência medianas, a quem a vida enganara de uma maneira qualquer; havia nela algo que não era bastante forte para resistir ao choque da experiência cotidiana. Para ela eram destinadas aquelas terríveis palavras de Louis-Philippe: "E chega uma noite em que tudo está acabado, em que tantas mandíbulas se fecharam sobre nós que não temos mais força para resistir e nossa carne pende sobre nossos corpos, como se mastigada por todas as bocas". Germaine, por outro lado, era uma puta desde o berço; estava plenamente satisfeita com seu papel, gostava realmente dele, exceto quando o estômago lhe doía ou seus sapatos acabavam, pequenas coisas superficiais sem importância, nada que lhe devorasse a alma, nada que criasse tormento. Ennui! Era o que já sentira de pior. Havia dias, sem dúvida, em que se enchia, como dizemos mas nada mais do que isso! Na maior parte do tempo gostava daquilo - ou dava a ilusão de gostar. Fazia diferença, naturalmente, com quem ela ia - ou vinha. Mas o principal era um homem. Um homem! Isso é o que ela queria. Um homem tendo entre as pernas alguma coisa que pudesse deleitá-la, que pudesse fazê-la contorcer-se em êxtase, que a fizesse agarrar aquela sua vulva cabeluda com ambas as mãos e esfregá-la alegremente, jactanciosamente, orgulhosamente, com um senso de conexão, um senso de vida. Esse era o único lugar onde ela experimentava alguma vida - ali embaixo, onde segurava com ambas as mãos.

Germaine era uma puta de alto a baixo, até mesmo em seu bom coração, seu coração de puta que não era realmente um bom coração, mas um coração preguiçoso, indiferentemente e flácido, capaz de comover-se por um momento, um coração sem referência a qualquer ponto fixo dentro, um grande e flácido coração de puta que podia destacar-se por um momento de seu verdadeiro centro. Entretanto, por mais vil e circunscrito que fosse aquele mundo que ela criara para si própria, funcionava nele soberbamente. E isso por si só é uma coisa tônica. Quando, depois que já nos havíamos tornado bem conhecidos, suas companheiras me censuravam, dizendo que eu estava amando Germaine (situação quase inconcebível para elas), eu dizia: "Claro! Claro que a amo! E, ainda mais, vou ser fiel a ela!" Mentira, naturalmente, pois eu não poderia pensar em amar Germaine mais do que poderia pensar em amar uma aranha; e, se era fiel, não era a Germaine, mas àquela coisa cabeluda que ela tinha entre as pernas. Sempre que olhava para outra mulher pensava imediatamente em Germaine, naquela touceira ardente que ela deixara em minha mente e que parecia imperecível. Causava-me prazer sentar no terrasse do pequeno tabac e observá-la em seu ofício, observá-la recorrer com os outros aos mesmos trejeitos, aos mesmos truques, que usara comigo. "Ela está no seu trabalho!" era como me sentia em relação àquilo e era com aprovação que lhe acompanhava as transações. Posteriormente, quando me liguei a Claude e a via noite após noite sentada em seu lugar de costume, o traseirinho redondo roliçamente acomodado no assento de pelúcia, eu sentia uma espécie de inexpressível revolta contra ela; uma puta, pensava eu, não tinha o direito de sentar-se ali como uma dama, esperando timidamente que alguém se aproximasse, e o tempo todo a sorver abstemiamente seu chocolat. Germaine era uma pessoa ativa. Não esperava que alguém chegasse até ela - saía e agarrava-o. Lembro-me tão bem dos furos de suas meias e dos sapatos tortos e rasgados! Lembro-me de como ficava em pé no bar e, com cega e corajosa determinação, lançava uma bebida forte no estômago e marchava para fora de novo. Uma pessoa ativa! Talvez não fosse agradável cheirar-lhe o hálito de bebida, aquele hálito composto de café fraco, conhaque, apéritifs, Pernods e todas as outras coisas que ela engolia nos intervalos, tanto para aquecer-se como para reunir força e coragem, mas o fogo delas penetrava-a, descia-lhe ardendo entre as pernas, onde as mulheres devem arder, e lá estabelecia aquele circuito que nos faz sentir de novo a terra sob os pés. Quando ficava lá deitada com as pernas abertas e gemendo, ainda que gemesse daquele jeito para todo mundo, era bom, era uma demonstração apropriada de sentimento. Não fitava o forro com ar vazio, nem contava os percevejos no papel da parede; conservava a mente em seu negócio, falava sobre as coisas que um homem deseja ouvir quando está trepando em uma mulher. Ao passo que Claude - bem, com Claude sempre havia certa delicadeza, mesmo quando estava com alguém embaixo das cobertas. E sua delicadeza me ofendia. Quem quer uma puta delicada? Claude chegava a pedir que você virasse o rosto quando ela se agachava sobre o bidê. Tudo errado! Um homem, quando ardendo de paixão, quer ver coisas; quer ver tudo, até mesmo com elas mijam. E, embora seja muito bonito saber que uma mulher tem uma mente, literatura vinda do cadáver frio de uma puta é a última coisa que se pode servir na cama. Germaine tinha a idéia certa: era ignorante e sadia, punha o coração e a alma em seu trabalho... puta de alto a baixo - e essa era a sua virtude.


Henry Miller, Trópico de Câncer, 1987, pp. 45-50.

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*Sexo e lirismo numa das melhores passagens do livro, simplesmente soberbo!!!.... Leia também: Henry Miller, aquele cão dos diabos, relato de como conheci esse autor.

Poema Antigo*

Por Caio Fernando Abreu

Está tudo planejado:
se amanhã o dia for cinzento,
se houver chuva
se houver vento,
ou se eu estiver cansado
dessa antiga melancolia
cinza fria
sobre as coisas
conhecidas pela casa
a mesa posta
e gasta
está tudo planejado
apago as luzes, no escuro
e abro o gás
de-fi-ni-ti-va-men-te
ou então
visto minhas calças vermelhas
e procuro uma festa
onde possa dançar rock
até cair

(Publicado na  Revista Bravo! Fevereiro/ 2006)

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* Tristes solidões urbanas......

A arte do riso*

Por Annie Leclerc




Riso? Alguém jamais se importa com o riso? Digo, rir realmente, além da brincadeira, da caçoada, do ridículo. Rir, satisfação imensa e deliciosa, satisfação completa...

Eu dizia a minha irmã, ou ela me dizia, vem, vamos brincar de rir? Deitávamos uma ao lado da outra numa cama e começávamos. Fingindo, é claro. Risos forçados. Risos ridículos. Risos tão ridículos que nos faziam rir. Então ele vinha, o verdadeiro riso, o riso inteiro, nos levar em sua imensa vaga. Risos explodidos, retomados, sacudidos, desencadeados, risos magníficos, suntuosos e loucos. E ríamos até o infinito do riso de nossos risos... Ah, o riso! Riso de satisfação, satisfação do riso; rir é viver de maneira muito profunda...


Annie Leclerc apud Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento, 1990, p. 56.

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*Rir contra a esquizofrenia do tempo... rir para vencer a morte... rios de risos para todos...

sábado, 3 de dezembro de 2011

Com a puta: [na] Potsdamerstrasse*



Por Ignácio de Loyola Brandão



- Alô, sorriu a puta. Coxas de fora, saída de um filme de Fellini, instalada na porta do hotel-bar-cassino. No alto de uma escada, fliperamas lampejam sinais luminosos.

- Alô.

Ela disse qualquer coisa em alemão. Devia corresponder aos nossos: Vamos fazer nenê? Quer uma coisa diferente? Bunda e língua. Que tal um amorzinho? E daí em diante.

- Ich verstehe nicht (não entendo), respondi.

- Lat’s make love?

- Wieviel? (Quanto?)

- Depende.

- Do quê?

- Do que você gosta.

- Normal.

- Não parece.

- Tenho cara de gostar do quê?

Fiquei curioso.

- Eu sei aqui comigo.

- Diz.

- Lá em cima.

- E se você não faz o que gosto?

- Não existe uma puta em Berlim que faça o que eu faço.

- Quanto?

- 50 marcos para você. Tem cara de bom sujeito.

- Você acabou de me dizer que não pareço normal.

- Um homem pode ser um bom sujeito e não gostar de coisas normais.

- 50 marcos é muito para mim.

- 40, então, mas tem de ser rápido.

- Demoro.

- Está brincando? Você é o quê? Não tem cara de turco. Francês?

- Brasileiro.

- Não são bons de cama.

- Como sabe?

- Tenho quatro clientes.

- Podem ser exceções.

- Peguei logo os quatro piores? Não, tem umas putas que são brasileiras e elas dizem a mesma coisa.

- Bem, só tenho 25 marcos.

- E pensa que vai fazer o que com isso?

- Amor com você.

- Com esse dinheiro você sobe e faz sozinho.

- Prefiro o peep-show, é mais barato.

- Só que lá você fica fechado na cabine. Aqui é no quarto e você pode tocar em mim com uma das mãos.

- Só com uma?

- A outra está ocupada, não é?

- É.

- Vai ou não vai? Estou perdendo fregueses com toda essa conversa.

Oito da noite, terça-feira, ninguém na Potsdamerstrasse, a não ser os habitantes drogados e bêbados. Na esquina, turcos tomavam sorvete de pistache com cobertura de chocolate.

- Acho que não, me desculpe.

- Me dê cinco marcos.

- Por quê?

- Para pagar a conversa.


Ignácio de Loyola Brandão, O verde violentou o muro, 1985, pp. 85 – 86. 

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*O verde violentou o muro: visões e alucinações alemãs (1.ed. 1984), de Ignácio de Loyola Brandão, para mim ainda não perdeu seu encanto. Ele conta as experiências do autor que viveu parte do cotidiano alemão sob a existência do Muro de Berlim. No livro destaca-se, obviamente, o Muro, porém mais que isso, destaca-se a Vida tentando prevalecer em cada fresta, embora cercada pelos fantasmas do pós-guerra, do espectro nazista, da ameaça nuclear, da reconstrução e divisão da Alemanha, entre outras catástrofes para aquele país. O livro tem uma narrativa simplesmente maravilhosa. Vale a pena ler.  (Dica: já existe uma edição ampliada que relata o retorno do autor na pós-queda do Muro).

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Kai*


Por Paulo leminski


     Mínimo templo
para um deus pequeno,
     aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
     meu extremo anjo de vanguarda.


     De que máscara
se gaba sua lástima,
     de que vaga
se vangloria sua história,
     saiba quem saiba.


     A mim me basta
a sombra que se deixa,
     o corpo que se afasta.



Paulo Leminski, Distraídos venceremos, 1987.
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*Leminski-ando.

Fundação de Papai Noel*

Por EDUARDO GALEANO


Em sua primeira imagem, publicada em 1863 na revista Harper´s, de Nova York, Papai Noel – chamado de Santa Claus – era um gnomo gorducho entrando numa chaminé. Nasceu da mão do desenhista Thomas Nast, vagamente inspirado nas lendas de são Nicolau.

No Natal de 1930, Papai Noel foi contratado pela Coca Cola. Até então, não usava uniforme, e em geral preferia roupas azuis ou verdes. O desenhista Habdon Sundblom vestiu-o com as cores da empresa, vermelho vivo com filetes brancos, e deu a ele os traços que todos conhecemos. O amigo das crianças usa barba branca, ri sem parar, viaja de trenó e é tão rechonchudo que não se sabe como consegue entrar pelas chaminés do mundo, carregado de presentes e com uma Coca-Cola em cada mão.

Tampouco se sabe o que ele tem a ver com Jesus.


Eduardo Galenao, Espelhos, 2009, pp. 67-68.

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1931


1936


1950

1990



Coca-cola é? Que velhinho mais sacana! 

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*Texto da série Desmascarando o Papai Noel.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O fim da estória*

Por Alejandro da Costa Carriles




Eu nunca sei quando as estórias acabam. Por isso sempre fico preso entre uma e outra, ou entre nenhuma e nenhuma outra; entre um recomeço sem fim e um fim sem término.

Talvez por ser mais espectador, ou coadjuvante, do que protagonista da minha vida, tenha essa enfermidade de não dar conta de quando baixa o pano.

As luzes apagam, o público sai, os colegas limpam a maquiagem e eu continuo lá: com a fala na cabeça, o texto decorado, aguardando a deixa.

A deixa que nunca vem.

Sempre tive medo das coisas e das pessoas. Um pavor e uma falta de fé. Talvez por isso eu tenha criado minha própria companhia teatral, onde sou diretor; contra-regra; atores e público.

Enceno só para mim uma tragicomédia.

A realidade me faz tão mal e me deixa tão fraco que fico, no fundo do palco, muitas vezes, a sussurrar o texto a mim mesmo.

Às vezes não ouço.

Quase sempre não ouço, porque sussurro baixo e minha voz é trêmula...

O público não entende a peça, logo, não aplaude. Eu, furioso, demito a todos: ao autor; ao diretor; aos atores...

Expulso o público do teatro e ateio fogo a tudo.

E ali dentro fico eu, junto às cortinas e aos holofotes, incandescentes; queimando, queimando, queimando...


Alejandro da Costa Carriles, Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte, nº 109, abril de 2005, pág. 10.

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* C ́est la vie! 
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