quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Ser bom é ótimo, mas ser mau é muito melhor*



Por Adriana Baggio



Por que será que as pessoas mais interessantes são as mais mal humoradas? Não o mau humor no sentido da chatice, da cara amarrada, do estraga prazeres. É o mau humor das frases mordazes, das tiradas sarcásticas, da maldade calculada. São pessoas cuja companhia é como uma deliciosa picanha mal passada com dois centímetros de gordura. Apesar do prazer que proporciona, pode matar você. Pessoas maldosas nos fazem rir, mas inevitavelmente, uma hora outra, somos nós que serviremos de matéria-prima para seus comentários maldosos. Para poder ficar só com a melhor parte da história, apele para Mau humor – uma antologia definitiva de frases venenosas, do colecionador de víboras Ruy Castro (Companhia das Letras, 2002).

Depois de O melhor do mau humor (1989), O amor de mau humor (1991) e O poder de mau humor (1993), Ruy conseguiu encontrar mais 400 frases venenosas e acrescentar ao repertório já formado, dando origem a esta antologia. Uma oportunidade, já que as outras edições estão esgotadas. É a versão definitiva sobre a capacidade humana de falar mal dos seus e de si mesma. 

Mau humor é um livro para ser saboreado como a morte lenta e agonizante de um desafeto. É a chance que temos de nos vingar por tabela de nossos pais, nossos amigos, nossos amores, nossos chefes, nosso país. Enquanto pessoas comuns como nós correm o risco de ser rejeitadas, espancadas e eventualmente processadas se destilam o veneno que desejam, os autores das frases deste livro puderam maldizer à vontade, sem grandes riscos. Eles falaram o que muitas vezes gostaríamos de ter dito, e que na verdade dissemos. Muitas tiradas já estão incorporadas ao nosso repertório, e agora temos a chance de saber quem o foi o autor da pérola. 

Todos sabemos o quanto é importante o respeito às pessoas, às minorias, às normas sociais. Mas convenhamos: seguir nessa linha não tem graça nenhuma. É por isso que algumas frases de Mau humor podem chocar, ferir suscetibilidades. Mas foi justamente a possibilidade de não ter que se preocupar com esses limites que propiciou a criação destas frases. Sem falar, é claro, da criatividade, do conhecimento e do puro espírito de porco dos autores. 

A antologia reúne de frases célebres e consagradas até tiradas desconhecidas. Vai do humor depressivo e obsessivo de Nelson Rodrigues às tiradas chiques de Danuza Leão; da erótica mordacidade de Mae West ao veneno malandro de Agamenon Mendes Pedreira; da crueldade de Ivan Lessa à total falta de sentimentos de Groucho Marx; do dicionário cáustico de Ambrose Bierce as elucubrações psicanalíticas de Woody Allen. Mas de que adianta ficar falando? Segue uma palhinha das frases mais politicamente incorretas só para despertar o gosto de sangue: 

O homem casado, se não transar com as amigas da mulher, vai transar com quem? Eduardo Mascarenhas

A amante perfeita é aquela que se transforma em pizza às quatro da manhã. Charles Pierce

Amar é... ser a primeira a reconhecer o corpo dele no instituto médico legal. Ivan Lessa

Uma mulher só precisa de quatro animais na vida: uma raposa no armário, um tigre na cama, um Jaguar na garagem e um burro para pagar por tudo isso. Mae West

A arte abstrata é um produto dos incompetentes, vendida pelos inescrupulosos e comprada pelos imbecis. Al Capp

Para quem nunca voou num Fokker, um aviso: Fokker é uma corruptela de fuck you. Sérgio Augusto

Certas mulheres deveriam apanhar regularmente, como gongos. Noël Coward

Sou a favor do canibalismo compulsório. Se as pessoas fossem obrigadas a comer o que matam, não haveria mais guerras. Abbie Hoffman



*Adaptado de Mae West: "quando eu sou boa, sou ótima. Mas quando sou má, sou muito melhor".

Em nome da mãe*



Por Paulo Nogueira




Leio na revista de história da BBC – minha predileta – um artigo que me chama a atenção.  É sobre um escritor soviético que só agora começa a ser reconhecido no Ocidente como deveria, ao lado de nomes como Pasternak e Soljntzein. O artigo é publicado porque uma rádio da BBC vai fazer uma série sobre ele.
Seu nome é Vasily Grossman, judeu nascido na Ucrânia em 1905 e morto da Rússia de Kruschev em 1969, de câncer.
Sua obra prima, que já comprei no iBooks e comecei a ler, é Vida e Morte, que tem sido comparado a Guerra e Paz, de Tolstoi. É o relato, em forma de ficção, da guerra entre soviéticos e alemães no começo dos anos 1940. Grossman estava no front, na antiga Estalingrado, atual Volvogrado, como correspondente de guerra de um jornal russo chamado Estrela Vermelha. (Uma antologia de seus textos foi lançada no Brasil pela Objetiva: Diários de Guerra.) Seus artigos, centrados nos jovens anônimos que estavam morrendo e matando, eram acompanhados avidamente na Rússia.
O reconhecimento tardio de Grossman se explica nos horrores da ditadura comunista na Rússia.
O manuscrito de Vida e Morte foi confiscado pelas autoridades soviéticas por acharem que não era boa a imagem do país que emanava do romance. Grossman começou a morrer aí. Ele dizia que seu livro tinha sido “preso”. Amigos contam que a asma voltou, o cabelo embranqueceu, um começo de calvície surgiu. Em pouco tempo Grossman estava morto. Antes disso, teve que ouvir de um líder comunista que seu livro só poderia ser publicado dali a “dois ou três séculos”. Uma reflexão sua ilustra a Frase do Dia do DCM: “A história da humanidade não é a batalha do bem contra o mal. É a batalha do grande mal para esmagar o pouco que existe de ternura humana.”
Na Rússia soviética, Grossman desapareceu como escritor. A ponto de não darem a ele o crédito de uma frase que está num muro que leva ao mausoléu do soldado morto na antiga Estalingrado, extraída dos Diários da Guerra. Um soldado alemão pergunta: “Eles estão atacando de novo. Será que são imortais?” A resposta de um soldado soviético, no muro, está gravada em ouro: “Éramos  na verdade mortais, e poucos de nós sobrevivemos, mas todos cumprimos nosso dever patriótico perante a sagrada Mãe Rússia.” Ainda hoje, guias do mausoléu dizem que não se sabe de quem é esta frase.
Grossman escreveu o livro como para se redimir do que fez, ou não fez, com sua mãe. Os alemães se aproximavam da cidadezinha em que ela morava. Grossman quis tirá-la de lá e levá-la para Moscou, mas sua mulher alegou que não havia espaço. Ela foi morta.
Grossman jamais se perdoou, e nem à sua mulher. “Penso … muitas, muitas vezes sobre como você morreu”, escreveu ele sobre a mãe. “Penso no carrasco. Foi a última pessoa que viu você viva. Sei que seu pensamento esteve o tempo todo em mim.”
A maternidade era caríssima a ele. Uma cena sublime de Vida e Destino mostra uma médica de meia idade, Sofia, sem filhos, a caminho da morte por gás num campo de concentração. Ela estava com um garotinho, David, com um corpo de “passarinho”. Na fila para a execução, os carrascos avisaram que médicos e enfermeiras estavam salvos. Sofia optou por seguir com David para a morte. O garoto morreu antes dela, em seus braços. “Agora finalmente sou mãe”, pensa Sofia.
É uma pena, uma imensa pena, que até agora nenhuma editora brasileira tenha incluído Vida e Destino em seu catálogo.
Grossman dedicou o romance à mãe, em nome da qual ele decidira ir para a guerra, mesmo sem jamais ter segurado uma arma. Suas limitações físicas e seu talento literário acabaram dando a ele o lugar certo: o de correspondente. “Enquanto eu viver, você viverá em mim. E depois, quando eu estiver morto, você vai viver no meu livro.”
Em sua carteira, foi encontrada uma foto em que ele aparecia com a mãe, na infância.
Em memória de minha mãe, que viverá em mim enquanto eu for vivo.



quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Henry e June*



Por Braulio Tavares




Vi no DVD este filme de Philip Kaufman, que narra o período, no início dos anos 1930, em que o americano Henry Miller e a francesa Anaïs Nin se conheceram em Paris, tiveram um caso amoroso e decolaram em suas respectivas carreiras literárias, ambas fortemente marcadas pelo erotismo. O filme poderia chamar-se Henry e Anaïs, mas o título que tem rende homenagem a June, a esposa americana de Miller, a qual durante muito tempo fez programas para sustentar a literatura do marido, que ela considerava um gênio. As duas mulheres executam em torno dele um complexo bailado de idas e vindas, atração e ciúme. Seu comportamento soa curiosamente reprimido e problemático, numa época permissiva como a nossa. Naquele tempo, as revoluções sexuais eram revoluções morais, porque os indivíduos se sentiam na obrigação de justificar moralmente seus atos. Hoje, o sexo tornou-se uma mercadoria como qualquer outra, mesmo quando não envolve dinheiro vivo. É moeda-de-troca nas relações de poder, de fama, de controle social. A imprensa descreve Henry Miller como “um dos pioneiros da liberação sexual de nossa sociedade”, mas se Miller visse o preço dessa liberação, pediria eutanásia.

Anaïs Nin é interpretada por Maria de Medeiros, atriz portuguesa com tipo de Betty Boop e enormes olhos expressivos. June é Uma Thurman, longa, esguia, problemática, depressiva. Miller é Fred Ward, que tem uma certa semelhança física com o escritor e cujo olhar de permanente deboche tem algo da sua impudência naquela época. Miller é um autor execrado pelas feministas, por sua masculinidade agressiva, escrachada, polígama. Sua obra foi um corte definitivo entre os conceitos de amor e de sexo, coisa que os autores (e autoras) de temperamento romântico jamais lhe perdoaram. Miller defendia a idéia de que o sexo é bom, é natural, é legítimo, e que o compromisso entre as partes se encerra quando elas saem da cama. Por outro lado, Miller dizia que a sociedade americana transformava tudo em mercadoria e em jogo de poder, e que o sexo deveria afastar-se disso, ser vivido fisicamente, duas mentes e dois corpos voltados um para o outro.

J. G. Ballard via em Miller o apogeu da literatura operária, da literatura feita por sujeitos simples, sem formação sofisticada, autodidatas, que se acham no direito de viver a vida como lhes dá na telha e de escrever uma literatura própria, sem se preocupar com modelos. Seus livros mais conhecidos são os “Trópicos” (de Câncer e de Capricórmio) e a trilogia da “Crucificação Encarnada” (Sexus,Plexus e Nexus). Não se espere de Miller a criação de tramas originais ou a descrição de personagens memoráveis. Sua literatura é um relato pessoal, centrado no próprio Eu, como um livro de viagens. Foi chamado de barroco, de beatnik, de surrealista, de pop. Tinha um pouco disto tudo, mas sua obra foi acima de tudo um dos maiores auto-retratos literários de seu século.


Fonte:http://mundofantasmo.blogspot.com/2009/08/1208-henry-e-june-2612007.html

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fundação da Beleza*



Por Eduardo Galeano



Lá estão, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Essas figuras, bisontes, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares de milhares de anos, mas nascem de novo cada vez que alguém as vê.

Como puderam, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como puderam eles, aqueles brutamontes que lutavam mano a mano contra as feras, criar figuras tão cheias de graça? Como puderam eles desenhar essas linhas voadoras que escapam da pedra e vão-se embora pelos ares? Como eles puderam…?

Ou seriam elas?

Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p.13.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Longa aventura do homem com 'H'*




Por Denise Bernuzzi de Santanna 





A história da virilidade é tumultuada e mal conhecida. Inúmeros tabus a silenciaram. Se o ato viril supõe coragem e força física, sua experiência encerra temores nem sempre vistos como "coisas de macho". Desde os heróis gregos da época de Péricles até os musculosos aventureiros exibidos pelo cinema hollywoodiano, a virilidade não cessou de mudar. Esteve associada aos militares, ao campo de batalha, mas também aos viajantes, piratas e aventureiros comuns. Penetrou as conquistas amorosas, as diversões masculinas em tabernas, prostíbulos e competições esportivas. Sua construção foi essencial aos governos e ao espetáculo do poder, entre nobres, burgueses e tiranos. Símbolo máximo da dominação masculina, a virilidade possui uma história reveladora do seu avesso e de suas margens: vulnerabilidade, medo de não de estar à altura de um cargo político, de falhar diante de um desafio, no trabalho e no amor.
A complexidade dos lugares e formas viris poderá ser mais bem conhecida agora, com a publicação na França dos três volumes de Histoire de la Virilité (Seuil), de Alain Corbin, Jean-Jacques Courtine e Georges Vigarello, obra a ser traduzida aqui pela editora Vozes, que dos mesmos autores já publicou no Brasil História do Corpo (2008).
Em seu primeiro volume, a História da Virilidade abre um longo terreno de invenções: modelos viris atravessam as experiências masculinas, da Antiguidade ao século das Luzes: heróis gregos, militares romanos, guerreiros medievais e combatentes modernos representam um másculo tripé formado por bravura, honra e glória. Mas a virilidade dos mercadores não era a mesma vivida pelos cortesãos. As diferenças do valor viril revelam as distinções entre nobres e pobres, letrados e incultos.
O segundo volume trata do apogeu da virilidade, entre os séculos 18 e 19. É quando este valor masculino se torna uma injunção moral. As diferenças entre homens e mulheres se complicam: o "sexo forte" se diferencia de uma suposta fragilidade feminina segundo um roteiro científico. Médicos associam a ausência de virilidade à degeneração das raças. Virilidade e formação nacional atualizam seus laços. O poder patriarcal é colocado em questão. Homossexualidade e masturbação se tornam mais problemáticas do que nunca. A obra revela também neste segmento as conquistas femininas e, ainda, os receios que lhes são correlatos.
O terceiro volume trata do século 20, quando a virilidade é colocada em questão de modo contundente: onde estão os verdadeiros machos? O homem de verdade seria mera lembrança de um passado heroico? Certamente as coisas são mais complicadas do que um suposto desaparecimento do valor viril. Nem o passado é feito apenas de bravura e honra, nem o presente é destituído de tais qualidades.
Os temas abordados neste volume ilustram com mestria essa complexidade: a virilidade se desdobra em modelos que vão do fascismo ao metrossexual, passando pelos esportistas e atingindo o homem comum. Mas ela também se torna um espetáculo cinematográfico, no western, no filme noir e nas eletrizantes aventuras da cultura de massa. Sonho e pesadelo dos homens, a virilidade não poderia deixar de ser a versão masculina de uma imensa caixa de Pandora. Seus mistérios começam enfim a ser amplamente pesquisados.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Cantiga para não morrer*



Por Ferreira Gullar




Quando você for se embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.


In: Dentro da Noite Veloz, 1975.


O quarto vazio*



Por Braulio Tavares



  
As oficinas literárias popularizaram um conceito chamado “Síndrome do Quarto Vazio”. É o diagnóstico de milhares de contos apresentados nessas oficinas que começam mostrando isto: um personagem sozinho, dentro de um quarto vazio (ou com o mobiliário reduzido ao mínimo), muitas vezes com amnésia, sem lembrar quem é ou o que está fazendo ali. É exatamente a condição do escritor sem idéias que, para cumprir uma tarefa designada pelo professor precisa escrever um conto, e não tem assunto. Ele começa do zero mental, que, literariamente, se exprime pela imagem do quarto vazio. 

Essa situação pode ser estendida para os milhares de livros e contos que chegam a ser de fato publicados pelas editoras e expostos nos balcões das livrarias. A gente pega, folheia, e constata que o livro fala daquilo: um personagem sozinho, num ambiente que quase não é mostrado, sem passado, sem futuro, debatendo-se em suas dúvidas íntimas (ou coisa equivalente). Por incrível que pareça, dezenas de livros assim são publicados por ano. Uma quantidade tão grande que não admira que de vez em quando um deles seja bom e possa ser lido até o fim. Mas, amigos, fazer um livro bom com esse tipo de situação é mais difícil do que fazer um livro bom sobre um assunto de verdade. Um cara sozinho num quarto? Sempre tem um escritor que consegue tirar algum leite dessa pedra, mas 999 dão com a cara na porta.

Samuel Delany, num dos seus manuais de escrita, observa: “Quanto menos interesse o autor ou os seus personagens tenham pelos seus empregos, rendas, famílias, classe social, locatários, amigos, vizinhos e paisagens (ou seja, tudo que os conecta com o mundo material à sua volta), menos ele terá sobre o que escrever”. Em geral, o escritor que gosta de escrever sobre quartos vazios é um sujeito insatisfeito com a própria vida, com a própria família, o próprio emprego, a casa onde mora, a cidade onde vive. Ele não quer escrever sobre aquilo, pelo contrário. Quer fugir daquilo como o diabo da cruz. Quer esquecer esse enredamento social e humano a que todos nós estamos sujeitos, e não tem paciência (ou criatividade) para imaginar uma situação totalmente diferente. Melhor pensar num personagem amnésico, dentro de um quarto vazio, remoendo suas elucubrações íntimas ao longo de 150 páginas. 

A literatura fantástica e a ficção científica são muitas vezes acusadas de serem fugas à realidade, quando na verdade a grande maioria dos textos fantásticos se esmera em produzir uma realidade humana e social suficientemente densa para receber o choque do fantástico. Quem quer fugir da realidade não inventa outro planeta: tranca-se num quarto vazio.




Dois e dois: quatro*



Por Ferreira Gullar




Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena
Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena
como é azul o oceano
e a lagoa, serena
como um tempo de alegria
por trás do terror me acena
e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena
- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.

In: Toda Poesia, 2010, p. 171.


Homenagem – Albert Camus*



Por Manuel da Costa Pinto




Comentando a obra do escritor Albert Camus – que morreu há 50 anos, num acidente de automóvel em 4 de janeiro –, o crítico João Alexande Barbosa escreveu:

“Desde Núpcias até a conferência de Uppsala, é possível traçar uma linha de coerência para com o fragmento, que termina por emprestar à obra uma feição incômoda de inconclusão para aqueles que desejam sempre a segurança dos sistemas classificatórios. Para esses, Camus sempre deixou de dizer alguma coisa. O seu mundo não era nem podia ser esgotante porque sobretudo pretendia ser verdadeiro. Feito de sugestões, pesquisas, avanços e recuos, era um mundo dialético por natureza. Se no discurso que pronunciou na Suécia é possível apontar a dimensão de um escritor já amadurecido na sua arte, não é menos possível mostrar a sua fidelidade para com o mundo corajosamente inseguro que construiu. Daí uma espécie de eterno retorno que é constante em sua obra: cada novo livro oferece a possibilidade para melhor compreensão de um anterior. Mas quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam e novamente começa o jogo difícil da procura. Por isso, Jean Starobinski pôde escrever: ‘Camus pertencia menos a seus livros do que à tentativa que lhes sucedia, e que colocava novas questões’.”

A obra de Camus sempre girou em torno de alguns temas ou obsessões, examinados a partir de gêneros diferentes: ficção, teatro, ensaio. E cada um deles, por sua vez, recapitula as origens de uma intuição, de uma disposição fundamental, que começa a se delinear em sua Argélia natal.

Camus é conhecido como o “filósofo do absurdo”, que teria dado à sua percepção do confronto entre o desejo de clareza do homem e a opacidade do mundo (em O Mito de Sísifo) uma dimensão romanesca e teatral (em livros como O Estrangeiro e A Peste e em peças como Calígula e O Mal-entendido). Essa repartição da obra camusiana é muito semelhante àquela encontrada na obra de Jean-Paul Sartre, também ele um escritor e pensador que abordou temas como consciência e contingência em ensaios (O Ser e o Nada), romances (A Náusea) e peças (Entre Quatro Paredes).

Por causa disso, da amizade entre ambos e de certas coincidências intelectuais e biográficas (como a questão do engajamento e a Resistência ao nazismo), Camus se viu a contragosto associado ao existencialismo de Sartre. Enquanto a situação política do pós-guerra sustentou interesses comuns, essa vinculação não foi tão incômoda. Com o acirramento da Guerra Fria, porém, as diferenças se acentuaram, culminando na ruptura entre ambos após a polêmica em torno de O Homem Revoltado, livro de 1951 em que Camus faz uma crítica aos movimentos revolucionários que transformam a história num fim em si mesmo, legitimando a violência em nome da eficácia política – atitude filosófica à qual haviam aderido Sartre e Maurice Merleau-Ponty (este último, ao menos, no livro Humanismo e Terror).

Tais divergências, contudo, não eram apenas de ordem ideológica. É verdade que tanto Sartre quanto Camus escreviam ficção em diálogo cerrado com suas concepções ensaísticas e que a “náusea” sartriana se assemelha ao absurdo – a tal ponto que a própria definição que dele nos dá Camus, em O Mito de Sísifo, faz referência explícita ao filósofo existencialista: “Esse mal-estar diante da inumanidade do próprio homem, esta queda incalculável diante da imagem do que somos, esta ‘náusea’, como a denomina um autor de nossos dias, é também o absurdo”.

A diferença fundamental é que aquilo que Sartre denominou de “náusea” é a representação ficcional (no romance homônimo) do movimento da consciência, de sua descoberta da indeterminação do ser em contraste com a viscosa fixidez das coisas, ao passo que Camus cria a “noção de absurdo” depois de ter experimentado o “sentimento do absurdo”.

E este, por seu turno, se esboça não a partir de uma pesquisa sobre a estrutura do ser ou da intencionalidade da consciência (como ocorre com Sartre a partir de Husserl e Heidegger), mas de uma sensação de “divórcio entre o homem e sua vida, entre o ator e seu cenário”, que começa a se insinuar nos textos de feição autobiográfica, a meio caminho entre o ensaio e a ficção, que Camus publica na juventude.

Celebrações hedonistas

Nascido em Mondovi (província argelina de Constantine) em 1913, Camus passou a infância em Belcourt, um bairro pobre de Argel, entre banhos de mar, “peladas” em que brilhava como goleiro e devaneios alimentados pelos livros do tio Acault, um açougueiro erudito que lia Balzac, Gide e Valéry.

Essa vida socialmente miserável, porém inundada pela opulência do sol mediterrâneo, acabaria por moldar um temperamento ao mesmo tempo austero e marcado pelo apego físico àquilo que está destinado a desaparecer. Resultam daí seus dois primeiros livros: as ficções breves, quase ensaísticas, de O Avesso e o Direito (1937) e os relatos de Núpcias (1939), sobre suas andanças por cidades da Argélia e da Itália (num registro lírico que ele iria retomar anos depois em O Verão, de 1954).

Entre celebrações hedonistas do mar e da paisagem mediterrânea (“Aqui, compreendo o que se denomina glória: o direto de amar sem medida”, escreve ele diante das ruínas romanas de Tipasa, no litoral magrebino), vemos surgir em germe aquele travo do sentimento do absurdo. Camus fala da “confrontação de meu desespero profundo e da indiferença secreta de uma das mais belas paisagens do mundo” (O Avesso e o Direito) e desse “homem lançado sobre uma terra cujo esplendor e cuja luz lhe falam sem trégua de um Deus que não existe”, para então concluir: “Que acordo mais legítimo pode unir o homem à vida do que a dupla consciência de seu desejo de durar e de seu destino de morte?” (Núpcias).

Tais passagens antecipam O Mito de Sísifo (1943) e sua tentativa de “sistematizar” essas intuições a partir da tonitruante frase inicial – “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. É curioso notar que, para tratar de um assunto que no fundo remete a temas do pessimismo clássico (gratuidade, derrelição, disparate), Camus tenha de falar de um gesto extremo como o suicídio, quando poderia se limitar a expor nossa incapacidade para compreender as essências para além das aparências.

Ocorre que “o absurdo não está no homem (…), nem no mundo, mas em sua presença comum”, ou seja, no contraste entre nosso “apetite de unidade” e a “hostilidade primitiva do mundo”. Portanto, Camus recusa tanto o suicídio (que aboliria o absurdo sem resolvê-lo) quanto as filosofias existenciais (Chestov, Kierkegaard, Husserl, Heidegger, Jaspers) que conduzem à reconciliação com o absurdo e, portanto, ao “suicídio filosófico”. Sua conclusão é a aceitação do absurdo como condição humana – mas uma aceitação que não se confunde com resignação: “O absurdo só tem sentido na medida em que não consentimos nele”.

“Ponto zero”

Essa tensão perpétua, cuja face luminosa já aparecera nos textos de O Avesso e o Direito e Núpcias, ressurgiria, quase ao mesmo tempo que O Mito de Sísifo, na peça Calígula (em que o imperador, transtornado com a mortalidade e a infelicidade dos homens, torna-se um cruel assassino para rivalizar com a crueldade dos deuses) e no romance O Estrangeiro (em que uma neutra sucessão de episódios conduz o protagonista Meursault à gratuidade de um assassinato cometido “por causa do sol” e ao cadafalso).

Nas anotações reproduzidas em seus Carnets, Camus referiu-se a essa trilogia sobre o absurdo como “ponto zero” de sua obra ficcional e filosófica – que a partir daí vai se desdobrar na vizinhança da história. Vivendo na França, onde participara da luta ao nazismo como editor do jornal Combat, ele escreve Estado de Sítio (peça ambientada na Espanha nos moldes dos autos medievais) e o romance A Peste, no qual a cidade de Oran sitiada pela epidemia é uma alegoria da Resistência, mas também uma fábula cautelar que se aplica a outras formas de hipnose ideológica.

E foi contra o elixir das utopias (e contra o vírus totalitário que estas contêm) que Camus escreveu O Homem Revoltado, libelo político no qual contrapõe a revolução (que “consiste em amar um homem que ainda não existe”) à revolta, que consiste em se solidarizar com um homem e com um mundo já existentes.

E como esse homem e esse mundo haviam sido descritos segundo aquela intuição sobre o absurdo, O Homem Revoltado parece sintetizar a complementaridade entre suas obras ficcionais e não ficcionais: “Este ensaio se propõe a prosseguir, diante do assassinato e da revolta, uma reflexão começada em torno do suicídio e da noção de absurdo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva”.

Mas, como afirmou João Alexandre Barbosa, “quando esperamos o fechamento do círculo, eis que as cordas se desatam”. Sob o impacto de sua ruptura com Sartre, por causa de O Homem Revoltado, e de sua dilacerante hesitação durante a guerra de libertação da Argélia (filho de operários pobres, Camus não se via na pele do colonizador francês e queria preservar o convívio multiétnico de seu país), ele escreve a novela A Queda, peça de acusação (e de autoacusação) contra a soberba dos guias de consciência, na figura de um “juiz-penitente” que se apresenta como “profeta vazio para tempos medíocres” e expõe suas culpas e vaidades para cancelar qualquer possibilidade de ajuizamento.

Seria o caso de dizer que, após o lirismo dos ensaios de juventude, da tragédia solar de O Estrangeiro e do mundo enclausurado de A Peste, Camus desvela com A Queda os aspectos mais sombrios (porque moralmente ambíguos) da equivalência e da gratuidade impostas às coisas por sua percepção do absurdo. Porém, ao morrer, três anos após receber o Prêmio Nobel de Literatura de 1957 (quando profere a conferência de Uppsala), ele deixava inacabado um romance que de alguma forma retornava a suas raízes mediterrâneas.

Escrito em chave autobiográfica, com várias personagens e passagens identificáveis em sua trajetória pessoal, O Primeiro Homem possivelmente sofreria modificações nas mãos de um autor avesso ao tom confessional. Mas resta dessa peregrinação às origens um ethos que percorre sua obra, a altiva austeridade de uma comunidade de homens indiferentes às promessas e utopias políticas: “incapazes de conceber a vida futura, a tal ponto a vida presente parecia-lhes a cada dia inesgotável sob a proteção das indiferentes divindades do sol, do mar ou da miséria”.


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*Artigo publicado na Revista Cult em 2010.


quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A pornografia e o progresso*



Por Braulio Tavares



A economia informal (aquela que se dá do lado de fora das leis e da fiscalização do Poder Público) é uma grandiosa cordilheira de montanhas, cada uma delas parecendo mais alta do que as outras, dependendo do ponto de vista. O Tráfico de Drogas, por exemplo, tem crescido exponencialmente nas últimas décadas. A Pirataria Digital evolui com tal rapidez que se fosse mesmo uma montanha e tentássemos fotografá-la a foto provavelmente sairia borrada, porque ela cresce a olhos vistos. A Pornografia provavelmente é a mais antiga das três, mas nem por isso perdeu impulso. Pelo contrário; no saite Cracked.com (http://bit.ly/f1kbvp) surge um argumentativo texto de Cezary Jan Strusiewicz sob o título: “Cinco aspectos em que a pornografia criou o mundo moderno”.

O primeiro, segundo ele, são as tecnologias de vídeo doméstico, que começam com o VHS. Strusiewicz observa que a idéia de podermos gravar e ver nossos próprios vídeos quando quiséssemos era praticamente inexistente antes do VHS. Diz ele: “Até o final da década de 1970, filmes de sacanagem correspondiam a metade de todas as vendas de fitas de vídeo nos EUA. Na Grã-Bretanha e na Alemanha esse número chegava a 80%. A razão disto é que, antes do VHS, a única maneira de ver filmes de sexo era comprar ingresso num cinema pornô, que não é, convenhamos, um lugar onde todo mundo se sente à vontade.

Segundo: a pornografia tornou possível a existência de sua câmara digital. Um dos grandes incentivos para a popularização deste formato foi quando as pessoas perceberam que, pela primeira vez, as fotos que elas tirassem na intimidade dos seus lares não teriam que ser reveladas num laboratório de uma loja, cujos funcionários, é claro, iriam copiar para si próprios as fotos mais picantes do casal. O artigo reproduz comerciais de revista, na época, em que essa associação entre foto digital e privacidade erótica é claramente sugerida. O VHS e a foto digital se conjugaram para permitir que qualquer pessoa gravasse e exibisse imagens por conta própria, na hora que quisesse, sem que elas tivessem que passar pela mão de ninguém.

Terceiro: Gutenberg inventou a imprensa; a pornografia a alavancou. Strusiewicz dá um pulo para séculos atrás e mostra algo parecido ocorrendo no começo da imprensa. Diz ele: “Gutenberg e sua Bíblia deram o pontapé inicial, mas durante séculos um dos autores mais lidos na Europa foi Pietro Aretino, hoje considerado um dos pais da literatura erótica, com seu livro de 1524 I Modi (As Maneiras), com gravuras de Giulio Romano”. Uma espécie de Kama Sutra italiano enumerando posições e técnicas. Ainda hoje, os Sonetos Luxuriosos de Aretino são traduzidos e lidos no Brasil. A tese de Strusiewicz é que sempre há compradores para a obra erótico-pornográfica, independentemente de seu acabamento técnico ou valor artístico. Isto faz desta indústria um excelente campo de testes para novas tecnologias e para novos experimentos de transações comerciais.



terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Canto dos Emigrantes*



Por Alberto da Cunha Melo




Com seus pássaros
ou a lembrança de seus pássaros,
com seus filhos
ou a lembrança de seus filhos,
com seu povo
ou a lembrança de seu povo,
todos emigram.

De uma quadra a outra
do tempo,
de uma praia a outra
do Atlântico,
de uma serra a outra
das cordilheiras,
todos emigram.

Para o corpo de Berenice
ou o coração de Wall Street,
para o último templo
ou a primeira dose de tóxico,
para dentro de si
ou para todos, para sempre
todos emigram.


segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Jornal da morte*



Por Roberto Silva



Vejam só esse jornal, é o maior hospital,
porta-voz do bang-bang, e da polícia central...
Treslocada, semi-nua, jogou-se do oitavo andar, porque o
noivo não comprava maconha pra ela fumar.
Um escândalo amoroso com as fotos do casal,
um bicheiro assassinado em decúbito dorsal,
cada página é um tiro, um homem caiu no mangue,
só falta alguém espremer o jornal pra sair
sangue,sangue,sangue....


sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

O que não mudará no mundo após a virada*





Por Josenias Silva




Vou começar dizendo que não sou pessimista. Que odeio quando alguém me chama de pessimista. Quero dizer, pessimista é alguém que encara tudo pelo lado pior, que prefere ver os defeitos, que não acredita na vitória do bem sobre o mal, que de alguma maneira é conformado com o negativismo das coisas e até torce para tudo dar errado. Juro, não sou assim. Sempre considero que sofro um excesso de realismo, de desconfiança natural sobre algumas coisas, mas a isso não chamo de pessimismo. Direi que é apenas uma forma cautelosa de olhar a realidade.

O fato é que nos aproximamos novamente do fim de outro ano - o que é uma boa coisa. Um outro ano começará e isso já é razão suficiente para esperarmos o melhor. E geralmente o melhor nesse período do ano ganha o sentido de mudança, ou seja, espera-se que no ano que vem alguma coisa possa mudar de lugar, que seja trocar a casa, o carro, o namorado, emagrecer, estudar mais, parar de fumar, casar etc., etc., etc. Enfim, são tantas as possibilidades individuais que nem me arrisco a dizer nada, cada pessoa sabe de si e também não sei o que é melhor para ninguém.

Mas e o mundo, quero dizer, será que algumas coisas nunca irão mudar? Por exemplo, ninguém planeja acabar a fome no mundo no próximo ano, embora isso seja possível. Ninguém planeja extinguir a desigualdade social, ninguém planeja distribuir a riqueza do mundo de forma justa, ninguém planeja fazer cessar todas as guerras, ninguém planeja fazer a poderosa indústria farmacêutica descobrir cura para doenças lucrativas, ninguém planeja a paz entre as religiões, ninguém planeja o fim das ditaduras, ninguém planeja a liberdade de quem está preso injustamente, ninguém planeja educação e moradia para quem não tem, ninguém planeja o fim da corrupção política, ninguém planeja o fim do ódio de classe e de sexo, ninguém planeja o começo de uma outra humanidade menos desumana, ninguém planeja começar o ano em um mundo verdadeiramente novo, embora todo mundo sonhe com isso. E sonhar nesse caso não é planejar, sonhar aqui é entregar as coisas ao destino, a um futuro misterioso que se anuncia diante da velha novidade do mundo.

Mas como não sou pessimista desejo o melhor para todos, embora não acredite que tudo mudará de uma virada só.


Feliz ano “novo”!


quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Cogito*

Por Torquato Neto





eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


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