segunda-feira, 5 de março de 2012

René Magritte: os amantes*



Por Julie Enfield

  
The Lovers, 1928, René Magritte
Oil on canvas 21 3/8 x 28 7/8" (54 x 73.4 cm)
Museum of Modern Art, New York City

Um céu suave num tom estranhamente obscurecido de azul cria o pano de fundo para a desconcertante cena do beijo. E embora fique evidente que se trata de um homem e uma mulher [...], pouca coisa além disso nos é revelada. Será que eles têm lábios? Língua? Será que já se conhecem? Qual a condição do relacionamento que eles mantêm? Será que eles têm algum tipo de relacionamento? As formas veladas parecem evocar uma narrativa metafísica familiar apenas para o próprio Magritte. O que não deixa menos instigante as especulações que podemos fazer sobre o desenrolar do beijo que estão trocando.


in. A história íntima do beijo, 2008, p.173.


Sobre a traição*



Por Paulo Nogueira
  
De Niro, em "Era uma vez na América"

VOCÊS ACHAM QUE tem solução este casamento?
Os fatos: a mulher, de quase 60 anos, três filhos, fica chocada com a doença que está matando um amigo. Antes de morrer, ele pede a ela que olhe por seu filho único, de 19 anos. Ela promete que sim. Morto o doente, ela se aproxima, maternal, do garoto 40 anos mais novo. Mas logo o sentimento maternal vai sendo substituído por lascívia, por instintos básicos, e os dois se tornam amantes na clandestinidade. Ela pede a empresários conhecidos que financiem um projeto do jovem namorado, um café. Consegue, e o café é aberto. O caso não dura muito. Ela pede o dinheiro de volta e nada. Desesperada, tenta se matar e nada. O marido finalmente sabe de toda a história. Diz que perdoa a mulher e que ambos vão se empenhar em resgatar o casamento.
É uma história real em que o fato central é a traição.
Vou dizer o que acho sobre o tema da traição, quer de uma mulher ou de um amigo. Lembro uma frase que li num romance de John Le Carré, um dos meus escritores favoritos, um mestre das tramas de espionagem. Um personagem diz a seguinte frase: “Mulher que me estapeou não teve uma segunda chance.”
É isso, folks.
Para mim, a pessoa que trai não tem uma segunda chance de trair.  Uma ponte foi explodida e jamais pode ser reconstruída como era antes, quer seja no amor, quer seja na amizade. Já traí uma mulher e fui supostamente perdoado, mas era uma anistia só na embalagem, como o tempo rapidamente mostraria. Já fui também traído por uma mulher, e logo vi que também minha anistia era fajuta. Era a parábola de Le Carré: não havia, verdadeiramente, uma segunda chance. Conheço gente que tentou, e foi um tormento.  A lembrança acorre, a cicatriz se reabre imprevistamente, o sangue jorra sobre a paz e a felicidade. Aprendi, traindo e sendo traído no amor, que você tem que pensar muito bem antes de dar o passo a partir do qual não há volta.  O marido do caso que contei está dizendo que perdoou a mulher. Sinceramente: não acredito. Quero ver no quarto do casal, na hora de dormir, o que eles vão conversar. Num caso clássico, Hillary Clinton perdoou, entre aspas, o marido Bill, segundo é amplamente acreditado nos Estados Unidos, em troca do apoio a sua candidatura presidencial, afinal frustrada por Barack Obama. Um perdão de mentirinha.
Na amizade é o mesmo. Montaigne escreveu que dois amigos são como um tecido tão bem cosido que você não nota a costura. A traição despedaça este tecido tão sublimemente descrito por Montaigne, que mesmo com uma alma quase invencível pela filosofia estóica que praticava ficou simplesmente aniquilado pela morte de seu maior amigo, La Boetie. São comoventes as palavras de Montaigne, em seus Ensaios, sobre seu amigo morto.
Há uma cena em Era Uma Vez na América, de Sergio Leone, em que dois caras que tinham sido os melhores amigos na infância e juventude se reencontram, já maduros. Um está rico, o outro pobre. O amigo rico se encheu de dinheiro por ter traído o outro. Todo o dinheiro que ele tem não lhe traz paz, no entanto. Ao olhar o amigo traído, ele tenta alguma reconexão.  “Lembra …” Impassível, o amigo traído diz: “Uma vez conheci alguém e gostava muito dele. Mas esse alguém morreu.” E vai embora, sob a música acachapante de Enio Morricone.
O amigo que trai, como a mulher que dá um tabefe na reflexão de Le Carré, não tem, para mim, uma segunda chance de trair. Você pode vê-lo por acaso na rua, como no filme de Leone, mas ele é apenas um fantasma, a imagem evanescente e desfocada de alguém em quem certo dia você confiou.



A um ausente*


Por Carlos Drummond de Andrade


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave 
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


in. Farewell, 1996, pp. 41-42.

domingo, 4 de março de 2012

Olhar*



“Quem não entende um olhar, muito menos entenderá uma longa explicação.” (Provérbio Árabe)


Assassinos de pés*



Por Eduardo Galeano



Há um par de séculos, Li Yu-chen inventou uma China ao contrário. Em seu romance Flores do espelho havia um país das mulheres, onde elas mandavam.

Na ficção, elas eram eles; e eles, elas. Os homens, condenados a satisfazer as mulheres, eram obrigados às mais diversas servidões. Entre outras humilhações, tinham de aceitar que seus pés fossem atrofiados.

Ninguém levou a sério essa possibilidade impossível. E os homens continuaram amassando os pés das mulheres até transformá-los em alguma coisa parecida a patas de cabra.

Durante mais de mil anos, até bem avançado o século XX, as normas de beleza proibiram que o pé feminino crescesse. Na China foi escrita, no século IX, a primeira versão da Gata Borralheira, onde ganhou forma literária a obsessão masculina pelo pé feminino diminuto; e ao mesmo tempo, anos mais, anos menos, se impôs o costume de vendar, desde a infância, os pés das filhas.

E não apenas por um ideal estético. Além de tudo, os pés atados atavam: eram um escudo da virtude. Impedindo que as mulheres se movessem livremente, evitavam que uma escapadela indecente qualquer pudesse pôr em perigo a honra da família.


in. Espelhos, 2009, pp.26-27.

Por baixo da burca*



Por Asne Seierstad



Aparentemente, não há vida sexual no Afeganistão. As mulheres se escondem atrás da burca e sob ela vestem roupas grandes e largas. Por baixo das saias usam calças compridas e mesmo entre quatro paredes é raro ver um decote. Homens e mulheres que não são da mesma família não devem se sentar na mesma sala. Não devem conversar, nem comer juntos. No campo, a festa de casamento é dividida, as mulheres dançam e festejam numa sala e os homens fazem o mesmo em outra. Mas por trás das aparências tudo ferve.


in. O livreiro de Cabul, 2009, p.60.

A infanticida Marie Farrar*


Por Bertolt Brecht



1

Marie Farrar, nascida em abril, menor
De idade, raquítica, sem sinais, órfã
Até agora sem antecedentes, afirma
Ter matado uma criança, da seguinte maneira:
Diz que, com dois meses de gravidez
Visitou uma mulher num subsolo
E recebeu, para abortar, uma injeção
Que em nada adiantou, embora doesse.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados.
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.

2

Ela porém, diz, não deixou de pagar
O  combinado, e passou a usar uma cinta
E bebeu álcool, colocou pimenta dentro
Mas só fez vomitar e expelir
Sua barriga aumentava a olhos vistos
E também doía, por exemplo, ao lavar pratos.
E ela mesma, diz, ainda não terminara de crescer.
Rezava à Virgem Maria, a esperança não perdia.
Os senhores, por favor, não fiquem indignados
Pois todos nós precisamos de ajuda, coitados.



[fragmento]


Ver completo aqui.
                                                             Tradução Paulo César de Souza

sábado, 3 de março de 2012

Beleza*




“Beleza é o poder pelo qual uma mulher encanta o amante e aterroriza o marido.”


Ambrose Bierce

Teus cabelos*

Por Pablo Neruda



Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.

Na Itália te batizariam de Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pêlo.

Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira

pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pêlo.


in. Cem sonetos de amor, 1979, p.24.

Piadinha infame: Divisão dos bens*




Quando Deus criou Adão e Eva, disse aos dois:

- Tenho dois presentes para distribuir entre vocês: um é para fazer xixi em pé e...

Adão, ansioso , interrompeu, gritando:

- Eu! Eu! Eu! Eu quero, por favor... Senhor, por favor. Sim, iria me facilitar  substancialmente a vida! Por favor! Por favor!

Eva concordou e disse que essas coisas não tinham importância para ela. Então, Deus presenteou Adão, que ficou maravilhado. Gritava de alegria, corria pelo jardim do Éden fazendo xixi em todas as árvores. Correu pela praia fazendo desenhos com seu xixi na areia. Brincava de chafariz. Acendia uma fogueirinha e brincava de bombeiro...

Deus e Eva contemplavam o homem louco de felicidade, até que Eva perguntou a Deus:

- E... Qual é o outro presente, Senhor?

Deus respondeu:

- Cérebro, Eva, o cérebro é seu.



Nota do Blog: isso seguramente foi uma maldade contra a espécie masculina, mas fazer xixi em pé é legal pacas!

sexta-feira, 2 de março de 2012

Bachianas brasileiras*




Assistam abaixo uma belíssima execução de uma das mais primorosas obras deste gênio brasileiro (pouco valorizado na terra do carnaval), Heitor Villa-Lobos:


Bachiana n° 5
Heitor Villa-Lobos
Amel Brahim-Djelloul (soprano)
Orchestre Du Violon Sur Le Sable 


O pai dos computadores*



Por Eduardo Galeano



Por não ser macho que é macho, por não ter cabelos nas ventas, Alan Turing foi condenado.

Ele gemia, grasnava, gaguejava. Usava uma velha gravata como cinturão. Dormia pouco e passava dias sem fazer a barba e correndo atravessava a cidade de ponta a ponta, enquanto mentalmente ia elaborando complicadas fórmulas matemáticas.

Trabalhando para a inteligência britânica, alguns anos antes, tinha ajudado a abreviar a Segunda Guerra Mundial quando inventou a máquina capaz de decifrar os indecifráveis códigos do alto comando militar da Alemanha.

Naquela altura, já tinha imaginado um protótipo de computador eletrônico e havia assentado as bases teóricas da informática moderna. Depois, dirigiu a construção do primeiro computador que operou com programas integrados. Jogava intermináveis partidas de xadrez com a máquina e formulava perguntas que a enlouqueciam e exigia que ela escrevesse cartas de amor. A máquina obedecia emitindo mensagens que na verdade eram incoerentes.

Mas foram policiais de carne e osso que em 1952 o prenderam, em Manchester, por indecência grave.

Submetido a julgamento, Turing declarou-se culpado de homossexualidade.

Para que o libertassem, aceitou se submeter a um tratamento de cura.

O bombardeio de drogas deixou-o impotente. Cresceram tetas nele. Trancou-se. Já nem ia à universidade. Ouvia murmúrios, sentia olhares que o fuzilavam pelas costas.

Antes de dormir, como de hábito, comia uma maçã.

Certa noite, injetou cianureto na maça que ia comer.


in. Espelhos, 2009, pp. 295-296.

Tentação*




“Posso resistir a tudo, menos a uma tentação.”

Oscar Wilde

Rabiscando livros*



Por Braulio Tavares



Diz-se que riscar um livro é uma mistura de falta de educação e desprezo. Não acho. Um livro é um mero suporte de um texto. Algumas pessoas o têm como uma distração descartável: o sujeito lê, põe o livro de volta na estante e, daí a alguns anos, manda vender no sebo. Para outros, porém, o livro é um objeto de trabalho. Ele não pega o livro para uma leitura casual e sem compromisso, e sim para um enfrentamento intelectual. Pega no livro (inclusive um romance, uma obra literária qualquer) para estudar. Nesses casos, meu conselho é que meta a caneta pra cima, se achar que com isso estuda melhor. A caneta serve, como diz Fausto Fawcett, como um contador Geiger que vai assinalando a radioatividade literária dos melhores trechos.

Há pessoas que têm memória visual, e recordam melhor um livro quando visualizam trechos sublinhados, parágrafos destacados com colchetes, anotações feitas nas margens. Minha memória é assim; quando penso naqueles livros que consulto com frequência, é a imagem da página que me vem à memória, com todos os riscos e todas as notas que fiz com meu próprio punho. Se lembro de uma frase que me é muito familiar, sei até se está a página da esquerda ou na da direita; lembro se fica no alto ou na parte baixa da página.

Se você não lembra as coisas assim, não precisa riscar o livro, mas, se riscá-lo desse modo o ajuda a marcar melhor as coisas na memória, meu conselho é que o faça. Quando releio um livro, releio primeiro as partes sublinhadas, porque sei que ali estão os trechos que nas leituras anteriores achei mais importantes. Não que eu concorde, necessariamente, com o que está dito; mas porque aquilo concentra melhor as idéias do autor, sejam elas o que forem. Alguns leitores desenvolvem códigos próprios. Diz-se que Guimarães Rosa criou o código “m%” (“meu, cem por cento”) para indicar trechos com os quais se identificava especialmente.

Costumo fazer conexões entre trechos do livro, quando vejo a mesma idéia repetida em pontos diferentes. Se vejo na pág. 150 algo que tem tudo a ver com um trecho importante da pág. 82, coloco: “ver pág. 82” ao lado, e voltando à primeira coloco “ver pág. 150”, incluindo aí quantas referências houver. Daqui a 20 anos, quando precisar consultar o livro, não preciso ficar procurando aqueles trechos durante uma tarde inteira. Também aconselho criar um índice remissivo no final, registrando os assuntos importantes e as páginas em que aparecem. Muitos livros trazem esses índices, mas nem todos registram os assuntos que interessam à gente. Rabisco um livro para poupar tempo a um leitor de daqui a dez anos, que por coincidência serei eu mesmo.


13.11.11


quinta-feira, 1 de março de 2012

Édith Piaf*




Dica do Blog: Aos amantes da boa música, ouçam/assistam Édith (1915-1963), “la Môme Piaf”, o pardalzinho francês que cantou o amor e os desencontros da vida.

Um pouco dela abaixo: 


No, je ne regrette rien (letra aqui)




Hymne a L´amour (letra aqui)



Há também um filme maravilhoso sobre sua vida:

Piaf – Um Hino ao Amor (La Vie En Rose / La Môme), 2007 – Trailer abaixo:





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