quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Expulso por bom motivo*

Por BERTOLT BRECHT


Eu cresci como filho
De gente abastada. Meus pais
Me colocaram um colarinho, e me educaram
No hábito de ser servido
E me ensinaram a dar ordens. Mas quando
Já crescido, olhei em torno de mim
Não me agradaram as pessoas da minha classe e me juntei
À gente pequena.

Assim
Eles criaram um traidor, ensinaram-lhe
Suas artes, e ele
Denuncia-os ao inimigo.
Sim, eu conto seus segredos. Fico
Entre o povo e explico
Como eles trapaceiam, e digo o que virá, pois
Estou instruído em seus planos.
O latim de seus clérigos corruptos
Traduzo palavra por palavra em linguagem comum,

Então
Ele se revela uma farsa. Tomo
A balança da sua justiça e mostro
Os pesos falsos. E os seus informantes relatam
Que me encontro entre os despossuídos, quando
Tramam a revolta.
Eles me advertiram e me tomaram
O que ganhei com meu trabalho. E quando me corrigi
Eles foram me caçar, mas
Em minha casa
Encontraram apenas escritos que expunham
Suas tramas contra o povo. Então
Enviaram uma ordem de prisão
Acusando-me de ter idéias baixas, isto é
As idéias da gente baixa.
Aonde vou sou marcado
Aos olhos dos possuidores.
Mas os despossuídos
Lêem a ordem de prisão
E me oferecem abrigo. Você, dizem
Foi expulso por bom motivo.

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*Como é mesmo aquele dizer? ... “é mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha do quê um bem nascido trair a sua classe...” 

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Walter Benjamin, a arte e a reprodução*


Por GIAN DANTON




Geralmente, quando se fala de Meios de Comunicação de Massa e Escola de Frankfurt, a maioria das pessoas lembra da visão apocalíptica de Adorno, de negação em bloco de todo produto cultural: filmes, quadrinhos, novelas, etc. Mas poucos se lembram de um dos primeiros filósofos da escola e sua análise apurada de como as técnicas de reprodução estavam mudando os conceitos de arte. Trata-se de Walter Benjamin. 

Walter Benjamin teve uma vida trágica e marcada pela inquietação intelectual. Foi influenciado pelo marxismo e pelo misticismo judaico. Como a chegada do nazismo ao poder, Benjamin refugiou-se em Paris. Após a derrota da França na guerra contra a Alemanha, o filósofo decidiu fugir pela fronteira espanhola. Ao saber que a fronteira estava fechada, ele voltou para o hotel e se suicidou tomando uma grande quantidade de morfina. A fronteira abriu no dia seguinte. 

Entre os seus textos mais importantes está A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, no qual ele explica como o cinema e a fotografia estavam destruindo a "aura" da obra de arte. 

Benjamin explica que durante milênios, toda obra de arte tinha duas características: a autenticidade e a aura. 

A autencidade está ligada ao fato de que cada obra de arte é única. Um quadro, por exemplo tem características que não podem ser reproduzidas. Por mais que ele seja impresso, perde-se a textura do suporte, o relevo da tinta, assim como toda a história por trás daquela obra específica, inclusive com referência às pessoas que o possuíram. Mesmo no caso de uma fraude muito bem realizada, a cópia nunca será igual ao original. Da mesma forma, cada escultura grega é única e mesmo alterações pelas quais ela passou (no caso das peças quebradas) aumentam seu valor de unicidade. Segundo Benjamin, "O que faz com que uma coisa seja autêntica é tudo aquilo que ela contém de originalmente transmissível".

A aura, por sua vez, está ligada à origem religiosa da arte. 

Quando o homem começou a produzir as primeiras pinturas rupestres, elas não tinham o objetivo de ornamentar as cavernas, mas de realizar uma espécie de magia. Acreditava-se que o que era reproduzido na pintura se tornaria realidade. Assim, o desenho de uma caçada feliz faria com que a tribo tivesse sucesso na caçada. As obras de arte nascem a serviço de um ritual, inicialmente mágico, depois religioso. Sua exposição aos homens era incidental: na verdade, a pintura destinava-se sobretudo ao mundo espiritual. 

Esse caráter místico faz com que muitas vezes a obra de arte seja guardada em segredo. Os templos gregos eram construídos para abrigar as estátuas dos deuses, mas o ritual se passava do lado de fora. Na igreja católica, as figuras das virgens permanecem guardadas a maior parte do ano e só são visualizadas em momentos muito especiais, como ocorre com o Círio de Nazaré, em Belém. Conforme a arte foi se desvinculando do uso ritual, aumentaram as possibilidades das obras serem expostas. O quadro, por exemplo, tem muito mais possibilidades de ser transportado e exposto do que um mosaico. 

Mas, se por um lado a arte se desvinculava da sua função religiosa, continuava tendo uma espécie de mística. A arte continuava sendo algo de uma minoria privilegiada, geralmente as pessoas de maior poder aquisitivo. Tornou-se, inclusive, um símbolo de status. 

O surgimento da fotografia abalou os alicerces da arte, empurrando para segundo plano o seu valor de culto. Além de representar a realidade, a fotografia era passível de reprodução e quebrava totalmente com a ideia de autenticidade. Qual das cópias de uma foto é a original?

De acordo com Benjamin, a fotografia, ao retirar da arte o critério de autenticidade, fez com que toda a função da arte fosse subvertida: "Em lugar de repousar sobre o ritual, ela se funda agora sobre uma outra forma de práxis: a política". Se a fotografia provocou uma revolução na arte, o cinema provocou um estrago ainda maior. Até mesmo a atuação dos atores deixou de ter aura ou unicidade.

Se no teatro, cada atuação é única e o ator interpreta para o público, no cinema, os atores interpretam para a câmera e sua atuação é fragmentada. Um personagem se aproxima de uma porta, a abre e sai. A cena seguinte, pode ser gravada semanas depois dessa. No cinema, a atuação dos atores só se concretiza na mesa de montagem. 

Esse sistema quebra com a aura da atuação, que só sobrevive, no cinema comercial, através do star system, no culto à estrela (um tema muito bem analisado por Edgar Morin no livro As estrelas). Para Benjamin, se não for tratado como produto, o cinema permite não só uma crítica revolucionária das antigas concepções de arte, como favorece uma crítica revolucionária das relações sociais. Isso ocorre porque o cinema tira o expectador da condição de simples contemplação e o leva à condição táctil. Ou seja, no cinema o público quer não só assistir, mas interagir, e essa interação leva à revolução tanto na arte quanto na sociedade. Walter Benjamim certamente devia estar pensando no cinema revolucionário russo, que usava pessoas do povo como atores quando escreveu suas reflexões.

A idéias de Benjamin fizeram pouco sucesso na época, e só foram resgatadas graças ao amigo Adorno, que, no entanto, achava suas reflexões ingênuas. Passado quase um século de seus primeiros escritos, o pensamento desse autor continua cada vez mais atual, especial pela compreensão impar sobre a arte e sobre a forma como o surgimento dos meios de comunicação de massa mudou nossa percepção a respeito dessa. 


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*Seria complicadíssimo pensarmos estes conceitos de W. Benjamin diante das possibilidades de reprodução e intervenção “externa” na obra de arte atualmente, assim como o consumo da mesma. Com certeza vivemos em um território muito mais etéreo do que aquele estudado por ele na primeira metade do século XX. Mas obviamente Benjamin ainda é uma leitura fundamental.
(Aqui tem o link do texto de W. Benjamin comentado pelo autor: http://www.4shared.com/document/ibU_JctL/Walter_Benjamin_-_A_obra_de_ar.html).

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A menina de madeira*

Por PABLO NERUDA



LXVIII

A menina de madeira não chegou caminhando:
ali esteve de súbito sentada nos ladrilhos,
velhas flores do mar cobriam sua cabeça,
seu olhar tinha tristeza de raízes.

Ali ficou olhando nossas vidas abertas,
o ir e ser e andar e voltar pela terra,
o dia descolorindo suas pétalas graduais.
Vigiava sem ver-nos a menina de madeira.

A menina coroada pelas antigas ondas
ali fitava com seus olhos derrotados:
sabia que vivemos numa rede remota

de tempo e água e ondas e sons e chuva,
sem saber se existimos ou se somos seu sonho.
Esta é a história da moça de madeira.


Pablo Neruda, Cem sonetos de amor, 1979.

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*Pablo Neruda (1904-1973), poeta chileno.  

Lição para pentear pensamentos matinais*



Por CAIO FERNANDO ABREU


Pensamentos, como cabelos, também acordam despenteados. Naquela faixa-zumbi que vai em slow motion, desde sair da cama, abrir as janelas, avaliar o tempo e calçar os chinelos até o primeiro jato da torneira – feito fios fora de lugar emaranhando-se, encrespam-se, tomam direções inesperadas. Com água, mão, pente, você disciplina cabelos. E pensamentos? Que nem são exatamente pensamentos, mas memórias, farrapos de sonho, um rosto, premonições, fantasias, um nome. E às vezes também não há água, mão, pente, gel ou xampu capazes de domá-los. Acumulando-se cotidianas, as brutalidades nossas de cada dia fazem pouco a pouco alguns recuar – acuados, rejeitados – para as remotas regiões de onde chegaram. Outros como cabelos rebeldes, renegam-se a voltar ao lugar que (com que direito?) determinamos para eles. Feito certas crianças, não se deixam engabelar assim por doce nem figurinha.

Pensamentos matinais, desgrenhados, são frágeis como cabelos finos demais que começam a cair. Você passa a mão, e ele já não está ais ali – o fio. No travesseiro sempre restam alguns, melhor não olhar para trás: vira-se estátua de cinza. Compacta, mas cinza. Basta um sopro. Pensamentos matinais, cuidado, são alterados feito um organismo mudando de fuso horário. Não deveria estar ali naquela hora, mas está. Não deveria sentir fome às três da tarde, mas sente. Não deveria sentir sono ao meio-dia, mas. Pensamentos matinais são um abrupto mas com ponto final a seguir. Perigosíssimos. A tal ponto que há risco de não continuar depois do que deveria ser uma curva amena, mas tornou-se abismo.

E só vamos em frente porque começam a acontecer urgências. Enquanto a manhã dispara e o telefone toca e a campainha soa e as crianças vão precisam sair para a escola e o relógio de ponto ou qualquer coisa assim – incluindo os outros, sobretudo os outros – não esperam. Nada espera, ninguém. Você lava o rosto, finge não ter visto coisa alguma. É possível também ligar o rádio. Um banho frio, o café feito uma bofetada. Há pensamentos-matinais-despenteados que põe o rabo entre as pernas e dão o fora, mas outros – mulheres de Nelson Rodrigues – adoram apanhar.

Quanto mais você bate, mais ele arreganha os dentes e instiga para apanhar mais. Isso magnetiza e atrai outros pensamentos, ainda mais descabelados e até então escondidos. Se era um nome, vem um sobrenome. Se era um rosto, vem a textura da pele, um cheiro um jeito de olhar. Se fantasia, ganha cor, e assim por diante. Pensamentos desse tipo são quase sempre proustianos: loucos pelo velho e bom tempo perdido.

Soluções mais grosseiras, há. Colmo papel higiênico, amarrotá-los, jogá-los na privada, dar descarga. Acontece que descargas, não quero parecer alarmista, às vezes entopem. E devolvem justamente aquilo que deveriam levar embora, num comportamento que é o avesso daquele para qual foram programadas. Ah o avesso, esse o problema. Pensamentos assim são um sintoma do avesso. E o avesso é a superfície correspondente, igual em tamanho e forma, a tudo aquilo que você considera o direito. Conhecer de cor-e-salteado o direito absolutamente não dá direito a conhecer também o outro lado. Sinto muito, mas ele sempre está lá. Incógnito, invisível, inviável. In, enfim.

Por ser assim, desordena-se. Pelas manhãs, mesmo que o de manhã de alguns aconteça às seis da tarde. Mesmo nos calvos, a cabeleira abstrata pode amanhecer tão eriçada quanto a da Medusa. E se em vez de veneno as cobras tiverem mel? Tudo depende não me pergunte de quê. Só sei que deve-se olhar direito nos olhos deles, tocar sem nojo nem medo suas mãos cobertas de musgo, teias de aranha. Passar num susto a mão pelos cabelos, reais ou não. Deve-se sempre com a doçura e paciência possíveis nessas situações, mudar rápido de assunto. Ou cair no poço.

Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias, 2006.

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*Quanto mais você bate, mais ele arreganha os dentes... é mais ou menos assim, insaciável.

domingo, 13 de novembro de 2011

Fim*

Por MÁRIO DE SÁ CARNEIRO




Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

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*Pena que o pobre Mário tenha tido um fim menos “festivo”, porém, não menos típico aos artistas de sua geração. Mário suicidou-se no Hotel de Nice, no bairro de Montmartre em Paris, após ingerir vários frascos de estricnina no dia 26 de abril de 1916. “A um morto nada se recusa”, dizia ele, e essa foi sua última extravagância. 

Indo fundo na corrupção*



Por AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA


Resolvi dedicar-me à corrupção. Mas não me entendam mal. Resolvi ir a fundo nessa questão, estudá-la minuciosamente.

As motivações são óbvias: só se fala disto nos jornais. Então, como um cidadão qualquer, me indaguei se este seria um triste privilégio de nossa geração. Me indaguei se isto seria natural também na democracia. Me indaguei se seria uma tara exclusivamente nacional.

Comecei por onde deveria. Pela etimologia da palavra corrupção. O latim corruptione indica a noção de putrefação e decomposição.

E para minha perplexidade, na Biblioteca, o fichário de livros sobre corrupção é farto.  Os três governos mais corruptos  dos Estados Unidos foram os de Grant, Harding e Truman. No tempo de Grant,  disse o senador Paul Douglas, as ferrovias  compravam legisladores como se fossem gado. O secretario do presidente pertencia à quadrilha do uísque.   E o santo Abrahan Lincoln, como relata o seu biografo Carl Sandburg, também usou praticas corruptoras, ainda que para conseguir resultados louváveis, como a libertação dos escravos em Nevada. 

Há dois séculos, dizem os historiadores, a Inglaterra era uma cloaca  de corrupção. E a Rainha Vitória ficou famosa por tentar acabar com isso. E descubro que até no universo comunista isto existia. Vejo  um livro A kleptocraia - a corrupção na União soviética de Paul Maney.

Começo a ver a bibliografia brasileira sobre isto. O primeiro com o qual dou de cara é: IBAD:  sigla da corrupção, de Elói Dutra. Ali está narrado como a corrupção se instalou na política para se dar o golpe de 1964  que, paradoxalmente, dizia combater a corrupção.

Peço vários livros para me ilustrar. Seus títulos são sugestivos. O roubo é livre de Francisco  Oliveira, Sociologia da corrupção de Celso Barroso Leite, Enriquecimento ilícito no  exercício de cargos públicos de Bilac Pinto e, sobretudo, um deles me fascina e o quero ler vorazmente: Os honrados corruptos de Walter Goodman. Peço-o à funcionária da biblioteca. Ela  o procura, mas  me informa  desalentada:

-Lamento informar que esse livro sobre o roubo foi roubado.




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*Então seria um defeito de fábrica? Uma falha na divina fôrma original? Imaginem amanhã uma propaganda na TV nos chamando para um gigantesco Recall, com número de série e tudo. “O Fabricante lamenta pelos transtornos e blá, blá, blá...” 

sábado, 12 de novembro de 2011

O jornalismo também pode matar*



Por DENILSON BOTELHO


No último domingo, 6 de novembro de 2011, o Brasil amanheceu com a notícia da morte de um cinegrafista da Rede Bandeirantes de Televisão. Gelson Domingos fazia a cobertura de uma operação policial na favela Antares, em Santa Cruz, bairro da distante zona oeste do Rio de Janeiro, quando foi atingido por um tiro de fuzil usado por um suposto traficante e morreu antes mesmo de chegar ao hospital. O caso merece profunda reflexão sobre o jornalismo que temos atualmente no país.

Primeiramente convém ressaltar que Gelson não foi convidado pela Polícia Militar para acompanhar aquela operação. Consta que tinha larga experiência na sua atividade, mas foi designado pela emissora na qual trabalhava para deslocar-se até Antares na manhã daquele domingo. Cumpria assim uma obrigação funcional. Nada indica que pediu ou se ofereceu para ir filmar a polícia em ação naquele caso. Foi obrigado a fazê-lo.

O que o telespectador fica se perguntando muitas vezes é sobre a utilidade e a pertinência de imagens audaciosas como essas. Já que não se trata de ficção, mas sim da dura realidade, o que leva um cinegrafista a colocar-se na linha de fogo entre policiais e bandidos? Seria o desejo de mostrar a verdade? Seria um apego inarredável à liberdade de expressão? Ou ainda podemos cogitar de uma efêmera celebridade alcançada pelo cinegrafista ao ter seu nome anunciado no noticiário televisivo da emissora, comandado por um apresentador falastrão e sensacionalista? Posso até imaginar o programa servido a uma audiência ávida por sangue na tela, no horário do almoço ou jantar: “E agora vamos assistir imagens exclusivas do nosso cinegrafista da Band, Gelson Domingos, sobre o terrível confronto policial...”

Em suma, parece que não aprendemos nada com o caso Tim Lopes, trucidado na Vila Cruzeiro. Penso que é indispensável discutir a responsabilidade das emissoras de televisão, empresas de comunicação que alcançam lucros elevados com a espetacularização da notícia, fazendo da violência um circo grotesco e interminável. Há poucos anos uma repórter recém-formada da própria TV Bandeirantes levou um tiro numa cobertura jornalística de uma operação policial que se fazia no Morro Dona Marta, em Botafogo, zona sul do Rio de Janeiro. Por pouco Nadja Haddad não morreu. O que a Band aprendeu com aquele episódio? Nada. O negócio é mesmo faturar. E nesse caso, o produto oferecido é a notícia transformada em mercadoria cujo valor é determinado pelos índices de audiência.

Para que ninguém pense que estou exagerando, respaldo-me aqui em levantamento veiculado pelo Portal Imprensa (www.portalimprensa.uol.com.br) - dos mesmos editores da revista “Imprensa – Jornalismo e Comunicação” (com edição mensal) – no último dia 10 de novembro. Nesse curto espaço de poucos dias, a derradeira cena gravada por Gelson naquela fatídica cobertura foi exibida 210 vezes na televisão brasileira. Não é pouca coisa. Detalhe: a Band foi a emissora que mais transmitiu o momento da morte do cinegrafista, com 101 reprises. Foi seguida de perto pela Record, com 66 exibições, SBT com 20 vezes, a Globo com 13 e a RedeTV! com dez.

Fico pensando no horror vivido pelos familiares do cinegrafista, que deixou três filhos órfãos de pai e uma viúva, sendo massacrados pelas 220 exibições das imagens que registraram a agonia de Gelson ao ser atingido por um tiro de fuzil. Imagino que a alternativa menos dolorosa que lhes restou deve ter sido desligar a TV.

Rapidamente as emissoras bradaram em uníssono o mesmo argumento: foi um inaceitável atentado contra a liberdade de expressão! Será? Ou esta não é uma forma torpe dessas empresas eximirem-se das responsabilidades que deveriam recair também sobre os seus ombros? Afinal, o cinegrafista estava no exercício de suas funções laborais naquele episódio. Duvido que alguém tenha lhe perguntado se desejaria ou não fazer aquela cobertura. E mesmo que a pergunta lhe tenha sido feita, provavelmente ele temeria pelo seu próprio emprego ao recusar-se a seguir de perto policiais em meio a um tiroteio. A recusa possivelmente lhe custaria a vaga naquela empresa, sendo substituído a curto ou médio prazo por outro profissional supostamente mais intrépido e corajoso.

A tese do atentado contra a liberdade de expressão me parece pífia, inepta, insustentável. Difícil imaginar que, em meio aquela intensa troca de tiros, o bandido atirador estivesse mirando o cinegrafista e não os policiais. Difícil imaginá-lo mirando num Gelson desarmado ou na liberdade de expressão esgrimida pela Band, Globo, Record, SBT e RedeTV!

Basta de hipocrisia! O que vimos naquela cena é que o jornalismo também pode matar, sobretudo quando abandona a sua nobre função social e se torna uma mercadoria infame, fazendo da notícia um espetáculo e uma mercadoria extremamente lucrativa para os nossos oligopólios de mídia.

É preciso refletir sobre as mais variadas vítimas cotidianas desse tipo de jornalismo, além do cinegrafista fuzilado no último domingo.



Denílson Botelho (Professor de História da UFPI), Publicado na Coluna Fórum do jornal O Dia, de Teresina (PI), em 12/11/2011. Caderno Em Dia, pág. 4.

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*Escrevi recentemente neste blog - e naquela Coluna - que acabamos fetichizando esse espetáculo sangrento na TV, que somos tão vítimas e assassinos quanto as vítimas e assassinos dessas coberturas. (Leia o texto a que me refiro aqui: http://fronteiraslit.blogspot.com/2011/10/snuff-movie-na-tv.html). A verdade é que esse tipo de jornalismo mata a todos nós. 


A arte do chá*

Por PAULO LEMINSKI



ainda ontem

convidei um amigo

para ficar em silêncio

comigo


ele veio

meio a esmo

praticamente não disse nada

e ficou por isso mesmo


Paulo Leminski, “Distraídos venceremos”, 1987.

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*O silêncio às vezes nos preenche.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Beiço no mundo*

Por RUY CASTRO




A velha Hollywood (1915-1965) nos ensinou que tudo nos EUA era maior, melhor, mais limpo, justo, ético, honesto, adulto, moderno, eficiente e perfeito do que nos outros países. Também pudera - os americanos eram o povo mais bonito, forte, corajoso, engenhoso e talentoso do mundo. Onde mais as pessoas saíam cantando e dançando pelas ruas com naturalidade e ao som de uma enorme orquestra invisível?

E quem cavalgava melhor e tinha os cavalos mais velozes? O cowboy americano. Não havia índio ou mexicano que o capturasse, exceto à traição, coisa que, aliás, eles viviam fazendo (e de que o cowboy americano era incapaz). O mesmo se aplicava ao soldado americano em relação aos alemães e japoneses - quem era o mais heroico, o mais desprendido, o mais inteligente? E a Marinha americana? Quem tinha porta-aviões mais imponentes? Quem usava camisas de manga curta mais brancas? E quem mais tinha milhares de marinheiros que sabiam sapatear?

Nos filmes, víamos maravilhas que faziam parte do dia a dia dos americanos e de ninguém mais: cerveja em lata, barbeadores elétricos, cortadores de grama, trevos rodoviários (filmados de avião), edifícios de 90 andares e naves que iam à Lua e voltavam. E quem seria mais poderoso que o governo dos EUA, capaz de movimentar estruturas gigantescas para plantar um exército inteiro em território inimigo a 15 mil km e resgatar um espião a minutos de ser descoberto?

Todas essas eram benesses do poder e da riqueza. De repente, fico sabendo que o dinheiro no caixa do Tesouro americano vai acabar na terça-feira e que a Casa Branca, com uma dívida de US$ 14,3 trilhões, ameaça dar o beiço no mundo.

Inacreditável. Como pode o governo americano quebrar? Se acontecer, quem vai pagar a conta da lavanderia que mantinha as camisas tão brancas?


Ruy Castro, Folha de São Paulo - 29/7/2011.

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*Este ano de 2011 vai entrar para a história como um ano de grandes revelações e revoluções. O Oriente a cada dia está mais ocidentalizado, a Europa está a um passo de ruir e os EUA, descobriu-se, não está pobre, apenas deram-se conta de que os ventos da riqueza sempre sopraram unicamente para 1% da população. Neste breve ano louco o mundo mudou - de novo.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

No caminho com Maiakóvski*


Por EDUARDO ALVES DA COSTA

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores, matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e, conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

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*Precisamos gritar antes que seja tarde...

#Twitter



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#Nem Freud explica!

Poema em linha reta*

Por ÁLVARO DE CAMPOS (Fernando Pessoa)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Fernando Pessoa, Obra Poética, 1972.

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* “Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo?” 

terça-feira, 8 de novembro de 2011

As orquídeas de minha rua*



Por AFFONSO ROMANO DE SANT´ANNA


Há muito quero escrever sobre as orquídeas de minha rua. Mas não consigo; por causa dos jornais.

Penso: vou falar de orquídeas, estou maravilhado que apareçam assim como um enxame em todas as árvores públicas sem que ninguém as roube. Mas  os jornais me dizem que flecharam mais um ministro lá em Brasília. Que o canibalismo da corrupção e a   autofagia do poder vão devorando cúmplices e culpados.

Contudo, na minha rua, as orquídeas insistem com seu esplendor.  Elas não lêem jornal. Acordo. Elas estão, luminescentes, em todas as árvores de minha rua. Que fenômeno é esse?   Os troncos das árvores antes lisos e ( para mim) inúteis, viraram um canteiro de  orquídeas tagarelando nas manhãs. As flores parecem borboletas estáticas esperando nosso olhar.

Vejo isto com um júbilo discreto. Mas o vício jornalístico me leva a ler novas noticias no tronco da manhã. Nas folhas da manhã constato como a primavera árabe tem lá seus momentos patéticos. O cadáver malsinado de Kadafi interrompe a floração das  minhas orquídeas. O deserto nos contempla.

Todavia, insisto na minha   pesquisa floral. Descobri que os porteiros dos prédios é que inventaram essa epifania. Os moradores ganham orquídeas o ano inteiro, como não se sabem o que fazer com a não-flor, dão os vasos aos porteiros para que se desfaçam deles.

Algum porteiro imaginoso dependurou na árvore em frente ao seu prédio a ex-flor. E esperou. Outros porteiros o imitaram. Resultado: não só na minha rua, mas em todas as ruas circunvizinhas as orquídeas viraram um espetáculo para moradores e turistas.

Porém os indignados seguem florescendo em Madrid, na Grécia e junto a Bolsa de Valores de Nova York. Surgiram, coincidentemente, também durante a ( nossa) primavera. Seriam uma espécie de flower children dos anos 60? A utopia renasceu?

Volto à minha rua. Não é só no meu bairro, nos bairros vizinhos se alastra a revolução floral. Uma amiga moradora noutro bairro distante, me revela: está num mar de orquídeas. Lá também, os porteiros replantaram as flores nos troncos das árvores. E elas crescem e à noite ninguém as rouba.

Vou à internet, aprender o trivial sobre as orquídeas. E os muitos sites jogam nos meus olhos corpos de mulheres nuas disseminadas entre as noticias. São as flores eróticas da estação. Mas aprendo que há, em toda parte, fabulosos colecionadores de orquídeas transformando húmus em  esperança. Informam-me algo intrigante, que não conseguiram descobrir outra utilidade para as orquídeas a  não ser sua  função ornamental.

Há terremotos na Turquia, a florescente economia Chinesa ameaça ambiguamente todo o mundo e as orquídeas estão na minha rua cumprindo sua tarefa ornamental. É possível que em outras ruas de outras cidades esteja ocorrendo esse  fenômeno  belo e silencioso. Bom seria que fosse assim no mundo inteiro.

Raramente as orquídeas são noticia de jornal.


Affonso Romano de Sant´Anna, Correio Braziliense - Estado de Minas, 30.10.2011.

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*Em tempos de sangue farto não esqueçamos das flores...

Eu sei, mas não devia*

Por MARINA COLASANTI



Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.  E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez paga mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.


A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. 

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo.  Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti, Eu sei, mas não devia, 1996.
____
*Eu sei que a gente se acostuma...

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Parem de jogar cadáveres na minha porta*



Por Affonso Romano de Sant´anna




Parem de jogar cadáveres na minha porta.

Tenho que sair
                                       — respirar.
Estou seguindo para os jardins de Allambra
a ouvir o que diz a água daquelas fontes
e acompanhar o desenho imperturbável dos zeligues.

Não me venham com jornais sangrentos sob os braços.
Parem de roubar meu gado, de invadir meu teto
e de semear pregos por onde passo.

Estou em Essaouira, na costa do Marrocos
olhando o mar. Ou em Minas
contemplando as montanhas de Diamantina.

Não me tragam o odorento lixo da estupidez urbana.
Parem de atirar em minha sombra
e abocanhar meu texto.
Estou tornando a Delfos
naquela manhã de neblinas
ouvindo o que me diz o oráculo em surdina.

Ainda agora embarquei para o Palácio Topkapi,
frente ao Bósforo,
quando tentaram me esfaquear na esquina.
Jamais permitirei que quebrem as porcelanas
e roubem a gigantesca esmeralda na real vitrina.

Não me chamem para a reunião de condomínio.
Estou nos campos da Toscana
onde a gigante mão de Deus penteia os montes
e minha alma se sente pequenina.

Dei de mão comendas e insígnias
não tenho mais que na praça erguer protestos
e distribuir esmolas não é mais a minha sina.
Acabo de entrar no Pavilhão da Harmonia Preservada
e me liberto
                                  — na Cidade Proibida na China.

Não adianta o clamor de burocráticos compromissos
nem vossa ira. Tenho oito anos
saí para nadar naquele açude atrás dos morros
e vou pescar a minha única e inesquecível traíra.

Parem de jogar cadáveres na minha porta
na minha mesa
                                 na minha cama
dificultando
                    que alcance o corpo da mulher que amo.

Afastem de mim
                                  o meu
                                                    o vosso cálice.
Impossível ficar no tempo que me coube
o tempo todo
preciso repousar num campo de tulipas
reaprendendo a ver o que era o mundo
antes de
    como um Sísifo moderno
                                                                    desesperado

julgar
          — que o tinha que carregar.


 Affonso Romano de Sant’Anna, Sísifo desce a montanha, 2011.
_______
*Parem de jogar cadáveres na minha porta. Tenho que sair – respirar...
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