sábado, 21 de janeiro de 2012

A ilusão biográfica*



Por Pierre Bourdieu




Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outro vinculo que não a associação a um “sujeito” cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto no metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações. 

Os acontecimentos biográficos se definem como colocações e deslocamentos no espaço social, isto é, mais precisamente nos diferentes estados sucessivos da estrutura da distribuição das diferentes espécies de capital que estão em jogo no campo considerado. 

[...] não podemos compreender uma trajetória [...] sem que tenhamos previamente construído os estados sucessivos do campo no qual ela se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente considerado – pelo menos em certo número de estados pertinentes – ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis.


BOURDIEU, Pierre. A ilusão biográfica. In: FERREIRA, Marieta de Moraes e AMADO, Janaina. (org.). Usos & abusos da história oral. 8.ed. Rio de Janeiro: FGV, 2006. pp.183-191.



sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Pra que mentir? (Noel Rosa)



Pornografia, a ilusão do prazer*



Por Bruno Carmelo



l n’y a pas de rapport sexuel (“Não há relação sexual”) nasceu do encontro improvável entre Raphaël Siboni, famoso artista plástico, e HPG, diretor e ator de filmes pornográficos. Por coincidência, o trabalho de ambos é financiado pela mesma produtora, a marginal Capricci filmes, que propôs a Siboni pegar milhares de horas de making of do diretor pornô e fazer um documentário a respeito. Cada um impôs suas condições: Siboni exigiu que HPG não tivesse influência nenhuma na escolha das imagens, enquanto este último impôs que não se falasse na remuneração dos atores. Acordo fechado.

O título, o irônico “não há relação sexual”, faz referência ao psicanalista Jacques Lacan, que sugeria que mesmo no ato sexual a dois, o verdadeiro prazer não está na outra pessoa, e sim nos fantasmas projetados nela. Assim, o prazer seria mental mais do que corporal, e principalmente individual. Esta escolha dá uma boa noção do conteúdo bastante acadêmico e teórico que se pode ver, contra todas as expectativas, nesta colagem de cenas de coito, esperma, pênis, vaginas, penetrações duplas, sodomia, sexo grupal e todos os tipos de fetiches.
O início representa de maneira excepcional o discurso do diretor: uma bela atriz pornô espera sentada numa cadeira, enquanto HPG prepara a iluminação e a câmera. Ao seu lado, um homem se masturba para manter a ereção. Ela boceja de um lado, cutuca algumas pequenas feridas da pele, enquanto seu parceiro aumenta o ritmo frenético da masturbação. HPG grita: “Ação!”. Imediatamente, ela monta sobre seu parceiro, faz caras e bocas, geme, insinua todos os tipos de posa. A cena termina, ela volta para o seu canto, novamente entediada. Ele continua a se masturbar para a cena seguinte.

Este filme não é um ataque moralista sobre a “objetificação dos corpos”, sobre a exploração das mulheres nem nada do gênero. Ele tampouco é um tratado social, do tipo que observa a integração da profissão pornográfica com a vida cotidiana dos atores, com a família, amigos, salário, planos de carreira etc. Evitando a narração ou o desenvolvimento de uma história, a direção prefere colar cenas, uma ao lado da outra, sem grandes explicações, “como se faz nos vídeos da Internet de hoje em dia”, comenta Siboni.
Assim, o efeito produzido não é de crítica, nem de excitação – poucos filmes com tal quantidade de sexo explícito conseguiram ser tão pouco excitantes, aliás. Esta foi uma das razões pela qual Il n’y a pas de rapport sexuel foi classificado “apenas” um filme proibido para menores de 18 anos, e não um filme X, o que teria reservado sua projeção às salas de cinema pornográficas. E para a surpresa geral, a obra chegou aos cinemas independentes coroada de excelentes críticas.

De fato, Siboni efetua um mosaico um tanto triste, patético e mecânico da ilusão de prazer, da idealização do sexo, tanto heterossexual quanto gay. Os atores são vistos na espera entre as cenas, ensaiando frases ridículas como “Ai, como é gostoso o esperma dos desconhecidos!”, proferida por uma jovem cercada por três pênis em ereção. Raramente os atores se olham no rosto, de tão concentrados em suas performances individuais. A ausência voluntária de contexto, o confronto constante entre os personagens fetichizados e as pessoas comuns que os encarnam gera um efeito cômico, despretensioso, e uma certa forma de distanciamento em relação ao material – o que é contrário ao próprio princípio de imersão da imagem pornográfica.
Curiosamente, este discurso sobre a ilusão do sexo faz referência à ilusão da própria imagem. Enquanto os making of tradicionais, publicitários, revelam a parte técnica da realização mas mantém o fetiche do estrelato, Il n’y a pas de rapport sexuel ignora o aspecto técnico para humanizar estas figuras dotadas de uma imagem sobre-humana, com pênis imensos, seios superdimensionados e orgasmos múltiplos. O filme escolhe as imagens que as mostram apenas como pessoas comuns, sem prazer particular pelo que fazem, sendo penetradas com o mesmo profissionalismo indiferente de um operário padrão que produz a mesma peça dez vezes por dia. A pornografia é acima de tudo um trabalho, e as aulas de “como simular uma felação” dadas pelo diretor aos atores iniciantes no “softporn” (filmes sem penetração nem imagem de órgãos genitais) é um ótimo exemplo disso.

A cereja do bolo é o fato de Siboni ter conseguido aproveitar, e muito bem, a estética involuntária deste making of. A câmera está colocada num tripé, numa altura fixa, e ela permanece nesta posição por muitas horas, de modo que tanto o diretor quanto os atores se esquecem da sua existência. Esse enquadramento aleatório produz momentos interessantes do uso do extra-quadro, além de algumas composições que dificilmente teriam sido escolhidas por HPG ou o próprio Siboni (uma atriz, de pernas abertas sobre o sofá, geme enquanto sua vagina e seu ânus ocupam praticamente todo o enquadramento, durante longos minutos). Os corpos são reduzidos a um material plástico, órgãos genitais são vistos como ferramentas de trabalho e os gemidos de prazer parecem tão artificiais quanto os sorrisos em propagandas de margarina. Il n’y a pas de rapport sexuel é um excelente estudo sobre a ilusão e o fetiche dos corpos, do sexo, da imagem e do cinema.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Vada a bordo, Cazzo!*



Por Affonso Romano de Sant´Anna




VADA A BORDO, CAZZO!

1. Essa frase é uma lição de modernidade em tempos de internet. É viral, está na internet, nos jornais, enfim, virou camiseta, palavra de ordem: “Volte a bordo, caralho!”

Ou: Assuma o controle! Faça alguma coisa!Você é o responsável! Não é mais a frase do Capitão da guarda costeira Gregorio de Falco dando um esporro no comandante fujão do Costa Concordia, é um grito de revolta, é um chamado a todos os italianos para que tenham dignidade, enfrentem a tragédia, assumam seu posto.

E não é só um fato italiano. Em todo o mundo temos que gritar para os que fogem à sua responsabilidade: VADA A BORDO, CAZZO!

2. Isto é perturbador e fascinante. É a velocidade viral da modernidade. Uma frase ocasional, aleatória pode provocar hoje uma revolução quando potencializada pelos repetidores, pelos que dela se apropriam e a “autorizam”.

Uma frase-lãmina que corta o noticiário e penetra no cotidiano.

Uma forma de hai-kai eletrônico. Pedra de toque. A camiseta como o lugar (no peito) da demonstração afetiva.

A manchete de jornal não basta, o filme não basta, o romance não basta, o discurso não basta: a frase viral vai além da publicidade potencializa o slogan de ontem.

Pode virar um tsunami.

Pode reerguer um país (uma pessoa) do naufrágio.

Uma frase assim tem a força imemorial da poesia.



quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A ameaça da canção de ninar*



Por Betty Milan



Quem dorme aceita se retirar da realidade e ficar indefeso. Essa retirada, sem a qual nós não vivemos, pode ser angustiante e deve ser facilitada. Por isso, espera-se  de uma canção de ninar que seja apaziguadora.

No entanto, ainda hoje, no Brasil, ouve-se a canção aterradora com a qual fui criada. Tive o desprazer de constatar isso ligando a Rede Globo e vendo um ator que cantava; enquanto segurava um bebê nos braços; “Dorme, neném, que a Cuca vem pegar. Papai foi pra roça, mamãe foi passear”. O rosto do ator era bonito e do bebê, comovente - dois anjos. Mas, sem ter consciência do que fazia, o ator ameaçava a criança. Dizia-lhe que o pai e a mãe estavam ausentes, e, caso não dormisse, a Cuca a levaria.

Popularmente, a Cuca é uma velha feia parecida com um jacaré. Segundo o Aurélio, um bicho-papão ou papa-gente. E, de acordo com Monteiro Lobato, uma bruxa com unhas compridas como as de um gavião.

Como explicar a vigência de uma canção de ninar tão assustadora, se não pelo sadismo dos adultos em relação ás crianças? Um sadismo cujas consequências podem ser nefastas.

A educação começa no berço, com as primeiras palavras, que tanto podem abrir quanto fechar os nossos caminhos. Isso significa que o educador — o pai, a mãe ou outra pessoa – precisa atentar para o que diz.

Em vez de fazer menção à Cuca, porque não escolher, por exemplo, uma canção de ninar como as dos Beatles, Good Night? “Hora de dizer boa-noite. Boa noite durma bem. O sol já apagou sua luz. Boa noite durma bem”. Uma canção que associa o sono à desaparição do sol,  fazendo dele um fenômeno natural.

Ninguém é obrigado a procriar.  A obrigação está fora de moda. Mas quem tiver filho precisa se ocupar dele durante a infância com devoção e inteligência. Contrariando os hábitos, se preciso for.

A vida não é fácil e, para evitar dificuldades futuras, a prevenção é sempre melhor do que o tratamento. Nós só nos esquecemos disso porque não somos educados para ser felizes, e sim para repetir o que os outros fizeram sem questionar.


Fonte: Revista Veja - 24/08/ 2011, p.120.


O maior desafio do mundo moderno*



Por Paulo Nogueira


Escrevi para a edição da Exame que está nas bancas um artigo sobre um tema que provoca nervosas, apaixonadas, raivosas discussões mundo afora neste momento: a desigualdade social, um processo que ganhou velocidade galopante nas últimas três décadas.
Vejo, satisfeito, que a BBC foi a fundo no assunto, e preparou um documentário chamado “The Wealth Gap” – a disparidade da riqueza, numa tradução livre.
Onde a iniquidade mais se manifesta é nos obcenos salários dos CEOs, os presidentes de empresas. Peter Drucker, o papa da moderna administração, dizia que a relação entre o salário de um presidente e o da média dos funcionários não poderia ser superior a 25 para 1. Ou então se rompiam coisas fundamentais para o sucesso de um empreendimento, como o sentimento de time.
Na Viacom, multinacional americana, o CEO em 2010 ganhou quase 2 000 vezes mais que a média dos empregados: mais de 80 milhões de dólares. Há muitos outros casos. Um levantamento do Senado americano mostrou que a renda do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 275%  entre 1979 e 2007. Os 20% de baixo da tabela viram sua renda crescer apenas 18%.
Na Inglaterra, atingida por uma crise econômica persistente, os salários dos CEOs das 100 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de Londres cresceram mais de 40% no ano passado – numa desconexão completa com o panorama do país.
Como os governos podem pedir sacrifícios à população quando uma elite ganha mais dinheiro que nunca e comanda uma concentração de renda absurda e injusta?
Uma das reações a esse quadro está na série de protestos que se espalharam pelo mundo nos últimos meses, sob o guarda-chuva do imperativo “Ocupe”. Os 99% estão dizendo basta ao 1% ganancioso que se beneficia de sua proximidade com o poder para extrair vantagens indecentes.
Vejo, satisfeito, que a BBC mudou de tom em relação aos protestos. Os manifestantes que acampam em frente da Catedral de São Paulo, em Londres, eram chamados, antes, de “anticapitalistas” pela BBC. Agora, a BBC reconhece que os protestos são contra a “ganância” corporativa e executiva.
Desigualdade em excesso gera mais crimes, mais insegurança etc etc. Por isso o tema é de interesse público, a despeito de ideologias. Estudos mostram que em países onde a diferença é menor, como no Japão e na Escandinávia, a vida é melhor – para todos, ricos e pobres.
Reduzir as desigualdades sociais é provavelmente o maior desafio do mundo moderno. Ou os governantes se mexem ou os próximos tempos serão plenos de tumultos, porque a paciência e a resignação dos excluídos têm limite — e isso ao longo da história já se manifestou em coisas como reis guilhotinados.




A triste despedida do trema*



Autor (ainda) não identificado


Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.

Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio… A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O “dois pontos” disse que  sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.

Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C c….. que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I.

Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, “Kkk” pra cá, “www” pra lá.

Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo” de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!

Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus,

Trema

Fonte: Vi o mundo

O espetáculo do trabalho*



Por Josenias Silva




A dimensão do trabalho é uma das mais evidentes quando se observa o cotidiano social das cidades. A historiadora Maria Stella Bresciani, em Londres e Paris no Século XIX: o espetáculo da pobreza (Brasiliense, 1982), assim descreve o “espetáculo assustador” das ruas londrinas no período da transição do processo produtivo em plena revolução industrial.


Toda a agitação anotada pelos contemporâneos se compõe com milhares de homens e mulheres no trânsito cotidiano de suas casas para seus empregos, resultado evidente do declino do sistema doméstico de produção. Impelidos para o mercado de trabalho, vêem-se na contingência de se deslocarem a pé por ruas estreitas e irregulares, impróprias para a passagem de pedestres. Num cenário de cerca de duas milhas de extensão, a grande novidade é a exteriorização da atividade do trabalho. É a amplitude dessa exposição pública das atividades do trabalho o que choca os contemporâneos. Nessa exteriorização, que produz a identidade social do trabalhador, o que mais espanta é estar esse homem coberto com os sinais da miséria, considerados até então atributos de velhos e doentes, dos incapacitados em geral.


Assim, em todos os cantos, desde o instante em que o trabalho deixou de ser feito quase exclusivamente nas oficinas domésticas se vêem trabalhadores pululando na paisagem urbana. Isso ocorre nas grandes e pequenas cidades, umas com um ritmo mais acentuado, outras mais lentas, mais pingadas, mas com certeza não existe esta que não tenha seus trabalhadores, sejam eles de fábricas, do comércio, ambulantes, autônomos, portuários, domésticos, liberais, de “bico” etc. Mas é justamente como “espetáculo” que o trabalho irá assumir uma forma de exteriorização pública da miséria. Quer dizer, daquilo que não estará restrito unicamente as atividades produtivas em si, mas que envolverão todos os processos econômicos, culturais, políticos, afetivos, históricos etc., etc., etc., da (re)produção social da existência.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Murphy, na prática*



Por Josenias Silva




Depois de um final de semana daqueles, em que definitivamente nada deu certo e o impossível aconteceu, resolvi passar em revista algumas leis básicas (Leis de Murphy) que nunca se deve esquecer sob pena de levar a vida muito a sério.

Compartilho com vocês algumas conclusões elementares que, se não mudam nada, pelo menos explicam alguma coisa.


Se servir para você, com certeza você não entendeu.


Então lá vai:


1. Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. 





2. A principal causa dos problemas são as soluções.

3. A solução do problema muda o problema.

4. Quando maior você é, mais forte eles batem.

5. Para cada ação existe uma crítica igual e no sentido contrário.

6. Se o sapato couber, ele é feio.




7. A maioria das pessoas se merecem.

8. Perdoe e lembre.

9. Se tudo o mais falhar, siga as instruções.

10. Se as coisas tivessem sido deixadas ao acaso, elas estariam melhores.

11. A outra fila sempre anda mais rápido.




12. Ajude um homem quando ele está com problemas e ele sempre se lembrará de você quando estiver com problemas de novo.

13. Não se irrite, se vingue.

14. Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios nunca tem certeza.

15. Um homem sem religião é como um peixe sem uma bicicleta.

16. Tudo depende.

17. Toda solução cria novos problemas.

18. Nada é tão ruim que não possa piorar.




Para mais, clique Aqui.

Dicas úteis para uma vida fútil*


Por Mark Twain









Num Velório

(1881)


Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

in: Dicas úteis para uma vida fútil – um manual para a maldita raça humana, 2005, pp. 39-40.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Informações absolutamente inúteis*



Por Millôr Fernandes



• Não existe fábrica alguma que faça três pés de sapato iguais para indivíduos que nasceram tripés. 

• O amor em absoluto não substitui uma boa conta bancária.
 
• Pé de atleta é uma doença facilmente curável: cérebro de atleta é que não tem cura. 

• Os cavalos não apostam nos homens. 

• O cão é o melhor amigo do homem: o gato nem tanto. 

• A coisa que mais separa um homem e uma mulher é viverem juntos.




Eduardo Galeano no Programa Sangue Latino*





Programa de auditório e a fé*



Por Affonso Romano de Sant´Anna





Qual a relação entre um programa de auditório e um culto religioso?

Existe um movimento em todos os credos para transformar os cultos em grandes happenings. Não basta, como antigamente, cantar hinos tristes e solenes, acender velas e orar contritamente,  é preciso animação, festa, gritaria para espantar o demônio e agregar os crentes.

A pastora Ana Lúcia, lá em Belford Roxo, bota prá quebrar. Num ritmo que mistura funk e gospel  vai cantando para o endemoniado: agora quebra, quebra, quebra, tá pegando fogo, tá pegando fogo. E o auditório vibra, canta, chora e dança enquanto os ex-pagodeiros  que agora formam o conjunto Os Gideões, mandam ver.

Assim como as igrejas protestantes e católicas invadiram a televisão com seus cultos, a pastora Ana Lúcia, até então desconhecida, invadiu  o  youtube e seu vídeo já foi visto por quase 400 mil pessoas. É a era da comunicação. Quem não se comunica não se salva (nem ganha dinheiro).

Riobaldo, o personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa dizia que se Deus resolvesse aparecer no sertão, que aparecesse armado.  Hoje se pode  dizer: se Cristo quisesse fazer o Sermão da Montanha, que  tratasse de trazer o DVD e CD para vender. Esta é que seria a verdadeira multiplicação de pães e peixes.

Quando eu dava aulas e estudava a questão da carnavalização em nossa cultura, ou seja, os rituais e festas, deparei-me com um teólogo protestante que  dizia que tínhamos que pensar que Cristo era um Arlequim e não um Pierrô. Era uma visão vital e alegre da fé em oposição à morbidez tradicional.

Agora, no entanto, criou-se algo bem mais radical. Exemplo disto  é o que eu chamaria de comédia evangélica. Um jornal cita três comediantes que se apresentam, não em teatros e na televisão, mas em igrejas.  Reparem, não é também o que antigamente se chamava de pastor conferencista - aquele pregador excepcional que vinha por uns dias para reativar  a fé amortecida das fiéis. Era sempre um  orador excepcional, Agora, não. Pode ser qualquer um que saiba manejar o bom humor. Um deles, por exemplo, é o radialista Robinho Silva, que antes já fazia o axé  católico e tem um cartaz de propaganda que diz: Evangelização com stand up e muito humor. Ou seja, segue a receita desse tipo de comédia americana: stand up-  que está virando moda no Brasil: um sujeito  sozinho no palco fazendo os outros rirem.

A formula não é nova, e aplicada à religião é apenas invertida. Os cultos tradicionais faziam as pessoas chorarem e desesperarem de suas vidas, a vida era mesmo uma cruz  e um suplício. Ou seja, onde havia morte celebra-se a vida, onde havia imobilidade, o movimento, onde havia murmúrio e reza, agora a dança e a gritaria. Mas o principio é o mesmo: uma pessoa conduzindo a massa, secundado às vezes por um côro, como acontecia nas tragédias gregas.

Como dizem os portugueses, isto tem piada, quer dizer, tem sua graça, pois o dentista Fabio Borges, um desses comediantes da fé, conta por exemplo, que uma fiel rezava assim a Ave Maria: Ave Maria cheia de graça, bendita suas avós entre as mulheres. Isto acontece. Me lembrei que quando eu era criança costumava (seriamente) cantar assim uma das linhas do Hino Nacional: verás que um filisteu não foge à luta.

Isto tudo, está preso àquilo que Gille Dorfles, nos  anos 60 profetizou como a sociedade do espetáculo.  Com efeito, a religião sempre lançou mão de rituais espetaculares, como forma de agregar e emocionar. Mas a modernidade, rompendo fronteiras e transgredindo sempre, está nos presenteando com algo intrigante: a vida virou um grande shopping, um grande programa de auditório onde os perdidos tentam se salvar dançando com muita fé.

(*) Estado de Minas/.15.01.2012




sábado, 14 de janeiro de 2012

Liêdo Maranhão: a praça é do povo (I)*


Por Josenias Silva




As praças públicas têm como característica serem lugares de encontro/passagem/dispersão de distintos grupos da geografia humana. E quem é estudioso da cultura popular, como o pernambucano Liêdo Maranhão, sabe muito bem o quanto as praças podem revelar do fazer social.

Liêdo Maranhão é o que se poderia chamar de homem do povo, um sujeito sem frescuras e sem travas na língua. Nascido no bairro de São José, no Recife, em 1925. Formado em Odontologia na década de 1940, com estágios na França e Espanha, e com um grande interesse pela cultura popular. Chegou, entre os anos de 1960 e 1970, a freqüentar diariamente a Praça do Mercado (e o próprio Mercado) de São José registrando o movimento cotidiano dos vários tipos sociais que ganhavam a vida naquele espaço: camelôs, cantadores, ambulantes, "come vidro", "engole cobra", vendedores de ervas e remédios, prostitutas etc. Desse seu trabalho empírico de registro (fotográfico, oral, material etc.) resultou algumas obras de grande valor documental.

Cito algumas:

O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste: homenagem ao centenário do Mercado de São José 1875-1975. (Recife: Prefeitura, 1977);

O povo, o sexo e a miséria ou o homem é sacana (Recife: Guararapes, 1980);

Conselhos, comidas e remédios para levantar as forças do homem (Recife: Bagaço, 1982);

Cozinha de pobre (Recife: Bagaço, 1992);

Marketing dos camelôs do Recife (Recife: Bagaço, 1996); 


A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido (Olinda, PE: Edição do autor, 2004);

Rolando papo de sexo: memórias de um sacanólogo (Olinda, PE: Livro Rápido, 2005).


Liêdo se define como um “dentista e esquizofrênico cíclico”, como alguém que encontrou um sentido para a realidade das coisas na fala do povo, nas suas expressões e estratégias de sobrevivência. Hoje sua casa abriga um grande acervo “de tudo”, como ele costuma falar. Além de ser um dos maiores colecionadores e conhecedores da literatura de cordel, Liêdo é reconhecidamente uma autoridade quando se trata de cultura popular no nordeste. O que o diferencia, a meu ver, dos demais pesquisadores que se interessam pela questão é que Liêdo não olha ninguém de cima, ele não trata a cultura popular como algo menor, tampouco está preocupado com a polidez da língua ou com título de coisa alguma.

Nada de escritório, nada de frescura ou literatice, como já foi dito em algum momento, Liêdo é o escriba dos excluídos. Seus livros registram a riqueza escondida nas histórias pessoais de quem dele se aproxima, flagram o sexo, a fome, a subversão da língua “culta/oficial” nas expressões e versinhos populares, bem como a criatividade e os sofrimentos de um povo que vive “Jodido, pero contento”.



No Mercado de São José,
Faz raiva a gente se vê.
De tudo que não presta,
Nele já tem pra vender.
No Mercado de São José,
Tem água de prato sujo,
Que dão o nome de café.
Tem sopa de 15 dia,
Que eles vende nos hoté.
Tem carne de sapo cru,
Que dão o nome de sarapaté.
No mercado de São José,
Tem frango, tem rapariga,
Ninguém não liga,
De mais até.

(Gogó de Sola)



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