segunda-feira, 16 de abril de 2012

Somos todos pós-modernos?*



A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?

Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogletização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às "irracionalidades" do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas.

Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.

A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou o conteúdo. O pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.

Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.

O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.

O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo.

O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.

O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.

A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação.

A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser e as nossas imagens que a existência real.


Frei Betto. in. Correio da Cidadania

O livro de todo o saber*

Cena do filme O Livro de Eli

Conta uma velha lenda talmúdica que, nas vésperas do Dilúvio, dois sábios, dois videntes, que eram filhos de Seth e conheciam as tensões de Deus, descendo por um caminho da Mesopotâmia, numa tarde triste, naquela imensa tristeza das últimas tardes do Mundo, estremeceram, pararam ao avistar por trás dos montes Górdios as nuvens que subiam, tenebrosas, enroladas, já carregadas da chuva suprema e vingadora. E o que então os contristou não foi a destruição dos rebanhos, das fortes cidades muradas, de tantos povos dóceis, pois bem sabiam os dois videntes que, retiradas as águas, encalhada a Arca nas colinas moles, em breve outros homens, pais de outros povos, pastoreariam rebanhos mais densos através de prados mais férteis, e ergueriam novamente cidades com vigias nas torres e o incenso fumegando nas aras. Não! o que os angustiou foi pensar que a ciência, a ciência tão penosamente adquirida e acumulada desde o Paraíso, pereceria com os homens sapientes que a possuíam, de repente, como se evapora a essência rica do nardo quando o vaso fino se quebra; - e que as raças, renascidas sobre a terra renascida, deveriam recomeçar a áspera aprendizagem, e por longos tempos errar de rio a monte numa apagada e muda simplicidade de espírito, não sabendo mais que matar a caça com uma lasca de rocha, e ao desdobrar da sombra buscar o refúgio de alguma toca, com medo da noite e dos seus astros incompreendidos.

Então, naquele caminho perdido da Mesopotâmia, sob a tristeza imensa da tarde, os dois sábios, filhos de Seth, determinaram arquivar, escrevendo em matéria imperecível, a ciência que possuíam, que era a ciência total daquela primeira humanidade. Durante três dias, durante três noites, num vale onde acendiam fogos, à beira de uma fonte que rugia, inchada com a cólera que Deus já comunicara a todas as águas - os dois sábios, sem repouso, ansiosamente, espreitando as nuvens, gravaram sobre o granito e gravaram sobre o tijolo o livro de todo o saber. Depois, na derradeira madrugada, finda a obra, estendidos como páginas pelo vale, os tijolos e os granitos onde ficava inscrita toda a ciência inicial, os dois sábios, levantando as faces cansadas, louvaram o Senhor que lhes concedera tempo de cumprirem, para com os homens da outra humanidade, aquele dever final de fraternidade magnifica: - e do céu caíram lentamente, sob as faces erguidas dos dois filhos de Seth, as primeiras gotas, pesadas e mudas, da grande chuva de Deus.

Eça de Queirós. in. Notas Contemporâneas. Ed. Lello & Irmão, 1945, pp. 509-511.


domingo, 15 de abril de 2012

System Of A Down - Aerials*





Confira o clip:



Music video by System Of A Down performing Aerials. 
(C) 2002 SONY BMG MUSIC ENTERTAINMENT



Desgaste e passagem*

Bonsai

Construímos - criamos, elaboramos, fabricamos... - e depois mantemos - conservamos, guardamos, sustentamos... Nossa capacidade criadora e técnica nos permite produzir objetos e estruturas, muitos dos quais duram mais que a nossa própria vida: casas e cidades, livros e esculturas, pontes e estradas. Pois bem, sabendo, como sabemos, que tudo isso que produzimos também está submetido ao desgaste, procuramos conservá-lo e cuidá-lo. O fato de algumas coisas que produzimos durarem mais do que nós, leva-nos, de certo modo, a nos projetarmos nelas e a nos identificarmos com elas. Por meio delas sobrevivemos a nós mesmos. Com nossas obras resistimos parcialmente à implacável passagem do tempo. Elas são nossa pequena e passageira vitória sobre o tempo destruidor.

Nossas obras são como nosso refúgio, onde nos abrigamos um pouco para que a passagem do tempo não nos prejudique em demasia. Para me referir a essa dimensão da condição humana uso os termos cosmicidade e capacidade cosmopoiética. Nossa destreza técnica (agrícola, industrial, "tecnológica" (...) nos permite enfrentar o desgaste e as ameaças de destruição. Quando a habilidade técnica está a serviço da construção e não da destruição, procurando o progresso da ordem e não do caos, pode-se falar de cosmopoiesis (que literalmente significa "capacidade de produzir cosmicidade, ordem, harmonia"). Nesse sentido, cabe dizer que o homo faber - o homem capaz de fabricar e construir - é a expressão do homem cósmico.

Todos os ordenamentos e arranjos que nós os homens realizamos - todas as nossas obras - estão sempre ameaçadas de destruição e desaparecimento, e esta ameaça mais tarde ou mais cedo acabará se cumprindo. Então, embora às vezes com data de decadência e extinção mais longínqua, todas as nossas obras têm o mesmo destino nosso. A criação técnica e o desaparecimento de culturas e de seus artefatos são também indissociáveis como a vida e a morte. A passagem do tempo - a própria essência da realidade - implica decadência, ameaça e desgaste, aos quais nós tratamos de resistir criando, cuidando, vigiando. Mas com a passagem do tempo tudo acaba caindo, desmoronando, se convertendo em pó.

Assim sendo, por que motivo nós, os seres humanos, nos esforçamos para continuar construindo e ordenando, se sobre todas as nossas obras pesa, no final das contas, uma ameaça fatal? Uma primeira resposta é óbvia: criamos, construímos e depois nos esforçamos para conservar o que fizemos porque, enquanto contarmos com nossas obras, podemos obter frutos delas - a vinha dá uvas e estas dão vinho; os caminhos comunicam os povos entre si; as instituições oferecem identidade, coesão, serviços... Uma segunda resposta: mesmo prescindindo de sua utilidade e de seu serviço, a harmonia e a ordem são motivos de gozo e satisfação - a pessoa se sente bem quando limpou e arrumou a casa ou o escritório ou a oficina. Terceira resposta: ocasionalmente, por trás da realização de nossas obras, que têm todas como destino último o nada, pulsam o desejo e a esperança de alcançar algum tipo de ordem não ameaçada pela passagem do tempo - às vezes, no fundo de nossas obras, necessariamente submetidas ao desgaste e à ameaça de destruição, palpita um desejo de "eternidade".


Josep. M. Esquirol. in. O respirar dos dias. Ed. Autêntica, 2010, pp. 32-34.


O Beijo: Gustav Klimt*

O Beijo, óleo sobre tela, 180 x 180
Österreichische Galerie

Mostrando a influência dos escritos do compatriota vienense Sigmund Freud, as obras do pintor Gustav Klimt (1862-1918) refletem os anseios intelectuais, eróticos e simbólicos e também as paixões estéticas do dinâmico círculo intelectual da Viena do fin de siècle. O trabalho de Klimt faz uma síntese impressionante e sofisticada de Simbolismo e Art Nouveau. Usando a ornamentação elaborada característica do Art Nouveau, o artista pintou imensos frisos ornamentais retratando cenas com um clima de conto de fadas, e produziu ainda retratos marcantes que fundem as formas estilizadas e cores extravagantes do Simbolismo ao seu conceito pessoal e eclético de beleza.

Sua obra-prima, O Beijo (1907-1908), é uma festa reluzente de erotismo e beleza. O quadro tem um brilho sensual de mosaico bizantino. Um homem, envolvido num manto dourado ricamente trabalhado, se inclina para beijar uma mulher que está de joelhos. Dos corpos dos amantes vemos apenas os rostos e as mãos, além dos pés flexionados da mulher, com os dedos retorcidos de prazer. Todo o resto é uma opulenta cascata de ouro ricamente engastada com alexandritas, ametistas, safiras, rubis, opalas e esmeraldas. Por baixo deles se estende um leito de pétalas.


Julie Enfield. in. A história íntima do beijo. Ed. Matrix, 2008, pp. 169-170.


sábado, 14 de abril de 2012

Como esquecer um grande amor*


ou livrando-se de uma grande encrenca

Você foi deixado. Levou um pé-na-bunda assim, sem mais nem menos, de uma hora para outra. Justo no momento em que achava "agora vai". Você nunca se sentiu tão feliz ao lado daquela pessoa; era capaz de buscar água na peneira para ele (ou ela), comprar a lua ou as estrelas, mesmo que isso implicasse um financiamento a perder de vista com juros de 7% ao mês. E eis que você dorme ouvindo um cintilante "eu te amo" e acorda com um "não dá mais".

Pobre criatura. Seja bem-vindo ao time dos enjeitados. Se serve de consolo, o primeiro fora é o pior. Depois, você acaba aprendendo a cair, a se levantar, sacudir a poeira e ir dançar mais um frevo. Mas até lá, vai ser dose. Você vai chorar todas as suas pitangas, vai falar dele (ou dela) em todas as rodas e no dia-a-dia para quem se aproximar de você, seja o padeiro da esquina ou o guarda de trânsito ― que veio te multar porque você não pára de chorar ao volante, não vê que o sinal abriu e fechou pelo menos umas três vezes e está atravancando toda uma fila de carros que buzinam lá atrás, sem contar que quase atropelou a velhinha com os dois poodles, pouco antes.

O pé-na-bunda de um abduzido é a coisa mais triste que pode haver em termos de relacionamentos amorosos. Triste porque ao longo da abdução o sujeito jogou o amor-próprio no lixo, submetendo-se às vontades do outro mais do que deveria. E agora, vai ter que voltar à lata de lixo, revirá-la até encontrar seu velho e puído amor-próprio novamente.

O abduzido não é um amante maduro. É aquele que quando dá por si, deixou de ouvir o rock de que tanto gostava, de ver os filmes cult ou os jogos de futebol, de vestir-se como sempre vestiu só porque Fifonho (ou Bodoquinha) não gosta. É aquele cara que se vê, certo dia, assistindo ao Domingo Legal no sofá da namorada (ou do namorado), com tios, primos e o papagaio do cônjuge, depois de um almoço-família, cujo menu inclui a famosa geléia de mocotó da matriarca e o frango na cerveja da tia gorducha de pele oleosa.

O abduzido geralmente é feliz em sua santa ignorância e acha que as reclamações de parentes e amigos quanto ao seu sumiço não passam de implicâncias com sua "alma-gêmea". Ele não consegue ir até o ponto de ônibus sem a ciência dela. Viajar com a turma, encontrar os amigos numa festa ou bar sem a presença dessa figura vigilante e onipresente, então, nem pensar. Ainda assim, o sorriso abestalhado que o abduzido estampa na cara não se desfaz nem mesmo quando Fifonho (ou Bodoquinha) o xinga ou o repreende em frente aos outros. Para se ter noção da dimensão do problema: ele chega a achar que flores de plástico são lindas.


Inevitavelmente, chega o dia em que o cônjuge se cansa de tanta servidão, de tanta falta de personalidade. Convenhamos, um capacho não inspira muita admiração. Nesse dia, então, você recebe sua carta de alforria. E ela vem assim, com um gosto amaríssimo, junto com uma bofetada e um ponta-pé. Você fica arrasado, achando que não poderia ter te acontecido coisa pior e acha que será impossível viver sem os maus-tratos a que estava tão acostumado. Mas, vai por mim, depois que a tempestade passar, você vai perceber que foi a melhor coisa que te aconteceu na vida e que se livrou de uma enorme encrenca.


Claro, bem antes disso, você vai olhar para o alto e pensar: "30 andares... deve ser o suficiente". Então, vai subir no alto do Edifício Acaiaca, em Belo Horizonte (ou no Mirante do Vale, em São Paulo; ou ainda no Rio Sul Center, no Rio). Vai encenar essa novela mexicana durante um bom tempo até se tocar que não tem coragem para tirar a própria vida. Mesmo assim, ainda não se convencerá de que era ruim com Fifonho (ou Bodoquinha), melhor sem ele (ou ela).

Os amigos vão tentar te distrair e te chamar para a balada. Mas sua fossa será tamanha que vai afugentar quem chegar perto e, ô meu Deus, até mesmo os amigos vão ter que se revezar para te aturar. Que seja, amigo é prá isso.

Você ainda vai procurar seu ex-amor uma dezena de vezes, ensaiando uma reconciliação ou negociar um tempo, quem sabe... Não, você ainda não entendeu que quanto mais se arrasta, menos há chance de volta. E que, bobeando, o fato de não ter volta seja uma sorte maior do que ganhar a Mega-Sena acumulada por três vezes seguidas.

Depois de um mês sem fazer a barba (ou sem se depilar), você recebe um e-mail de consolo daquela amiga (ou amigo) que não via há anos. Um e-mail simples e curto, mas tão terno que faz você entender que o que recebia da ex (ou do ex) estava mais próximo do tapa do que do afago.

A garçonete do bar, ou o peão da obra da frente, dá uma piscadela e você pensa que não está tão mal assim. Aí você reage. Decide virar a página. Em menos de uma semana, já deu um trato no visual, se inscreveu num monte de curso que vivia dizendo que queria fazer ― inclusive o de gaita de fole, aquele instrumento desengonçado que Fifonho (ou Bodoquinha) sempre achou brega ―, encontra os amigos e resolve distribuir seu amor para a humanidade no carnaval de Diamantina.

Quando finalmente você se sente curado, o maldito Fifonho (ou a Bodoquinha) reaparece como que por milagre. Pensou melhor e percebeu que não pode viver sem você. E o que você faz?

Pára tudo!

Este é um momento decisivo, é o clímax de toda a sua curva dramática.

Já disse um sábio chinês que errar uma vez é humano, duas é burrice. Como o próprio termo diz, ex é ex. Já era. Passado, capicce? Toda maneira de amor vale a pena mas, em se tratando de relacionamentos amorosos, uma lei é universal: a da evolução das espécies. É o famoso "a fila anda". Sobretudo se você acaba de sair de uma abdução.

Suas pernas ainda tremem ao encontrar a figura, você sabe que se deixar, acaba tendo uma, duas, todas as recaídas do mundo. A carne é fraca? Então, ponha a mente para funcionar:

1º passo: Corra, Lola! Run, Forrest!

Evite o encontro ao máximo e vá procurar a sua turma. Vá viver! Vocês não têm mais nada para tratar (a não ser que tenham feito filhos no meio do caminho, aí a história é outra). O negócio é fazer as malas assim que sentir a aproximação do ponta-pé e sair correndo sem olhar prá trás. Lá na frente você vai começar a diminuir a toada, apreciar a paisagem, conhecer gente nova e interessante, assuntos instigantes e nem vai se lembrar de onde veio. Lembra o curso de gaita de fole? Pois é, aquilo lá rendeu um contato com a companhia de sapateado escocês Lord of the Dance e, veja só, aquela bailarina ruiva de cabelo cacheado tá te dando mole desde o primeiro ensaio. Fifonho? Bodoquinha? Quem?

2º passo: Ex não é amigo.

Ok, vocês foram o melhor amigo um do outro quando eram namorados. E nada impede que se falem amigavelmente vez por outra. Mas não vá achar que devem combinar saídas e encontros como se nada demais tivesse acontecido. Aconteceu. A casa caiu! E se você foi mesmo abduzido, uma amizade nefasta como aquela não acrescentará nada para a sua evolução pessoal. Deixe os encontros a encargo do destino: atravessando o sinal no meio da rua, xingando no trânsito, essas coisas...

3º passo: Deixe de ser masoquista!

Guardar e ler a cada dois dias as cartas, os e-mails, ver as fotos, ficar remoendo todas as lembranças, manter aquela quantidade de bibelô ou bichinho de pelúcia que só servem para acumular poeira e mágoa... Nada disso vai aplacar a falta que você está sentindo. Pelo contrário, isso só prolonga ainda mais o sofrimento e te faz perder um preciosíssimo tempo produtivo. Jogue tudo fora. Queime essa tralha toda, doe, jogue no rio, faça o que quiser, mas limpe o ambiente.

4º passo: Provocar ciúme pra quê?

Você saiu daquele relacionamento se sentindo a lasca da unha encravada do soldado raso da Primeira Guerra Mundial. Nada mais compreensível que agora queira "dar o troco", mostrar que está bem, que deu a volta por cima. O problema é quando quer mostrar que está melhor que o outro. Você começa a se render a subterfúgios na internet, por meio de amigos para fazer o ex (ou a ex) saber que você agora é secretário pessoal do Bill Gates ou que está "pegando" uma das (ou um dos) modelos do São Paulo Fashion Week. Se você comprar um boneco vudu numa loja de macumba, dá na mesma. Você acaba dedicando horas do seu precioso tempo nessa atividade estéril de continuar roendo o mesmo osso. Não percebe que se continuar na sua pode encontrar um prato de filé mignon mais à frente.

5º passo: Produza!

Quer esquecer alguém? Lembre-se de você mesmo e trabalhe! Trabalhe como nunca trabalhou antes na sua vida. 8, 9, 10, 15 horas por dia. Quando cansar, vá para a academia ou vá pedalar um pouco. Gaste energia numa caminhada. Nos fins-de-semana, divirta-se até desopilar o fígado. Vá ao cinema sozinho. Finalmente você não se sentirá obrigado a assistir aqueles filmes idiotas de ação ou aquelas baranguices românticas. A pipoca renderá mais e, de quebra, você se instrui com filmes edificantes.

6º passo: Não se iluda.

Tudo bem, você terá freqüentes arroubos de carência. Mas não vá achar que sair à caça em bares vai aplacar essa sua falta e te por diante da sua alma-gêmea, a quem você finalmente poderá confiar toda a sua existência e o seu amor. Pode "pegar" dez ou doze numa única noite. A cara-metade que lhe é destinada não estará nessa lista. Quando acordar, aquela ressaca moral e o vazio vão te dar um esfuziante "bom dia". E isso se repetirá ad infinitum, até você entender e aceitar que ninguém aparece na vida do outro para "salvá-lo".

Quando você finalmente aprender a cuidar de si mesmo e se virar, vai acabar topando com outra pessoa em igual condição e então contribuirá para a teoria darwiniana da evolução das espécies. Se não achar que é capaz de tal proeza, ao menos tenha certeza de que Fifonho ou Bodoquinha nunca mais terão assento no seu sofá. Como diria Armstrong (o cara da lua, não o trompetista, por Deus!), isso seria um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade.



Pilar Fazito. in. Digestivo Cultural


Reescrever um livro*

Neil Gaiman, por Mizzy Chan

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.


Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.


Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo


Robert Doisneau (1912-1994)*


Autoportrait

Originalmente formado em litografia, Robert Doisneau abraçou em 1929 um novo interesse como fotógrafo autodidacta. Via a fotografia como o meio ideal de registar a vida durante os seus passeios por Paris. A sua carreira como fotógrafo começou em 1934 na fábrica da Renault em Billancourt, onde esteve empregado como fotógrafo industrial e de publicidade. Ainda em 1939, decidiu tornar-se fotojornalista independente, mas a guerra forçou-o a desistir do sonho de vir a trabalhar por conta própria. Serviu o exército francês em 1940 e daí até ao fim da guerra trabalhou para a Resistência. Mas mesmo assim não desistiu de trabalhar como fotógrafo, fazendo postais para ganhar a vida. Em 1949, Doisneau assinou contrato com a revista Vogue, para a qual trabalhou como fotógrafo a tempo inteiro até 1952 e, desde então, como independente. Mas não entrou para os anais da fotografia como fotógrafo de moda. O que o tornou famoso foi a "fotografia de rua". Em inúmeros instantâneos, documentou com humor e empatia a vida nos subúrbios de Paris. A sua fotografia mais famosa é "Beijo em frente ao Palácio da Câmara Municipal", que se tornou um ícone do amor jovem e violento numa grande cidade. Robert Doisneau nasceu em Gentilly, perto de Paris, em 1912 e morreu em Paris em 1994.

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Robert Doisneau is one the most famous French photographers. Doisneau lived in France from 1912 to 1994, where he specialized in people photography, taking shots of common people as he wanders through the streets of Paris and its suburbs. His life: Robert Doisneau was born on April 14, 1912 in Gentilly, in the suburbs of Paris. Having a not-so-good experience at school, he entered a craft school at the age of 13. This is where he had his first contacts with arts. The school gave a very limited art training, which he complemented with evening classes in life-drawing and still-life. Doisneau's interest in photography started in 1929 and he started as a professional in 1934. He worked for Renault until he was fired in 1939. In 1939, he decided to become an independant photojournalist, but was called by the French army, where he served until 1940. He then worked for the "Resistance" until the end of the war. In parallel, he produced postcards to earn a little money. In 1949, Doisneau signed a contract with Vogue, for him he worked until 1952. As of 1952, he started working as a freelance photographer. Doisneau died in April, 1994 in Paris. His art: Robert Doisneau's photographs were ones of common people, in common situations. He liked to wander in the streets of Paris suburbs, and to take his photographs as he went. His most famous photograph, Kiss by the Hotel de Ville, is a good representation of his style. Doisneau liked to practice photography with intuition, rather than with science.


in. O século prodigioso 

Segue abaixo alguns de seus trabalhos:

Les Freres, 1934

Le ruban de la mariée, 1951

Women with the Same Hat, 1956

Les écoliers de la rue Damesme, 1956

Barbarian prisoner and Callipygian Venus, Versailles, 1966

Kiss by the Hotel de Ville, 1950


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Versos a um coveiro*


Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!


Augusto dos Anjos. in. Toda a Poesia. Ed. Paz e Terra, 1976, p. 171.


O melhor governo é o que não governa*



“O melhor governo é o que absolutamente não governa”, e quando os homens estiverem preparados para ele, será o tipo de governo que terão. Na melhor das hipóteses, o governo não é mais do que uma conveniência, embora a maior parte deles seja, normalmente, inconveniente – e, por vezes, todos os governos o são.

Henry David Thoreau. in. A Desobediência Civil. Ed. L&PM, 1997.


Língua nossa de cada dia*


Temos o produto em estoque!

Ande com cuidado, ande deGavar!

 Nova espécie de frango... é meio porco, mas é frango.

O importante é comunicar, certo? 

Carta Omante, deve ser boa!

É, ficou meio obsceno mas entendi na Segunda leitura.

Certo! certo! certo! Só é mãe quem dá!


Retrato de família na Jordânia*



Num dia do ano de 1998, Yasmin Abdullah entrou em casa chorando. Só atinava dizer e repetir:

- Não sou mais uma menina.

Tinha ido visitar a irmã mais velha.

Foi violada pelo cunhado.

Yasmin foi parar no cárcere de Jweidah, até que o pai tirou-a de lá comprometendo-se a cuidar dela e pagando a fiança correspondente.

Naquela altura, o pai, a mãe, os tios e setecentos vizinhos tinham decidido, em assembleia, que a honra da família devia ser lavada com sangue.

Yasmin tinha dezesseis anos.

Seu irmão, Sarhan, meteu-lhe quatro balas na cabeça.

Sarhan passou seis meses na prisão. Foi tratado como herói.

Também foram tratados como heróis outros vinte e sete homens presos por casos semelhantes.

De cada quatro crimes cometidos na Jordânia, um é crime de honra.



Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 293-294.


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Dinheiro é droga*



O Capitalismo começa como uma espécie de realismo pragmático, mas depois de um certo ponto degenera em delírio quantitativo. No começo, ele é materialista até a medula. Escarnece da religião, faz pouco das ideologias, torce o nariz para a arte, dá um chega-pra-lá em todos os subjetivismos e diz que no mundo somente as coisas materiais contam. Só conta o que dá resultado, o que gera riqueza, o que produz. É nessa fase, por exemplo, que as manifestações artísticas são enxotadas para o sótão dos “Passatempos Para Gente Desocupada”. Por que perder tempo com coisas que provocam apenas prazer estético e enriquecimento espiritual? Já que ninguém pode quantificar prazer estético, ninguém pode lucrar planejadamente com ele. Quanto ao enriquecimento espiritual, pra começo de conversa não existe essa coisa chamada espírito.

Na sua fase produtiva, o capitalismo impõe um culto à produção, à matéria, às transformações das matérias primas em produtos. Esse culto é tão forte que contaminou o próprio comunismo, em suas tentativas falhadas de substituir o adversário. Estatizando o Capital e glorificando o Trabalho, o comunismo perpetuou e ampliou as ladainhas à máquina, à indústria, à produtividade, à transformação da natureza. Materialista por definição, o comunismo foi, neste aspecto, uma mutação avançada do capitalismo. Só existe o que é “material”.

O que destruiu o capitalismo e vai destruir o mundo (não se enganem) é o estágio seguinte, em que a Matéria cede lugar ao Símbolo. O capitalismo deixa de ser concreto e passa a ser abstrato. Já não conta mais quantas moedas de ouro você possui, e sim quantos zeros você acumula em suas contas bancárias. O Capitalismo Financeiro sucedeu ao Capitalismo Produtivo e começou a tirar milhões de coelhos virtuais de dentro da inesgotável cartola das manipulações bancárias. É irônico que um sistema de pensamento tão voltado para o que é sólido tenha se desmanchado no ar com tanta facilidade; e que as “águas glaciais do cálculo egoísta” tenham se evaporado nessa neblina impalpável, nessa nuvem dos trilhões de dólares inexistentes que são negociados todos os dias nos mercados mundiais. Trilhões de zeros que bancos, empresas e países vendem, compram, revendem, emprestam, dividem, partilham, multiplicam, como se esses zeros todos valessem alguma coisa, como se existisse algum lastro produtivo (ouro, prata, grãos, capim, sei lá, qualquer coisa que servisse para algo no mundo real). O Capitalismo embebedou-se de Capital, passou a se alimentar não de produção mas de ficções financeiras, como um drogado que deixa de comer e de beber água, para poder continuar se drogando.


Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo



terça-feira, 10 de abril de 2012

Uma História Severina*



A consequência direta da ignorância e insensibilidade do Judiciário no nosso país. E como sempre, os mais fragilizados socialmente são as principais vítimas. 

Não deixe que decidam por você!

Assista ao vídeo abaixo, se informe, tire suas conclusões e se posicione:





Dentro e fora da história*


Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas de bombas, como os seminários nos quais o IRA aprendeu a transformar fertilizante químico em explosivos. Essa situação nos afeta de dois modos. Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico em particular.

Eric Hobsbawm. Sobre História. Ed. Companhia das Letras, 1998, p. 17-18.


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