O século XX foi cruel com Freud, embora ele seja considerado
uma das maiores "cabeças" do período. É moda dizer que foi refutado e
que a maioria das suas "teorias" caiu por terra — apesar de ele ter
consagrado a psicanálise. Hoje em dia, lê-se por aí que Freud é mais visto como
"filósofo" do que como cientista (Wittgenstein,
um filósofo contemporâneo seu, sempre duvidou que houvesse ciência em seus
procedimentos). A neurociência chegou para impor suas "verdades"; mas
a verdade é que Freud propôs um dos melhores modelos para a "mente
humana" de que se tem notícia.
Todo mundo conhece o "id", o
"ego" e o "superego". Os três caíram no gosto popular. O id
seria o que resta de "animal" em nós ("animal" entre aspas,
porque os verdadeiros animais não têm culpa). Michael Kahn, autor de Freud básico (um
guia extremamente confiável, lançado recentemente pela editora
Record/Civilização Brasileira), compara o "id" ao "monstro"
do conto Dr. Jekyll and Mr.
Hyde (O médico e o monstro),
de Robert Louis Stevenson. O id quer realizar todos os nossos desejos e não
entende que uma recusa ao "prazer momentâneo" pode se converter em
"prazer duradouro". Aí entra o ego.
O ego ou a "consciência" faz a
mediação (no jargão futebolístico: o "meio-de-campo") entre o id,
insaciável, e o superego. Este último serviria para nos punir e para frear
nossos instintos, com base na experiência. Kahn dá um exemplo ótimo:
aprendemos, quando crianças, com os nossos pais, que não devemos transgredir
certas normas sociais; no início, somos punidos e corrigidos por eles; mais
tarde, sua mera presença nos faz lembrar de como devemos nos
comportar; com o tempo, incorporamos as lições dos nossos pais em nós, de tal
forma que o superego assume o papel de "vigia" dentro da nossa cabeça.
O superego é aquela voz que nos diz que
"alguém pode estar olhando" (como na frase de Mencken). Kahn sugere a
imagem de um "porteiro", que decide (como no conto de Kafka) quem
deve ou não atravessar a "porta da consciência". Mas o superego pode
ser traiçoeiro, crescer demais na vida de uma pessoa e, por meio da
"culpa", impedir que ela se desenvolva como ser humano. O superego
pode ainda protelar um "desejo" indefinidamente, de modo que ele se
transforme em "recalque" — e lá vai o sujeito engrossar o coro dos
"recalcados".
Freud é tomado, junto com Darwin e Marx, como
uma das "bestas do apocalipse", porque ajudou a enterrar o que restou
de "religiosidade" no século passado. E, realmente, depois de estudar
Freud, fica difícil concordar que a "culpa" (como vista, por exemplo,
pela igreja católica) possa trazer algum benefício ao indivíduo. Kahn evoca a
vida de santos que, para livrar-se de "pensamentos pecaminosos",
impunham castigos ao próprio corpo — para eles, a fonte de todo o
"mal". Tinham razão; mas, pensando neles, Freud balançaria a cabeça
negativamente, como se dissesse: "Tsc, tsc, tsc...".
Os "desejos" simplesmente existem em
nós. Não têm qualquer origem "moral". Brotam junto com os pensamentos
e não devem ser tomados como um indício de "má conduta" ou de
"mau comportamento". Aqueles santos, que se autoflagelavam, não
diferenciavam os seus "atos" das suas "vontades". Para
Freud, um dos "custos" da civilização era justamente esse: impor que
as últimas não se convertessem nos primeiros — e garantir uma convivência
harmônica entre os seres humanos. Contudo, sem a pretensão de querer anular
"desejos inconvenientes"; afinal, eles poderiam nos dar pistas para
uma das forças mais poderosas que regem a nossa vida: o inconsciente.
O "inconsciente" não foi uma invenção
de Freud, como aponta Kahn. Já existia na obra de poetas; e, justamente,
aqueles com melhor acesso ao inconsciente seriam os "artistas".
Muitas das nossas motivações ao longo da existência, por mais que as
"racionalizemos", emanam do nosso inconsciente. Ele é a chave, por
exemplo, para entender por que cometemos sempre os mesmos erros; por que
reagimos a determinadas situações de forma semelhante; e, principalmente, por
que não superamos certas dificuldades que nos acompanham desde a infância, até
a idade adulta.
Freud, no contato com seus pacientes, descobriu
que os "sonhos" eram o melhor caminho para o inconsciente. Através da
sua "interpretação", por meio de associações de palavras, curou muita
gente da chamada "compulsão à repetição", permitindo que pudessem
viver plenamente. Afinal de contas, as relações que construímos desde que somos
crianças e adolescentes tendem a se refletir, futuramente, nas ligações que
continuaremos a estabelecer em etapas posteriores. Assim, um "trauma"
ou um "complexo" mal resolvido pode redundar em problemas, cuja
origem, depois, só ficará clara através da sondagem do inconsciente.
Portanto, é central na obra de Freud o
"complexo de Épido". Ele fica claro se tomarmos o caso dos
"meninos" mais do que das "meninas". Esses, para completar
seu "desenvolvimento psicossexual", precisariam, em algum momento na
puberdade, suplantar a figura do "pai" e conquistar a da
"mãe". (Aquele que não fosse bem sucedido nesse instante sofreria as
conseqüências.) A "conquista" da mãe, para o jovem rapaz, é a prova de
que ele pode, posteriormente, conquistar outras garotas e, metaforicamente,
"assumir" o lugar do pai (na família que irá constituir depois).
Freud acreditava que os homossexuais "falhavam" ao tentar sobrepujar
a figura do pai — o que provocaria, neles, uma identificação com o mesmo, de
modo que passariam a vida "(re)conquistando" o pai (através de outros
homens) e não a mãe. Do mesmo jeito, aquele que "falhasse" ao tentar
conquistar a mãe se converteria num "dom juan" — que procuraria, em
todas as mulheres que encontrasse, a figura da genitora, para subjugá-la ao
final. (Talvez por esse motivo, Freud afirmasse que o "conquistador
inveterado" está a um passo do homossexual [vide Lord Byron].)
Kahn, igualmente terapeuta, narra casos de
pacientes que, à medida que o tratamento avançava, "projetavam" nele
a imagem do pai ou da mãe. Alguns adotavam uma postura "desconfiada",
agindo, em relação a ele, como "filhos rebeldes"; outros formavam um
vínculo de tamanha afetividade que terminavam querendo estabelecer relações
amorosas. Há, particularmente, no livro, a história de uma moça cujo
"corpo" lhe enviava sinais do inconsciente: ela comparecia às sessões
cada vez mais arrumada e ansiava por que Kahn a "desejasse", como o
pai que não a desejou — a fim de suplantar um "complexo" que a
impedia de relacionar-se com rapazes de sua idade. (Uma vez percebido isso, foi
desatado o nó que levou à "cura".)
Freud chamou o fenômeno de
"transferência" — e ele é bastante comum até os dias de hoje (vide os
filmes de Woody Allen). Como dito anteriormente, a representação do
"pai" e da "mãe", junto com os primeiros vínculos que
estabelecemos, vão ecoar pela vida afora: na escola, no trabalho, na família,
etc. Freud via em toda e qualquer afeição um potencial "erótico". Nas
relações familiares inclusive (como o nosso Nélson Rodrigues, aliás), podendo
explodir em descargas aparentemente sem sentido, mas segundo um padrão previsto
no inconsciente. Não à toa, Freud considerava o amor da "mãe" pelo
"filho" um dos mais perfeitos para a mulher — porque ele se realizava
sem a consumação carnal (que proporciona sempre tantas frustrações).
Ainda com relação ao "pai", Freud teve
dúvidas ao nomear o "complexo de Édipo". Baseando-se na obra-prima de
Sófocles, percebeu que poderia muito bem chamá-lo de "complexo de
Laio". Pois, como um dos protagonistas da história, os "pais" se
sentiam ameaçados pelos "filhos" recém-chegados e temiam, como
efetivamente acontece, que estes tomassem o seu "lugar", usurpando do
"rei" o trono. Kahn fala de culturas em que, quando o bebê nasce, o
pai é afastado do leito — o que evoca a imagem da "sucessão". Os
"pais" então, inconformados com a perda da "posição", e
enciumados diante do amor que a mãe naturalmente dedica ao recém-nascido,
voltar-se-iam contra os próprios "filhos", em represália.
Freud e Kahn retornam ao "pai" e à
"mãe", ainda uma vez, para discorrer sobre a experiência do luto.
Freud achava "positivo" que a perda de um ente querido fosse vivida
plenamente. Notava que, em sociedades onde os rituais do luto eram seguidos à
risca, os indivíduos superavam mais facilmente a perda. A seu ver, era
necessário esgotar as lembranças do ente (por exemplo, em conversas),
incorporando, inclusive, hábitos ou mesmo pertences daquele que se foi, num
processo denominado "introjeção". Quem não atravessasse a contento a
experiência do luto ficaria preso num mundo "irreal", teria problemas
para confrontar-se com o "mundo exterior" e não construiria novas
relações, no lugar daquela que se rompeu.
É, em resumo, uma pena que todo o estudo,
empreendido por Freud, sobre a natureza humana, atualmente se restrinja a
alguns clichês, muitos conceitos equivocados e à firme convicção de que a
ciência, definitivamente, o "ultrapassou". A descoberta de Freud (que
era muito mais que "sexo" e "charutos") pode ser ainda
reveladora, ajudando muita gente — com ou sem terapia — a se conhecer e a viver
melhor com suas próprias idiossincrasias. Nesse sentido, Freud básico, de Michael Kahn,
apresenta-se como uma bela introdução.