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sábado, 2 de fevereiro de 2013

Memória da ofensa*


26 de janeiro. Jazíamos num mundo de mortos e de fantasmas. O último vestígio de civilização desaparecera ao redor e dentro de nós. A obra de embrutecimento empreendida pelos alemães triunfantes tinha sido levada ao seu termino pelos alemães derrotados.

É um homem quem mata, é um homem quem comente injustiças; não é um homem que, perdida já toda reserva, compartilha a cama com um cadáver. Quem esperou que seu vizinho acabasse de morrer para tirar-lhe um pedaço de pão, está mais longe (embora sem culpa) do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais primitivo ou o sádico mais atroz.

Uma parte de nossa existência está nas almas de quem se aproxima de nós; por isso, não é humana a experiência de quem viveu dias nos quais o homem foi apenas uma coisa ante os olhos de outro homem.

*Primo Levi in. “É isto um Homem?”. Ed. Rocco, 1988, p.173.

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Margaret Bourke-White—Time & Life Pictures/Getty Images

Survivors gaze at photographer Margaret Bourke-White and rescuers from the United States Third Army during the liberation of Buchenwald, April 1945



segunda-feira, 25 de junho de 2012

Snuff Movie na TV*




“A televisão mostra o que acontece? Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar. A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Por que a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona”. (GALEANO, Eduardo. "O livro dos abraços". 2.ed. Porto Alegre: L&PM, 2010, p.149).

Confortavelmente sentados em nossas poltronas somos “atacados” pela realidade, claro, uma realidade editada e ordinária. O espetáculo televisivo nos convida a participar, embora passivamente, do grande Show da vida. As telas cada vez maiores parecem colocar diante de nossos olhos enfeitiçados um mundo real. Somos aprisionados pela “grade” de programação. Somos atraídos por bundas, requebros, lágrimas, risos, tragédias, banalidades culinárias, falas discordantes e concordantes, produtos e Sangue.

Gostaria de me ater a esta última oferta, o Sangue. Não sei se vocês já repararam, mas nós temos uma atraçãozinha sádica pelo sangue. (O dos outros, óbvio!). Acidentes, desastres, morticínios, homicídios, suicídios, crimes de toda e qualquer monta nos prendem a atenção, mesmo que nos neguemos a olhá-los. As imagens de corpos dilacerados, carbonizados, fraturados, desmembrados, deformados etc., acabam alimentando o nosso pervertido e muitas vezes “inocente” desejo de sangue.

Incrível, mas não demorou muito a tornamos este fetiche algo comercial. A literatura, os jornais, o cinema, o rádio, a TV, e hoje a internet, são canais que nos alimentam, nos vendem e nos ligam a esta obscura faceta humana. O sangue corre solto por todos os lados, geralmente é o sangue alheio, e quanto mais distante, mais regozijo.

O cinema “clandestino” chegou mesmo a vender cenas de mortes REAIS de pessoas, não como estas que nos acostumamos a ver no noticiário jornalístico, mas cenas reais gravadas com o único fito de retratar alguém sendo assassinado. Estes filmes, conhecidos como Snuff Movie, atendem ao prazer perverso de determinados sujeitos. Os Snuff Movies representam o ápice do estado catártico de um indivíduo que se identifica com a violência potencializada na morte, no sofrimento, na dor e no sangue alheio.

O espetáculo em si tem o poder de extravasamento e purgação dos sentimentos reprimidos. Assim, por exemplo, o fazemos diante da tela mágica da TV quando nos mobilizamos para assistir um crime, uma violência qualquer, uma pornografia, uma traição, um ato incontido, uma revolta da carne ou do instinto, enfim, coisas que jamais teríamos a coragem de fazer, que teríamos medo, mas que naquele instante nós realizamos potencialmente, liberados que fomos dos demônios particulares, do sofrimento próprio e da morte própria.

Hoje, as câmeras espalhadas em cada fresta, em cada canto por nós frequentado alimentam nosso voyeurismo, nossa vontade de ver. Elas potencializaram nossa catarse porque tornaram pública a morte e a dor alheia, que já não pertencem mais ao foro íntimo, porque se transformaram em pauta jornalística. A dor e a morte reais estão na TV por vários ângulos, com nitidez de som e imagem em alta definição.

Quem não parou para assistir ao vivo, por exemplo, o ataque ao World Trade Center? Quem ainda não viu um crime registrado por “um circuito interno” de câmeras? Quem não acompanhou o passo a passo da morte da Juíza Patrícia Acioli, dado com “exclusividade” pelo Fantástico? Ou assistiu a morte, também ao vivo, da Professora Geísa no ônibus 174? A chacina na escola de Realengo no Rio? Ou coberturas feitas por programas "policiais" especializados no sensacionalismo? Sem falar de novelas, filmes, desenhos animados etc. Enfim, ossos, vísceras, tiros, facadas, membros contorcidos, cadáveres, gemidos, gritos, sangue... Tudo isso nos induz ao gozo coletivo, paramos para ver, ficamos chocados, comentamos, mas no intimo saímos com uma satisfaçãozinha perversa, parece até ficção, embora as mortes e os crimes sejam reais.

Os Snuff Movies estão na nossa programação diária, como um cardápio eles compõem nossa dieta visual. Eles tranqüilizam “quem se comporta bem”. Desligada a TV, levantamos ensanguentados e felizes da poltrona. Podemos até dizer que após esta pausa digestiva estamos prontos para encarar a vida lá fora.



Josenias Silva. in. Publicado no jornal O Dia, de Teresina – PI, em 01/10/2011. Caderno Em Dia, Coluna Fórum, pág. 4.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Retrato de família na Jordânia*



Num dia do ano de 1998, Yasmin Abdullah entrou em casa chorando. Só atinava dizer e repetir:

- Não sou mais uma menina.

Tinha ido visitar a irmã mais velha.

Foi violada pelo cunhado.

Yasmin foi parar no cárcere de Jweidah, até que o pai tirou-a de lá comprometendo-se a cuidar dela e pagando a fiança correspondente.

Naquela altura, o pai, a mãe, os tios e setecentos vizinhos tinham decidido, em assembleia, que a honra da família devia ser lavada com sangue.

Yasmin tinha dezesseis anos.

Seu irmão, Sarhan, meteu-lhe quatro balas na cabeça.

Sarhan passou seis meses na prisão. Foi tratado como herói.

Também foram tratados como heróis outros vinte e sete homens presos por casos semelhantes.

De cada quatro crimes cometidos na Jordânia, um é crime de honra.



Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 293-294.


terça-feira, 20 de março de 2012

Quando Thor encontrou Wanderson*



Por Paulo Nogueira


Thor Batista

Os dois têm, em comum, o nome estranho e improvável e a nacionalidade brasileira.
Thor e Wanderson.
O resto são diferenças que jamais os levariam a se encontrar. Thor, 1%, para usar a expressão consagrada no protesto Ocupe Wall St, anda num carro de quase 3 milhões de reais, uma McLaren. As multas por excesso de velocidade que Thor recebeu no período “probatório”, em que o motorista é testado logo depois de receber carteira de motorista, deveriam tê-lo impedido de dirigir.  Mas regras no Brasil não costumam ser aplicadas para o 1%. A família de Thor tem dinheiro e as conexões que isso traz: não há muito tempo, o governador do Estado tomou carona no helicóptero do pai de Thor cuja maior ambição não é ser o homem mais sábio do mundo,  ou o mais feliz, ou o mais generoso – e sim o mais rico.
Wanderson é o 99%. Bicicleta em vez de McLaren, e não por modismo ou por consciência ecológica. Simplesmente por necessidade. Feio por não ter a boniteza comprada pelo dinheiro: não poderia comprar o corpo de jogador de rugby adquirido por Thor com duas horas de exercícios diárias, e nem as roupas, e nem os produtos de beleza.


Wanderson Pereira

Contra todas as probabilidades, Thor e Wanderson, com suas vidas paralelas e opostas, acabaram se encontrando na noite de sábado, numa estrada.  Foi um encontro rápido. Thor em sua McLaren e Wanderson em sua bicicleta. Thor mal viu Wanderson. Salvo em circunstâncias excepcionais, os 99% são invisíveis.
No final da reunião relâmpago, Wanderson estava em pedaços, destruído pela McLaren. A imprudência, segundo o pai de Thor, foi de Wanderson.  Não há surpresa nisso porque no Brasil a culpa sempre foi dos 99%. E agora Thor retoma sua vida de herdeiro enquanto Wanderson lentamente vai desaparecer de nossas mentes até ser devolvido à miserável invisibilidade em que esteve imerso até o breve encontro de sábado à noite.



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