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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O mistério do gostar, as virtualidades, as vacilações*


Por que gostamos do outro? Convivemos, cotidianamente. Quando nos sentimos isolados alguma coisa parece quebrada. O silêncio faz bem, traz sossego, mas é importante não diluir as sociabilidades. Não gostamos de todo mundo. Seria impossível. Há pessoas que desmancham prazeres com ironias e arrogâncias. Freud explica. Posso ser simpático para muitos companheiros, sem agradar aos que estão próximos no trabalho. É difícil calcular a medida. O que atrai o afeto, o que deixa seguro, o que nos encanta? Construir uma classificação de valores é tarefa inútil. Não dispensamos, contudo, as diferenças. Não é a proximidade e o cuidado que, fatalmente, nos farão felizes.
Muita gente no mundo não tem solucionado o problema da solidão. As moradias estreitas, sem ares de aconchego, incomodam. As ruas cheias de ruídos, agressividades gratuitas, irritam. A arte do encontro é repleta de energias indecifráveis. Há amizades que se desfazem depois de anos, sem guardar vestígios. Há paixões que duram uma semana e alteram o cotidiano radicalmente. O sentimento não descansa. É preciso não anular as atenções, falar com estranhos, viajar por territórios desconhecidos. Prolongar o amor é o desejo da maioria. No entanto, o descartável é feroz. Não está, apenas, no consumo, segue pela história.
Somos animais sociais. Não vejo como duvidar disso. Por que as escolhas, por que uns desagradem, outros enternecem? Mesmo nas redes sociais, onde a virtualidade prospera, não fugimos das buscas. Não curtimos tudo ou exercemos o compartilhamento com apenas certas figuras. Há grupos fechados, antipatias implícitas, má vontade em responder. A multiplicidade de ações é incomensurável. Mas navegar no facebook é prova de que a sociabilidade possui outras atmosferas. Somos surpreendidos por reações. Muitas vezes, desistimos de persistir com diálogos. Não tem razão cartesiana que esgote as ansiedades que surgem nos momentos de dúvida.
Cada sociedade cultiva seus hábitos. Eles têm mudado com a velocidade da tecnologia. Ninguém consegue se esconder dos estragos que fazem um telefone celular ou alguém que estica sua curiosidade nos papos pela internet. Os interesses variam. Os telefones fixos perderam sua soberania. Pesam, servem como peças de ornamentação. Não vendo as imagens dos amigos virtuais atiçamos desejos e idealizações. Muitos planejam casamentos, tardes em cafés,  abraços envolventes, soluções imediatas para o desconforto afetivo. Não faltam decepções. Elas ocorrem, pois não há milagres, nem códigos que nos salvem de tudo.
Os desenganos não acabam com as tentativas. Quem conhece outras alternativas sente nostalgias do escurinho do cinema,  joga fora a tristeza, volta para aventuras mais antigas. Quem está entrando nas novidades com ares sedutores pode escorregar e maldizer a inexperiência. A vida não perde seu ritmo de jogo, pois é preciso abalar a mesmice, arriscar. Reservar-se sempre ou considerar-se senhor das verdades afasta redefinições, firma esconderijos melancólicos. As perdas estão nas regras do jogo, como a leveza no voo do tapete mágico. Não adiantar excessos.  Eles agitam incertezas. O bom é o gostar que chega, sem muita vacilações, acariciado pelo inesperado. Muita objetividade é sinal de desamores mascarados.

Antonio Rezende in. Astúcias de Ulisses 

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Cativar amizades*



E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia – disse a raposa.
- Bom dia – respondeu educadamente o pequeno príncipe, que, olhando a sua volta, nada viu.
- Eu estou aqui – disse a voz, debaixo da macieira...
- Quem és tu? – perguntou o principezinho. – Tu és bem bonita...
- Sou uma raposa – disse a raposa.
- Vem brincar comigo – propôs ele. – Estou tão triste...
- Eu não posso brincar contigo – disse a raposa. – Não me cativaram ainda.
- Ah ! desculpa – disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou:
- Que quer dizer “cativar”?
- Tu não és daqui – disse a raposa. – Que procuras?
- Procuro os homens – disse o pequeno príncipe. – Que quer dizer “cativar”?
- Os homens – disse a raposa – têm fuzis e caçam. É assustador! Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procuras galinhas?
- Não – disse o príncipe. – Eu procuro amigos. Que quer dizer “cativar”?
- É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. – Significa “criar laços”...
- Criar laços?
- Exatamente – disse a raposa. – Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
- Começo a compreender – disse o pequeno príncipe. – Existe uma flor... eu creio que ela me cativou...
- É possível – disse a raposa. – Vê-se tanta coisa na Terra...
- Oh! Não foi na Terra – disse o principezinho.
A raposa pareceu intrigada:
- Num outro planeta?
- Sim.
- Há caçadores nesse planeta?
- Não.
- Que bom! E galinhas?
- Também não.
- Nada é perfeito – suspirou a raposa.
Mas a raposa retornou o seu raciocínio.
- Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens também. E isso me incomoda um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. Os teus me chamarão para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...
A raposa calou-se e observou por muito tempo o príncipe:
- Por favor... cativa-me! – disse ela.
- Eu até gostaria – disse o principezinho –, mas não tenho muito tempo. Tenho amigos a descobrir e muitas coisas a conhecer.
- A gente só conhece bem as coisas que cativou – disse a raposa. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me!
– Que é preciso fazer? – perguntou o pequeno príncipe.
– É preciso ser paciente – respondeu a raposa. – Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, cada dia, te sentarás um pouco mais perto...
No dia seguinte o príncipe voltou.
- Teria sido melhor se voltasses à mesma hora – disse a raposa. – Se tu vens, por exemplo, às quatros da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz! Quanto mais a hora for chegando, mas eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!
Mas se tu vens a qualquer momento, nunca saberei a hora de preparar meu coração... É preciso que haja um ritual.
– Que é um “ritual”? – perguntou o principezinho.
– É uma coisa muita esquecida também – disse a raposa. – É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias; uma hora, das outras horas. Os meus caçadores, por exemplo, adotam um ritual. Dançam na quinta-feira com as moças da aldeia. A quinta-feira é então o dia maravilhoso! Vou passear até à vinha. Se os caçadores dançassem em qualquer dia, os dias seriam todos iguais, e eu nunca teria férias!

Assim o pequeno príncipe cativou a raposa. Mas, quando chegou a hora da partida, a raposa disse:
- Ah! Eu vou chorar.
- A culpa é tua – disse o principezinho. – Eu não queria te fazer mal; mas tu quiseste que eu te cativasse...
- Quis – disse a raposa.
- Mas tua vais chorar! – disse ele.
- Vou – disse a raposa.
- Então, não terás ganho nada!
- Terei, sim – disse a raposa – por causa da cor do trigo. Depois ela acrescentou:
- Se tu vens, por exemplo, às quatros da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz!


Antoine de Saint-Exupéry. in. O Pequeno Príncipe. Ed. Nova Fronteira, 2006, pp.64-69.


segunda-feira, 5 de março de 2012

Sobre a traição*



Por Paulo Nogueira
  
De Niro, em "Era uma vez na América"

VOCÊS ACHAM QUE tem solução este casamento?
Os fatos: a mulher, de quase 60 anos, três filhos, fica chocada com a doença que está matando um amigo. Antes de morrer, ele pede a ela que olhe por seu filho único, de 19 anos. Ela promete que sim. Morto o doente, ela se aproxima, maternal, do garoto 40 anos mais novo. Mas logo o sentimento maternal vai sendo substituído por lascívia, por instintos básicos, e os dois se tornam amantes na clandestinidade. Ela pede a empresários conhecidos que financiem um projeto do jovem namorado, um café. Consegue, e o café é aberto. O caso não dura muito. Ela pede o dinheiro de volta e nada. Desesperada, tenta se matar e nada. O marido finalmente sabe de toda a história. Diz que perdoa a mulher e que ambos vão se empenhar em resgatar o casamento.
É uma história real em que o fato central é a traição.
Vou dizer o que acho sobre o tema da traição, quer de uma mulher ou de um amigo. Lembro uma frase que li num romance de John Le Carré, um dos meus escritores favoritos, um mestre das tramas de espionagem. Um personagem diz a seguinte frase: “Mulher que me estapeou não teve uma segunda chance.”
É isso, folks.
Para mim, a pessoa que trai não tem uma segunda chance de trair.  Uma ponte foi explodida e jamais pode ser reconstruída como era antes, quer seja no amor, quer seja na amizade. Já traí uma mulher e fui supostamente perdoado, mas era uma anistia só na embalagem, como o tempo rapidamente mostraria. Já fui também traído por uma mulher, e logo vi que também minha anistia era fajuta. Era a parábola de Le Carré: não havia, verdadeiramente, uma segunda chance. Conheço gente que tentou, e foi um tormento.  A lembrança acorre, a cicatriz se reabre imprevistamente, o sangue jorra sobre a paz e a felicidade. Aprendi, traindo e sendo traído no amor, que você tem que pensar muito bem antes de dar o passo a partir do qual não há volta.  O marido do caso que contei está dizendo que perdoou a mulher. Sinceramente: não acredito. Quero ver no quarto do casal, na hora de dormir, o que eles vão conversar. Num caso clássico, Hillary Clinton perdoou, entre aspas, o marido Bill, segundo é amplamente acreditado nos Estados Unidos, em troca do apoio a sua candidatura presidencial, afinal frustrada por Barack Obama. Um perdão de mentirinha.
Na amizade é o mesmo. Montaigne escreveu que dois amigos são como um tecido tão bem cosido que você não nota a costura. A traição despedaça este tecido tão sublimemente descrito por Montaigne, que mesmo com uma alma quase invencível pela filosofia estóica que praticava ficou simplesmente aniquilado pela morte de seu maior amigo, La Boetie. São comoventes as palavras de Montaigne, em seus Ensaios, sobre seu amigo morto.
Há uma cena em Era Uma Vez na América, de Sergio Leone, em que dois caras que tinham sido os melhores amigos na infância e juventude se reencontram, já maduros. Um está rico, o outro pobre. O amigo rico se encheu de dinheiro por ter traído o outro. Todo o dinheiro que ele tem não lhe traz paz, no entanto. Ao olhar o amigo traído, ele tenta alguma reconexão.  “Lembra …” Impassível, o amigo traído diz: “Uma vez conheci alguém e gostava muito dele. Mas esse alguém morreu.” E vai embora, sob a música acachapante de Enio Morricone.
O amigo que trai, como a mulher que dá um tabefe na reflexão de Le Carré, não tem, para mim, uma segunda chance de trair. Você pode vê-lo por acaso na rua, como no filme de Leone, mas ele é apenas um fantasma, a imagem evanescente e desfocada de alguém em quem certo dia você confiou.



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