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segunda-feira, 6 de maio de 2013

O cavaleiro invisível*



Dom Quixote e Sancho Pança, por Gustave Doré (1832 - 1883)


Um homem solitário, caseiro, beirando os cinqüentanos, cansado da vida pequena e vazia na qual nada acontece, resolve ir ao mundo em busca de aventura, justiça e amor.

A vida que vive não é a venturosa vida dos livros, é outra, enfadonha e triste. O melancólico senhor, habitante da região de La Mancha, na Espanha, mergulhou nas histórias de cavalaria, a elas dedicou seu tempo e sua alma, de tal modo que esqueceu o mundo real. 

Vendeu até mesmo parte de suas terras, que não eram tantas, para comprar volumes e mais volumes de livros de cavaleiros andantes.

O valoroso fidalgo, de modestas posses, alto e seco de carnes, revolta-se: é preciso espelhar o sonho na realidade, plantar uma flor no solo ressequido da realidade.

Alonso Quijano vai ao mundo à procura daquilo que mudará o imóvel destino, quer reviver em si as lendas da cavalaria, e tecer outras, delas extraindo glória, reconhecimeno e o amor de sua amada, a não menos inventada Dulcineia del Toboso.

O que nos diz o Quixote é que a vida cotidiana é insuficiente. Falta vida à vidinha.

A figura imortal criada por Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1615) é o resumo da alma humana em suas maravilhas, esperanças, desesperos, contradições e tragédias. 

O Cavaleiro da Triste Figura saiu pelas estradas poeirentas e bosques da Espanha para resgatar os oprimidos, dar ânimo aos infelizes, levantar os desvalidos, socorrer os caídos, lutar contra todas as injustiças, e para salvar a si mesmo. 

Montado no magro Rocinante ele vai, armado cavaleiro andante, com escudo, espada e lança, tendo por companheiro Sancho Pança, meio louco e meio sensato como o amo, montado em seu jumento.

A vida tal como é não basta. É necessário inventar outra, erguer a aurora da escuridão. É preciso viver intensamente os dias que passam velozes e irrecuperáveis. 

Viver com a urgência de quem se despede. Viver como quem morre.  

"Eu, Sancho, nasci para viver morrendo."

Ninguém no mundo terá jamais autoridade para censurar Dom Alonso pelo desvario e fracasso da louca odisséia. Só os secos de espírito o fariam.

Não será essa busca o anelo secreto que habita o coração de tantos homens e mulheres na difícil jornada através do mundo hostil e trevoso, sonhando e lutando por uma outra existência, que faça valer a pena ter nascido? 

Há talvez um Dom Quixote adormecido e invisível em cada um de nós, à espreita da hora da rebeldia.

"Cada qual é artífice de sua ventura", ensinou-nos o Quixote.

*Jorge Adelar Finatto in. O Fazedor de Auroras

sábado, 4 de maio de 2013

A questão dos livros*



Colportor, s/d.

________ É importante poder sentir um livro – a textura do papel, a qualidade da impressão, a natureza da encadernação. Seus aspectos físicos fornecem pistas a respeito de sua existência como elemento num sistema social e econômico; e, se contiver anotações nas margens das páginas, pode revelar muito sobre seu lugar na vida intelectual dos leitores.

*Robert Darnton in. “A questão dos livros”. Ed. Companhia das Letras, 2010, p. 57.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Livros Clandestinos*



Meu nome é Sonntag, e sou bombeiro. Meu pai o foi também, e queimou muitos livros. Quando começou a salvá-los às escondidas, foi descoberto e morto pelas forças de segurança. Cresci ouvindo este exemplo ameaçador. Tornei-me bombeiro para conhecer essas obras proibidas, mesmo correndo o risco de ser executado. Enganava-me. Hoje em dia o Sistema balança, racha-se em fendas; a corrupção impera. Encontram-se livros à venda nos mercados negros de armas, de próteses, de venenos. Minhas leituras fervorosas e às escondidas são alimentadas por essa rede escusa de delinquentes, que fervilha nas favelas, nas ruínas ocupadas, nos casebres de beira-rio. Não se consegue saber de onde extraem esses tesouros.

Há boatos sobre bibliotecas soterradas, mas a verdade é que livros já não são impressos há mais de dois séculos. O papel é descartável, perecível. Cada exemplar merece ser preservado, porque tudo que está impresso é precioso. O que foi confiado ao papel constitui o esqueleto, a estrutura da existência humana; os pixels coloridos da TV são mera distração ou adorno. Daí que cada folha impressa valha uma pequena fortuna: trechos de romances dos quais não sabemos título nem autoria, mas que por isso mesmo tornam-se mais cheios de mistério e de valor. Não direi que entendo tudo que leio, mas nesses momentos sinto-me compartilhando de um ritual místico de transcendência, ainda que numa língua que me é desconhecida.

Muito ouvi falar em Shakespeare; para mim, são onze páginas arrancadas não sei de onde e costuradas umas às outras, pelas quais paguei uma pequena fortuna, no meu tempo de estudante. Tornei-me bombeiro e aumentei meu capital. Em menos de dois meses na corporação reuni exemplares completos de obras como “Meu nome é uma bala”, “Férias de amor”, “Apólogos Edificantes”, “As libertinas”, “Anais da Câmara de Vereadores”. Tornei-me capitão, e entrei para um grupo de jovens oficiais progressistas que lutam discretamente pelo fim do banimento.

Visados pelo Governo, temos que dobrar nossas precauções para que não encontrem nossos tesouros. Compro tudo que me aparece pela frente. Somente nesta semana um traficante vendeu-me vinte páginas de um livro do célebre Nabokov, a história marítima da caça a uma baleia; outro, um conto de Baudelaire intitulado “O poço e o pêndulo”; de um terceiro adquiri sonetos de Homero. Nomes que evocam memórias de um tempo mítico em que a cultura era acessível a todos. Tesouros que guardo num cofre por trás de uma parede secreta, feliz em saber que por mais que as ditaduras massacrem a cultura e o saber não há como destruir as grandes obras do pensamento humano.

*Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

sábado, 30 de março de 2013

Por uma história social da leitura*


A leitura tem uma história. Não foi sempre a mesma em todos os lugares. Podemos imaginá-la como um processo direto de extrair informação de uma página, mas, considerando-a um pouco mais além, concordaríamos que a informação precisa ser peneirada, classificada e interpretada. Os esquemas interpretativos fazem parte de configurações culturais, que variam imensamente ao longo do tempo. Como nossos antepassados viviam em mundos mentais diferentes, deviam ler de maneira diferente, e a história da leitura pode ser tão complexa quanto a historia do pensamento. (...) Não existem vias diretas nem atalhos, porque a leitura não é uma coisa distinta, como uma constituição ou uma ordem social, que possa ser rastreada ao longo do tempo. Ê uma atividade que envolve uma relação específica – de um lado o leitor, de outro o texto. Ainda que os leitores e os textos tenham variado de acordo com as circunstâncias sociais e tecnológicas, a história da leitura não deve ser reduzida a uma cronologia dessas variações. Deve ultrapassá-las, para enfrentar o elemento de relação que se encontra no núcleo da questão: como leitores mutáveis interpretam textos variáveis? A pergunta tem um ar abstruso, mas muita coisa depende dela. Pense-se na freqüência com que a leitura alterou o curso da história – a leitura de Paulo por Lutero, a leitura de Hegel por Marx, a leitura de Marx por Mao. Esses pontos sobressaem num processo mais amplo e mais vasto: o esforço infindável do homem em encontrar sentido no mundo em torno e dentro dele mesmo. Se conseguíssemos compreender como ele lia, poderíamos vir a compreender melhor como ele entendia a vida, e, por essa via – a via histórica –, quem sabe chegaríamos a satisfazer uma parte de nosso próprio anseio por um sentido.

*Robert Darnton in. “O beijo de Lamourette”. Ed. Companhia das Letras, 2010, pp. 200-201.

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La liseuse, c 1895
Oil on Canvas 117cm x 81 cm
William Adolphe Bouguereau, 1825-1905.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Em constante alegria com os livros*

(imagem: reprodução biblioteca Usp)


Depois de se afastar de atividades no governo, Michel se isola na torre do castelo da família, na região de Montaigne. No teto de sua biblioteca, grava frases em grego e latim de seus autores favoritos da Antiguidade. Passa a respirar diariamente aqueles nomes. Memoriza aqueles versos. Repete cada sentença. Comenta linha a linha aqueles autores vindos de muitos séculos. Incorpora-os. Dialoga com eles como quem conversa à mesa ou troca confissões em espaços de intimidade.
É esse o clima de fundo para a escrita de Ensaios, entre 1580 e 1588, que revolucionou a literatura em três pontos essenciais. Primeiro, ao criar um novo gênero literário homônimo, no qual a digressão é mais importante que o assunto. Segundo, por trazer à luz um dos primeiros pensadores ocidentais a incorporar, a partir dos relatos dos viajantes, o relativismo antropológico, e a refletir filosoficamente sobre os costumes dos índios brasileiros. Inspirando-se nas descrições de Jean de Léry, recém-chegado à França, compara-os aos sábios da Antiguidade grega. Terceiro: traz para o primeiro plano da literatura a interioridade e a consciência do autor. Como diz Montaigne ao leitor: “Eu mesmo sou a matéria deste livro.” Em um de seus impecáveis ensaios, cujo tema é justamente os livros, lemos uma de suas centenas de máximas: “Não faço nada sem alegria.”

É justamente essa frase em francês o ex libris que consta na primeira página de cada um dos 40 mil volumes da biblioteca pessoal doada pelo empresário José Mindlin e sua mulher Guita à Universidade de São Paulo (USP). Parte desse acervo pertencia ao bibliófilo Rubens Borba de Moraes, cuja biblioteca foi guardada pelo casal desde a sua morte. Mas antes dessa forma final, conhecida como brasiliana, quem guardava essas preciosidades era a própria casa de José e Guita, no Brooklin, em São Paulo. Espaço geograficamente muito distante das torres do castelo de Montaigne, mas muito próximo do nobre Michel, em seus mergulhos silenciosos na interioridade infinita dos livros.

Colecionador de obras raras

Por outro lado, um dos corações dessa brasiliana é a coleção de obras raras escritas pelos primeiros viajantes que percorreram e descreveram as terras brasileiras. Desse modo, além de viver, como Montaigne, em constante alegria com os livros, Mindlin refez o seu percurso em ordem inversa. Enquanto Montaigne sinaliza a boa nova dos novos costumes descobertos em além-mar e no Novo Mundo, Mindlin preserva todos os pontos de vista deixados por esses viajantes e naturalistas europeus do antigo continente, cujas obras, em sua heterogeneidade, são uma das maiores fontes de estudo e compreensão da natureza e da cultura dos povos que habitaram o Brasil entre os séculos 16 e 19.
Literaturas brasileira e portuguesa; relatos de viajantes e de naturalistas que escreveram sobre a terra brasilisem diversas línguas; manuscritos históricos e literários, tanto originais quanto provas tipográficas; periódicos; álbuns ilustrados; livros científicos e didáticos; edições valiosas de grandes obras da literatura nacional; compêndios de iconografia; livros de artistas; gravuras e muitas primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores. Primeiro a biblioteca tomou o próprio espaço interior da casa dos Mindlin. Em seguida, ainda dentro dos seus domínios, ocupou duas construções, na parte dos fundos, climatizadas e concebidas para receber um a um os livros que iam se somando à coleção monumental.

Por fim, como o cavalheiro Michel deixou os serviços do Estado para se dedicar aos ensaios e ao convívio com os livros, ao se aposentar, em 1996, da Metal Leve, empresa que fundou e presidiu, Mindlin pôde se aprofundar nessa atividade que havia começado na adolescência: colecionar obras raras. Foi assim que conseguiu construir a maior e a mais importante biblioteca particular do Brasil. Diferentemente de outros colecionadores, ao tratar de Mindlin, percorre-nos sempre uma atmosfera de proximidade, criada por sua personalidade e sua ligação afetiva emblemática com os livros. Falar de Mindlin é sempre recompor o passado. Aguçar a memória para ler as entrelinhas dos gestos. Encontrar para cada expressão facial um livro. Um autor. Um volume. Uma palavra.
O mundo e a palma da mão

Toda biblioteca pessoal, antes de ser uma biblioteca, é pessoal. Uma extensão daquele que a criou. Cada livro, um vestígio de sua vida. Um livro não traduz apenas aquele que o escreveu. Contém em si todos os que o leram. Revela todos os que, de mãos em mãos, o preservaram. Mindlin sempre frisou que ele e a mulher nunca foram proprietários da biblioteca, aberta aos amigos e a quem quisesse visitá-la. Eram seus dois guardiães. Em sua casa, em primeiro plano, duas poltronas, a de José e a de Guita. Ao fundo, uma estante na qual os títulos se avolumavam. Destacava-se, na horizontal, a enorme edição dos desenhos de Debret sobre fauna e flora brasileiras, que depois ganhariam vida nas melhores páginas de Guimarães Rosa.
Lembro-me de Mindlin folheando a edição parisiense, saída dos prelos de Firmin Didot Frères, em 1834. Vejo-o cotejando os diversos volumes de Henri Ternaux-Compans sobre a descoberta da América, publicados em 1841. Ele passa o indicador pelas ranhuras gastas das gravuras, placidamente observando a gravura de um ritual antropófago descrito por Hans Staden, na edição de Marpurg e Kolben, de 1557. Pássaros, plantas, mamíferos e árvores pintados por Von Martius, nos diversos volumes da edição de Leipzig, de 1871. Imagino-o observando a cartografia de todas as ilhas do mundo, composta por Benedetto Bordone na edição vêneta de Francesco Di Leno, no início do século 16. Ainda hoje posso visualizá-lo, andando em companhia de Francisco Adolfo de Varnhagen, nas edições Laemmert, de 1854. Entrevejo-o a sós, analisando a coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, na edição de 1507, que noticia a viagem de Cabral, primeiro livro em que o Brasil foi mencionado.
De onde vem essa ambição de abranger o mundo em uma sala de leitura? Talvez o livro seja justamente a materialização dessa nostalgia da unidade inapreensível da vida. Isso porque o livro é a tecnologia mais revolucionária que jamais foi criada, pois consiste em converter, em um único gesto (a leitura) duas dimensões aparentemente inconciliáveis: o mundo e a palma da mão. É, desde o seu surgimento, uma maneira de exteriorizar o sistema nervoso central e a memória humana sob a forma de um objeto material. Por isso seu fascínio indescritível, que deu ensejo até à definição das chamadas religiões do livro.
A memória nos trai bem

Talvez possamos identificar esse desejo de conciliar duas magnitudes, amplidão mundana e interioridade reflexiva, logo nos primeiros passos de Mindlin. Sua primeira obra rara, comprada aos 13 anos, chama a atenção: Discurso Sobre a História Universal, de Bossuet, em uma edição de 1740. Estaríamos aqui diante de uma ânsia juvenil de englobar o mundo? O adolescente já intuía a vocação de colecionador de amplos voos que lhe caberia? Por que, em vez de jogar bola, começou a brincar, nessa idade tenra, com o orbe da Terra? O que descobriu em segredo entre páginas amarelecidas de outras eras? A história sacra narrada pelo grande pregador francês do século 17 confere um sentido de salvação à história humana. Por isso, é abrangente. Universal. Pretende descrever as motivações divinas que regem as vidas no interior do tempo. Reconverter o tempo do mundo em tempo histórico. Fazer os extremos se tocarem. O eterno e o instante. O cosmos e o ser humano. Como diria Jorge Luis Borges, o universo e a biblioteca.

Mindlin não mensurava os livros por uma distinção de raridade ou valor, mas de preciosidade. Distinguia os mais queridos. Os mais almejados. Os mais difíceis de ser obtidos valiam mais. Diferentemente do que muitos possam supor, mesmo tendo à mão as edições mais raras, Mindlin deixava em um lugar privilegiado de sua poltrona de leitura a obra de um de seus escritores favoritos: Marcel Proust. Não poderia ser diferente. Depois de Montaigne, apenas Proust conseguiu tocar aqueles espaços poéticos de pura intimidade e recolhimento, aquela região da vida que, em solidão povoada, materializa o próprio ato da leitura.
A busca do tempo perdido realizada por Proust é também uma busca da relação entre verdade e imaginação. Desdobra-se naqueles espaços de devaneio, nos quais somos o que poderíamos vir a nos tornar no futuro e seremos o que está virtualmente inscrito em um passado hipotético que ignoramos. Por isso, a memória nos trai. Mas nos trai maravilhosamente bem, pois há muitos momentos recordados que têm mais força e espessura vital do que os momentos vividos. Isso não diminui em nada a vida de quem se entrega à doce traição da leitura, às minúsculas infrações dos livros, nos quais nos separamos da vida cotidiana por um tempo para vivermos uma espécie de isolamento feliz e consentido.
As impressões digitais

Penso aqui se toda essa obra deixada por Mindlin não foi um gesto proustiano de redescobrir o tempo e revivê-lo, em espirais cada vez mais vastas, transformando o passado imaginado em uma realidade presente. O lampejo do primeiro livro, comprado aos 13 anos, é a marca da memória por meio da qual Mindlin conseguiu iluminar a si com mais força. Tornou o passado ainda mais presente aos seus olhos, cercado pelos objetos que amava, reverberando em círculos. Assim, repetiu não apenas a raridade de seu primeiro Bossuet, mas também o seu conteúdo. Traduziu a história universal de homens anônimos na forma universal singularizada de um indivíduo e de sua biblioteca.
O belo prédio que agora abriga a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), no campus da USP, foi concebido por Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, que se inspiraram na New York Public Library e na Biblioteca Nacional de Paris. Alguns andares circulares guardam a brasiliana, como a biblioteca hexagonal sonhada por Borges.
Caminho por seus corredores, toco as lombadas gastas, observo em perspectiva a forma indefinida que a infinidade de livros cria quando abertos ao horizonte. Os círculos concêntricos se espelham, no interior das paredes de vidro. As impressões digitais de Mindlin continuarão aqui. Escritas em formas invisíveis, como na indefectível torre de Montaigne. E ele, sentado, nas poltronas de couro do saguão. Agora ele se mistura aos buritis de uma edição autografada por Guimarães Rosa, às anotações minuciosas de Manuel Bandeira, aos desenhos infantis de Oswald de Andrade, às falenas de uma edição de 1870, à caligrafia das anotações às margens de Machado.
Com alegria

Como dizia Mindlin, o vírus do amor aos livros é incurável. É preciso inoculá-lo no maior número possível de pessoas. Eu menti. Infelizmente, nunca conheci José Mindlin. O que fiz nestas linhas foi um exercício de admiração, como os do filósofo romeno Emil Cioran. Esboços de intimidade e de leituras incorporadas. Marcas de fisionomias alheias que incorporamos sem as ter conhecido. Porém, em outra ordem de realidade, não tenho dúvida de que um dia estive na casa dos Mindlin e folheei as primeiras edições de alguns dos seus maiores escritores. Naveguei pelo Atlântico, cruzei tempestades, naufraguei em meio a canibais, observei a fauna e a flora das costas brasileiras no século 16. E agora, ao atravessar o umbral da brasiliana, é a torre de Michel que se abre e fecha suas portas às minhas costas. Para que em silêncio eu possa povoar esse labirinto que no conduz à liberdade.
Por mais monumental que seja o edifício. Por mais grandiosa que seja a erudição. Por mais preciosas que ressoem as raridades que se espalham nessas estantes, em nenhum momento perco de vista que tudo começou com alegria.
*Rodrigo Petrônio in. “Eu&Fim de Semana” . Valor Econômico, 22/3/2013.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mis Libros*


Jorge Luis Borges (1899-1986)


Mis libros (que no saben que yo existo)
Son tan parte de mí como este rostro
De sienes grises y de grises ojos
Que vanamente busco en los cristales
Y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
Pienso que las palabras esenciales
Que me expresan están en esas hojas
Que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
Me dirán para siempre.

*Jorge Luis Borges in. “Obras Completas” (Tomo II). Ed. Emecé Editores, 1989. p.110.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Escrever e Respirar*



Suponhamos que daqui a 100 anos a atual crise ambiental se agravou a um tal ponto que a poluição envenenou a atmosfera de modo irremediável. Para sobreviver, a humanidade construiu imensas usinas produtoras de cilindros de oxigênio, que são acoplados aos nossos narizes desde o momento em que o cordão umbilical do bebê é cortado na maternidade. Todo ser humano vive feito um mergulhador, com aquele trambolho de metal numa mochila às costas e os tubos flexíveis conduzindo aos pulmões o gás indispensável à vida.  É de graça? Quem dera. As indústrias e os governos cobram, e cobram caro por isso. Mas todo mundo paga, ou melhor, quem está vivo é porque consegue pagar. Os que não conseguiram não pertencem mais à paisagem.

Um belo dia, um grupo de indústrias independentes inventa um processo químico de limpar a atmosfera e num piscar de olhos, em 20 ou 30 anos, o ar volta a ser uniformemente respirável, ou pelo menos fica igual a este ar que respiramos em 2012. E agora? O mundo entra em crise.  Dezenas de milhões de desempregados superlotam a Praça Tahir, a Plaza de Mayo, Wall Street, o Vale do Anhangabaú. “Queremos de volta a indústria do oxigênio”, bradam eles, arquejantes (e meio bêbados, claro, seus pulmões não estavam acostumados àquela overdose). Os governos arrancam os cabelos porque vão ficar sem os 71% de impostos que cobravam sobre a indústria respiratória. Filósofos ponderam: “Respirar de graça empobrece o senso de responsabilidade dos cidadãos. E esse desperdício de oxigênio não-respirado, francamente!”.

É uma crise assim que a tecnologia digital está precipitando num mundo que estava deixando de ter Cultura para ter Indústria Cultural. Os aspectos industriais e suas prioridades tomaram a frente, e a gente criou este universo surrealista em que a Cultura, que é o compartilhamento livre de informações e contatos entre as pessoas e os grupos, virou uma “commodity”, e nos preocupamos mais com a geração de empregos do que com a geração de idéias. É uma grave crise para todo mundo que ganhava dinheiro com música, filmes e livros – por uma coincidência sinistra, as três coisas com que eu próprio ganho a vida. O que fazer?  Ser contra? Não, amigo. Descobrir maneiras alternativas de ganhar dinheiro. Cultura é oxigênio, não pode ser nem estatizada nem privatizada, pertence aos animais individuais que somos, e não a Instituições. Na nossa cultura, aceitamos como normal que não se ganhe dinheiro para pular carnaval ou para fazer sexo.  Por que essa atitude não pode ser estendida a outras atividades?  Por que tudo tem que ser medido em termos de dinheiro?  Há mil outras maneiras de ganhar dinheiro.


Braulio Tavares. in Mundo Fantasmo

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Não dá pra ler tudo*


O aumento exponencial de textos eletrônicos disponíveis e gratuitos causa uma euforia sem limites e um pessimismo sem volta. Centenas de milhares de livros, milhares de filmes, milhões de músicas!  Tudo ao alcance de um clique, de graça!  O único senão é o fato de que o dia continua tendo apenas 24 horas.  Nosso tempo de leitura é o mesmo de que dispunham os leitores do século 18, ou mesmo os leitores da Grécia Antiga (e mesmo eles certamente se queixavam de que “não dava pra ler tudo”).  Esse “não dá pra ler” é relativo, e não faz muita diferença. Digamos que eu conseguisse ler um livro por dia; seriam 30 livros por mês.  Se meu limite é esse, não faz muita diferença se estou deixando de ler 100 livros ou um milhão.  Leio trinta, e acabou-se.

A questão é: Que trinta?  Porque era mais fácil escolher trinta entre 100 do que trinta entre um milhão. Não teríamos desculpa para estar lendo algo a contragosto, porque teríamos acesso, se não a tudo, pelo menos a uma quantidade inesgotável de obras que de fato queremos ler.  Tem muitos leitores de bibliotecazinhas humildes do interior, mundo afora, que ficam relendo seus autores preferidos, ou avançando aos bocejos por entre obras que não lhes interessam, apenas porque não aparecem livros novos.

E como ter acesso a informações novas, a autores que ainda não conhecemos? Cory Doctorow (do saite BoingBoing) diz: “Twitter e blogs são a única maneira de administrar a enorme quantidade de material disponível. Sem isto, ninguém sairia de sua órbita de contatos sociais, ninguém trocaria idéias com os milhões de pessoas que conhecem outros milhões, os polinizadores que pegam uma informaçãozinha aqui e levam para acolá. Sem eles, a conversa morreria. Essas pessoas garantem que o que é realmente bom acabará chegando ao topo da pilha e ficando acessível”.

O dia continua tendo apenas 24 horas, mas por isso mesmo é preciso preenchê-las bem. O leitor não deve imaginar que os milhões de livros possíveis de ler já lhe pertencem, ou estão de alguma maneira a cobrar-lhe um posicionamento. O leitor deve se perguntar: Entre trabalho e outras atividades, hoje em terei meia hora para ler.  Ou duas horas, ou cinco, etc.  Vou preencher esse tempo com que?  Você não precisa ter um iPod com mil romances, basta ter um livro por perto, um livro que lhe interesse. (Tanto pode ser digital quanto de papel.) Se você pensar nos mil livros extraordinários que gostaria de ler, não vai sair do canto. Basta ter sempre coisas boas por perto, e todo dia pensar: vou ler o que?  O fato de haver 100 vezes mais títulos disponíveis não me obriga a ler 100 vezes mais, apenas me ajuda a escolher melhor.


Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo

quarta-feira, 18 de abril de 2012

No pé da página*


Houve um tempo em que os livros eram copiados a mão nos mosteiros, em folhas de pergaminho. Obras importantes eram passadas a limpo por escribas hábeis, com caligrafias meticulosas que, vistas hoje, parecem ter sido impressas com tipos móveis, pela sua regularidade, harmonia e clareza. Ser escriba medieval exigia, além da caligrafia perfeita, boa cultura (para não cometer erros de grafia, e para poder eventualmente corrigir os erros da cópia que estava servindo de modelo), paciência e resistência física; porque em geral o escriba tinha que passar o dia inteiro debruçado sobre uma mesa, molhando a pena no tinteiro e desenhando letras após letras, hora após horas, dia após dia, ano após ano. Não era um serviço para qualquer um; e pelo menos uma grande obra literária, O Nome da Rosa de Umberto Eco, fez justiça a esses operários do saber, de um mundo que não existe mais.

O número da primavera da revista Lapham’s Quarterly (http://bit.ly/GDbCwa) traz uma matéria sobre o lado emocional desses artesãos anônimos: os comentários que eles deixavam anotados nas margens ou no cólofon das obras que copiavam. Ninguém é de ferro, não é mesmo? Esses monges de 800 anos atrás também não eram, e deixavam rabiscados, aqui e ali, seus pequenos protestos. “Estou com muito frio”, anota um. “Esta é uma página difícil dá muito trabalho para ser lida”, anota outro, lembrando-nos que estas cópias impecáveis eram muitas vezes feitas a partir de manuscritos muito velhos, danificados, com trechos arrancados ou ilegíveis. Alguns se queixam de pequenos problemas técnicos: “O pergaminho é peludo”, “A tinta é rala”, “Pergaminho novo, tinta rala, e não digo mais nada”. Alguns fazem uma autocrítica: “Esta página não foi escrita muito devagar”.


Mais comovente são os desabafos mais longos, que expressam bem o sentimento provocado por esse trabalho estafante: “Agora acabei tudo, pelo amor de Deus me deem algo para beber”. “São Patrick de Armagh, libertai-me do ofício de escrever”. “A escrita é um trabalho enfadonho. Ela enverga nossas costas, cansa nossa visão, torce o nosso ventre e as nossas ilhargas”. “Eu estava gelado enquanto escrevia, e o que não pude copiar aos raios do sol terminei à luz de velas”. “Assim como a visão do porto é bem vinda ao marinheiro, a da última linha o é para o escriba”. “Isto é tão triste! Oh, pequenino livro. Chegará um dia em que alguém lerá esta página e dirá: A mão que a escreveu não existe mais”. São pequenas queixas de homens anônimos que humanizam essas obras centenárias. É como encontrar na argamassa de uma catedral a marca de uma mão ou de dois joelhos humanos.



Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo


quinta-feira, 29 de março de 2012

Os livros são objetos transcendentes*





Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ­ o que é muito pior ­ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.
(Caetano Veloso, Livros)
Veja o Clip:

sexta-feira, 2 de março de 2012

Rabiscando livros*



Por Braulio Tavares



Diz-se que riscar um livro é uma mistura de falta de educação e desprezo. Não acho. Um livro é um mero suporte de um texto. Algumas pessoas o têm como uma distração descartável: o sujeito lê, põe o livro de volta na estante e, daí a alguns anos, manda vender no sebo. Para outros, porém, o livro é um objeto de trabalho. Ele não pega o livro para uma leitura casual e sem compromisso, e sim para um enfrentamento intelectual. Pega no livro (inclusive um romance, uma obra literária qualquer) para estudar. Nesses casos, meu conselho é que meta a caneta pra cima, se achar que com isso estuda melhor. A caneta serve, como diz Fausto Fawcett, como um contador Geiger que vai assinalando a radioatividade literária dos melhores trechos.

Há pessoas que têm memória visual, e recordam melhor um livro quando visualizam trechos sublinhados, parágrafos destacados com colchetes, anotações feitas nas margens. Minha memória é assim; quando penso naqueles livros que consulto com frequência, é a imagem da página que me vem à memória, com todos os riscos e todas as notas que fiz com meu próprio punho. Se lembro de uma frase que me é muito familiar, sei até se está a página da esquerda ou na da direita; lembro se fica no alto ou na parte baixa da página.

Se você não lembra as coisas assim, não precisa riscar o livro, mas, se riscá-lo desse modo o ajuda a marcar melhor as coisas na memória, meu conselho é que o faça. Quando releio um livro, releio primeiro as partes sublinhadas, porque sei que ali estão os trechos que nas leituras anteriores achei mais importantes. Não que eu concorde, necessariamente, com o que está dito; mas porque aquilo concentra melhor as idéias do autor, sejam elas o que forem. Alguns leitores desenvolvem códigos próprios. Diz-se que Guimarães Rosa criou o código “m%” (“meu, cem por cento”) para indicar trechos com os quais se identificava especialmente.

Costumo fazer conexões entre trechos do livro, quando vejo a mesma idéia repetida em pontos diferentes. Se vejo na pág. 150 algo que tem tudo a ver com um trecho importante da pág. 82, coloco: “ver pág. 82” ao lado, e voltando à primeira coloco “ver pág. 150”, incluindo aí quantas referências houver. Daqui a 20 anos, quando precisar consultar o livro, não preciso ficar procurando aqueles trechos durante uma tarde inteira. Também aconselho criar um índice remissivo no final, registrando os assuntos importantes e as páginas em que aparecem. Muitos livros trazem esses índices, mas nem todos registram os assuntos que interessam à gente. Rabisco um livro para poupar tempo a um leitor de daqui a dez anos, que por coincidência serei eu mesmo.


13.11.11


sábado, 25 de fevereiro de 2012

A muralha e os livros*


Por Jorge Luis Borges

                                                                                                                               Shih Huang Ti

Li, há dias, que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador, Shih Huang Ti, que também ordenou que se queimassem todos os livros anteriores a ele. Que as duas vastas operações – quinhentas ou seiscentas léguas de pedras, opostas aos bárbaros, a rigorosa abolição da história, isto é, do passado – tenham procedido de uma só pessoa e tenham sido de certo modo seus atributos, inexplicavelmente me satisfez e, ao mesmo tempo, me inquietou. Indagar as razões dessa emoção é a finalidade desta nota.

Historicamente, não há mistério nas duas medidas. Contemporâneo das guerras de Aníbal, Shih Huang Ti, rei de Tsin, submeteu a seu poder os Seis Reinos e eliminou o sistema feudal; erigiu a muralha, porque as muralhas serviam para defender; queimou os livros, porque a oposição os invoca para louvar os antigos imperadores. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum entre os príncipes; a única coisa singular em Shih Huang Ti foi a escala em que agiu. É o que deixam entrever alguns sinólogos, mas sinto que os fatos que narrei não são apenas um exagero ou hipérbole de disposições triviais. Cercar um horto ou jardim é uma coisa comum, mas não cercar um império. Também não vão pretender que a raça mais tradicional renuncie à memória do seu passado, mítico ou verdadeiro. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e nesses anos, o Imperador Amarelo e Chuang Tzu e Confúcio e Lao Tzu), quando Shih Huang Ti ordenou que a história começasse com ele.


[fragmento]


in. Nova antologia pessoal, 1969, pp. 202-203.


sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lima Barreto nas ruas de hoje*

Por José Castello



Entre tantas coisas, o que mais me entusiasma na leitura de "O passeador", romance de Luciano Hidalgo (Rocco), é seu esforço, delicado mas firme, para recuperar a imagem ainda hoje tão esmaecida, tão "escolar", do genial Lima Barreto. Seu esforço para segui-lo pelas ruas de um Rio de Janeiro que decai, enquanto se moderniza - o escritor como testemunha aflita de uma transformação. Para recuperar sua força, tão desprezada pelas vozes enfáticas e cheias de si do Modernismo de 1922. 

Ainda hoje, o Modernismo de 22 ergue-se como uma barreira entre nosso presente, nosso acelerado século 21, e a obra de Afonso Henriques de Lima Barreto. Morto justamente no ano de 1922, aos 41 anos de idade, ele teve no modernismo uma espécie nada sutil de carrasco. Com suas palavras de ordem renovadoras, sua aposta cega nas vanguardas, sua obsessão pelo futuro, os modernistas não souberam ver a força renovadora, a postura avançada, a aliança com o futuro que a obra de Lima significa. 

Misturando dados biográficos com uma imaginação exuberante, Luciana Hidalgo nos dá um romance que coloca Lima Barreto justamente onde ele devia sempre estar: no centro de uma grande aflição. Quase um século depois de sua morte, essa alma andarilha e aflita continua a nos servir como modelo para enfrentar um mundo que há muito desistiu das vanguardas (e,portanto, do futuro), mas que se transformou numa espécie monstruosa de devorador do presente. 

Mundo do imediato, do instantâneo, do tempo real, como se sentiria nele Lima Barreto? Certamente, nada bem. Contudo, ele se pudesse caminhar pelo Rio de Janeiro de hoje, onde duas vertentes opostas - beleza profunda e modas fúteis - também se misturam, nos ofereceria, por certo, um olhar devastador. Aquele olhar em que a crítica forte se mistura com a doçura, mescla que tanto nos falta. 

Lima Barreto via com desconfiança o mundanismo - e veria com a mesma desconfiança, por certo, o universo de celebridades que, hoje, toma a frente da cena midiática. Desconfiava do progresso a qualquer preço - e hoje desconfiaria também de certa idéia repetitiva e vazia de futuro que, enquanto parece avançar, nos arrasta para trás. Mulato em um país que acabava de abolir a escravatura, Lima veria hoje com desconfiança, por certo, a suposta "falta de preconceitos" raciais que esconde, no dia a dia, os preconceitos mais repulsivos. 

Faltam-nos os olhos agudos de Lima Barreto, sempre discreto, sempre pequeno, um tanto irônico quando pensa em si mesmo. Sem pose, sem desejo de fama e fortuna, livre das pressões da glória, disposto apenas - como fazem os grandes escritores - a viver e escrever. Se frequentava, com entusiasmo, um sebo na rua Gonçalves Dias, hoje, por certo, ele ainda estaria no mesmo sebo - em vez de perambular pelas livrarias de shopping. Retrocesso? Apego doentio ao passado? Ou, vamos experimentar pensar assim, busca de um caminho que seja apenas seu? 

O andarilho solitário é o oposto do homem contemporâneo que busca os holofotes e flerta com as multidões. O gosto pelo lentos passeios a pé (o flanar) contrasta com a alegria rápida dos jovens de hoje (Lima morreu jovem!), que preferem a inércia das lan house ou, ao contrário, as performances espetaculosas dos esportes radicais à lentidão do livre pensar. Observe-se as fotos que ficaram do escritor e nelas encontramos uma placidez que se mistura com a paciência. Paciência que tanto nos falta. 

Lima Barreto: nosso contemporâneo. É através de uma ficção, um romance delicado, e não de uma defesa de tese, que isso se torna mais claro. O romance de Luciana Hidalgo nos sugere que leiamos o velho Lima com novos olhos. Com nossos olhos - e não com os olhos daqueles que o desprezaram e até tentaram anular. Com os olhos do presente, um presente que não se ilude nem com o sangue do passado, nem com as miragens do futuro. Que tal encarar Lima Barreto? Um mundo inteiro se abre.



domingo, 12 de fevereiro de 2012

O santo e o culto*



Por Braulio Tavares


É uma história tão espalhada por aí que pode ser considerada um mito menor. Uma narrativa cuja estrutura básica surge em diferentes culturas, em qualquer época: a vida de um sujeito cujas façanhas o tornam famoso e respeitado, e que um belo dia morre (geralmente na guerra) ou desaparece. Em torno de sua memória cria-se um culto que acaba tomando proporções inesperadas. Outro belo dia, o Herói, que na verdade não tinha morrido, reaparece. E vê com espanto (ele volta incógnito, sem que ninguém o reconheça) que está sendo cultuado de uma maneira totalmente equivocada. O futuro celebrizou uma pessoa completamente diferente de quem ele julga ser.

A novela Roque Santeiro (Dias Gomes e Aguinaldo Silva) utilizou esta situação básica, fazendo com que Roque (José Wilker), que é na verdade um espertalhão, se divirta com o culto que se criou em torno dele, endeusado como se fosse um santo. Esta parece ser uma narrativa muito presente na memória nordestina. Em Livro dos Homens, de Ronaldo Correia de Brito, acontece algo parecido: encontra-se no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança.

A ficção científica deu sua contribuição a este mito com Um Cântico para Leibowitz (1960) de Walter M. Miller Jr., e com Limbo (1952) de Bernard Wolfe. Neste, um cientista, Martine, é dado como morto durante uma guerra mundial. Seus manuscritos científicos, encontrados por amigos, tornam-se a base para a reconstrução do mundo futuro, onde a ânsia pacifista leva os homens a amputar os braços e pernas e substituí-los por próteses. Acontece que Martine está vivo; ele passara 20 anos perdido entre os selvagens de uma ilha remota, e quando consegue voltar para a civilização fica aterrorizado com o mundo que encontra. Fica mais surpreso, e furioso, quando descobre que esse mundo tem seus escritos (mal interpretados) como um verdadeiro Evangelho. O resto do livro é sua tentativa para destruir esse mundo do qual é o involuntário profeta.

Limbo é o único livro de FC de Bernard Wolfe, escritor que teve uma vida aventureira, tendo sido inclusive guarda-costas de Leon Trotsky no México, e é uma interessante retomada desse antigo tema. Todo culto a um morto é um mal-entendido, e em muitos casos é também uma traição a esse morto, que, se retornasse, não se reconheceria na imagem que fazem dele.


(12.02.2012)



sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Os livros no espelho*


Por Fernando Paixão


Mais proveitoso que discutir o malfadado anúncio do fim do livro é entender o passado da história editorial brasileira à luz do seu contexto. Felizmente o assunto vem crescendo em interesse. Na última década foram editadas inúmeras obras com enfoque na trajetória de casas publicadoras, perfil de editores e tópicos afins. Bibliografia relevante, num país de curta memória.
No entanto, há de se admitir, parte considerável dos trabalhos costuma ficar circunscrita ao levantamento alcançado, sem se lançar em maiores voos. Enxerga-se o particular, deixando em segundo plano o escopo geral. Na qualidade de produto cultural, porém, o livro faz parte de um mecanismo simbólico amplo e que serve de espelho à sociedade.
Pode-se mesmo afirmar que uma das maneiras de se conhecer uma nação é pela história de suas publicações. Quanto mais atrasado for o grupo social, tanto mais o comércio da edição se desenvolve aos trancos e barrancos.
No caso brasileiro não foi diferente. Afinal, acumulamos um passado de domínio colonial asfixiante e contamos com menos de dois séculos de história para construir uma cultura letrada.
Então, podemos perguntar: de que maneira a cultura do livro participou no processo de formação da identidade nacional? Como se deu o florescimento do nosso mercado editorial? Duas obras lançadas recentemente podem ser lidas de modo complementar e permitem uma breve reflexão sobre o tema. Para tanto, é preciso voltar aos primórdios do século 19, tal como propõe O Império dos Livros [Edusp, 448 págs., R$ 90], de Marisa Midori Deaecto, ganhadora do Prêmio Sérgio Buarque de Holanda (ABL).

A autora parte de extensa pesquisa para fornecer um retrato da presença do livro na cidade de São Paulo, ao longo do período imperial. A novidade de seu estudo está em registrar em minúcias a vida nascente da leitura num burgo distante da capital do Império, mas que servia de posto avançado para os ideais da pós-Independência.
O ponto de partida se dá com a criação da primeira Biblioteca Publica de São Paulo, em 1825. Foi concebida a partir da transformação em bem público dos acervos do Convento de São Francisco e de um bispo diocesano. Mas, logo surgiram denúncias de que vários dos exemplares haviam sido “privatizados” por pessoas influentes, como o capitão-mor da cidade.
Outro fator de estímulo para a circulação livreira se deu com a criação da Academia de Direito, em 1827. O impacto da instituição foi de tal ordem que promoveu uma verdadeira mudança psicossocial na cidade.
A partir daí, as condições objetivas favoreceram o aparecimento das primeiras gráficas e edições locais. Símbolo máximo dessa época foi a Casa Garraux, inaugurada em 1859 e especializada em artigos franceses. Nela, também eram vendidas as publicações da Garnier, principal editora brasileira e que, a partir do Rio de Janeiro, monopolizava o sistema literário.
Radiografia
O estudo de Marisa Midori é farto em informações, deixando transparecer uma radiografia em que a circulação editorial cumpre um papel ideológico específico. A autora não avança nessa tese, mas talvez seja plausível enunciá-la.
A rigor, a cultura livreira cumpre função ambígua durante o século 19 brasileiro. Por um lado, torna-se um dispositivo para difundir informação e entretenimento, contribuindo para a emancipação da camada pensante da sociedade.
De outro lado, como houve pouco interesse das classes dirigentes em promover a educação do “povo”, o livro transformou-se em instrumento de identidade social de uma elite. Mais ainda, conformou-se a esse papel.
Isso não quer dizer que a indústria editorial não apresentasse crescimento e melhoria ao longo das décadas; mas essa dinamização respondeu, em boa parte, às novidades tecnológicas e ao aumento de demanda provocado pelo crescimento demográfico e lenta ampliação de escolaridade. Como resultado, vivia-se no meio paulistano uma sociedade em que “todos os que sabem ler se conhecem”.
Com a passagem para a República, o status quo não se alterou muito em âmbito nacional. Foi preciso passar pouco mais de um século de independência para que a situação tivesse real mudança de rumo, com a ascensão de Getúlio Vargas ao poder.
Novos tempos favoreceram os ventos de uma profunda alteração no mercado editorial, tendo José Olympio como personagem central. Sua atividade é ricamente analisada em Brasilianas [Edusp, 488 págs., R$ 75], de Gustavo Sorá. Lançado em 2010, o livro até agora foi ignorado pela crítica na imprensa.

José Olympio começou a trabalhar aos 15 anos, como empregado guardador de livros na Casa Garraux, em 1918. Treze anos depois se mudou para o Rio de Janeiro, onde abriu sua própria livraria e editora. Teve sucesso imediato e soube equilibrar os títulos de vendas altas com as obras de valor literário. Conseguiu como ninguém cultivar relações com escritores de esquerda e também publicava autores conservadores e oficiais.
Sorá, que é professor universitário argentino, aplica seu olhar de antropólogo sobre a trajetória que se segue aos anos 1930 e delineia, a partir da editora de J. O., um quadro bem interessante sobre os fatores que levaram a uma reconfiguração do setor no Brasil.
A partir do conceito de campo literário, criado por Pierre Bourdieu, o autor procura compreender as circunstâncias que tornaram a cultura escrita daquele momento protagonista de uma emancipação social mais profunda.
Concorrentes
Em resposta à nova ordem, houve a intensificação do consumo de livros, fazendo com que o ofício editorial se tornasse cada vez mais organizado e capaz de cobrir o território nacional. Em paralelo, ocorria uma renovação no plano da criação literária e ensaística, que ganhou alento para refletir sobre as questões nacionais.
Não por acaso, reuniu-se em torno da José Olympio um grupo de intelectuais como Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, José Lins do Rego, Gilberto Freyre e dezenas de outros nomes.
Inspirados pelos resultados de J.O., editores concorrentes seguiram-lhe os passos e estabeleceram as bases de uma nova relação entre a esfera editorial e a sociedade, no contexto do pós-guerra.
Casas publicadoras como Globo, Nacional, Martins, Brasiliense e outras deram continuidade a um processo em que a cultura letrada acabou por assumir a vanguarda de certos debates.
Com o advento da ditadura militar, em 1964, continuaram a atuar nessa linha editoras como Civilização Brasileira, Paz e Terra e Zahar, cujos lançamentos promoviam a discussão de ideias e o pensamento crítico.
Após a abertura política, na década de 1980, a indústria editorial alcança a efetiva maturidade. Editoras passam a publicar mais, ampliam os segmentos e entram na era do marketing. Assiste-se a uma visível profissionalização do setor, capitaneada por Companhia das Letras, Grupo Record e editoras escolares, entre outras.
No entanto, trazida a questão geral para os dias de hoje, saltam aos olhos certos sinais de anemia social, de que mundo do livro representa um sintoma. Deparamos com uma realidade no mínimo contraditória. De positivo, temos a abertura de megalivrarias, a farta presença de público nas bienais, o aumento de títulos publicados e a melhoria gráfica.
Ao mesmo tempo, convivemos com índices baixos de leitura, livros de preço médio alto, dependência dos programas de governo, concentração das vendas e consumo restrito a um grupo seleto de pessoas. Para complicar o “game” da nova era, o nosso “mercado” atrai cada vez mais as editoras estrangeiras.
Quanto à cultura escrita dos autores nacionais, perdeu o protagonismo e corre o risco de tornar-se apêndice da sociedade do espetáculo. Então, vale a pena lançar novamente a pergunta: que país aparece refletido no espelho de nossos livros atuais? Boa questão para, quem sabe, estimular um dos autores acima a iniciar outra pesquisa.




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