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terça-feira, 23 de abril de 2013

Alteridade*



Cada um é indutor da sociabilidade para o outro, e a simbologia corporal é uma memória que deve ser cultivada amiúde e alimentada no espelho do comportamento e das palavras do outro.

*David Le Breton in. “As paixões ordinárias”. Ed. Vozes, 2009, p.35.

quinta-feira, 7 de março de 2013

A colonização da mulher*


A invasão do cenário urbano pelas mulheres, no entanto, não traduz um abrandamento das exigências morais, como atesta a permanência de antigos tabus como o da virgindade. Ao contrário, quanto mais ela escapa da esfera privada da vida doméstica, tanto mais a sociedade burguesa lança sobre seus ombros o anátema do pecado, o sentimento de culpa diante do abandono do lar, dos filhos carentes, do marido extenuado pelas longas horas de trabalho. Todo um discurso moralista e filantrópico acena para ela, de vários pontos do social, com o perigo da prostituição e da perdição diante do menor deslize. (...) Vários procedimentos estratégicos masculinos, acordos tácitos, segredos não confessados tentam impedir sua livre circulação nos espaços públicos ou a assimilação de práticas que o imaginário burguês situou nas fronteiras entre a liberdade e a interdição.

*Margareth Rago in. “Do Cabaré ao Lar: a utopia da cidade disciplinar”. Ed. Paz & Terra, 1997, p. 63.

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Photo: Washington, D.C., circa 1919.


segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Infidelidade: quem ama trai?*


Até mesmo os especialistas em comportamento humano e sexólogos têm dificuldade em conceituar a infidelidade porque ela esbarra naquilo que nos individualiza, como nossa carga emocional, história de vida, dificuldades, limitações, angústias e querências as mais diversas, algumas até patológicas. 
A infidelidade requer uma visão tridimensional, "a da pessoa traída, a que trai e a terceira pessoa. Ela pressupõe a quebra do pacto de exclusividade na relação amorosa e gera sofrimento por ter que dividir o companheiro com outro alguém", afirma Clara Feldman, psicóloga, e autora dos livros "Sobre-vivendo à traição", "De Paixão e Cegueira" e "Encontro, uma Abordagem Humanista". 
Motivações não faltam para explicar a infidelidade. "Alguns argumentam que a qualidade do relacionamento não está boa, que se sentem insatisfeitos com a relação, outros porque apresentam a ‘síndrome do pavão’, aquele que seduz pelo simples fato de seduzir e depois abandona a pessoa. Esse tipo sente prazer com a traição e faz isso por necessidade de autoafirmação e pode chegar às raias do patológico. Um último grupo tem necessidade sexual compulsiva, gosta da adrenalina, do risco, inclusive de morte", enumera a especialista. 
Quem ama trai? "Trai, e muitas vezes não por razões ligadas ao relacionamento, que pode ser extremamente satisfatório, existir um sentimento de amor recíproco, intensidade na relação, mas mesmo assim, há espaço para a traição", diz Feldman. Mas no universo das traições existe espaço ainda para aquele tipo que só se sente seguro com a insegurança do outro. "O indivíduo trai e deixa sinais para que o outro perceba e se sinta inseguro em relação ao seu próprio valor. Ele trai com medo do outro traí-lo primeiro. Com isso o outro perde o foco em si e passa a se relacionar com aquilo que o outro quer que ele sinta. E vira uma relação doentia", diz a psicóloga. 
Regras
Não existem regras sobre quem trai mais, se o homem ou a mulher, mas "uma coisa é fato, o homem trai mais por razões ligadas à necessidade e a mulher quando se sente subnutrida amorosamente, quando o companheiro se torna agressivo, mal humorado e mantém atitudes depreciativas em relação à ela. Culturalmente o homem sente necessidade de afirmar a sua masculinidade, de se mostrar viril para os amigos, mostrar que transa com muitas mulheres diferentes. Questão de vaidade", enfatiza Feldman. 
A psicóloga cita o que chama de ética da traição. Aconselha a Bíblia a "não pecar por pensamentos, palavras, atos e omissões". Existem pessoas que se sentem traídas só quando existe sexo e outras com olhares. Mas quem cerceia a liberdade do outro corre mais riscos de ser traído. A pergunta é: em uma relação bem estruturada onde o diálogo permeia a relação, qual o dano que a traição por palavras, pensamento e omissões pode trazer?" questiona. 
Há dez anos, o sexólogo europeu Willy Passini pesquisou mais de mil mulheres e homens, perguntando o que eles preferiam: que seu parceiro transasse com ele pensando em outro ou transasse com outro pensando nele Resultado: Homens preferiam que as companheiras transassem com eles pensando em outro homem e as mulheres preferiam que seus parceiros transassem com outras pensando nelas. 
Infidelidade é um conceito abstrato 
“Tive oportunidade de atender pessoas que se confessavam voyer. Eram perversas porque sentiam prazer em ver o seu companheiro transando com outras pessoas, mas quando ele se envolviam e não contava para o parceiro, abalava a relação. Naquele momento se configurava o conceito de traição”, diz o sexólogo Gerson Lopes. 
Hoje existe infidelidade virtual 

Homens e mulheres que até fazem sexo pela Internet. “Nesse caso há infidelidade ou não? Além de ser polêmica no conjunto, ela é polêmica no conceito”, afirma o sexólogo. Tem infiel de todo jeito. “Uns são eternos conquistadores e não sustentam uma relação. A atração é mais forte que o envolvimento. Em uma relação saudável, ambos, passada a fase da paixão, terão que conviver com o lado escuro do outro”, diz o sexólogo. 
E nessa hora, vem o perigo. “As pessoas se envolvem com o ser idealizado, a ponto de transformá-lo em príncipe ou princesa. Quando descobrem o sapo ou a rã, acontece a desidealização. É quando a relação pode crescer”, pontua Lopes. 

Ana Elizabeth Diniz in. Amigos do Freud

domingo, 1 de julho de 2012

Meninas más*

"... As meninas boas vão para o céu. As meninas más vão para qualquer lugar."

sábado, 9 de junho de 2012

O artista medíocre*



Sou um artista medíocre que vive em uma cidade medíocre, povoada por pessoas medíocres.

A vida aqui é prosaica, nunca há um só tema bom para ser explorado, as pessoas não gostam de arte.

Quando olho o que faço sei que sou ruim, talvez não exista pior. Mas as pessoas aqui me consideram um artista, falam de mim como artista, me respeitam como artista e tenho medo de mudar o meu modo de ser.

Se respeitam a minha  mediocridade devo continuar a ser medíocre e talvez o meu grande talento seja esse, ser admirado pela mediocridade.

É do que gostam aqui, não querem que eu mude, faça coisas diferentes.

É bastante confortável viver assim.

Não ir contra a corrente. Igualar-se às pessoas.

A mediocridade é uma coisa confortável, sabendo que você é medíocre, ninguém espera nada de você.

Não preciso ser original, não preciso entender de nada, ler nada.

Um medíocre se destaca numa conversação, porque a mediocridade é a coisa mais admirada neste Brasil.

Temos a melhor televisão do mundo, e as maiores audiências, exatamente por ela ser medíocre.

Olhar sem pensar, sem raciocinar, sem refletir, sem ter papos cabeça.

É uma coisa confortável.

Vivemos a mais medíocre das civilizações, nunca este lindo país foi tão medíocre.

Políticos, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, professores, doutores, banqueiros e bancários, industriais, comerciantes e comerciários, alunos, putas (até putas estão medíocres, transam mal, chupam mal, recebem mal), padres, pastores, cantores, escritores, metalúrgicos, alfaiates, bordadeiras, marqueteiros, publicitários, futebolistas, treinadores, relojoeiros, bigbrothers, noveleiros, missionários, templários, cruzados, reis, príncipes, estilistas, mudos, cegos, surdos, anões, caolhos, zarolhos, mancos.

Não escapa ninguém.

Por isso me tranqüilizo sendo medíocre, ninguém é mais do que eu, nem menos.

Os brasileiros se igualam todos.

A humanidade vai se igualar em breve.

O futuro será medíocre.

Assim como medíocre é este texto, é quem o lê, é quem gosta dele, é quem o detesta, é quem o entende, é quem não o entende.

Como eu. Estou escrevendo e não sei o que escrevo.

Gostaria de ganhar o Premio Nobel de Mediocridade.

A palavra medíocre está na letra M de qualquer dicionário.



Ignácio de Loyola Brandão. in. “Revista Revestrés”. fev., 2012, p.66.


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Invejar é humano, porém... *



A inveja é um afeto sobre o qual costuma-se dizer que é humano como dizemos de tudo o que é errado como reza o ditado. Deste modo, estabelecemos o significado – perigosíssimo – do que é ser humano, como algo imperfeito e passível de falhas. Também derramamos um balde de perdão sobre aquilo que antigamente e de um ponto de vista religioso, chamávamos, pecado. Daí a dizer-se que é preciso ser perdoado por se ser humano, não se precisa de muitos passos. É também lógico, deste momento em diante, considerar que para se ser um ser humano é preciso errar, ou “pecar”. A conseqüência é a curiosa permissão ao erro. Passa-se do “ser errado” ao “dever-ser errado”. O que se conquista com isso, espera-se, é a humanidade. Porém, o contrário também pode ser válido: reduzir a humanidade à minha capacidade de errar. Neste ponto, o conceito de humanidade é que não vale mais nada, pois serve apenas a minha própria incompetência para ser melhor ou como esconderijo para a permissividade.

Mal democrático

A inveja - que já foi pecado no passado, quando a religião aparecia como esfera principal da experiência humana - hoje é apenas erro, pois vivemos numa sociedade secularizada. Que assim seja é bastante mais confortável, até porque atualmente somos capazes de medir a “tão humana” inveja pelos parâmetros do bem e do mal. Fazemos isso porque a inveja é muito comum, tão comum que muitos consideram-na natural. Tão natural que se tornou banal e, como tal, menos grave. Tão comum que, desavisados, podemos considerá-la boa, já que é um afeto democrático, ou seja, um afeto partilhado. E nosso anseio de sermos iguais, mesmo que pelo mal, ganha força. Grande engodo.

A cor da inveja

Fala-se de inveja branca como contrária da inveja má. Quem faz tal diferenciação pode até estar correto se for capaz de perceber o real modo de ser da inveja. Mas o termo é, sem dúvida, inadequado. Toda palavra, deve-se desconfiar, guarda sua história, seu sentido e, a cada vez que é pronunciada ou escrita, aciona sua função. É preciso fazer uma correção inicial e urgente: uma inveja boa, a rigor, já não seria inveja. Muito menos porque eu a admito ela seria melhor. Admitir que se fez algo errado é bom, mas não torna o erro melhor.

Foi Santo Agostinho, o filósofo da Patrística que, no terceiro século da idade média, percebeu pela primeira vez a conexão da inveja com a constituição primeira do ser humano. No famoso texto dasConfissões ele narra sua dúvida sobre a inocência das crianças que, primeiro anseiam pelos peitos de sua mãe e, logo maiores, ao verem o irmão pequeno que os possui, sentem inveja. A partir daí Santo Agostinho explicou sua conversão e fundou uma ética, a de que todo homem de bem deveria ser santo e, portanto, eliminar de si, com consciência e lucidez, um afeto negativo como este, mesmo que ele faça parte da constituição mais íntima do humano.

Santo Agostinho elaborou uma frase que informa sobre o significado menos banal da inveja: Video, sed non invideo, ou seja, vejo, mas não in-vejo. A inveja tem nexo com o ver. Se vejo, posso invejar. Se vejo, devo não in-vejar. Ver e não invejar seria o mérito daquele que vê. Ora, a inveja nasce do desejo de se ter o que o outro tem e, como quase dez séculos mais tarde disse Santo Tomás, é a tristeza que advém da felicidade do próximo. O in-vejoso tem uma espécie de olho grande, um “olho gordo”, mau, para tudo o que cabe a outrem. Tudo o que não se refere a ele.

Para Santo Tomas, a inveja é a mãe de diversos outros afetos terríveis com o ódio e filha da soberba que é a incapacidade de julgar-se igual aos demais por considerar-se melhor que eles. Ela nunca é boa, pois, nascida de um afeto mau ela produz ações destrutivas: a maledicência, a competitividade, a falta de caridade, ou seja, de amor ao próximo. Em seu lugar fica o amor doentio de si, a que chamamos narcisismo.

Invejar é ressentir

Como muitos de nossos afetos negativos, a inveja está associada ao ressentimento. Desde a antiguidade de Agostinho se diz que aquele que inveja é como uma traça que rói as vestes como quem destrói o amor. Ela age ocultamente. Seu silêncio de ressentido não é inerte. Revela-se em suas falas e ações destrutivas mergulhadas no ódio ao outro. Mas de quem seria a responsabilidade por um tal afeto?

Rói-se de inveja, sempre em silêncio e fingindo não sentir nada, aquele que não consegue esquecer. Mas esquecer o quê? A visão de seu lugar ocupado por outrem. É como a criança que guarda a mágoa de ter sido preterida pela mãe que precisava dar atenção ao irmão mais novo. O que o pequeno Agostinho da narrativa sentia, não era apenas o desejo do seio que lhe tinha sido afastado, mas a perda da centralidade que o seio lhe dava. Aquele que não souber ver com bons olhos, o que equivale a partilhar o amor com seu irmão, não saberá ser amigo. O invejoso, em geral, não tem amigos, ele quer o seio só para si.

Inveja boa sem inveja?

A inveja superada chama-se desejo. O desejo é o contrário do egoísmo. O desejo tem algo em comum com a inveja, pois também envolve um olhar e um querer dele advindo. Porém, enquanto a inveja é sinuosa e oculta sua ação sobre a passividade aparente, o desejo é direto. O desejo não engana nunca.

 
Marcia Tiburi. in. Revista Vida Simples. Dezembro de 2006. Ed. 48. pp. 50-51.



Perversão*


A perversão é uma das três grandes estruturas da psicopatologia psicanalítica. Ao lado da psicose e da neurose, ela representa um tipo específico de subjetividade, desejo e fantasia. Comparativamente, seu diagnóstico é mais difícil e controverso: consideram-se a extensão e variedade de seus sintomas, bem como sua alta suscetibilidade à dimensão política. Nas perversões podemos incluir aproximativamente três subgrupos: as perversões sexuais, as personalidades antissociais e os tipos impulsivos. Essa subdivisão é problemática e apenas descritiva, pois cruza categorias originadas em diferentes tradições clínicas.

Devemos distinguir uma perversão ordinária de uma perversão extraordinária, representada pelos “tipos concentrados” com os quais a perversão foi historicamente associada, para, em seguida, ser excluída, silenciada e expulsa da condição humana. Aquela que seria a forma mais forte de perversão, como confronto e desafio à lei, é, na verdade, expressão de um tipo coletivo de exagero da lei, baseado na atração pela forma, desligada e deslocada de seu conteúdo.

“Perversão”, assim, seria o nome para o que nos desperta indignação. Mas, porque o estado social “normal” não representa necessariamente o bem ético, torna-se difícil pensar a perversão de modo simples. A anomalia que nega a norma pode ser um desvio progressivo, útil ou benéfico. Além disso, mesmo a dissociação entre a norma e seu oposto, entre real e ideal, entre o bem e o mal, é justamente uma das características da perversão.

Tipologia da perversão

Isso posto, há três famílias principais da perversão. A primeira refere-se ao exagero ou à diminuição de algo, que, sob justa medida, seria tolerável e até mesmo desejável. O perverso, assim, estereotipa um comportamento, fixa-se em um modo de estar com o outro e de orientar sua satisfação. Tome-se o exemplo de um sujeito que, para encontrar satisfação sexual, deve empregar adereços como calcinhas, vestir-se com roupas do sexo oposto, admirar partes específicas do corpo do parceiro ou manipulá-las de modo bizarro. Tudo isso, sem “exagero”, seria parte admissível de um encontro sexual, mas, quando sua presença torna-se coercitiva, necessária e condicional, percebemos que há uma espécie de excesso. A parte toma conta do todo.

A segunda família de perversões decorre da idéia de desvio. Trata-se aqui da metáfora da vida como um caminho, no qual o perverso “toma um atalho” ou elege para si “outra via”. Ele se desgarra dos outros, torna-se alguém fora da ordem, fora do lugar adequado. Curiosamente, essa negação da “norma” funciona como reafirmação de sua força. Se a primeira perversão é definida pelo traço de exagero, a ideia central do segundo tipo é a de deslocamento, inversão e dissociação.

A terceira classe de perversão é formada pelos que marcam seu compromisso com a transgressão, com a violação da lei, da moral ou dos costumes. Essa transgressão não é efeito secundário, mas decorre da identificação do sujeito com a lei. Alude-se aqui à lei materna (em oposição à lei paterna) para designar essa relação de passividade radical e de disposição soberana sobre o corpo do outro. Apesar da extrema variedade histórica e antropológica, há duas maneiras básicas de perversão da lei: afirmá-la por meio de uma negação ou negá-la por meio de uma afirmação.

Perversão e lei

No primeiro caso, a lei está escrita em alguma parte, intérpretes confiáveis e executores fiéis. Dessa perspectiva, exagera-se o caráter formal da lei, de maneira que sua execução deixe de aparecer como efeito de agentes empíricos dotados de sensibilidade. Ou seja, cria-se uma exceção à lei dentro da lei. Não importa se o modo de relação com o objeto é contrário à lei social instituída (como a pedofilia ou o assassinato do parceiro sexual); se ele é indiferente a essa lei (como o sujeito que obrigatoriamente deve “tatuar” sua parceira com uma caneta Bic durante o intercurso sexual para encontrar orgasmo); ou se ele é parasitário da lei socialmente instituída (como no filme O Cheiro do Ralo, no qual o fetiche do cheiro se especifica como traço adicional nas relações de compra e venda de objetos). O importante é que, do ponto de vista do sujeito, afirma-se a lei para negá-la.

A segunda forma de perversão da lei aparece quando o sujeito nega a lei para afirmá-la em outro nível. A satisfação não decorre de uma “falsa submissão a uma falsa lei”, mas da elevação do sujeito à condição de autor da lei.Esse é o caso dos que se identificam com o objeto para causar angústia no outro, ou seja, para dividir o outro e assim fugir à sua própria divisão. São as chamadas personalidades psicopáticas, hoje personalidades antissociais, nas quais predomina o sadismo: nego a lei socialmente compartilhada para afirmar uma lei maior, cuja enunciação está em minhas mãos.

A questão se complica se observamos que a lei considerada como fato positivo para a definição de perversão não é apenas a lei como ordenamento jurídico, nem a lei como conjunto de costumes, mas a lei que, a cada momento, é a pré-condição que orienta nossa escolhas, juízos e desejos. Mesmo que ela não esteja escrita nem encontre corpo em um código formal ou informal, essa lei está pressuposta a cada vez que agimos. O problema da perversão torna-se mais interessante se observarmos que a lei que orienta a vida desejante do sujeito, a partir de seu inconsciente, não é outra que uma versão da lei social corrente, institutiva das relações de autoridade e pertinência, de ordem e de poder, de família e de Estado. Uma é versão da outra, uma père-version (versão do pai) como diria Lacan (psicanalista francês, 1901-1981).

A matriz das perversões

A psicanálise chama de supereu essa lei interna ou essa voz que interdita certos tipos de satisfação, obrigando a outros. O supereu é a matriz ordinária de nossas perversões particulares e, ao mesmo tempo, a língua na qual expressamos e somos expressos pela lei social. Segundo essa tese, nossa consciência crítica, tida por muitos como a maior realização da razão humana, é ao mesmo tempo um olhar no qual nos aprisionamos, a voz do exagero e engrandecimento (das exigências, dos ideais e das expectativas normativas) e o núcleo de nossa satisfação e de nossa culpa em transgredir.

Por exemplo, vibrar em êxtase vendo um formigueiro pegar fogo não é um ato ilegal, mas sugere um tipo de gozo associado com a perversão. Qualquer criança explora esse tipo de satisfação, até que seus pais a convidem à seguinte “inversão de perspectiva”: “Imagine se você fosse uma formiga? Iria gostar de ver a casa pegar fogo?”. Esse tipo de inversão faz com que abandonemos uma gramática da satisfação – nesse caso o sadomasoquismo – em prol de outra. Cada um de nós possui uma história composta de gramáticas como estas: exibicionismo e voyeurismo, heterossexualidade e homossexualidade, feminilidade e masculinidade. Há gramáticas pulsionais mais simples, tais como ingerir e expelir, dar e receber, bater e apanhar, e há gramáticas mais complexas e mais abrangentes tais como ser e ter ou aceitar ou recusar.

Contudo, a tese psicanalítica é a de que a sexualidade infantil possui a característica de ser perversa, por explorar, exagerar e transgredir os diferentes modos de satisfação, e de ser polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis.  A perversão no adulto diferencia-se disso por seu caráter de fixidez (uniforme) e pela função subjetiva de desautorização da lei. Assim, a perversão não é só uma questão de infração procedimental da lei, mas refere-se ao tipo de intenção (ou de desejo), ao modo como nos colocamos, e situamos o outro, diante do que fazemos.

É nesse ponto que a definição popular de perversão argumentará que ela ocorre justamente por falta de sentimentos morais como a culpa, a vergonha e o nojo. Daí a ausência de arrependimento, de reparação e de consideração pelo outro que historicamente fez dos perversos os ícones da maldade. Eles não apenas praticam o mal, mas, principalmente, gostam de fazer mal aos outros, especialmente quando se comprazem em causar angústia, terror e tortura. Ora, o que acontece aqui não é a ausência de supereu, que poderia ser curada com a administração massiva da lei,  mas a construção de uma espécie de supereu ampliado, como se algumas de suas funções fossem experienciadas, de modo deslocado, fora do sujeito, ou seja, no seu infeliz e circunstancial parceiro.

Perversão e experiência comum

Os mais diferentes e insólitos tipos de satisfação estão presentes em todos nós, de forma atenuada, disfarçada ou restrita. Não é pela ausência ou presença dessas tendências que podemos definir a perversão. Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos. O problema para definir a perversão, nesse sentido, é que temos de resolver o chamado paradoxo ético do ato. Não basta saber se ele é conforme ou contrário à lei, mas saber qual tipo de experiência ele produz em quem o realiza e o tipo de posição que ele confere ao outro.

Há vários exemplos de como o gozo, ou seja, o tipo de satisfação ordenado pelo supereu constitui uma perversão particular e ao mesmo tempo um fator político incontornável. Há, por exemplo, um fascínio espontâneo por aquele que se coloca no lugar de supereu.  A atração exercida por líderes e “celebridades”, assim como pelos sistemas totalitários, sejam eles nações, instituições, corporações ou mesmo empresas e grupos, baseia-se neste sentimento de que eles expressam em exterioridade nossa própria relação perversa com a lei. Diante disso, estaremos voluntariamente dispostos a servir como instrumento do gozo do outro, posto que ele é o meio pelo qual posso ter acesso deslocado à minha própria fantasia, exagerada pelo fato de ser vivida em massa. Isso tudo sem o ônus da culpa e do risco que estariam em jogo se eu me dispusesse a realizá-la por meios próprios.

A chave para entender esse tipo de perversão ordinária está na dissociação e na simplificação produzidas pela montagem da fantasia. Dissociação e simplificação encontradas na principal expressão sintomática da perversão, a saber, o fetiche, ou seja, esta propriedade ou esta função que permite transformar outro em objeto inanimado (meio de gozo para meus fins) e reversamente o objeto em outro animado (fim para o qual todos os meios se justificam). Em acordo com a regra perversa da inversão, o fetiche é a condição básica a que todo objeto deve atender para tonar-se viável no universo de consumo. Para funcionar como tal, ele deve conseguir dissociar seu potencial de ilusão, por um lado, de seu efeito de decepção, por outro. Não é um acaso que Karl Marx (1818-1883) tenha descrito a economia capitalista baseando-se no fetiche da mercadoria.

Outro exemplo de montagem perversa são os sistemas e dispositivos burocráticos responsáveis pela judicialização da vida cotidiana. A burocracia é uma forma regrada e metódica de produzir anonimato e álibi para nosso desejo e, portanto, para confirmar a máxima perversa de que “o outro deseja, mas segundo a lei que eu determino”. Nessa medida, há tanta perversão nos excessos alimentares – no bulímico e no anoréxico – quanto no discurso de vigilância sanitária sobre nossa alimentação, para não falar do exibicionismo de uma infância sexualizada pela moda, o voyeurismo de nossos reality shows, a estética pornográfica de nossas produções culturais, o sadismo de nossos programas de violência ao vivo, o masoquismo do trabalho e da “vida corporativa”, o descompromisso “líquido” de nossa vida amorosa, a cultura da drogadição (legal e ilegal), e tantos fenômenos que costumam ser reunidos sob a hipótese da perversão generalizada. Ao contrário da perversão clássica, a perversão ordinária de nossos tempos é uma perversão flexível, silenciosa e pragmática. Ela não se mostra como experiência “fora da lei”, que convidaria a ajustar as contas com os limites de nossa própria liberdade, mas, ao contrário, é mais perniciosa, pois reafirma nossa realidade assim como ela é.

As articulações que constituem a perversão, tais como a transgressão, a exageração e a dissociação, tornaram-se aspectos decisivos de nosso laço social ordinário.  Bem-vindos à perversão nossa de cada dia.


 Christian Ingo Lenz Dunker. in. Revista Cult


sábado, 28 de abril de 2012

Safo e o homoerotismo feminino*

Safo e Erina no Jardim de Mitilena, Simeon Salomon
Londres, Tate Gallery

O "amor grego", com seu arquivo de maravilhosos escritos sobre o desejo e seu repertório de belas imagens de corpos masculinos do mundo clássico, assegurou uma fonte privilegiada de ideias com as quais o Ocidente pudesse conceber o desejo masculino e a masculinidade em geral. Em comparação, a história do desejo feminino é muito menos articulada.

A história do amor entre mulheres demonstra como qualquer noção de simetria entre o desejo masculino e o feminino seria altamente enganosa. Não há equivalentes às instituições do amor grego, que são básicas para o desejo masculino. Os homens têm o ginásio, o simpósio e outros espaços públicos da cidade para, sob o olhar cuidadoso da sociedade que tanto encoraja quanto policia o comportamento erótico, praticar um elaborado ritual de corte; as mulheres não possuem esses tipos de arenas. Escritores do sexo masculino que idealizam o amor por meninos descrevem o desejo entre mulheres como horrendo, imoral, contrário à natureza e simplesmente nojento. Mesmo quando o artista do século II Luciano escreve um diálogo ficcional no qual uma cortesã chamada Lena revela que foi seduzida por uma rica mulher, a personagem se envergonha do ato propriamente dito e se atrapalha com ele. Embora o ato seja descrito para o leitor de maneira provocante, o vocabulário utilizado carrega a ameaça constante de revelar a aversão e a lubricidade subjacentes. Existe outra razão pela qual a "homossexualidade" como um termo que vale para os dois gêneros não ter utilidade para a Atenas clássica. O homoerotismo feminino permaneceu uma prática não nomeada por todo o mundo clássico - embora muitas vezes descrito de maneira insultante -, sem nenhum status social exceto aquele conferido a uma perversão ultrajante e reprimida.

Na verdade, é impossível encontrar na cidade clássica, qualquer exemplo de uma mulher que desejasse a outra sexualmente. A ideia era suficientemente conhecida, mas os poucos escritores gregos - todos do sexo masculino - que chegam a mencioná-la consideram-na monstruosa. Em nossos registros históricos sobre Atenas clássica, com tantos casos de homens que amavam meninos, não há nenhum exemplo efetivo de uma mulher real que amasse mulheres. Podemos apenas imaginar um mundo escondido do desejo feminino.

Contudo, de uma época anterior à cidade clássica e de uma ilha no mar Egeu, dessa história de outra forma silenciada, emerge, sim, uma figura única, um ícone incomparável na obsessão da cultura moderna pela Grécia clássica para entender o desejo. Essa é Safo, e é ela quem domina todos os nossos conceitos sobre o desejo feminino clássico. Alguns de seus poemas imortalizam seu desejo por belas meninas. Se seguirmos a atração de Safo, descobriremos muito mais que a santa padroeira das mulheres que amam mulheres.

Apesar de não sabermos quase nada sobre Safo - ou talvez por isso mesmo -, ela se tornou um ícone para a reflexão sobre a sexualidade feita através do prisma grego. Quando juntamos tudo o que com certeza sabemos sobre ela, mal somos capazes de construir uma narrativa biográfica. Ela viveu por volta do século VI a.C. e escreveu poesias de amor na ilha de Lesbos, algumas das quais foram escritas para mulheres. Tudo o mais que passa por biografia é inventado por estudiosos antigos ou modernos com base em sua poesia, ou, já que existem apenas alguns fragmentos e uns poucos poemas que ainda podem ser lidos, com base em projeções imaginativas. 

As histórias vêm em todas as formas e tamanhos. Ela se apaixonou por um homem chamado Fáon e se atirou de um despenhadeiro em um desespero suicida; foi professora de um grupo de meninas a quem ensinou; ela era baixa, de pele escura e feia; teve uma filha chamada Cleide; teve uma amante chamada Cleide; foi uma poetisa que desempenhou todos os papéis de um poeta da época, compondo canções para casamento, para festas e bebedeiras, pequenas sátiras e letras insensíveis; foi uma poetisa que criou uma nova estética feminina, removida das esferas masculinas da guerra e da violência, em um novo e exuberante espaço de sensualidade e sensibilidade, que celebrava relações pessoais entre mulheres. Geralmente leitores clássicos consideravam Safo o maior dos escritores de poemas líricos, a décima musa, e ela foi admirada com paixão por toda Antiguidade. Sua obra, qualquer que seja a dinâmica de gêneros de suas histórias de amor, foi cantada por homens em simpósios durante séculos, embora seja difícil imaginar exatamente como se sentia um homem daquela sociedade patriarcal ao recitar seus poemas.

Mais que qualquer outra figura, Safo mostra como a sexualidade moderna utiliza a Grécia como espelho no qual se encontrar. Ela constitui um modelo de como o Ocidente utiliza a Grécia antiga para pensar sobre o desejo. Uma vez que tão pouco é de fato conhecido sobre a Safo real, ela se torna uma tela perfeita para a projeção de uma imagem do desejo.


Simon Godhill. in. Amor, Sexo & Tragédia. Ed. Jorge Zahar, 2007, pp. 72-74.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

Saudade tem idade, sim*



Dizem que  a gente começa a envelhecer quando objetos e hábitos do passado passam a frequentar nossa imaginação. Não concordo, pois apesar de me sentir jovem, sinto cada vez mais saudade de velhos e bons tempos quando tudo, ou quase tudo, era muito mais fácil, por incrível que pareça!
Se não vejamos. Não faz tanto tempo assim, telefone era pra gente falar com alguém lá do outro lado da linha. Com  a chegada da modernidade a uma velocidade quase tão poderosa como a do som,  fomos obrigados a  aprender que falar ao telefone é apenas um detalhe, porque, na verdade, ele virou uma fonte de informação e entretenimento, a tal ponto que até colocamos uma ligação em “hold’, ou em compasso de espera, enquanto fazemos  uma consulta no Google.
E o que dizer das câmeras fotográficas? Como era romântico a gente revelar as fotos  e poder tocar em tantas recordações, manuseando as imagens num papel brilhante e colorido?  Depois do clique, tínhamos que esperar alguns dias pela revelação das fotos com uma enorme ansiedade. E quando as pegávamos, quanta emoção em ver registrados no papel o passeio ou a festinha de aniversário? Dali para o álbum, as fotos ficavam  protegidas por folhas de plástico transparente. Ali elas estavam sempre a mão, podíamos revê-las ou compartilhá-las com outros amigos e parentes.
Agora, mal ligamos para as fotos que tiramos. A facilidade é tanta que apenas clicamos no “play”  da própria  máquina para checar se a luz ficou boa ou se saímos bem na foto.  E pronto. Dali elas vão para uma pasta no arquivo de fotos do computador e ali ficam para sempre ou até que, não as tendo arquivado nas "nuvens" ou em dispositivo externo, as perdemos para sempre no primeiro colapso do computador.
E o que dizer dos textos, antes batidos nas "pretinhas" das Olivetti e Remington, com o carrinho pesado e a alavanca para mudar de linha?  Acho até que elas nos inspiravam para contar as histórias com mais criatividade e emoção.  Agora, já não fazemos força. As teclas obedecem ao mais leve toque de nossos dedos. Depois o computador faz o resto, arquiva tudo e a gente só tem que lembrar em que pasta foram armazenados nossos sonhos e pensamentos.
Evidentemente, essas são apenas elocubrações sobre o que tínhamos antes e o que estamos presenciando nesses tempos de  verdadeira revolução tecnológica, tão rápida que muitas vezes temos dificuldade em  assimilá-la.
Não sei se acontece com todo mundo, mas vejo-me,  muitas vezes, meio perplexa e até um pouco renitente diante de tantas mudanças. Mal a gente consegue aprender a lidar com determinada engenhoca,  moderna e sofisticada, lá vem outra para tornar obsoleta ou, no mínimo, ultrapassada a de apenas um ano atrás. 
Claro que todos celebramos a modernidade. O mundo e a humanidade têm que andar para frente. O que vale nem é mais tanto o presente, e sim o futuro imediato, a transformação enlouquecedora das coisas e até mesmo dos homens. Ao lado da modernidade da máquina, existe também a da humanidade, a jovialização corre lado a lado com tudo disso e  o jeito é acompanhar os novos tempos nem que seja só pelas ondas da web.
Mas olha, se você pensa como eu, se sente falta  daqueles objetos nem tão antigos assim, mas que eram mais verdadeiros e  estimulavam a nossa imaginação, dá só uma olhada em alguns deles aqui embaixo, para matar a saudade que, ao contrário do que dizem, tem idade sim!



Leila Cordeiro. in. Direto da Redação

sábado, 14 de abril de 2012

Como esquecer um grande amor*


ou livrando-se de uma grande encrenca

Você foi deixado. Levou um pé-na-bunda assim, sem mais nem menos, de uma hora para outra. Justo no momento em que achava "agora vai". Você nunca se sentiu tão feliz ao lado daquela pessoa; era capaz de buscar água na peneira para ele (ou ela), comprar a lua ou as estrelas, mesmo que isso implicasse um financiamento a perder de vista com juros de 7% ao mês. E eis que você dorme ouvindo um cintilante "eu te amo" e acorda com um "não dá mais".

Pobre criatura. Seja bem-vindo ao time dos enjeitados. Se serve de consolo, o primeiro fora é o pior. Depois, você acaba aprendendo a cair, a se levantar, sacudir a poeira e ir dançar mais um frevo. Mas até lá, vai ser dose. Você vai chorar todas as suas pitangas, vai falar dele (ou dela) em todas as rodas e no dia-a-dia para quem se aproximar de você, seja o padeiro da esquina ou o guarda de trânsito ― que veio te multar porque você não pára de chorar ao volante, não vê que o sinal abriu e fechou pelo menos umas três vezes e está atravancando toda uma fila de carros que buzinam lá atrás, sem contar que quase atropelou a velhinha com os dois poodles, pouco antes.

O pé-na-bunda de um abduzido é a coisa mais triste que pode haver em termos de relacionamentos amorosos. Triste porque ao longo da abdução o sujeito jogou o amor-próprio no lixo, submetendo-se às vontades do outro mais do que deveria. E agora, vai ter que voltar à lata de lixo, revirá-la até encontrar seu velho e puído amor-próprio novamente.

O abduzido não é um amante maduro. É aquele que quando dá por si, deixou de ouvir o rock de que tanto gostava, de ver os filmes cult ou os jogos de futebol, de vestir-se como sempre vestiu só porque Fifonho (ou Bodoquinha) não gosta. É aquele cara que se vê, certo dia, assistindo ao Domingo Legal no sofá da namorada (ou do namorado), com tios, primos e o papagaio do cônjuge, depois de um almoço-família, cujo menu inclui a famosa geléia de mocotó da matriarca e o frango na cerveja da tia gorducha de pele oleosa.

O abduzido geralmente é feliz em sua santa ignorância e acha que as reclamações de parentes e amigos quanto ao seu sumiço não passam de implicâncias com sua "alma-gêmea". Ele não consegue ir até o ponto de ônibus sem a ciência dela. Viajar com a turma, encontrar os amigos numa festa ou bar sem a presença dessa figura vigilante e onipresente, então, nem pensar. Ainda assim, o sorriso abestalhado que o abduzido estampa na cara não se desfaz nem mesmo quando Fifonho (ou Bodoquinha) o xinga ou o repreende em frente aos outros. Para se ter noção da dimensão do problema: ele chega a achar que flores de plástico são lindas.


Inevitavelmente, chega o dia em que o cônjuge se cansa de tanta servidão, de tanta falta de personalidade. Convenhamos, um capacho não inspira muita admiração. Nesse dia, então, você recebe sua carta de alforria. E ela vem assim, com um gosto amaríssimo, junto com uma bofetada e um ponta-pé. Você fica arrasado, achando que não poderia ter te acontecido coisa pior e acha que será impossível viver sem os maus-tratos a que estava tão acostumado. Mas, vai por mim, depois que a tempestade passar, você vai perceber que foi a melhor coisa que te aconteceu na vida e que se livrou de uma enorme encrenca.


Claro, bem antes disso, você vai olhar para o alto e pensar: "30 andares... deve ser o suficiente". Então, vai subir no alto do Edifício Acaiaca, em Belo Horizonte (ou no Mirante do Vale, em São Paulo; ou ainda no Rio Sul Center, no Rio). Vai encenar essa novela mexicana durante um bom tempo até se tocar que não tem coragem para tirar a própria vida. Mesmo assim, ainda não se convencerá de que era ruim com Fifonho (ou Bodoquinha), melhor sem ele (ou ela).

Os amigos vão tentar te distrair e te chamar para a balada. Mas sua fossa será tamanha que vai afugentar quem chegar perto e, ô meu Deus, até mesmo os amigos vão ter que se revezar para te aturar. Que seja, amigo é prá isso.

Você ainda vai procurar seu ex-amor uma dezena de vezes, ensaiando uma reconciliação ou negociar um tempo, quem sabe... Não, você ainda não entendeu que quanto mais se arrasta, menos há chance de volta. E que, bobeando, o fato de não ter volta seja uma sorte maior do que ganhar a Mega-Sena acumulada por três vezes seguidas.

Depois de um mês sem fazer a barba (ou sem se depilar), você recebe um e-mail de consolo daquela amiga (ou amigo) que não via há anos. Um e-mail simples e curto, mas tão terno que faz você entender que o que recebia da ex (ou do ex) estava mais próximo do tapa do que do afago.

A garçonete do bar, ou o peão da obra da frente, dá uma piscadela e você pensa que não está tão mal assim. Aí você reage. Decide virar a página. Em menos de uma semana, já deu um trato no visual, se inscreveu num monte de curso que vivia dizendo que queria fazer ― inclusive o de gaita de fole, aquele instrumento desengonçado que Fifonho (ou Bodoquinha) sempre achou brega ―, encontra os amigos e resolve distribuir seu amor para a humanidade no carnaval de Diamantina.

Quando finalmente você se sente curado, o maldito Fifonho (ou a Bodoquinha) reaparece como que por milagre. Pensou melhor e percebeu que não pode viver sem você. E o que você faz?

Pára tudo!

Este é um momento decisivo, é o clímax de toda a sua curva dramática.

Já disse um sábio chinês que errar uma vez é humano, duas é burrice. Como o próprio termo diz, ex é ex. Já era. Passado, capicce? Toda maneira de amor vale a pena mas, em se tratando de relacionamentos amorosos, uma lei é universal: a da evolução das espécies. É o famoso "a fila anda". Sobretudo se você acaba de sair de uma abdução.

Suas pernas ainda tremem ao encontrar a figura, você sabe que se deixar, acaba tendo uma, duas, todas as recaídas do mundo. A carne é fraca? Então, ponha a mente para funcionar:

1º passo: Corra, Lola! Run, Forrest!

Evite o encontro ao máximo e vá procurar a sua turma. Vá viver! Vocês não têm mais nada para tratar (a não ser que tenham feito filhos no meio do caminho, aí a história é outra). O negócio é fazer as malas assim que sentir a aproximação do ponta-pé e sair correndo sem olhar prá trás. Lá na frente você vai começar a diminuir a toada, apreciar a paisagem, conhecer gente nova e interessante, assuntos instigantes e nem vai se lembrar de onde veio. Lembra o curso de gaita de fole? Pois é, aquilo lá rendeu um contato com a companhia de sapateado escocês Lord of the Dance e, veja só, aquela bailarina ruiva de cabelo cacheado tá te dando mole desde o primeiro ensaio. Fifonho? Bodoquinha? Quem?

2º passo: Ex não é amigo.

Ok, vocês foram o melhor amigo um do outro quando eram namorados. E nada impede que se falem amigavelmente vez por outra. Mas não vá achar que devem combinar saídas e encontros como se nada demais tivesse acontecido. Aconteceu. A casa caiu! E se você foi mesmo abduzido, uma amizade nefasta como aquela não acrescentará nada para a sua evolução pessoal. Deixe os encontros a encargo do destino: atravessando o sinal no meio da rua, xingando no trânsito, essas coisas...

3º passo: Deixe de ser masoquista!

Guardar e ler a cada dois dias as cartas, os e-mails, ver as fotos, ficar remoendo todas as lembranças, manter aquela quantidade de bibelô ou bichinho de pelúcia que só servem para acumular poeira e mágoa... Nada disso vai aplacar a falta que você está sentindo. Pelo contrário, isso só prolonga ainda mais o sofrimento e te faz perder um preciosíssimo tempo produtivo. Jogue tudo fora. Queime essa tralha toda, doe, jogue no rio, faça o que quiser, mas limpe o ambiente.

4º passo: Provocar ciúme pra quê?

Você saiu daquele relacionamento se sentindo a lasca da unha encravada do soldado raso da Primeira Guerra Mundial. Nada mais compreensível que agora queira "dar o troco", mostrar que está bem, que deu a volta por cima. O problema é quando quer mostrar que está melhor que o outro. Você começa a se render a subterfúgios na internet, por meio de amigos para fazer o ex (ou a ex) saber que você agora é secretário pessoal do Bill Gates ou que está "pegando" uma das (ou um dos) modelos do São Paulo Fashion Week. Se você comprar um boneco vudu numa loja de macumba, dá na mesma. Você acaba dedicando horas do seu precioso tempo nessa atividade estéril de continuar roendo o mesmo osso. Não percebe que se continuar na sua pode encontrar um prato de filé mignon mais à frente.

5º passo: Produza!

Quer esquecer alguém? Lembre-se de você mesmo e trabalhe! Trabalhe como nunca trabalhou antes na sua vida. 8, 9, 10, 15 horas por dia. Quando cansar, vá para a academia ou vá pedalar um pouco. Gaste energia numa caminhada. Nos fins-de-semana, divirta-se até desopilar o fígado. Vá ao cinema sozinho. Finalmente você não se sentirá obrigado a assistir aqueles filmes idiotas de ação ou aquelas baranguices românticas. A pipoca renderá mais e, de quebra, você se instrui com filmes edificantes.

6º passo: Não se iluda.

Tudo bem, você terá freqüentes arroubos de carência. Mas não vá achar que sair à caça em bares vai aplacar essa sua falta e te por diante da sua alma-gêmea, a quem você finalmente poderá confiar toda a sua existência e o seu amor. Pode "pegar" dez ou doze numa única noite. A cara-metade que lhe é destinada não estará nessa lista. Quando acordar, aquela ressaca moral e o vazio vão te dar um esfuziante "bom dia". E isso se repetirá ad infinitum, até você entender e aceitar que ninguém aparece na vida do outro para "salvá-lo".

Quando você finalmente aprender a cuidar de si mesmo e se virar, vai acabar topando com outra pessoa em igual condição e então contribuirá para a teoria darwiniana da evolução das espécies. Se não achar que é capaz de tal proeza, ao menos tenha certeza de que Fifonho ou Bodoquinha nunca mais terão assento no seu sofá. Como diria Armstrong (o cara da lua, não o trompetista, por Deus!), isso seria um pequeno passo para um homem, mas um salto gigantesco para a humanidade.



Pilar Fazito. in. Digestivo Cultural


domingo, 8 de abril de 2012

Beijo cinematográfico*

The Kiss (1896)

O primeiro beijo da história do cinema foi registrado pela Edison Company num curta-metragem de 1896, intitulado The May Irwin-Jonh C. Rice Kiss, ou simplesmente The Kiss. Inspirado numa cena da famosa comédia da Broadway The Widow Jones, o filme consiste unicamente em um homem e uma mulher flagrados em pleno beijo (numa ação que Rice interrompe diversas vezes para cofiar seu portentoso bigode, à medida que os quadros vão passando). Mas aquilo que era tido como aceitável nos palcos acabou sendo considerado inadmissível na tela do cinema - os 30 segundos em close foram tachados de pornográficos pelo público da época. Um editorial escandalizado de Herbert S. Stone, em Chicago, chegou a afirmar: "O espetáculo prolongado daqueles dois atracados na boca um do outro foi, francamente, algo difícil de suportar... Certas coisas demandam interferência das forças policiais". De qualquer maneira, não houve registro de nenhuma prisão ligada ao filme.

Ironicamente, os clássicos do cinema mudo produzidos na década de 1920 guardam algumas das cenas de beijo mais hipnotizantes da história do cinema. Theda Bara (1890-1955), com seu olhar marcante, reinava absoluta nas telas como a primeira vamp do cinema - apelido dado por conta do seu jeito "vampiresco", ou sexualmente agressivo, de ser. Em A Fool There Was (1915), a estrela seduz um diplomata casado, vira sua carreira de cabeça para baixo e por fim o abandona mergulhado na própria ruína financeira. Na sequencia final, quando parece que as coisas vão voltar ao normal em sua vida, Bara reaparece em cena exigindo um beijo. O pobre-diabo sucumbe e se transforma em seu amante. Os beijos  "devoradores" de Theda Bara continuaram seduzindo a imaginação dos espectadores em produções como Sin (1915), Cleopatra (1917), An Unchastened Woman (1925) e Madame Mystery (1926).

Theda Bara (1885-1955)

Mas quando a produção cinematográfica começou a esquentar de verdade, as cenas ardentes de sexo (e violência) iniciaram uma reação dos guardiões da moral e dos bons costumes da sociedade americana. Em 1934, um código de ética criado pela Associação dos Produtores e Distribuidores de Cinema da América, dirigida na época por Willian H. Hays, definiu uma série de regras rígidas que permaneceria em vigor ao longo das duas décadas seguintes. O chamado Código Hays continha orientações sobre o que poderia ser mostrado ou não pelo cinema americano, e as diretrizes a respeito das cenas de beijo e sexo eram muito claras.

[...]

Segundo o código, o tratamento das "cenas de alcova" devia sempre ser orientado pelo "bom gosto e sutileza". As camas eram sempre duplas cada uma delas ostentando um abajur em sua cabeceira. E nem mesmo casais casados podiam ser mostrados deitando-se juntos numa cama - um dos parceiros tinha que manter pelo menos um dos pés no chão durante a cena do beijo.

Ainda assim, em 1939 houve duas cenas memoráveis de beijo num único filme: ... E o Vento Levou. Baseado na novela romântica escrita por Margaret Mitchell em 1936, o épico ambientado na Guerra Civil americana conta a história de Scarlett O'Hara (Vivien Leigh) e Rhett Butler (Clark Gable), um dos casais mais tempestuosos da ficção. A primeira cena de beijo eletrizante acontece na estrada para Atlanta, onde Rhett tenta enlaçar uma relutante Scarlett para despedir-se dela. Astutamente, lhe diz que quer "levar a lembrança dos seus beijos" para quando estiver no campo de batalha, e que ela não precisa se preocupar com o quanto o ama - tudo o que ele deseja é aquele único beijo. 

Vivien Leigh e Clark Gable, ... E o Vento Levou (1939)

A cena é inesquecível, com a silhueta do casal contra o tom laranja abrasador da paisagem em torno. Como Scarlett não lhe dá uma resposta, Rhett a agarra á força e rouba o beijo. Bem mais adiante na história, com Rhett e Scarlett já casados, ele chega em casa bêbado e, mais uma vez, beija a heroína a força. O impacto que a cena tem nas páginas do romance foi transposto magistralmente para a tela pelos realizadores do filme. Embora Scarlett a principio resista, a força da paixão de Rhett é arrebatadora. E quando ela enfim cede e retribui, o beijo ardente enche os dois de prazer. A cena que flagra o sorriso de Vivien Leigh na manhã seguinte continua sendo até hoje uma das mais sugestivas da história do cinema.


Julie Enfield. in. A história íntima do beijo. Ed. Matrix, 2008, pp. 200-203.


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