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sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando eu me chamar saudade*



Sei que amanhã quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração.
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão.
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora.

Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais.

(Nelson do Cavaquinho/ Guilherme de Brito)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Saudade tem idade, sim*



Dizem que  a gente começa a envelhecer quando objetos e hábitos do passado passam a frequentar nossa imaginação. Não concordo, pois apesar de me sentir jovem, sinto cada vez mais saudade de velhos e bons tempos quando tudo, ou quase tudo, era muito mais fácil, por incrível que pareça!
Se não vejamos. Não faz tanto tempo assim, telefone era pra gente falar com alguém lá do outro lado da linha. Com  a chegada da modernidade a uma velocidade quase tão poderosa como a do som,  fomos obrigados a  aprender que falar ao telefone é apenas um detalhe, porque, na verdade, ele virou uma fonte de informação e entretenimento, a tal ponto que até colocamos uma ligação em “hold’, ou em compasso de espera, enquanto fazemos  uma consulta no Google.
E o que dizer das câmeras fotográficas? Como era romântico a gente revelar as fotos  e poder tocar em tantas recordações, manuseando as imagens num papel brilhante e colorido?  Depois do clique, tínhamos que esperar alguns dias pela revelação das fotos com uma enorme ansiedade. E quando as pegávamos, quanta emoção em ver registrados no papel o passeio ou a festinha de aniversário? Dali para o álbum, as fotos ficavam  protegidas por folhas de plástico transparente. Ali elas estavam sempre a mão, podíamos revê-las ou compartilhá-las com outros amigos e parentes.
Agora, mal ligamos para as fotos que tiramos. A facilidade é tanta que apenas clicamos no “play”  da própria  máquina para checar se a luz ficou boa ou se saímos bem na foto.  E pronto. Dali elas vão para uma pasta no arquivo de fotos do computador e ali ficam para sempre ou até que, não as tendo arquivado nas "nuvens" ou em dispositivo externo, as perdemos para sempre no primeiro colapso do computador.
E o que dizer dos textos, antes batidos nas "pretinhas" das Olivetti e Remington, com o carrinho pesado e a alavanca para mudar de linha?  Acho até que elas nos inspiravam para contar as histórias com mais criatividade e emoção.  Agora, já não fazemos força. As teclas obedecem ao mais leve toque de nossos dedos. Depois o computador faz o resto, arquiva tudo e a gente só tem que lembrar em que pasta foram armazenados nossos sonhos e pensamentos.
Evidentemente, essas são apenas elocubrações sobre o que tínhamos antes e o que estamos presenciando nesses tempos de  verdadeira revolução tecnológica, tão rápida que muitas vezes temos dificuldade em  assimilá-la.
Não sei se acontece com todo mundo, mas vejo-me,  muitas vezes, meio perplexa e até um pouco renitente diante de tantas mudanças. Mal a gente consegue aprender a lidar com determinada engenhoca,  moderna e sofisticada, lá vem outra para tornar obsoleta ou, no mínimo, ultrapassada a de apenas um ano atrás. 
Claro que todos celebramos a modernidade. O mundo e a humanidade têm que andar para frente. O que vale nem é mais tanto o presente, e sim o futuro imediato, a transformação enlouquecedora das coisas e até mesmo dos homens. Ao lado da modernidade da máquina, existe também a da humanidade, a jovialização corre lado a lado com tudo disso e  o jeito é acompanhar os novos tempos nem que seja só pelas ondas da web.
Mas olha, se você pensa como eu, se sente falta  daqueles objetos nem tão antigos assim, mas que eram mais verdadeiros e  estimulavam a nossa imaginação, dá só uma olhada em alguns deles aqui embaixo, para matar a saudade que, ao contrário do que dizem, tem idade sim!



Leila Cordeiro. in. Direto da Redação

terça-feira, 24 de abril de 2012

As perguntas da memória e da saudade*



A vida segue. Quantas vezes afirmamos que o tempo passa e somos pouco espertos com relação as suas tramas? Não há desistências gerais, pois o mundo está sempre recebendo pessoas. Há controles, desânimos, cuidados com as taxas de natalidade. Não se pode ficar preso às andanças do desejo, sem arriscar outros caminhos. É preciso criar diálogos para nos aproximarmos dos mistérios, decifrarmos respostas cruciais que nos atormentam. É difícil. Existem vazios, falta de fôlegos, atmosferas turbulentas, temores de frustração. Somos oceanos instáveis e profundos. Sabemos navegar o necessário e, às vezes, vacilamos no meio das tempestades. Não nos livramos dos momentos de saudades e arrependimentos.

O jogo dos sentimentos não se enquadra em cartografias consolidadas. Cabe questionar o que se move, se há espaço para acreditar em tipologias e descansar a cabeça no travesseiro perdido no armário antigo. Impedir que as perguntas surgissem é impossível. Por vezes, nos distraímos e nos colocamos fora de qualquer combate. Ninguém está longe das ilusões, cultivando fortalezas inexpugnáveis. A memória pede idas e vindas, é impaciente, lança-se com suas narrativas surpreendentes acudindo os esquecidos e os apáticos. Nossa gramática é pequena para conseguir contar as aventuras das saídas e entradas nos labirintos.

As tragédias não se compõem, apenas, na literatura. Elas são encenadas no cotidiano, vestem-se de incompletudes, ressuscitam seus mitos e chamam seus espectadores anônimos. Inconformismos e transcendências possuem disfarces nunca definitivos. Se o desenho da vida não é único, a repetição é uma ameaça à dor. Tudo tem uma relatividade que nos arrasta para confundir décadas com séculos. Dizer que a vida é um sopro é ser devoto da eternidade. Portanto, o reino da suspeita não se afasta da história, as fragilidades não permitem que os sentidos arrebatem o perfume da onipotência.

A teimosia é a atriz principal das cenas de resistência. Como se entregar ao ritmo de qualquer destino se o mundo circula estimulado pela travessia dos conflitos? O esclarecimento é, sempre, incompleto, mas ajudar a configurar visões e a adormecer enfraquecendo os pesadelos. Colhemos antecipações. Elas não são profecias. As pessoas partem e nós partimos. Nada de testemunhar realidades sem tocar em magias e pretensões. A confusão se faz, mas não se fixa. A pausa ameniza os sinais ofuscantes das amarguras, transfere o tempo do calendário para o tempo da fuga. A redenção absoluta mora nas utopias políticas e religiosas.

Os desgovernos do mundo não merecem celebrações. Querer que o definitivo ocupe lugares é nos afundarmos na mentira mais perigosa. A eternidade namorou uma estrela que pulava entre as escuridões para não perder seu encanto. Talvez seja uma brincadeira de divindades assustadas com o vadio do medo. Apenas, as aparências cercam nossas agonias. No meio das incertezas, as perguntas não se calam com as respostas. A saudade é o sentimento maior que atravessa o coração, porque o deslocamento das perdas não cessa. Não adianta quantificar. A medida da falta é extravagante, como a lágrima irreverente do corpo sem respiração.


Antonio Rezende. in. Astúcias de Ulisses


segunda-feira, 5 de março de 2012

A um ausente*


Por Carlos Drummond de Andrade


Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave 
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


in. Farewell, 1996, pp. 41-42.

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