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domingo, 17 de junho de 2012

A Pata da Gazela*



Pensem os fisiologistas como quiserem, o pé é a parte mais distinta do corpo humano; sem ele a estatura não teria a nobreza que Deus só concedeu à criatura racional.

O pé revela o caráter, a raça e a educação. Cada uma das feições e dos gestos desse órgão de nossa vontade tem uma expressão eloqüente. Há quem não adivinhe em um pé delicado e nervoso a alma de fina têmpera? Ao contrário, um pé chato e pesado é a prova infalível de um gênio tardo e pachorrento.

Vergílio, o poeta mais elegante que tem existido, compreendeu que Vênus ocultasse nos olhos do filho, na selva líbica, a beleza imortal de seus olhos, de seu sorriso, de suas formas sedutoras; mas não aquilo que era sua essência divina, sua graça olímpica. Foi pelo andar que ela revelou-se deusa; et vera incessu patuit dea.

Nunca sentiste o doce contato do pé da mulher amada? É uma sensação deliciosa que penetra no seio d’alma.

[...]

Apaixonei-me por esse pezinho, que eu nunca vira, que não conhecia. Sagrei-lhe minha alma como ao ignoto deo de minhas adorações.

(Fragmento).

José de Alencar. in. A Pata da Gazela. Ed. Ática, 1999.

domingo, 4 de março de 2012

Assassinos de pés*



Por Eduardo Galeano



Há um par de séculos, Li Yu-chen inventou uma China ao contrário. Em seu romance Flores do espelho havia um país das mulheres, onde elas mandavam.

Na ficção, elas eram eles; e eles, elas. Os homens, condenados a satisfazer as mulheres, eram obrigados às mais diversas servidões. Entre outras humilhações, tinham de aceitar que seus pés fossem atrofiados.

Ninguém levou a sério essa possibilidade impossível. E os homens continuaram amassando os pés das mulheres até transformá-los em alguma coisa parecida a patas de cabra.

Durante mais de mil anos, até bem avançado o século XX, as normas de beleza proibiram que o pé feminino crescesse. Na China foi escrita, no século IX, a primeira versão da Gata Borralheira, onde ganhou forma literária a obsessão masculina pelo pé feminino diminuto; e ao mesmo tempo, anos mais, anos menos, se impôs o costume de vendar, desde a infância, os pés das filhas.

E não apenas por um ideal estético. Além de tudo, os pés atados atavam: eram um escudo da virtude. Impedindo que as mulheres se movessem livremente, evitavam que uma escapadela indecente qualquer pudesse pôr em perigo a honra da família.


in. Espelhos, 2009, pp.26-27.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os teus pés*



Por Pablo Neruda



Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.



domingo, 30 de outubro de 2011

Contrabandistas de palavras*

Por EDUARDO GALEANO


Os pés de Yang Huanyi haviam sido atrofiados na infância. Aos tombos, caminhou pela vida. Morreu no outono de 2004, quando estava a ponto de fazer um século de vida.

Era a última conhecedora do Nushu, a linguagem secreta das mulheres chinesas.

Esse código feminino vinha de tempos antigos. Expulsas do idioma dos homens, do idioma masculino, que elas não podiam escrever, tinham fundado seu próprio idioma, clandestino, proibido aos homens. Nascidas para ser analfabetas, tinham inventado seu próprio alfabeto, feito de sinais que simulavam ser adornos e eram indecifráveis aos olhos de seus amos.

As mulheres desenhavam suas palavras em roupas e leques. As mãos que as bordavam não eram livres. As palavras, sim.

Eduardo Galeano, Espelhos, 2009.

__________
*Para uma história das mulheres sem história...
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