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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Tentação*



[...] Visto que a satisfação dos impulsos equivale à felicidade, torna-se causa de grave sofrimento quando o mundo exterior nos deixa na indigência, quando se recusa a saciar nossas necessidades.


Sigmund Freud in. “O mal-estar na cultura” Ed. L&PM, 2010, p. 67.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Freud e a mente humana*



O século XX foi cruel com Freud, embora ele seja considerado uma das maiores "cabeças" do período. É moda dizer que foi refutado e que a maioria das suas "teorias" caiu por terra — apesar de ele ter consagrado a psicanálise. Hoje em dia, lê-se por aí que Freud é mais visto como "filósofo" do que como cientista (Wittgenstein, um filósofo contemporâneo seu, sempre duvidou que houvesse ciência em seus procedimentos). A neurociência chegou para impor suas "verdades"; mas a verdade é que Freud propôs um dos melhores modelos para a "mente humana" de que se tem notícia.

Todo mundo conhece o "id", o "ego" e o "superego". Os três caíram no gosto popular. O id seria o que resta de "animal" em nós ("animal" entre aspas, porque os verdadeiros animais não têm culpa). Michael Kahn, autor de Freud básico (um guia extremamente confiável, lançado recentemente pela editora Record/Civilização Brasileira), compara o "id" ao "monstro" do conto Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O médico e o monstro), de Robert Louis Stevenson. O id quer realizar todos os nossos desejos e não entende que uma recusa ao "prazer momentâneo" pode se converter em "prazer duradouro". Aí entra o ego. 

O ego ou a "consciência" faz a mediação (no jargão futebolístico: o "meio-de-campo") entre o id, insaciável, e o superego. Este último serviria para nos punir e para frear nossos instintos, com base na experiência. Kahn dá um exemplo ótimo: aprendemos, quando crianças, com os nossos pais, que não devemos transgredir certas normas sociais; no início, somos punidos e corrigidos por eles; mais tarde, sua mera presença nos faz lembrar de como devemos nos comportar; com o tempo, incorporamos as lições dos nossos pais em nós, de tal forma que o superego assume o papel de "vigia" dentro da nossa cabeça. 

O superego é aquela voz que nos diz que "alguém pode estar olhando" (como na frase de Mencken). Kahn sugere a imagem de um "porteiro", que decide (como no conto de Kafka) quem deve ou não atravessar a "porta da consciência". Mas o superego pode ser traiçoeiro, crescer demais na vida de uma pessoa e, por meio da "culpa", impedir que ela se desenvolva como ser humano. O superego pode ainda protelar um "desejo" indefinidamente, de modo que ele se transforme em "recalque" — e lá vai o sujeito engrossar o coro dos "recalcados". 

Freud é tomado, junto com Darwin e Marx, como uma das "bestas do apocalipse", porque ajudou a enterrar o que restou de "religiosidade" no século passado. E, realmente, depois de estudar Freud, fica difícil concordar que a "culpa" (como vista, por exemplo, pela igreja católica) possa trazer algum benefício ao indivíduo. Kahn evoca a vida de santos que, para livrar-se de "pensamentos pecaminosos", impunham castigos ao próprio corpo — para eles, a fonte de todo o "mal". Tinham razão; mas, pensando neles, Freud balançaria a cabeça negativamente, como se dissesse: "Tsc, tsc, tsc...". 

Os "desejos" simplesmente existem em nós. Não têm qualquer origem "moral". Brotam junto com os pensamentos e não devem ser tomados como um indício de "má conduta" ou de "mau comportamento". Aqueles santos, que se autoflagelavam, não diferenciavam os seus "atos" das suas "vontades". Para Freud, um dos "custos" da civilização era justamente esse: impor que as últimas não se convertessem nos primeiros — e garantir uma convivência harmônica entre os seres humanos. Contudo, sem a pretensão de querer anular "desejos inconvenientes"; afinal, eles poderiam nos dar pistas para uma das forças mais poderosas que regem a nossa vida: o inconsciente. 

O "inconsciente" não foi uma invenção de Freud, como aponta Kahn. Já existia na obra de poetas; e, justamente, aqueles com melhor acesso ao inconsciente seriam os "artistas". Muitas das nossas motivações ao longo da existência, por mais que as "racionalizemos", emanam do nosso inconsciente. Ele é a chave, por exemplo, para entender por que cometemos sempre os mesmos erros; por que reagimos a determinadas situações de forma semelhante; e, principalmente, por que não superamos certas dificuldades que nos acompanham desde a infância, até a idade adulta. 

Freud, no contato com seus pacientes, descobriu que os "sonhos" eram o melhor caminho para o inconsciente. Através da sua "interpretação", por meio de associações de palavras, curou muita gente da chamada "compulsão à repetição", permitindo que pudessem viver plenamente. Afinal de contas, as relações que construímos desde que somos crianças e adolescentes tendem a se refletir, futuramente, nas ligações que continuaremos a estabelecer em etapas posteriores. Assim, um "trauma" ou um "complexo" mal resolvido pode redundar em problemas, cuja origem, depois, só ficará clara através da sondagem do inconsciente. 

Portanto, é central na obra de Freud o "complexo de Épido". Ele fica claro se tomarmos o caso dos "meninos" mais do que das "meninas". Esses, para completar seu "desenvolvimento psicossexual", precisariam, em algum momento na puberdade, suplantar a figura do "pai" e conquistar a da "mãe". (Aquele que não fosse bem sucedido nesse instante sofreria as conseqüências.) A "conquista" da mãe, para o jovem rapaz, é a prova de que ele pode, posteriormente, conquistar outras garotas e, metaforicamente, "assumir" o lugar do pai (na família que irá constituir depois). Freud acreditava que os homossexuais "falhavam" ao tentar sobrepujar a figura do pai — o que provocaria, neles, uma identificação com o mesmo, de modo que passariam a vida "(re)conquistando" o pai (através de outros homens) e não a mãe. Do mesmo jeito, aquele que "falhasse" ao tentar conquistar a mãe se converteria num "dom juan" — que procuraria, em todas as mulheres que encontrasse, a figura da genitora, para subjugá-la ao final. (Talvez por esse motivo, Freud afirmasse que o "conquistador inveterado" está a um passo do homossexual [vide Lord Byron].) 

Kahn, igualmente terapeuta, narra casos de pacientes que, à medida que o tratamento avançava, "projetavam" nele a imagem do pai ou da mãe. Alguns adotavam uma postura "desconfiada", agindo, em relação a ele, como "filhos rebeldes"; outros formavam um vínculo de tamanha afetividade que terminavam querendo estabelecer relações amorosas. Há, particularmente, no livro, a história de uma moça cujo "corpo" lhe enviava sinais do inconsciente: ela comparecia às sessões cada vez mais arrumada e ansiava por que Kahn a "desejasse", como o pai que não a desejou — a fim de suplantar um "complexo" que a impedia de relacionar-se com rapazes de sua idade. (Uma vez percebido isso, foi desatado o nó que levou à "cura".) 

Freud chamou o fenômeno de "transferência" — e ele é bastante comum até os dias de hoje (vide os filmes de Woody Allen). Como dito anteriormente, a representação do "pai" e da "mãe", junto com os primeiros vínculos que estabelecemos, vão ecoar pela vida afora: na escola, no trabalho, na família, etc. Freud via em toda e qualquer afeição um potencial "erótico". Nas relações familiares inclusive (como o nosso Nélson Rodrigues, aliás), podendo explodir em descargas aparentemente sem sentido, mas segundo um padrão previsto no inconsciente. Não à toa, Freud considerava o amor da "mãe" pelo "filho" um dos mais perfeitos para a mulher — porque ele se realizava sem a consumação carnal (que proporciona sempre tantas frustrações). 

Ainda com relação ao "pai", Freud teve dúvidas ao nomear o "complexo de Édipo". Baseando-se na obra-prima de Sófocles, percebeu que poderia muito bem chamá-lo de "complexo de Laio". Pois, como um dos protagonistas da história, os "pais" se sentiam ameaçados pelos "filhos" recém-chegados e temiam, como efetivamente acontece, que estes tomassem o seu "lugar", usurpando do "rei" o trono. Kahn fala de culturas em que, quando o bebê nasce, o pai é afastado do leito — o que evoca a imagem da "sucessão". Os "pais" então, inconformados com a perda da "posição", e enciumados diante do amor que a mãe naturalmente dedica ao recém-nascido, voltar-se-iam contra os próprios "filhos", em represália. 

Freud e Kahn retornam ao "pai" e à "mãe", ainda uma vez, para discorrer sobre a experiência do luto. Freud achava "positivo" que a perda de um ente querido fosse vivida plenamente. Notava que, em sociedades onde os rituais do luto eram seguidos à risca, os indivíduos superavam mais facilmente a perda. A seu ver, era necessário esgotar as lembranças do ente (por exemplo, em conversas), incorporando, inclusive, hábitos ou mesmo pertences daquele que se foi, num processo denominado "introjeção". Quem não atravessasse a contento a experiência do luto ficaria preso num mundo "irreal", teria problemas para confrontar-se com o "mundo exterior" e não construiria novas relações, no lugar daquela que se rompeu. 

É, em resumo, uma pena que todo o estudo, empreendido por Freud, sobre a natureza humana, atualmente se restrinja a alguns clichês, muitos conceitos equivocados e à firme convicção de que a ciência, definitivamente, o "ultrapassou". A descoberta de Freud (que era muito mais que "sexo" e "charutos") pode ser ainda reveladora, ajudando muita gente — com ou sem terapia — a se conhecer e a viver melhor com suas próprias idiossincrasias. Nesse sentido, Freud básico, de Michael Kahn, apresenta-se como uma bela introdução.


Julio Daio Borges. in. Digestivo Cultural


segunda-feira, 23 de abril de 2012

O mal-estar na cultura*


Ao longo das últimas gerações, os homens fizeram progressos extraordinários nas ciências naturais e nas suas aplicações técnicas, consolidando o domínio da natureza de uma maneira impensável no passado. Os detalhes desses progressos são de conhecimento geral, e não é necessário enumerá-los. Os seres humanos têm orgulho dessas conquistas e têm o direito a tanto. Mas eles acreditam ter percebido que essa recém-adquirida disposição sobre o espaço e o tempo, essa sujeição das forças naturais, a realização de um anseio milenar, não eleva o grau de satisfação prazerosa que esperam da vida, que essa disposição sobre o espaço e o tempo não os tornou, segundo suas impressões, mais felizes. Dessa constatação, deveríamos nos contentar em extrair a conclusão de que o poder sobre a natureza não é a única condição da felicidade humana, assim como não é a única meta dos esforços culturais, sem derivar disso que os progressos técnicos não possuem valor para a economia de nossa felicidade.

Sigmund Freud. in. O mal-estar na cultura. Ed. L&PM, 2010, pp. 83-84.


domingo, 15 de abril de 2012

O Beijo: Gustav Klimt*

O Beijo, óleo sobre tela, 180 x 180
Österreichische Galerie

Mostrando a influência dos escritos do compatriota vienense Sigmund Freud, as obras do pintor Gustav Klimt (1862-1918) refletem os anseios intelectuais, eróticos e simbólicos e também as paixões estéticas do dinâmico círculo intelectual da Viena do fin de siècle. O trabalho de Klimt faz uma síntese impressionante e sofisticada de Simbolismo e Art Nouveau. Usando a ornamentação elaborada característica do Art Nouveau, o artista pintou imensos frisos ornamentais retratando cenas com um clima de conto de fadas, e produziu ainda retratos marcantes que fundem as formas estilizadas e cores extravagantes do Simbolismo ao seu conceito pessoal e eclético de beleza.

Sua obra-prima, O Beijo (1907-1908), é uma festa reluzente de erotismo e beleza. O quadro tem um brilho sensual de mosaico bizantino. Um homem, envolvido num manto dourado ricamente trabalhado, se inclina para beijar uma mulher que está de joelhos. Dos corpos dos amantes vemos apenas os rostos e as mãos, além dos pés flexionados da mulher, com os dedos retorcidos de prazer. Todo o resto é uma opulenta cascata de ouro ricamente engastada com alexandritas, ametistas, safiras, rubis, opalas e esmeraldas. Por baixo deles se estende um leito de pétalas.


Julie Enfield. in. A história íntima do beijo. Ed. Matrix, 2008, pp. 169-170.


quarta-feira, 21 de março de 2012

O homem é o lobo do homem*



Por Sigmund Freud


[...] o ser humano não é uma criatura afável e carente que, no máximo, é capaz de se defender quando atacada, mas que ele pode contar com uma cota considerável de tendência agressiva no seu dote de impulsos. Por esse motivo, o próximo não é apenas um possível ajudante e um possível objeto sexual, mas também uma tentação para se satisfazer nele a agressão, explorar sua força de trabalho sem recompensá-lo, usá-lo sexualmente sem o seu consentimento, apropriar-se de seus bens, humilhá-lo, causar-lhe dor, torturá-lo e matá-lo. Homo homini lupus; quem, a partir de todas as experiências da vida e da história, terá coragem de contestar essa máxima?


in. O mal-estar na cultura, Ed.L&pm, 2010, pp. 123-4.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Duas ou três coisas que sei sobre as mulheres*



Por Xico Sá

  
 Leila Diniz no filme "Todas as mulheres do mundo"


Alguns leitores mais ácidos – é bom tê-los como fiscais do meu lirismo bregamente derramado –  cutucam, provocam:

-Esse cara feio de doer é um populista com as fêmeas, quer arrebatá-las com essa conversinha mole, mimos, delicadezas, agás, nhenhenhéns…

Bem, falar mal à toa de mulher é que não vou. Besta é tu, besta é tu, como diriam os “Novos Baianos”, que as demonizam como envenenadas Evas expulsas do Paraíso.

Mulher é minha causa. Mulher é o meu dogma. Mulher sempre foi meu comunismo.

Maltratá-las é que não vou. Muito menos cair no conto de que elas não existem, como queria titio Lacan. Isso é papo-aranha de intelectual solteirão.

Tampouco é verdade essa historinha de que não sabemos o que querem as mulheres.

Pera lá. Não sabemos tudo, óbvio, não deciframos todos os mistérios, mas conhecemos muitos modos de agradá-las e cumprir parte da demanda.

Elas merecem e este, afinal, é o grande desafio na terra de um homem de boa vontade.

O que querem as mulheres? Entendemos a complexidade da clássica pergunta de Freud, mas a interrogação não veio ao mundo para nos acomodar.

Veio para instigar o cidadão.

As mulheres querem que os homens adivinhem, sintam, farejem os seus desejos como labradores do amor e antecipem essas realizações.

Bem-aventurados os que descobrem que elas estão a fim de uma viagem à montanha e levam-nas à montanha; bem-aventurados os que sabem que elas não agüentam mais aquele velho boteco sujo e levam-nas a um restaurante decente, dentro das posses, claro.

Bem-aventurados os que sabem que elas gostam de novidades e detestam quando os garçons nos dizem “o de sempre, amigo?” Essa confortável rotina é coisa de macho!

As nossas mulheres querem que tenhamos olhos só para elas. No que, aliás, foram contempladas biblicamente pelo décimo mandamento das tábuas da lei entregues por Deus a Moisés: não cobiçarás a mulher do próximo.

As mulheres querem que alternemos momentos de homens sensíveis e momentos de selvagens lenhadores.

Pena é que costumamos inverter as coisas. Na gana da obediência e do agrado, somos lenhadores quando nos queriam sensíveis e vice-versa. Comédia de erros. Onde queres Leblon sou Pernambuco… Onde queres romance, rock’n’roll…

As mulheres querem que reparemos no novo corte de cabelo, mesmo que a alteração tenha sido mínima, tipo só uma aparada nas pontas.

O radar capilar tem que acender a luzinha, sem falha, na hora, se liga! Se for luzes, entonces, cruzes!!!

As mulheres querem… massagem. Muita massagem. Primeiro nas costas, depois nos pés e sempre no ego.

As mulheres querem… molhinhos agridoces. Como elas se lambuzam lindamente!

As mulheres querem… flores e presentes. Não caia, jovem mancebo, nesse conto de que mulher gosta é de dinheiro. Se assim o fosse, amigo, os lascados de tudo não teriam nenhuma, nunca, jamé.

Repare que até debaixo do viaduto está lá a brava fêmea na companhia do desalmado. Ela e o cachorrinho magro, só o couro, o osso e a fidelidade. O que vale é a devoção, amigo.

Mesmo que você seja mais liso que os mussuns do brejo, pobre de marre-marré, pode muito bem presentear uma bijuteria com a dramaturgia de uma jóia da Tiffany´s.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Das causas do sofrimento humano*



Por Sigmund Freud



O sofrimento ameaça de três lados: a partir do próprio corpo, que, destinado à ruína e à dissolução, também não pode prescindir da dor e do medo como sinais de alarme; a partir do mundo externo, que pode se abater sobre nós com forças superiores, implacáveis e destrutivas, e, por fim, das relações com os outros seres humanos. O sofrimento que provém desta última fonte talvez seja sentido de modo mais doloroso que qualquer outro; tendemos a considerá-lo como um ingrediente de certo modo supérfluo, embora não seja menos fatalmente inevitável do que o sofrimento oriundo de outras fontes.


in: o mal-estar na cultura, 2010, pp. 63-64.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Freud, Jung & Sabina – e o sexo masoquista*



Por Paulo Nogueira



Jung e Sabina, no filme de Cronenberg

Na era do cinema para débeis mentais consagrado por Hollywood e cuja apoteose é o Oscar, é um prazer redobrado ver um bom filme como Métodos Perigosos, de David Cronenberg, diretor de A Mosca.
Clap, clap, clap. Aqui estou, aplaudindo de pé.
A história é fascinante: o triângulo formado por Jung, Freud e a jovem russa Sabina Spielgen no começo dos anos 1900. Fazia pouco tempo que Freud cunhara a palavra “psicanálise”, em sua Viena.
Não é exatamente um triângulo amoroso. A cópula, em si, aliás nada convencional, fica a cargo de Sabina e Jung. Ela, filha de uma família judia rica da Rússia, acabaria internada no hospital psiquiátrico suíço em que Jung, começava sua carreira. Sabina tinha 19 anos, e Jung, com menos de 30, já experimentava o tédio do casamento com Emma.
Jung testa em Sabina aquilo que aprendera ao ler intensamente Freud, a psicanálise. Logo descobre a natureza de seu distúrbio. O pai batia nela. E ela ficava sexualmente excitada ao apanhar. Masoquismo. Não demora muito, Jung está dando a Sabina aquilo de que ela gosta – castigo físico. E sexo: viram amantes. Ele a desvirgina e depois disserta sobre as virtudes da poligamia.

 Sabina
Sabina, intelectualmente brilhante, acabaria enveredando também pela psicanálise. Sua estatura só seria devidamente apreciada nos anos 1970, quando foram descobertas cartas que mostravam não apenas o papel decisivo dela na ruptura entre Freud e Jung como, mais que isso, suas idéias originais no campo da psicanálise ao estabelecer um vínculo decisivo entre o impulso sexual e o instinto de sobrevivência. (Freud, para quem o sexo era ligado ao prazer e não à sobrevivência, não perdoou o que julgou canalhice no comportamento de Jung ao supostamente se aproveitar da vulnerabilidade da paciente indefesa.)
Desde que vieram à luz as cartas em que fica clara a grandeza histórica de Sabina, ela foi objeto de biografias, peças, artigos acadêmicos – e, agora, o filme de Cronenberg. Nele, Sabina é interpretada notavelmente por Keira Knightley. (Fiquei bem mais impressionado com Keira como Sabina do que com Meryl Streep como Thatcher, e não estou falando aqui em beleza e juventude.)
Sabina cumpriu o destino de tantos judeus de sua geração. Foi morta, com as duas filhas, em sua Rússia natal pelos nazistas, na Segunda Guerra Mundial.
Mas sua participação como protagonista na história da psicanálise – como paciente, como amante, como pensadora e como pivô do rompimento dos dois grandes gênios da matéria – acabaria por imortalizá-la, como prova o filme de Cronenberg. É um trabalho tão bom que me fez comprar, na mesma noite, o livro “Sex versus Survival”, de John Launer, que narra a trajetória de Sabina. (Astutamente, a Amazon lançou o ebook quando saiu o filme. Li em poucas horas quase todo, e recomendo vivamente.)
Mais uma vez, clap, clap, clap para o filme, cujo trailer você pode ver no pé deste artigo.
De pé.

[Trailer clique aqui]



terça-feira, 13 de setembro de 2011

O mal-estar na cultura*


O que os próprios seres humanos, através de seu comportamento, revelam ser a finalidade e o propósito de suas vidas? O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? É difícil errar a resposta: eles aspiram à felicidade, querem se tornar felizes e assim permanecer. Essa aspiração tem dois lados, uma meta positiva e outra negativa: por um lado a ausência de dor e desprazer, por outro, a vivência de sensações intensas de prazer. Em seu sentido literal mais estrito, “felicidade” refere-se apenas a segunda. Correspondendo a essa bipartição das metas, a atividade dos seres humanos se desdobra em duas direções, segundo busquem realizar – predominante ou mesmo exclusivamente – uma ou outra dessas metas.

Como se percebe, o que estabelece a finalidade da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio comanda o funcionamento do aparelho psíquico desde o início; não cabem dúvidas quanto a sua conveniência, e, no entanto, seu programa está em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Ele é absolutamente irrealizável, todas as disposições do universo o contrariam; seria possível dizer que o propósito de que o homem seja “feliz” não faz parte do plano da “Criação”. Aquilo em que sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico. 

Sigmund Freud, O mal-estar na cultura, 2010.


____________________________
* O certo é que S. Freud (1856-1939) não é tão simples assim. Mas com certeza seu pensamento desbancou o império da razão tão sonhada pelos racionalistas do século das luzes. Freud descobriu o inconsciente e descortinou o sexo, ou melhor, nos despiu. Nesse fragmento acima ele fala sobre a finalidade última de nossas vidas, a felicidade. Desde o choro incontido da criança exigindo o peito até a compra daquele objeto tão desejado, tudo é regido pelo programa do princípio do prazer, que é a ausência de dor e desprazer e a sensação intensa de prazer. Mas como bem sabemos, sempre existe uma “pedrinha” infame bem no meio caminho. A consciência é uma maldita pedra, a moral e a cultura, outra. Quanto mais cultura e quanto mais consciência, mais sofrimento, mais culpa. Enfim, somos um bando de bípedes com um desejo enorme de felicidade, mas com uma carga cultural muito pesada para carregar. Embora quase sempre demos aquela escapadinha, só no detalhe... não é verdade?



Por Josenias Silva

domingo, 11 de setembro de 2011

Memória de minhas putas tristes*


No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver.
Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:
— É hoje.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.
Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta.
Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe.
O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos.
Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Diário de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indígena as notícias do mundo, que agarrávamos em pleno vôo pelo espaço sideral através das ondas curtas ou do código Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofício extinto; me sustento menos com a de professor de gramática castelhana e latim, quase nada com a crônica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio século, e nada em absoluto com as resenhas de música e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intérpretes notáveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas,  sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor.

Gabriel Garcia Marquez, Memórias de Minhas Putas Tristes, 2005.

__________________________________
* Li este livro de uma só tirada numa das minhas noites insones. Às vezes agradeço quando elas acontecem, penso que terei muito tempo para dormir depois de morto. No texto, como se pode degustar um pouquinho, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-) conta uma história pra lá de insólita. Um homem, “da raça dos sem méritos nem brilhos”, no dia dos seus noventa anos resolve provar para si mesmo que ainda estava vivo, em todos os sentidos. Até ai tudo bem, só que o incomum é que ele deseja presentear-se com uma noite de “amor louco” com uma adolescente virgem. Deste ponto em diante a história ganha contornos fascinantes, mescla memória, mediocridade, egoísmo, erotismo e certa dose de risibilidade. Mais paternal do que carnal, lembrei-me dos complexos de Freud, o livro em si nos remete a alguns íntimos desejos platônicos que acalentamos secretamente e também põe em questão o dilema da velhice, sobre o que faremos de nossas vidas no tempo que nos resta. É um livro em que a suavidade não esconde a profundidade de suas conclusões. 



Por Josenias Silva
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