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quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Caminhoneiro*

"O caminhoneiro". Já vi essa cena dezenas de vezes na Av. Duque de Caxias (zona norte de Teresina). 
Ontem resolvi registrá-la, pela câmera do celular. Foto: Daniel Solon

A Imagem me Lembra um poema de Mário Quintana:


Auto-retrato*

No retrato que me faço 
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
corrigido por um louco!

Mário Quintana in. "Nova Antologia Poética". Ed. Globo, 2007, p.138.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Fundação da infância*


Quando não eram mortas pela peste, as crianças pobres eram levadas pelo frio ou pela fome. A execução pela fome podia ocorrer nos primeiros dias, se não sobrasse leite suficiente nas tetas das mães, que eram amas-de-leite pobres de bebês ricos.

Mas tampouco os bebês de bom berço chegavam a uma vida fácil. Por toda a Europa, os adultos contribuíam para aumentar a taxa de mortalidade infantil submetendo seus filhos a uma educação severa.

O ciclo educativo começava quando o bebê era transformado em múmia. A cada dia, os serviçais o embutiam, da cabeça aos pés, num embrulho de vendas e faixas muito apertadas.

Assim se fechavam seus poros à passagem das pestes e aos vapores satânicos que povoavam o ar, e se conseguia que a criatura não incomodasse os adultos. O bebê, prisioneiro, mal podia respirar, nem pensava em chorar, e suas pernas e braços amarrados o proibiam de se mover.

Se as chagas ou a gangrena não o impedissem, aquele pacote humano passava para as etapas seguintes. Através do uso de correias era ensinado a ficar de pé e a caminhar como Deus manda, evitando o costume animal de andar de quatro. E depois, quando já estava mais crescidinho, começava o uso intensivo da chibata de nove tiras, dos bastões, das palmatórias, das varas de madeira ou dos vergalhões e outros instrumentos pedagógicos.

Nem os reis se salvaram. O rei francês Luís XIII foi coroado quando completou oito anos, e começou o dia recebendo sua dose de açoite.

O rei sobreviveu à sua infância.

Outras crianças também sobreviveram, sabe-se lá como, e foram adultos perfeitamente preparados para educar seus filhos.


Eduardo Galeano. in. "Espelhos". Ed. L&PM, 2009, pp. 85-86.

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