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quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Noventa anos sem Lima Barreto*


No dia 1º de novembro de 1922 o Brasil perdia um dos seus maiores escritores. Morria aos 41 anos de idade, na Rua Major Mascarenhas, nº 46, no bairro de Todos os Santos, subúrbio do Rio de Janeiro, o romancista e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto. Coincidentemente, era dia de Todos os Santos. Lima Barreto morreu na sua modesta residência, que ele tinha o costume de chamar de “Vila Quilombo” para contrapor ao bairro de Copacabana.
Oriundo de uma família humilde, Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro. Quando completou sete anos, no ano de 1888, acompanhou atento as festividades em comemoração à libertação dos escravos. Mal sabia ele que passaria por muitos reveses por conta de sua cor, pois, como era mulato, muito cedo saberia que esta condição seria a razão do preconceito que sofreria na sua trajetória.
Lima Barreto ingressou no jornalismo profissional em 1905, no jornal Correio da Manhã, produzindo diversas reportagens. Apesar da morte prematura, foi na literatura que o escritor deixou a sua marca conhecida: o embate com os donos do poder. A estreia como escritor ocorreu em 1909, com o livro As Recordações do Escrivão Isaias Caminha, obra que denunciava o papel da grande imprensa na estrutura do poder e os bastidores da redação de um grande jornal da época. O livro abordou o mundo das notícias manipuladas, os elogios encomendados, as projeções dos falsos heróis e as bajulações dos poderosos e revelou ainda o visível preconceito contra os negros na sociedade brasileira.

“É triste não ser branco”

Combativo em denunciar as mazelas sociais e o racismo no país. Assim era Lima Barreto. Passados noventa anos de sua ausência, muitos foram os avanços na luta contra a “engenhosa artimanha” do racismo brasileiro que se mostra persistente, dissimulado, hipócrita e cínico, adjetivos que o tornam, até os dias de hoje, difícil de ser combatido.
Apesar dos esforços da grande imprensa, que tem atuado como tropa de choque na defesa do status quo do grupo que sempre se beneficiou com a marginalização e exclusão dos negros no processo de distribuição da renda no país, o Estado brasileiro, reconhecendo que há racismo de fato, vem implementando políticas de ações afirmativas voltadas, particularmente, para a inclusão da população negra. Essas políticas, ainda que tardias, visam a concluir um processo que se iniciou com o testemunho de Lima Barreto em 13 de maio de 1888 e que só agora tem sua continuidade. Em 1888, o Estado brasileiro não concedeu aos negros o direito à cidadania brasileira.

A negação dessa cidadania encontra explicação no desabafo de Lima Barreto em seu Diário íntimo: “É triste não ser branco.”

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Júlio Ribeiro Xavier in. Observatório da Imprensa

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lima Barreto nas ruas de hoje*

Por José Castello



Entre tantas coisas, o que mais me entusiasma na leitura de "O passeador", romance de Luciano Hidalgo (Rocco), é seu esforço, delicado mas firme, para recuperar a imagem ainda hoje tão esmaecida, tão "escolar", do genial Lima Barreto. Seu esforço para segui-lo pelas ruas de um Rio de Janeiro que decai, enquanto se moderniza - o escritor como testemunha aflita de uma transformação. Para recuperar sua força, tão desprezada pelas vozes enfáticas e cheias de si do Modernismo de 1922. 

Ainda hoje, o Modernismo de 22 ergue-se como uma barreira entre nosso presente, nosso acelerado século 21, e a obra de Afonso Henriques de Lima Barreto. Morto justamente no ano de 1922, aos 41 anos de idade, ele teve no modernismo uma espécie nada sutil de carrasco. Com suas palavras de ordem renovadoras, sua aposta cega nas vanguardas, sua obsessão pelo futuro, os modernistas não souberam ver a força renovadora, a postura avançada, a aliança com o futuro que a obra de Lima significa. 

Misturando dados biográficos com uma imaginação exuberante, Luciana Hidalgo nos dá um romance que coloca Lima Barreto justamente onde ele devia sempre estar: no centro de uma grande aflição. Quase um século depois de sua morte, essa alma andarilha e aflita continua a nos servir como modelo para enfrentar um mundo que há muito desistiu das vanguardas (e,portanto, do futuro), mas que se transformou numa espécie monstruosa de devorador do presente. 

Mundo do imediato, do instantâneo, do tempo real, como se sentiria nele Lima Barreto? Certamente, nada bem. Contudo, ele se pudesse caminhar pelo Rio de Janeiro de hoje, onde duas vertentes opostas - beleza profunda e modas fúteis - também se misturam, nos ofereceria, por certo, um olhar devastador. Aquele olhar em que a crítica forte se mistura com a doçura, mescla que tanto nos falta. 

Lima Barreto via com desconfiança o mundanismo - e veria com a mesma desconfiança, por certo, o universo de celebridades que, hoje, toma a frente da cena midiática. Desconfiava do progresso a qualquer preço - e hoje desconfiaria também de certa idéia repetitiva e vazia de futuro que, enquanto parece avançar, nos arrasta para trás. Mulato em um país que acabava de abolir a escravatura, Lima veria hoje com desconfiança, por certo, a suposta "falta de preconceitos" raciais que esconde, no dia a dia, os preconceitos mais repulsivos. 

Faltam-nos os olhos agudos de Lima Barreto, sempre discreto, sempre pequeno, um tanto irônico quando pensa em si mesmo. Sem pose, sem desejo de fama e fortuna, livre das pressões da glória, disposto apenas - como fazem os grandes escritores - a viver e escrever. Se frequentava, com entusiasmo, um sebo na rua Gonçalves Dias, hoje, por certo, ele ainda estaria no mesmo sebo - em vez de perambular pelas livrarias de shopping. Retrocesso? Apego doentio ao passado? Ou, vamos experimentar pensar assim, busca de um caminho que seja apenas seu? 

O andarilho solitário é o oposto do homem contemporâneo que busca os holofotes e flerta com as multidões. O gosto pelo lentos passeios a pé (o flanar) contrasta com a alegria rápida dos jovens de hoje (Lima morreu jovem!), que preferem a inércia das lan house ou, ao contrário, as performances espetaculosas dos esportes radicais à lentidão do livre pensar. Observe-se as fotos que ficaram do escritor e nelas encontramos uma placidez que se mistura com a paciência. Paciência que tanto nos falta. 

Lima Barreto: nosso contemporâneo. É através de uma ficção, um romance delicado, e não de uma defesa de tese, que isso se torna mais claro. O romance de Luciana Hidalgo nos sugere que leiamos o velho Lima com novos olhos. Com nossos olhos - e não com os olhos daqueles que o desprezaram e até tentaram anular. Com os olhos do presente, um presente que não se ilude nem com o sangue do passado, nem com as miragens do futuro. Que tal encarar Lima Barreto? Um mundo inteiro se abre.



domingo, 23 de outubro de 2011

Queixa de defunto*


Por LIMA BARRETO


Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, na Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tomar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:

"Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não. Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem coisa alguma de reivindicações e revoltas, mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.

Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte no sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensamento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais. Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos 'bíblias', nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns. Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda a eloqüência em galego ou vasconço.

Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. É bom meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa. Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.

Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanhamento tiveram que atravessar em toda a extensão a rua José Bonifácio, em Todos os Santos.

Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e largura, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola, sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto. Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche, machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranhaduras pelo corpo.

O bom do velho santo interpelou-me logo:

- Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem comportado - como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto? Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.
Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc." 

Posso garantir a fidelidade da cópia e aguardar com paciência as providências da municipalidade.


Lima Barreto, Careta, 20-3-1920

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*A ironia de Lima é simplesmente genial!!!!


terça-feira, 20 de setembro de 2011

Lima e a Bruzundanga nossa de cada dia*



“A minha estada na Bruzundanga foi demorada e proveitosa. O país, no dizer de todos, é rico, tem todos os minerais, todos os vegetais úteis, todas as condições de riqueza, mas vive na miséria. [...] É que a vida econômica da Bruzundanga é toda artificial e falsa nas suas bases, vivendo de expedientes. Entretanto, o povo só acusa os políticos, isto é, os seus deputados, os seus ministros, o presidente, enfim. O povo tem em parte razão. Os seus políticos são o pessoal mais medíocre que há. Apegam-se a velharias, a coisas estranhas à terra que dirigem, para achar solução às dificuldades do governo. A primeira coisa que um político de lá pensa, quando se guinda às altas posições, é supor que é de carne e sangue diferente do resto da população. [...] Bossuet dizia que o verdadeiro fim da política era fazer os povos felizes; o verdadeiro fim da política dos políticos da Bruzundanga é fazer os povos infelizes. [...] Não há lá homem influente que não tenha, pelo menos, trinta parentes ocupando cargos no Estado; não há lá político influente que não se julgue com direito a deixar para seus filhos, netos, sobrinhos, primos, gordas pensões pagas pelo Tesouro da República. No entanto, a terra vive na pobreza; os latifúndios abandonados e indivisos; a população rural, que é a base de todas as nações, oprimida por chefões políticos, inúteis, incapazes de dirigir a coisa mais fácil desta vida. Vive sugada, esfomeada, maltrapilha, macilenta, amarela, para que na sua capital, algumas centenas de parvos, com títulos altissonantes disso ou daquilo, gozem vencimentos, subsídios, duplicados e triplicados, afora vencimentos que vem de outra qualquer origem, empregando um grande palavreado de quem vai fazer milagres. [...] A República dos Estados Unidos da Bruzundanga tem o governo que merece.”

Lima Barreto, Na Bruzundanga, 2009.

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*Um fora de lugar, essa talvez seja uma definição adequada, embora insuficiente, para definir o carioca Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922). Pobre, mulato, alcoólatra e escritor. Lima Barreto foi tudo isso vivendo em um dos períodos mais instáveis da história do Brasil. Observador atento da realidade, Lima acompanhou de perto a queda da Monarquia e a primeira infância da República, retratando em suas obras aspectos do cotidiano da capital do país, o mesmo Rio de Janeiro de Machado, só que em outras tintas.
Quem hoje se atreve a ler alguma obra de Lima Barreto ainda se surpreende com a atualidade do autor. Como se pôde ler no recorte acima, a agudeza da observação e a ironia fina são características da prosa limabarretiana. Nesse trecho, que fala da política e dos políticos da Bruzundanga, um país fictício muy familiar, Lima descreve o corrompido fazer político bruzundanguense. Uma crítica, sem sombra de dúvida, à sociedade brasileira, ao seu viciamento político, que como sabemos anda pior a cada pleito, mas uma crítica também ao próprio povo, que tem o governo que merece ou fez por merecer.
Lima Barreto sempre foi um incompreendido entre os seus pares, sendo mais de uma vez recusado à Academia Brasileira de Letras, o que o fez viver angustiado diante das dificuldades socialmente impostas a um escritor como ele, eram tempos parnasianos, mas também de retumbante hipocrisia racial. Lima Barreto morreu em 1922 de colapso cardíaco, resultado do excesso de bebida. Lima ficou esquecido durante algum tempo até que sua obra e sua vida se tornassem objeto de interesse por alguns admiradores, como o seu biografo Francisco de Assis Barbosa, e por certa esquerda que queria enxergar um outro Brasil, agora visto de baixo. Dentre suas principais obras destacam-se, além de contos e crônicas publicados em jornais da época, Recordações do Escrivão Isaias Caminha (1909), Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), Vida e Morte de M.Gonzaga de Sá (1919), Na Bruzundanga (1923, obra publicada postumamente) etc. Para finalizar, deixo um convite de leitura fazendo minhas as palavras do professor e ensaísta Antonio Arnoni Prado (Unicamp): “Temos que ler Lima Barreto porque não somos um país livre, não somos um país integralmente livre. Temos que ler Lima Barreto porque somos um país socialmente injusto, somos um país onde os pobres continuam pobres e as elites continuam no lugar delas. Não é para aprender português que se ler Lima Barreto, lê-se Lima Barreto pra aprender a ser brasileiro.”

Por Josenias Silva

sábado, 17 de setembro de 2011

Literatura como missão*



Literatura como missão, de Nicolau Sevcenko, foi um trabalho pioneiro no Brasil. Publicado ainda na década de 1980 como fruto da tese de doutoramento do seu autor, a obra fundou amplos campos de pesquisa  resultando naquilo que se convencionou chamar de história social da cultura.

Captar as mudanças, as tensões sociais e a criação cultural na virada do século XIX para o século XX, a partir da interface entre o literário e o histórico, foi a missão de que se incumbiu Sevcenko nesta obra. O Rio de Janeiro atuou como cenário principal dos embates e das transformações urbanas, políticas e mentais daquele momento. Sua entrada na Belle Époque serviu de mote a poetas, cronistas e escritores que vivenciaram estas tensões sociais. Para o autor, a literatura moderna “aparece como ângulo estratégico notável, para a avaliação das forças e dos níveis de tensão existentes no seio de determinada estrutura social.” Nesse sentido, a literatura pensada através da história, além de significar um produto artístico, surge como possibilidade de compreensão das mudanças e dos mecanismos de permanência de uma dada época.

Euclides da Cunha e Lima Barreto foram os personagens-escritores de que se serviu o historiador para adentrar no universo convulso da nascente República. Ambos viveram e sentiram, como contemporâneos e conterrâneos, as "mudanças" que se processaram no interior das camadas sociais brasileiras. Desse torvelinho cultural poucos se salvaram. Euclides da Cunha e Lima Barreto sobreviveram graças ao seu engajamento sociopolítico, à sua consciência humanitária e a clara visão das mudanças em curso naquele instante da história do país, ambos se encontravam na dianteira intelectual do seu tempo.

Nicolau Sevcenko procura apresentá-los em suas sintonias e antinomias, em sua sensibilidade ao falar das tensões da época em que viveram e dos nexos entre a criação artística e a própria história. Sociedade e Literatura figuram nas obras de Euclides da Cunha e Lima Barreto como interfaces da dimensão histórica. Apropriando-se disso, o autor analisa o conjunto das obras destes escritores na tentativa de perscrutar o cotidiano e a vida social carioca no limiar do século XX. Metodologicamente, a literatura para Sevcenko não aparece como uma ferramenta inerte, mas sim como um ritual complexo capaz de construir, modelar e revelar simbolicamente o mundo.

Literatura como Missão, é uma obra que apresenta a primeira República pelo avesso, pois procura revelar as trincas, as rachaduras e estrias dos principais eventos tão propalados pela historiografia brasileira, não a partir dos fatos centrais, mas da maneira como foram sentidos e representados pela intelectualidade carioca do período.  Enfim, ainda hoje Literatura como Missão é uma leitura obrigatória aqueles que pretendem conhecer e discutir o surgimento de um Brasil que se dizia Republicano, laico, anti-escravocrata e justo.



*Josenias S. Silva in. Fronteiras Literárias

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Fragmento: 


As décadas situadas em torno da transição dos séculos XIX e XX assinalaram mudanças drásticas em todos os setores da vida brasileira. Mudanças que foram registradas pela literatura, mas sobretudo mudanças que se transformaram em literatura. Os fenômenos históricos se reproduziram no campo das letras, insinuando modos originais de observar, sentir, compreender, nomear e exprimir. A rapidez e profundidade da transfiguração que devassou a sociedade inculcou na produção artística uma inquietação diretamente voltada para os processos de mudança, perplexa com a sua intensidade inédita, presa de seus desmandos e ansiosa de assumir a sua condução. Fruto das transformações, dedicada a refletir sobre elas e exprimi-las de todo modo, essa literatura pretendia ainda mais alcançar o seu controle, fosse racional, artística ou politicamente. Poucas vezes a criação literária esteve tão presa à própria epiderme da história tout court. Era em grande parte uma literatura encampada por homens de ação, com predisposição para a liderança e gerência político-social: engenheiros, militares, médicos, políticos, diplomatas, publicistas. Nesse meio e sob essa atmosfera, quem quer que se dispusesse a servir às letras era compelido à atuação cívica já pela dupla imposição de tirocínio e forma.

Nicolau Sevcenko in. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na primeira República. Ed. Companhia das Letras, 2003.



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