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quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sorria*

Por Gabriel O Pensador





Não coma de boca aberta, 
não fale de boca cheia; 
não beba de barriga vazia
não fale da vida alheia, 
não julgue sem ter certeza e 
não apoie os cotovelos sobre a mesa
não pare no acostamento, 
não passe pela direita, 
não passe embaixo de escada que dá azar
não cuspa no chão da rua, 
não cuspa pro alto, 
não deixe de dar descarga depois de usar
não use o nome de Deus em vão
não use o nome de Deus em vão,irmão
não use o nome de Deus em vão
não use remédios sem orientação

SORRIA! Você tá sendo filmado 
SORRIA! Você tá sendo observado 
SORRIA! Você tá sendo controlado
'cê tá sendo filmado! 'cê tá sendo filmado!

Não coma de boca aberta, não fale de boca cheia, 
não toque nos produtos se não for comprar 
não pise na grama, não faça xixi na cama; 
não ame quem não te ama [não ame quem não te ama!]
não chame os elevadores em caso de incêndio 
não entre no elevador sem antes verificar 
se o mesmo encontra-se neste andar
não chupe balas oferecidas por estranhos
não recuse um convite sem dizer obrigado
não diga palavras chulas na frente dos seus avós
não fale com o motorista; apenas o necessário
não se deixe levar pelos instintos carnais
não desobedeça seus pais
não dê esmola aos mendigos, 
não dê comida aos animais
não dê comida aos animais, 
não dê esmola aos mendigos
não coma de boca aberta, 
não fale de boca cheia, 
não dê na primeira noite, 
não coma a mulher do amigo.

Não use o nome de Deus em vão
não use o nome de Deus em vão, irmão
não use o nome de Deus em vão
não use remédios sem orientação

Não se deixe levar! 
não se deixe levar! 
não se deixe levar! 
não se deixe levar! (2x)

Coma de boca aberta, coma de boca fechada
coma nos elevadores
em caso de incêndio coma nas escadas
coma no chão da rua, coma na grama, coma na cama
ame quem não te ama, 
não recuse balas oferecidas por estranhos 
não dê esmola aos mendigos sem dizer obrigado
não chupe os animais, 
não desobedeça aos seus instintos carnais
não dê na primeira noite na frente dos seus avós
não use o nome de Deus se não for comprar
não coma a mulher do amigo sem antes verificar 
se o mesmo encontra-se neste andar.


In: Gabriel O Pensador, Caveleiro Andante, 2005. (Sony BMG)


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Assista ao vídeo aqui ...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Antes que Anoiteça*



Por Josenias Silva


Queridos amigos:

Devido ao meu precário estado de saúde e à terrível depressão emocional que me impossibilita de continuar a escrever e a lutar pela liberdade de Cuba, estou pondo fim a minha vida. Nos últimos anos, mesmo me sentindo muito doente, pude terminar minha obra literária, na qual trabalhei por quase trinta anos. Deixo-lhes pois como legado todos os meus terrores, mas também a esperança que em breve Cuba será livre. Sinto-me satisfeito por ter contribuído, mesmo que modestamente, pelo triunfo da liberdade. Ponho fim a minha vida voluntariamente porque não posso continuar trabalhando. Nenhuma das pessoas que me cercam estão comprometidas nesta decisão. Só há um responsável: Fidel Castro. Os sofrimentos do exílio, a dor de ter sido banido, a solidão e as doenças contraídas no desterro – certamente não teria sofrido isto se pudesse ter vivido livre em meu país.

Conclamo o povo cubano, tanto no exílio quanto na Ilha, a seguir lutando pela liberdade. Minha mensagem não é uma mensagem de derrota, mas sim de luta e esperança.

Reinaldo Arenas, Antes que Anoiteça, 2009, p.377.



Há exatos 21 anos morria Reinaldo Arenas (1943-1990), escritor e poeta cubano dos mais perseguidos pela ditadura de Fidel Castro.




Arenas, como ele mesmo se considerava, era um dissidente em todos os sentidos, não era religioso, era homossexual e anti-castrista. Condições suficientes para mantê-lo sempre sob a mais rígida vigilância dos aparelhos de repressão montados por Fidel nos anos seguintes à “revolução”.

Embora ainda na juventude tenha se alinhado aos mesmos ideais revolucionários que motivou o bando de Castro a tomar o poder, Arenas nunca deixou de ser um fora de lugar, um exilado de si mesmo, alguém consciente da sua própria condição e a do seu povo.

“E nós, cubanos, que sofremos durante vinte anos uma perseguição violenta, num mundo terrível, somos pessoas que não podem encontrar tranqüilidade em lugar nenhum; o sofrimento nos marcou para sempre, e talvez possamos encontrar certa comunicação somente com pessoas que tenham sofrido como nós.” (Arenas, 2009, p.366).

Um pouco antes de suicidar-se, em 7 de dezembro de 1990, ele deixou várias cópias da carta transcrita no início desse texto. Nela, como se pode perceber, ele culpa única e exclusivamente Fidel Castro por todos os sofrimentos e infortúnios que passou enquanto viveu em Cuba. Arenas deixou várias obras publicadas, assim como uma autobiografia (Antes que Anoiteça) em que narra de forma crua a sua vida, as suas paixões e a sua luta contra a intolerância e a perseguição política durante a ditadura de Castro.

Reinaldo Arenas se tornou um símbolo da resistência e da luta a favor da liberdade na ilha cubana. Sua morte, mais que um brado de indignação, representa um ato de revolta contra todas as ditaduras, contra todas as formas de intolerância, principalmente a sexual, e contra toda e qualquer coerção, principalmente a do pensamento.


Arenas, que o mundo (sempre ingrato para os bons) não te esqueça.



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*Dica: Em 2000 a vida de Reinaldo Arenas foi levada ao cinema no filme Antes do Anoitecer (Before Nigth Falls), o filme foi inspirado na autobiografia do autor. Vale a pena assistir tanto ao filme quanto ler a obra, desta escreverei minhas impressões em outro post. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Ódio revisitado*

Por Dorrit Harazi




Nada mais fugidio e elusivo do que o “momento decisivo” perseguido e fotografado por Henri Cartier-Bresson ao longo da vida – aquele que define a essência de uma situação. Não raro, esse instante se apresenta sem avisar. Com frequência, sequer é percebido por quem o captou.

Cinquenta e quatro anos atrás, um jovem fotógrafo do Arkansas Democrat conseguiu encapsular um desses momentos com sua primeira Nikon S2, máquina da era pré-digital. Carregou a máquina com um filme Kodak Plus X, ótimo para manhãs ensolaradas de final de verão, e foi cobrir o primeiro dia de aula de um grupo de estudantes negros na maior e melhor escola média de Little Rock. Esse pedaço de história ficou gravado no negativo de número 15.

Eram apenas nove os jovens negros selecionados pela direção do principal colégio da cidade, o Central High School, para cumprir a ordem judicial de integração racial no país. Segundo David Margolick, autor do recém-publicado Elizabeth and Hazel: Two Women of Little Rock (ainda inédito no Brasil), a peneira foi cautelosa. A busca se concentrou em colegiais que moravam perto da escola, tinham rendimento acadêmico ótimo, eram fortes o bastante para sobreviver à provação, dóceis o bastante para não chamar a atenção e estóicos o suficiente para não revidar a agressões. Como conjunto, também deveria ser esquálido, para minimizar a objeção dos 2 mil estudantes brancos que os afrontariam.

Assim nasceu o grupo que entraria na história dos direitos civis americanos como “Os Nove de Little Rock”. Eram todos adolescentes bem-comportados, com sólidos laços familiares, filhos de funcionários públicos e integrantes da ainda incipiente classe média negra sulista. Entre eles, a reservada Elizabeth Eckford, de 15 anos.

Os pais dos nove pioneiros foram instruídos a não acompanharem os filhos naquele 4 de setembro de 1957, pois as autoridades temiam que a presença de negros adultos inflamasse ainda mais os ânimos. Por isso, os escolhidos agruparam-se na casa de uma ativista dos direitos civis e de lá seguiram juntos para o grande teste de suas vidas. Menos Elizabeth, que não recebera o aviso para se encontrar com os demais e partiu sozinha rumo a seu destino.

De longe ela avistou a massa de alunos brancos passando desimpedidos pelo cordão de isolamento montado pela Guarda Nacional do Arkansas. Ao tentar fazer o mesmo, foi barrada por três soldados que ergueram seus rifles. Elizabeth recuou, procurou passar pela barreira de soldados em outro lugar da caminhada e a cena se repetiu. Alguém, de longe, gritou “Não a deixem entrar” e uma pequena multidão começou a se formar às suas costas. Foi quando Elizabeth se lembra de ter começado a tremer. Com a majestosa fachada da escola à sua frente, ela ainda fez uma terceira tentativa de atravessar o bloqueio em outro ponto do cordão de isolamento.

Como pano de fundo, começou a ouvir invectivas de “Vamos linchá-la!”, “Dá o fora, macaca”, “Volta pro teu lugar”, frases proferidas por vozes adultas e jovens. Atordoada, dirigiu-se a uma senhorinha branca – a mãe lhe ensinara que em caso de apuro era melhor procurar ajuda entre idosos. A senhorinha, porém, lhe cuspiu no rosto.

Como não conseguisse chegar à escola, a adolescente então tomou duas decisões: não correr (temeu cair se o fizesse) e andar um quarteirão até o ponto de ônibus mais próximo. Um aglomerado de cidadãos brancos passou a seguir cada passo seu. Imediatamente às suas costas vinha um trio de adolescentes, alunas do colégio. Entre elas, Hazel Bryan.

“Vai pra casa, negona! Volta para a Á”– clic– “frica!” Segundo o autor do livro centrado no episódio, foi este o instante em que a câmera de Will Counts captou a imagem que se tornaria histórica.

Hazel, de quinze anos e meio, não carregava qualquer livro escolar. Apenas uma bolsa e um inexplicável jornal. Ela não planejara nada para aquela manhã. Vestira-se com o esmero que era sua marca – roupas e maquiagem ousadas para uma adolescente daquela época – e arvorou-se de audácia ao ver tantos fotógrafos e soldados da Guarda Nacional. Nada além disso. O resto pode ser debitado à formação que recebera em casa – família de origem rural, ideário fundamentalista cristão, atitude racial aprendida com o pai.

[...]


Revista Piauí, n° 62, novembro de 2011. pp. 44 – 46.

_____
*De um país que até bem pouco tempo segregava racialmente seus alunos em escolas distintas (engraçado como ninguém fala do regime de aparthaid nos Estados Unidos) a um país que elegeu um presidente negro, será que mudou muita coisa por lá? Esse texto é uma boa leitura sobre a questão racial americana, passada e presente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

O corpo dos condenados*



Por MICHEL FOUCAULT



[Damiens fora condenado, a 2 de março de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroça, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroça, na praça de Greve, e sobre um patíbulo que ai será erguido, atenazado nos mamilos, braços, coxas e barrigas das pernas, sua mão direita segurando a faca com que cometeu o dito parricídio, queimada com fogo de enxofre, e as partes em que será atenazado se aplicarão chumbo derretido, óleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo será puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lançadas ao vento.

Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d'Amsterdam]. Essa última operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos a tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembraras coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas...

Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador, nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: "Meu Deus, tende piedade de mim; Jesus, socorrei-me". Os espectadores ficaram todos edificados com a solicitude do cura de Saint-Paul que, a despeito de sua idade avançada, não perdia nenhum momento para consolar o paciente.

[O comissário de polícia Bouton relata]: Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de aço preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita, depois a coxa, dai passando as duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras.

Depois desses suplícios, Damiens, que gritava muito sem contudo blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.

O senhor Le Breton, escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não; nem é preciso dizer que ele gritava, com cada tortura, da forma como costumamos ver representados os condenados: "Perdão, meu Deus! Perdão, Senhor". Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima, ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades faziam-no sofrer dores inexprimíveis.

O senhor Le Breton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada; disse que não. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente; beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam; estendia os lábios e dizia sempre: "Perdão, Senhor".

Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco. Um quarto de hora mais tarde, a mesma cerimônia, e enfim, após várias tentativas, foi necessário fazer os cavalos puxar da seguinte forma: os do braço direito a cabeça, os das coxas voltando para o lado dos braços, fazendo-lhe romper os braços nas juntas. Esses arrancos foram repetidos varias vezes, sem resultado. Ele levantava a cabeça e se olhava. Foi necessário colocar dois cavalos, diante dos atrelados as coxas, totalizando seis cavalos. Mas sem resultado algum.

Enfim o carrasco Samson foi dizer ao senhor Le Breton que não havia meio nem esperança de se conseguir e lhe disse que perguntasse as autoridades se desejavam que ele fosse cortado em pedaços. O senhor Le Breton, de volta da cidade, deu ordem que se fizessem novos esforços, o que foi feito; mas os cavalos empacaram e um dos atrelados as coxas caiu na laje. Tendo voltado os confessores, falaram-lhe outra vez. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): "Beijem-me, reverendos".

O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem, mas o de Marsilly  passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. Os carrascos se reuniram, e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem, que cumprissem seu ofício, pois não lhes queria mal por isso; rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa.

Depois de duas ou três tentativas, o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo; os quatro cavalos, colocando toda força, levaram-lhe as duas coxas de arrasto, isto é: a do lado direito por primeiro, e depois a outra; a seguir fizeram o mesmo com os braços, com as espáduas e axilas e as quatro partes; foi preciso cortar as carnes até quase aos ossos; os cavalos, puxando com toda força, arrebataram-lhe o braço direito primeiro e depois o outro.

Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para lhe falar; mas o carrasco informou-lhes que ele estava morto, embora, na verdade, eu visse que o homem se agitava, mexendo o maxilar inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou mesmo a dizer pouco depois que, assim que eles levantaram o tronco para o lançar na fogueira, ele ainda estava vivo. Os quatro membros, uma vez soltos das cordas dos cavalos, foram lançados numa fogueira preparada no local sito em linha reta do patíbulo, depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha, e se pôs fogo a palha ajuntada a essa lenha.

...Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O último pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir as dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento, permanecemos no local até mais ou menos onze horas.


Michel Foucault, Vigiar e Punir: nascimento da prisão, 2004.

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*O que é justiça? Como reparar um crime? Certo é que ao longo do tempo buscamos nos “aperfeiçoar” nesse quesito. Saímos dos suplícios, como esse de Damiens, e chegamos a essa forma recente (em termos históricos) que é a prisão. Embora particularmente continue achando que o único sentido da condenação de um criminoso seja o exemplo para quem, de fora, ainda não  o é. Essa economia do poder de punição, essa racionalização que forjou o nascimento dos presídios em substituição aos castigos e execuções públicas será a maneira mais “humanizada” de punir? Tenho lá minhas dúvidas.

Sobre isso indico um filme-documentário muito bom: “O prisioneiro da grade de Ferro”(2003). (sigam o link).

sábado, 19 de novembro de 2011

Sonhos de Einstein*

Por Alan Lightman






Neste mundo, já num primeiro olhar percebe-se que algo está fora de lugar. Não se vêem casas nos vales ou nas baixadas. Todos moram nas montanhas.

Em algum momento do passado, cientistas descobriram que o tempo flui mais lentamente nos pontos mais distantes do centro da Terra. O efeito é minúsculo, mas pode ser medido por instrumentos extremamente sensíveis. Assim que o fenômeno foi constatado, algumas pessoas, desejosas de permanecerem jovens, mudaram-se para as montanhas. Agora, todas as casas são construídas no Don, no Matterhorn, no monte Rosa e em outros pontos elevados. É impossível vender residências em outros locais.

Muitos não se satisfazem apenas situando suas moradias em uma montanha. Para obter efeito máximo, constroem suas casas sobre colunas. Os topos das montanhas do mundo inteiro estão cobertos por casas deste tipo, que à distância parecem um bando de pássaros gordos apoiados sobre pernas longas e magras. As pessoas que desejam viver mais construíram suas casas sobre as colunas mais altas. Com efeito, algumas casas estão a meia milha de altura, equilibrando-se sobre suas espigadas pernas de madeira. Altitude passou a ser sinal de status. Quando uma pessoa, da janela de sua cozinha, precisa olhar para cima para ver um vizinho, ela tem a certeza de que aquele vizinho não ficará com as juntas enferrujadas tão cedo quanto ela, que ela demorará a perder os cabelos, não terá rugas ainda por muito tempo, não perderá o ímpeto romântico tão cedo. Da mesma maneira, uma pessoa que olha para baixo para ver outra coisa tende a julgar seus ocupantes gastos, fracos e míopes. Alguns se gabam de ter passado a vida inteira nas alturas, de ter nascido na casa mais alta do mais alto pico e de nunca ter descido. Celebram sua juventude diante do espelho e caminham nus em seus terraços.

Às vezes algum negócio urgente obrigam as pessoas a descerem de suas casas, e elas o fazem apressadamente, correndo aflitas pelas escadas altas até o chão, depois até uma outra escada ou até o vale. Concluem seus afazeres e voltam o mais rápido que podem para suas casas ou para outros lugares altos. Elas sabem que, a cada degrau que descem, o tempo passa com maior velocidade e elas envelhecem um pouco mais rapidamente. No chão as pessoas nunca param. Elas correm, carregando suas pastas e sacos de compras.

Um pequeno número de residentes em cada cidade pára de se preocupar se envelhece alguns segundos mais rápidos que seus vizinhos. Essas almas aventureiras costumam descer para o mundo de baixo e ali permanecem durante dias, descansam sob as árvores que crescem nos vales, nadam prazerosamente nos lagos localizados em altitudes onde as temperaturas são amenas, rolam no chão. Quase nunca olham para seus relógios e mal podem dizer se é segunda ou quinta-feira. Quando os outros passam por elas e zombam, apenas sorriem.

Com o passar do tempo, as pessoas esqueceram por que razão mais alto é melhor. Mesmo assim, continuam vivendo nas montanhas, evitando baixadas ao máximo, ensinando seus filhos a se afastarem de crianças de locais de baixa altitude. Elas toleram o frio das montanhas por hábito e valorizam o desconforto como positivo para sua educação. Elas até mesmo se convenceram de que o ar rarefeito é bom para seus corpos e, seguindo esta lógica, adotaram dietas especiais, comendo apenas comidas mais leves. Os anos passaram e a população acabou ficando tão leve quanto o ar, com os ossos protuberantes, envelhecida antes do tempo.


Alan Lightman, Sonhos de Einstein, 1993.


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*Será que é possível furar a “bolha” um pouquinho? Ou seria melhor apodrecermos dentro dela? No bom latim se diria: Carpe Diem.

sábado, 22 de outubro de 2011

Admirável Chip Novo*

Por PITTY


Pane no sistema, alguém me desconfigurou
Aonde estão meus olhos de robô?
Eu não sabia, eu não tinha percebido
Eu sempre achei que era vivo
Parafuso e fluído em lugar de articulação

Até achava que aqui batia um coração
Nada é orgânico, é tudo programado
E eu achando que tinha me libertado
Mas lá vem eles novamente
E eu sei o que vão fazer:
Reinstalar o sistema

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga
Tenha, more, gaste e viva

Pense, fale, compre, beba
Leia, vote, não se esqueça
Use, seja, ouça, diga...
Não senhor, Sim senhor (2x)

...

Pitty, Admirável chip novo, 2003.


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*Só para relembrarmos algumas correntes e sistemas e correntes e sistemas e correntes e sistemas... que nos #pren#dem#.

domingo, 16 de outubro de 2011

A tentação totalitária*

Por LUIZ FELIPE PONDÉ



Você se considera uma pessoa totalitária? Claro que não, imagino. Você deve ser uma pessoa legal, somos todos.

Às vezes, me emociono e choro diante de minhas boas intenções e me pergunto: como pode existir o mal no mundo? Fossem todos iguais a mim, o mundo seria tão bom... (risadas).

Totalitários são aqueles skinheads que batem em negros, nordestinos e gays.

Mas a verdade é que ser totalitário é mais complexo do que ser uma caricatura ridícula de nazista na periferia de São Paulo.

A essência do totalitarismo não é apenas governos fortes no estilo do fascismo e comunismo clássicos do século 20.

Chama minha atenção um dado essencial do totalitarismo, quase sempre esquecido, e que também era presente nos totalitarismos do século 20.

Você, amante profundo do bem, sabe qual é? Calma, chegaremos lá.

Você se lembra de um filme chamado "Um Homem Bom", com Viggo Mortensen, no qual ele é um cara legal, um professor universitário não simpatizante do nazismo (o filme se passa na Alemanha nazista), e que acaba sendo "usado" pelo partido?

Pois bem. Neste filme, há uma cena maravilhosa, entre outras. Uma cena num parque lindo, verde, cheio de árvores (a propósito, os nazistas eram sabidamente amantes da natureza e dos animais), famílias brincando, casais se amando, cachorros correndo, até parece o Ibirapuera de domingo.

Aliás, este é um dos melhores filmes sobre como o nazismo se implantou em sua casa, às vezes, sem você perceber e, às vezes, até achando legal porque graças a ele (o partido) você arrumaria um melhor emprego e mais estabilidade na vida.

Fosse hoje em dia, quem sabe, um desses consultores por aí diria, "para ter uma melhor qualidade de vida".

E aí, a jovem esposa do professor legal (ele acabara de trocar sua esposa de 40 anos por uma de 25 - é, eu sei, banal como a morte) o puxa pelo braço querendo levá-lo para o comício do partido que ia rolar naquele domingão no parque onde as famílias iam em busca de uma melhor qualidade de vida.

Mas ele não tem nenhuma vontade de ir para o comício porque sente um certo "mal-estar" com aquilo tudo. Mas ela, bonita, gostosa, loira, jovem e apaixonada (não se iluda, um par de pernas e uma boca vermelha são mais fortes do que qualquer "visão política de mundo"), diz: "meu amor, tanta gente junta querendo o bem não pode ser tão mal assim".

É, meu caro amante do bem, esta frase é uma das melhores definições do processo, às vezes invisível, que leva uma pessoa a ser totalitária sem saber: "quero apenas o bem de todos".

Aí está a característica do totalitarismo que sempre nos escapa, porque ficamos presos nas caricaturas dos skinheads: aquelas pessoas, sim, se emocionavam e choravam diante de tanta boa vontade, diante de tanta emoção coletiva e determinação para o bem.

Esquecemos que naqueles comícios, as pessoas estavam ali "para o bem".

Se você tem absoluta certeza que "você é do bem", cuidado, um dia você pode chorar num comício achando que aquilo tudo é lindo e em nome de um futuro melhor.

E se essa certeza vier acompanhada de alguma "verdade cientifica" (como foi comum nos totalitarismos históricos) associada a educadores que querem "fazer seres humanos melhores" (como foi comum nos totalitarismos históricos) e, finalmente, se tiver a ambição política, aí, então, já era.

Toda vez que alguém quiser fazer um ser humano melhor, associando ciência (o ideal da verdade), educação (o ideal de homem) e política (o ideal de mundo), estamos diante da essência do totalitarismo.

O que move uma personalidade totalitária é a certeza de que ela está fazendo o "bem para todos", não é a vontade de destruir grupos diferentes do dela.

Primeiro vem a certeza de si mesmo como agente do "bem total", depois você vira autoritário em nome desse bem total.

O melhor antídoto para a tentação do totalitarismo não é a certeza de um "outro bem", mas a dúvida acerca do que é o bem, aquilo que desde Aristóteles chamamos de prudência, a maior de todas as virtudes políticas.

Não confio em ninguém que queira criar um homem melhor.


Publicado na Folha de S. Paulo em 18/07/2011 (Caderno Ilustrada)


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*Totalitários, nós? Os Bons? Eis uma das principais questões neste belo texto, digno de discussão, de Luiz Felipe Pondé. 


terça-feira, 27 de setembro de 2011

É proibido pisar na grama*



É proibido pisar na grama

o jeito é deitar e rolar.

 Chacal



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*Adoro essa poesia do Chacal (Ricardo Carvalho). Além de irreverente, maliciosa e moralmente torta, ela traz uma mensagem bem clara e necessária para algumas situações. Ela diz: DESCUMPRA!!! DÊ SEU JEITO!!!! SE VIRE!!!! GOZE!!!! QUE SE DANE!!! NINGUÉM ESTÁ VENDO!!! NÃO PENSE!!! FAÇA!!! ARRISQUE!!! QUEBRE!!! COMA!!!! LEVE!!! JOGUE!!! PULE!!! OLHE!!! DÊ!!! TOME!!! É SÓ UMA VEZINHA!!! BARBARIZE!!! UIVE!! INSULTE!!! AFRONTE!!! XINGUE!!! O PROBLEMA NÃO É SEU!!! SACANEIE!!! ... Sei lá, são tantas as canalhices que nos afastam do "bom" e "velho" CÉU, é só escolher. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Vence na vida quem diz sim*


Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim
Se te dói o corpo, diz que sim
Torcem mais um pouco, diz que sim
Se te dão um soco, diz que sim
Se te deixam louco, diz que sim
Se te babam no cangote
Mordem o decote
Se te alisam com o chicote
Olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim

Se te jogam na lama, diz que sim
Pra que tanto drama, diz que sim
Te deitam na cama, diz que sim
Se te criam fama, diz que sim
Se te chamam vagabunda, montam na cacunda
Se te largam moribunda olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim

Se te cobrem de ouro, diz que sim
Se te mandam embora, diz que sim
Se te puxam o saco, diz que sim
Se te xingam a raça, diz que sim
Se te incham a barriga, de feto e lombriga
Nem por isso compra a briga
Olha bem pra mim
Vence na vida quem diz sim
Vence na vida quem diz sim

Chico Buarque e Ruy Guerra, Vence na vida que diz sim, 1973.

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*Música composta por Chico Buarque e Ruy Guerra para a peça Calabar, o Elogio da Traição, a letra foi de pronto censurada pela ditadura, já que ela “perigosamente” colocava sob suspeita a “moral duvidosa” da história. Vence na vida quem diz sim mantém sua força enquanto representação irônica do Brasil contemporâneo. Vejamos o que diz o nosso já “batido” e pouco alentador presente: faltam 1.000 dias para a Copa do Mundo, nossos políticos continuam vivendo como Marajás, nossa infra-estrutura de transportes é péssima, temos uma das maiores cargas tributarias do mundo, morre-se mais no trânsito do que na guerra do Iraque, a lei seca não pegou, a Maria da Penha amoleceu, o mensalão já está sendo tratado como intriga da oposição, o SUS é uma piada, assim como o salário dos Professores, a programação da tv é um esgoto a céu aberto, a dengue no próximo ano vai matar mais, Papai Noel não existe, e nem a possibilidade dos nossos políticos mudarem, os crimes “menores” não levam para a cadeia, livros ainda custam  caro, programas sociais não resolvem problemas sociais, ninguém é obrigado a produzir provas contra si, somos um país que concede indulto para os seus presos, no exterior muitos ainda pensam que a capital do Brasil  é Buenos Aires, somos o país do futebol e do carnaval, adotam-se mais crianças brancas do que negras, “a favela é a nova senzala”, o suposto fetiche anal da Sandy virou notícia, Tiririca ganha mais do que você, a fome ainda mata, boa parte da Amazônia já está vendida, homossexuais e travestis no Brasil ainda são violentados em seus direitos, o mundo não acabará em 2012, assim espero,  a maioria dos brasileiros detesta política, a Globo manipula tudo, Ronaldinho Gaúcho foi homenageado pela Academia Brasileira de Letras, o salário mínimo é de 545 reais, a Constituição Federal diz que somos todos iguais perante a lei, Justin Bieber vem no final do ano, a maioria dos alunos odeia a escola, o carnaval não é uma festa popular, falar ao celular em banco é proibido, os bancos tem 15 minutos para atender os clientes, temos medo de sair à rua, teremos mais um Big Brother, roubar/enganar em nome de Deus não é pecado, somos moralistas, é mais fácil comprar drogas do que adquirir a casa própria etc, etc, etc, fazemos muito pouco para mudar tudo isso, porque: vence na vida quem diz sim...



Por Josenias Silva

sábado, 10 de setembro de 2011

A mais justa das saias*


Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus—a aids psicológica.
A primeira vez que ouvi falar em aids foi quando Markito morreu. Eu estava na salinha de TV do velho Hotel Santa Teresa, no Rio, assistindo ao Jornal Nacional. “Não é possível” — pensei — “Uma espécie de vírus de direita, e moralista, que só ataca aos homossexuais?” Não, não era possível. Porque homossexualidade existe desde a Idade da Pedra. Ou desde que existe a sexualidade — isto é: desde que existe o ser humano. Está na Bíblia, em Jônatas e Davi (“... a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi e Jônatas o amou como a si mesmo” —i Samuel, i8-), nos gregos, nos índios, em toda a história da humanidade. Por que só agora “Deus” ou a “Natureza” teriam decidido puni-los?
Mas de coisa-que-se-lê-em-revista ou que só-acontece-aos-outros, o vírus foi chegando mais perto. Matou o inteligentíssimo Luiz Roberto Galizia, que eu conhecia relativamente bem (tínhamos até um vago e delirante projeto de adaptar para teatro Orlando, de Virginia Woolf, com Denise Stoklos no papel principal, já pensou?). Matou Fernando Zimpeck, cenógrafo e figurinista gaúcho, supertalentoso. E Flávio Império, Timochenko Webbi, Emile Eddé — pessoas que você encontrava na rua, no restaurante, no cinema. O vírus era real. E matava.
Aí começaram as confusões. A pseudotolerância conquistada nos últimos anos pelos movimentos de liberação homossexual desabou num instantinho. Eu já ouvi — e você certamente também — dezenas de vezes frases tipo “bicha tem mesmo é que morrer de aids”. Ou propostas para afastar homossexuais da “sociedade sadia” — em campos de concentração, suponho. Como nos velhos e bons tempos de Auschwitz? Tudo para o “bem da família”, porque afinal — e eles adoram esse argumento — “o que será do futuro de nossas pobres criancinhas?”
Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade — voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade. (É curioso, e revelador, observar que quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como “o escritor homossexual” mas estou certo que se viesse, por exemplo, Norman Mailer, ninguém falaria do “escritor heterossexual”.)
Sim, a moral & os bons costumes emboscados por trás do falso liberalismo — e muito bem amparados pelo mais reacionário papa de toda a (triste) história do Vaticano — arreganha agora os dentes para declarar: “Viram como este vício hediondo não só corrompe, mas mata?”
Corrompe nada, mata nada. Acontece apenas que a única forma possível de consumação do ato sexual entre dois homens é mais favorável à transmissão do vírus, que se espalhou nesse grupo devido à alta rotatividade sexual de alguns. E é aí que começa a acontecer isso que chamo de “a mais justa das saias”. Afinal é preciso que as pessoas compreendam que um homossexual não é um contaminado em potencial, feito bomba-relógio prestes a explodir. Isso soa tão cretino e preconceituoso como afirmar que todo negro é burro e todo judeu, sacana.
Heteros ou homos (?) a médio prazo iremos todos enlouquecer, se passarmos a ver no outro uma possibilidade de morte. Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus — a aids psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido a distância. E da mente? Porque uma vez instalado lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas imunológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se. Sem isso, não tem graça viver, concorda?
Você gostaria de viver num mundo de zumbis? Eu, decididamente não. Então pela nossa própria sobrevivência afetiva — com carinho, com cuidado, com um sentimento de dignidade — ô gente, vamos continuar namorando. Era tão bom, não era?

Caio Fernando Abreu, O Estado de S. Paulo, 25/3/1987.

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*Texto do insubstituível Caio Fernando Abreu (1948-1996), que, se estivesse vivo, faria 63 anos neste próximo dia 12/09/11. Um texto escrito sob o período mais critico da Aids no Brasil e no Mundo, doença nova, carregada de estigmas e que, de fato, assombrou psicologicamente toda uma geração. Os preconceitos continuam, embora hoje já se possa dizer que, acima de tudo, a Vida é possível.



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