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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Gota d´água*


Tudo está na natureza encadeado e em movimento – cuspe, veneno, tristeza, carne, moinho, lamento, ódio, dor, cebola e coentro, gordura, sangue, frieza, isso tudo está no centro de uma mesma e estranha mesa / Misture cada elemento – uma pitada de dor, uma colher de fomento, uma gota de terror / O suco dos sentimentos, raiva, medo ou desamor, produz novos condimentos, lágrima, pus e suor / Mas, inverta o segmento, intensifique a mistura, temperódio, lagrimento, sangalho com tristezura, carnento, venemoinho, remexa tudo por dentro, passe tudo no moinho, moa a carne, sangre o coentro, chore e envenene a gordura / Você terá um ungüento, uma baba, grossa e escura, essência do meu tormento e molho de uma fritura de paladar violento que, engolindo, a criatura repara o meu sofrimento co’a morte, lenta e segura / Eles pensam que a maré vai mas nunca volta / Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca / Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca.

BUARQUE, Chico e PONTES, Paulo. “Gota D’Água”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Ed., 1982, pp.160-161.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ao deus Verme*

Laurence Olivier interpretando Hamlet

[Fragmento do diálogo entre Hamlet e Horácio diante de uma caveira no cemitério. Cena I, Ato V.]


Hamlet

Essa caveira possuía língua, e outrora podia cantar! Como esse pícaro a atira ao solo, qual se fosse a queixada de Caim, que cometeu o primeiro assassínio! Essa pode ter sido a cabeça de um cavilador, que esse asno agora sobrepuja; de alguém que teria gostado de enganar a Deus, não pode?

Horácio

Pode, meu senhor.

Hamlet

Ou de um cortesão, capaz de dizer: "Bom dia, dileto senhor! Como estás, bom senhor?" Este pode ter sido o fidalgo tal, que gabava o cavalo do fidalgo qual, quando tinha a intenção de pedi-lo, não pode?

Horácio

Pode, meu senhor.

Hamlet

Ora, é isso mesmo; e agora pertence à fidalguia Vérmina, desqueixado e golpeado no cocuruto com a pá de um sacristão; eis uma boa mudança: fôssemos hábeis para vê-la! Custou tão pouco a formação desses ossos, que servem apenas para jogar a malha? Só de pensar nisso os meus me doem.

[...]

Hamlet

Eis outra. Não será - quem sabe - a caveira de um causídico? Onde estão agora suas distinções, suas sutilezas, seus processos, seus direitos de posse e subterfúgios? Como é que suporta que esse rude pícaro lhe pespegue cacholetas com uma pá imunda, e não lhe fala num processo por lesões corporais? (Pega a caveira.) Hum! esse indivíduo talvez tenha sido em seu tempo um grande comprador de terras, com seus títulos debitórios e obrigações de solver, com suas ficções legais para transformar em domínio pleno a propriedade vinculada, seus duplos fiadores, seus expedientes para invalidar gravames: esse é o final de tais chicanas, e o resultado de tais simulações, ficar com o solerte crânio cheio de pura sujeira? Não lhe quererão os garantes simples nem duplos garantir as compras que excedem o comprimento e a largura de um contrato em pergaminho denteado? As próprias escrituras de suas terras dificilmente caberão nesta caixa (Bate na caveira.) e o próprio dono não possui mais terra do que cabe nela, não?

Horácio

Nem mais um nada que seja, meu senhor.

...

W.Shakespeare. in. A tragédia de Hamlet: príncipe da Dinamarca. Ed. Abril, 1976. p. 203-5. 

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