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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Só a ficção nos salva*


Quando se pergunta o porquê da Literatura, só resta responder: porque somos seres humanos. A Literatura é uma necessidade humana, vem da própria existência. Somos animais que consomem voluntariamente grande quantidade de relatos e poesias. Todas as populações do globo, de todas as épocas, contam suas histórias e cantam seus poemas. Somos obrigados, por exemplo, a nos recontar histórias para saber sempre o que fizemos, por isso constituímos essa quantidade enorme de impressões. Vivemos o dia a dia, escutamos tudo o que nos acontece, observamos tudo o que está a nossa volta, e o que resta disso é sempre uma história. Eu encontrei um amigo, tomamos café, falávamos disso ou daquilo etc. Essa é a função da narrativa, mas ela se encontra condensada, sublimada e magnificada na Literatura. A ficção conta melhor nossas próprias experiências. As palavras me permitem expressar meus sentimentos, mas também enxergam a pluralidade humana. A Literatura é a forma pela qual percebemos que os seres humanos não vivem cada um no seu mundo, mas numa pluralidade infinita.

*Tzvetan Todorov in. “Revista de História da Biblioteca Nacional”. n. 88, jan. 2013, p. 49.

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Tzvetan Todorov, 1939 - 

Heródoto, nascimento do “histor”*


A história, como modo de discurso específico, nasceu de uma lenta emergência e sucessivas rupturas com o gênero literário, em torno da busca da verdade. Aquele que, durante muito tempo, foi apresentado como o verdadeiro mentor, Heródoto, encarna bem essa tensão de uma escritura muito marcada por seu lugar de origem, o da Grécia do século 5º a.C., mas que designa, todavia, um projeto em ruptura: o do nascimento de um gênero novo, a história. Ao reino do aedo, do poeta contador de lendas e dispensador de “kleos” (a glória imortal do herói), Heródoto substitui o trabalho de investigação (historiê) desenvolvido por um personagem até então desconhecido, o “histor”, que tem por tarefa retratar o desaparecimento dos traços da atividade dos homens. Nos dois casos, trata-se de aprisionar a morte, socializando-a (...) Aquele que foi apresentado por Cícero como “o pai da História” é um grego originário de Halicarnasso, na Jônia, que viveu entre dois grandes conflitos: o das Guerras Médicas e o da Guerra do Peloponeso, entre 484 a.C. e 420 a.C. Autor de “Histórias”, divididas em nove livros, dois terços de sua obra são consagradas aos antecedentes das Guerras Médicas. Com Heródoto, nasce o historiador, pelo duplo uso do nome próprio e da terceira pessoa desde o prólogo de sua obra que estabelece uma distância, uma objetividade em relação à matéria narrada. Diferente da epopéia, não são mais os deuses e as musas que se expressam para contar o passado. (...) Heródoto inova efetuando vários deslocamentos decisivos, que permitem a emergência do gênero histórico. Na verdade, celebra-se não mais a lembrança das grandes façanhas, mas procura-se a conservação na memória daquilo que os homens realizaram, glorificando não mais os grandes heróis mas os valores do coletivo dos homens, no quadro das cidades.

*François Dosse in. “A história”. Ed. Edusc, 2003, pp. 13-14.

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Heródoto de Halicarnasso, 484 a.C – 425 a.C.


domingo, 18 de novembro de 2012

“Pierrô”*


Este conto de Guy de Maupassant, que li há meio século, me volta à mente quando esbarro com uma dessas situações propensas à alegoria. Porque, diante das grandes catástrofes, precisamos reduzi-las ao tamanho das pequenas tragédias, para termos a sensação de que estamos entendendo aquilo. 

Pois bem: a viúva Lefèvre mora numa aldeiazinha da Normandia, em companhia de sua criada, Rose. A velha é sovina como um cacto, e certa noite descobre, alarmada, que um ladrão pulou o muro e roubou algumas besteiras da horta. Ela fica insegura e resolve arranjar um cachorro. Oferecem-lhe vários, mas ela sempre acha o preço extorsivo. Até que um vizinho traz um filhote horroroso: “um estranho animalzinho, todo amarelo, quase sem pernas, corpo de crocodilo, cabeça de raposa e cauda em forma de trombeta, verdadeiro penacho do tamanho do corpo”. Apesar da descrição é mesmo um cachorro, e ela lhe dá o nome de Pierrô.

Pierrô cresce, e, coitado, se revela um desastre como guarda. Não late para nenhuma visita, faz festas a qualquer estranho; só late quando tem fome, e late com força. As duas, apesar de secas e empertigadas, se afeiçoam ao bicho. Até que lhes cobram um imposto sobre a posse de animais domésticos: oito francos! A viúva se escandaliza e a criada também (é avara com os vinténs da patroa, por temer que venham a lhe faltar um dia). Resolvem fazer o que se faz na aldeia: jogá-lo num poço onde morrerá de fome.

Jogam-no, mas dias depois, tomadas de remorsos e pesadelos, as duas se arrependem. Agora é tarde para tirar Pierrô dali! Elas levam pão com manteiga, atiram os pedaços no poço, e choram diante dos latidos alegres de Pierrô. Isso dura alguns dias, até que certa manhã, ao atirar o pão, elas ouvem um latido mais forte. Alguém jogou outro cão, um cão dos grandes, no poço! Cada pedaço de pão que atiram provoca um alarido lá embaixo, e ganidos de dor que elas reconhecem. Gritam: “É para você, Pierrô!”, mas de nada adianta. E por fim a viúva diz, em tom ácido: “ – Absolutamente não posso alimentar todos os cachorros que forem jogados aí dentro. Temos de desistir. – E, indignada ante a idéia de uma porção de cachorros vivendo à sua custa, ela se retirou, levando consigo o resto do pão, que comeu, enquanto caminhava”. 

C’est la vie! As autoridades não detestam os pobres; pelo contrário, têm boas intenções para com eles, e, se pudessem, fariam de tudo para ajudá-los. O problema é que pobre dá muita despesa e pouco lucro, então é melhor empurrar a todos para o fundo de um poço, a encosta de um barranco, a periferia de um subúrbio. Quando os sentimentos humanitários botam a cabeça de fora, as autoridades começam a enviar dinheiro para os pobres, mas no meio do caminho aparece um cachorro grande, insaciável, que devora tudo. Por mais que as autoridades gritem: “É para vocês, pobres!”, o cachorro grande se atravessa. E elas nada podem fazer, porque quem botou o cachorro grande ali foi, sem dúvida, outra autoridade.

Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Noventa anos sem Lima Barreto*


No dia 1º de novembro de 1922 o Brasil perdia um dos seus maiores escritores. Morria aos 41 anos de idade, na Rua Major Mascarenhas, nº 46, no bairro de Todos os Santos, subúrbio do Rio de Janeiro, o romancista e jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto. Coincidentemente, era dia de Todos os Santos. Lima Barreto morreu na sua modesta residência, que ele tinha o costume de chamar de “Vila Quilombo” para contrapor ao bairro de Copacabana.
Oriundo de uma família humilde, Lima Barreto nasceu no dia 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro. Quando completou sete anos, no ano de 1888, acompanhou atento as festividades em comemoração à libertação dos escravos. Mal sabia ele que passaria por muitos reveses por conta de sua cor, pois, como era mulato, muito cedo saberia que esta condição seria a razão do preconceito que sofreria na sua trajetória.
Lima Barreto ingressou no jornalismo profissional em 1905, no jornal Correio da Manhã, produzindo diversas reportagens. Apesar da morte prematura, foi na literatura que o escritor deixou a sua marca conhecida: o embate com os donos do poder. A estreia como escritor ocorreu em 1909, com o livro As Recordações do Escrivão Isaias Caminha, obra que denunciava o papel da grande imprensa na estrutura do poder e os bastidores da redação de um grande jornal da época. O livro abordou o mundo das notícias manipuladas, os elogios encomendados, as projeções dos falsos heróis e as bajulações dos poderosos e revelou ainda o visível preconceito contra os negros na sociedade brasileira.

“É triste não ser branco”

Combativo em denunciar as mazelas sociais e o racismo no país. Assim era Lima Barreto. Passados noventa anos de sua ausência, muitos foram os avanços na luta contra a “engenhosa artimanha” do racismo brasileiro que se mostra persistente, dissimulado, hipócrita e cínico, adjetivos que o tornam, até os dias de hoje, difícil de ser combatido.
Apesar dos esforços da grande imprensa, que tem atuado como tropa de choque na defesa do status quo do grupo que sempre se beneficiou com a marginalização e exclusão dos negros no processo de distribuição da renda no país, o Estado brasileiro, reconhecendo que há racismo de fato, vem implementando políticas de ações afirmativas voltadas, particularmente, para a inclusão da população negra. Essas políticas, ainda que tardias, visam a concluir um processo que se iniciou com o testemunho de Lima Barreto em 13 de maio de 1888 e que só agora tem sua continuidade. Em 1888, o Estado brasileiro não concedeu aos negros o direito à cidadania brasileira.

A negação dessa cidadania encontra explicação no desabafo de Lima Barreto em seu Diário íntimo: “É triste não ser branco.”

***
Júlio Ribeiro Xavier in. Observatório da Imprensa

sábado, 22 de setembro de 2012

A Náusea*



Já não posso duvidar de que alguma coisa me aconteceu. Veio como uma doença, não como uma certeza comum, não como uma evidência. Instalou-se pouco a pouco, sorrateiramente: senti-me um pouco estranho, um pouco incomodo, e isso foi tudo. Uma vez no lugar, não mais se mexeu, aquietou-se, e pude me persuadir de que não tinha nada, que era um alarme falso. Eis que agora a coisa se expande.

[...]
Em minhas mãos, por exemplo, há algo de novo, uma determinada maneira de segurar meu cachimbo ou meu garfo. Ou então é o garfo que tem agora uma determinada maneira de ser segurado, não sei. Ainda há pouco, quando ia entrando em meu quarto, parei de repente, porque sentia em minha mão um objeto frio que retinha minha atenção através de uma espécie de personalidade. Abri a mão, olhei: estava segurando apenas o trinco da porta.

Esta manhã, na biblioteca, quando o Autodidata veio me cumprimentar, levei dez segundos para reconhecê-lo. Via um rosto desconhecido, apenas um rosto. E depois havia sua mão, como se fosse um grande verme branco, em minha mão. Soltei-a logo, e o braço descaiu frouxamente.

Também nas ruas há uma quantidade de ruídos estranhos que persistem.

Portanto, ocorreu uma mudança durante essas últimas semanas. Mas onde? É uma mudança abstrata que não se fixa em nada. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi este quarto, esta cidade, esta natureza; é preciso decidir.


Jean-Paul Sartre in. “A náusea”. Ed. Circulo do Livro, 1989, pp.15-16

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Escrever e Respirar*



Suponhamos que daqui a 100 anos a atual crise ambiental se agravou a um tal ponto que a poluição envenenou a atmosfera de modo irremediável. Para sobreviver, a humanidade construiu imensas usinas produtoras de cilindros de oxigênio, que são acoplados aos nossos narizes desde o momento em que o cordão umbilical do bebê é cortado na maternidade. Todo ser humano vive feito um mergulhador, com aquele trambolho de metal numa mochila às costas e os tubos flexíveis conduzindo aos pulmões o gás indispensável à vida.  É de graça? Quem dera. As indústrias e os governos cobram, e cobram caro por isso. Mas todo mundo paga, ou melhor, quem está vivo é porque consegue pagar. Os que não conseguiram não pertencem mais à paisagem.

Um belo dia, um grupo de indústrias independentes inventa um processo químico de limpar a atmosfera e num piscar de olhos, em 20 ou 30 anos, o ar volta a ser uniformemente respirável, ou pelo menos fica igual a este ar que respiramos em 2012. E agora? O mundo entra em crise.  Dezenas de milhões de desempregados superlotam a Praça Tahir, a Plaza de Mayo, Wall Street, o Vale do Anhangabaú. “Queremos de volta a indústria do oxigênio”, bradam eles, arquejantes (e meio bêbados, claro, seus pulmões não estavam acostumados àquela overdose). Os governos arrancam os cabelos porque vão ficar sem os 71% de impostos que cobravam sobre a indústria respiratória. Filósofos ponderam: “Respirar de graça empobrece o senso de responsabilidade dos cidadãos. E esse desperdício de oxigênio não-respirado, francamente!”.

É uma crise assim que a tecnologia digital está precipitando num mundo que estava deixando de ter Cultura para ter Indústria Cultural. Os aspectos industriais e suas prioridades tomaram a frente, e a gente criou este universo surrealista em que a Cultura, que é o compartilhamento livre de informações e contatos entre as pessoas e os grupos, virou uma “commodity”, e nos preocupamos mais com a geração de empregos do que com a geração de idéias. É uma grave crise para todo mundo que ganhava dinheiro com música, filmes e livros – por uma coincidência sinistra, as três coisas com que eu próprio ganho a vida. O que fazer?  Ser contra? Não, amigo. Descobrir maneiras alternativas de ganhar dinheiro. Cultura é oxigênio, não pode ser nem estatizada nem privatizada, pertence aos animais individuais que somos, e não a Instituições. Na nossa cultura, aceitamos como normal que não se ganhe dinheiro para pular carnaval ou para fazer sexo.  Por que essa atitude não pode ser estendida a outras atividades?  Por que tudo tem que ser medido em termos de dinheiro?  Há mil outras maneiras de ganhar dinheiro.


Braulio Tavares. in Mundo Fantasmo

domingo, 27 de maio de 2012

A literatura entre escombros*



Vivemos em um mundo fluido, raso e fragmentado, que se pulveriza e se desmancha. O mundo das imagens feéricas, do noticiário em "tempo real", das grandes (e ilimitadas) redes virtuais. O mundo da simulação, do duplo e do etéreo. Nesse mundo disperso e desprovido de limites, a literatura parece perder o sentido. Para que serve, então, a literatura hoje? A literatura está morrendo? Será ela devorada pelos blogs, pelo Face Book e por outros artefatos do mundo virtual? Chegando à pergunta que mais nos atormenta: a literatura tem futuro? Podem os jovens ainda acreditar na potência da literatura? 

Aposto, com ênfase, no futuro da literatura. Mais ainda: aposto em sua força no presente. Em um mundo entre escombros, em que tudo se parte e se dispersa, a literatura, na contramão, oferece coesão e sentido. Em um mundo no qual tudo nos joga para fora, ela nos joga para dentro. Em um mundo extrovertido, dominado pelas imagens, pelos índices e pelas superfícies, ela nos conduz a um precioso exercício de introspecção. Quanto mais o mundo se fragmenta e se liquefaz (para pensar nas ideias de Zymunt Bauman), mais a literatura se oferece como um posto de resistência. Quanto mais o sujeito e seu corpo se vêem presos _ como tristes aranhas _ às redes virtuais e às jogadas comerciais, mais a literatura se oferece como um território de liberdade interior e de subjetivação. 

Volto à pergunta que mais nos inquieta: como levar os jovens a entenderem isso? Cegos pelas luzes do contemporâneo, eles vivem em uma espécie de presente perpétuo, no qual tudo se equivale e tudo se repete. Tornaram-se prisioneiros do instante. Através do Face Book, do Twitter, dos blogs e de outros recursos virtuais, eles vivem perseguidos por um presente onipotente, no qual o passado se torna um resto insuportável e o futuro é só uma miragem. 

Arrastados pela web _ detidos em uma sucessão de janelas ("windows") que se desenrolam em abismo,eles têm, cada vez mais, uma imensa dificuldade de parar. E portanto: dificuldade de pensar. Sem pensamento, sem introspecção e meditação, ninguém se torna um leitor. O leitor é aquele que para e _ como um nadador perfilado em seu trampolim _ prepara seu salto sobre (ou dentro de) um livro. Sem silêncio, contenção e divagação, não há literatura (não há leitor) possível. 

Como levar os jovens a entender que, na contramão do mundo veloz que os arrasta, existe um lugar onde é possível voltar a si (como alguém que acorda depois de um desmaio) e se aproximar de si mesmo? Infelizmente _ e a culpa não é deles _ os jovens costumam ter uma visão "morta" de literatura. Quando pensam em um poeta como Castro Alves, por exemplo, vêem apenas os velhos bustos de bronze, roídos pelo tempo e sujos pelos pombos, que se erguem em tantas praças "Castro Alves" existentes no Brasil. 

Esquecem-se (ou ignoram) que Castro Alves foi um jovem romântico, apaixonado pela vida e de espírito rebelde, cheio de vigor e de desejo, para quem a poesia era não só uma máquina de fazer sonhar, mas um instrumento de sedução e de afirmação. Morreu aos 24 anos _ em pleno fogo da juventude _ e deixou-nos uma obra corajosa e radical. Por que _ nas escolas, nos colégios, nas universidades _ insistimos em lhes dar só a primeira imagem do poeta, cheia de ferrugem e cheirando à morte? Por que insistimos em assassinar Castro Alves e sua poesia? 

Para atrair os jovens para a leitura e a literatura, precisamos, primeiro, convencê-los de que a literatura está viva. Mais que isso: que ela tem o poder de interferir e dar sentido às suas vidas. A leitura é uma espécie imóvel de viagem interior. Considero que a literatura, mais que um trabalho ou um ofício, é um ato e uma travessia _ uma viagem para dentro. Na literatura não há certo ou errado: há o singular. Para cada leitor, um mesmo livro será, sempre, um livro diferente. O "Madame Bovary" que leio não é o  mesmo romance, "Madame Bovary", que você lê. A minha "A metamorfose" não é a sua "A metamorfose". O escritor paraguaio Augusto Roa Bastos sintetizou isso assim: "Cada livro é um livro diferente na cabeça de cada leitor". Dizia mais: que, a rigor, os livros não existem, existem apenas aqueles que os lêem. 

Por que? Porque para ler não é necessário _ e é até perigoso _ seguir regras, modelos, "leituras autorizadas", prescrições de especialistas. Ao contrário: quando um leitor lê um livro, ele o reinventa. Podemos dizer até: ele o reescreve dentro de si. Apostilas, exercícios, correção de provas, receituários só separam o leitor de seu livro. A imagem mais perfeita do leitor é a daquele menino que, trancado em seu quarto, escondido sob seu cobertor e munido apenas de uma lanterna, refugia-se do mundo para ler. Para viajar através de seu livro. Só há literatura, portanto, em silêncio e solidão. Quando abre um livro, o leitor faz isso sempre por sua conta e risco. 

É, de fato, muito perigoso ler. A leitura pode provocar fortes impactos interiores, danificar clichês e superstições, e instaurar novas (e inesperadas) maneiras de observar o mundo. Mas, como nas grandes aventuras a mundos desconhecidos e remotos, a viagem através dos livros também promete surpresas e maravilhas. Promete algo ainda mais precioso: em meio a um mundo fragmentado, veloz e superficial, a leitura (a literatura) promete um reencontro consigo mesmo. Uma "queda em si", como prefiro dizer. Ao ler, o sujeito volta a ser dono de si mesmo. Ao ler, ele se reencontra. Ao ler, ele se conecta, outra vez, a um sentido. A literatura oferece uma multiplicidade de sentidos _ em um mundo que, em geral, nos parece reto e indiferente. Em meio ao uníssono do contemporâneo, no qual todas as coisas se equivalem, a literatura nos apresenta à diversidade e à dissonância. Entre escombros e em meio ao vazio, ela pode nos salvar. Não é fácil, porém, convencer os jovens disso. Não existe outra maneira de conhecer o prazer da leitura senão lendo. Aqui é inevitável recorrer ao velho clichê: é como andar de bicicleta, ou como surfar, só se aprende andando, ou surfando. 

A melhor maneira de aproximar os jovens da literatura não é, portanto, submetê-los a compêndios, a apostilas e a cânones. Mas levá-los, desde os primeiros momentos, a se defrontar com os próprios livros. Não existe outro caminho para a experiência da leitura senão a própria leitura. A literatura é a própria salvação da literatura. 


José Castello. in. Literatura na Poltrona


terça-feira, 24 de abril de 2012

O Oleiro e o Poeta*


O caso da rua El-Kichani parecia realmente muito sério. Uma rixa inesperada surgira entre o jovem Fauzi, o poeta, e o oleiro Nagib. Os curiosos amontoavam-se junto à casa do oleiro. Cruzavam-se as interrogações: - “Que foi? Como foi? Brigaram?”. Um guarda, para evitar que o tumulto se agravasse, resolveu levar os dois litigantes à presença do cádi, isto é, do juiz.
Esse juiz, homem íntegro e bondoso, interrogou em primeiro lugar o oleiro, que parecia o mais exaltado:
- Mas afinal, meu amigo? De que se trata? Parece-me que foste agredido. É verdade?
- Sim, senhor juiz - confirmou o oleiro desabridamente. – Fui agredido em minha própria casa por esse poeta. Estava, como de costume, trabalhado em minha oficina, preparando dois novos vasos coloridos que pretendia vender ao príncipe Rauzi, quando ouvi um ruído surdo e a seguir um baque. Percebi logo de que se tratava. O poeta Fauzi, que cruzava naquela ocasião a rua Bardauni, havia atirado violentamente uma pedra e partira um dos vasos - um vaso já pronto, que estava a secar junto à porta! Ora, senhor juiz, isso é um absurdo, um crime! Estou no meu direito. Exijo uma indenização!
Voltou-se o juiz para o poeta e interpelou-o serenamente:
- Que tens a alegar, meu amigo? Como justificas o teu estranho proceder?
- Senhor cádi - respondeu o jovem, o caso é muito simples e quero crer que a razão milita a meu favor. Há três dias passados voltava eu da mesquita quando, ao cruzar a rua Bardauni, em que mora o oleiro Nagib, percebi que ele declamava um de meus poemas. Notei com tristeza que os versos estavam errados. O oleiro mutilava, isto é, quebrava os meus versos. Aproximei-me dele e delicadamente ensinei-lhe a forma certa, que ele repetiu sem grande dificuldade. No dia seguinte, ao passar novamente pelo mesmo lugar, ouvi ainda o oleiro a repetir os mesmos versos deturpados, isto é, com a forma erradíssima. Cheio de paciência, tornei a ensinar-lhe a forma correta, e pedi-lhe que não tornasse a mutilar os meus poemas. Hoje, finalmente, regressava eu do trabalho quando, ao passar pela rua Bardauni, percebi que o oleiro declamava a minha linda poesia estropiando as rimas e mutilando vergonhosamente os versos. Não me contive. Apanhei de uma pedra e parti com ela um de seus vasos. Como vê, senhor juiz, o meu procedimento não passou, afinal, da represália de um poeta, que se sente ferido em sua sensibilidade artística por um indivíduo grosseiro.
Ao ouvir as alegações do poeta, o juiz, dirigindo-se ao oleiro, declarou:
- Que esse caso, Nagib, sirva de lição para o futuro! Procura respeitar as obras alheias a fim de que os outros artistas respeitem as tuas obras. Se te julgavas com o direito de quebrar o verso do poeta achou-se também o poeta com o direito de quebrar o teu vaso. Lembra-te de que o poeta é o oleiro da frase, ao passo que o bom oleiro é o poeta da cerâmica!
E a sentença do ilustre cádi foi a seguinte:
- Determino, pois, que o oleiro Nagib fabrique um novo vaso de linhas perfeitas e cores harmoniosas, no qual o poeta Fauzi escreverá um de seus lindos versos. Esse vaso será vendido em leilão e a importância da venda repartida igualmente entre ambos.
A notícia do caso espalhou-se pela cidade. O oleiro vendeu muitos vasos com versos do poeta Fauzi e ambos tornaram-se prósperos e ricos. Mas continuaram sempre bons amigos. O oleiro mostrava-se arrebatado ao ouvir os versos do poeta. Encantava-se o poeta com os vasos admiráveis do oleiro.
Uassalã!


Malba Tahan. in. Os melhores Contos. Ed. Best-Seller, 2006, pp. 93-96.


sexta-feira, 20 de abril de 2012

Como ensinar literatura na escola*



Em minhas – na falta de melhor nome – aulas, a primeira coisa que aprendi foi não falar de literatura como um produto que sai dos livros. Deixe-se isso para os professores de cursinhos, que pensam ensinar enquanto põem o estudante a decorar nomes, datas, movimentos e obras principais. Isso não é literatura, não serve à literatura, nem serve ao conhecimento. Serve a um sistema estéril e formador de burros. Não se deve jamais falar de literatura com esse nome cheio de pompa e reverência, A Literatura. Fale-se da vida, dos problemas vividos por todos nós, velhos, jovens, crianças, homens, mulheres, animais e gente.
Só se deve falar sobre aquilo que apaixona a gente. Se o professor não descobriu a lírica de Camões, se não maturou no peito Manuel Bandeira, se não é capaz de curtir Machado de Assis, se não se emociona até as lágrimas com Lima Barreto, mantenha distância desses criadores. O silêncio sobre eles fará um dano menor que a citação burocrática. Melhor para o mestre seria cantar Roberto Carlos, equilibrar mesas na ponta do nariz, imitar cornetas com um pente sobre a boca, fazer graça com arrotos cavalares. Seria mais pedagógico.
Um autor deve ser apresentado a partir de um problema. Nada como o conto Missa do Galo, de Machado, para todos os adolescentes. Eles entenderão até a última linha, vírgula e pontinho das reticências. Eles vão respirar todos os movimentos implícitos e insinuados da conversa da mulher solitária com um jovem. Eles são esse jovem. Eles sonham com essa noite ideal em que os espere uma senhora sozinha. Elas compreendem esse jovem e essa mulher. O conto tem todos os elementos de promessa de sexo e conflito com o pecado antes de uma missa devota.

Os contos, quando lidos, devem ser muito bem lidos. Com pausas, entonações, vozes, risos, pulos – o que o diabo achar necessário - como um ator de rádio. Isso quer dizer que o professor comanda a narração, faz uma leitura prévia, e pede para que ela continue em volta. Digo que começa com o professor porque nas escolas se perdeu o necessário e fundamental hábito de leitura em voz alta. Então é comum que um jovem estudante não saiba o valor de um ponto, de uma exclamação, de uma vírgula, de uma pausa – o valor ponderado de uma palavra em determinado contexto. Como poderão entender a maravilha de Manuel Bandeira, na infância com o coração a bater, se não souberem que a moça nua lhe fez o primeiro... ALUMBRAMENTO?

Mas entendam, a dramatização dos textos nada tem de dramático. Quero dizer, nada é artifício, artificioso, operístico, melodramático, falso. Ou se fala do que se conhece e do que se vive ou não se fala. Ponto. Deve-se falar do amor, sempre. E nisso não vai nenhum romantismo. Deve-se falar do amor, sempre, porque toda obra é a sua busca ou a sua negação, a sua falta ou plenitude.
Apesar de até aqui ter falado de minha própria experiência, devo terminar com duas coisas ainda mais pessoais. Primeira: não consigo até hoje falar de Andersen com isenção e distância, quando me refiro ao conto A pequena vendedora de fósforos. Aquela trajetória da pequena menina que sai a vender fósforos em uma véspera de Ano Bom, nas ruas geladas de uma cidade, que vislumbra pelo vidro embaciado das janelas a ceia posta nas casas burguesas e com profunda fome fica encantada... E me fere mais, e aí não consigo ir adiante, quando Andersen realiza aquela imagem extraordinária: enregelada, morta, a pequena vendedora sobe “em um halo de luz e de alegria, mais alto, e mais alto, e mais longe... longe da Terra, para um lugar, lá em cima, onde não há mais frio, nem fome, nem sede, nem dor, nem medo”.

Segunda. Certa vez, li para alunos com idades em torno de 11 anos o meu conto Daniel. Claro, expurguei os termos mais chulos, grosseiros. Quando eu li 

“Da turma, Daniel era o mais gordo. Ainda que sob protestos, ele crescera pelos lados, elastecendo um círculo de carnes. Em seu rosto largo destacavam-se sobrancelhas peludas, que se uniam simetricamente num ponto de inflexão, ficando a sobrancelha esquerda e a sobrancelha direita ligadas como asas dum pássaro, movendo-se no espaço da fronte”,

na sala não se ouvia uma só riso, apenas respirações ofegantes. Então eu ia para o quadro e desenhava as sobrancelhas, à Monteiro Lobato, para eles verem. Depois, já ao fim, quando acrescentava que Daniel raspara aqui e ali o seu estigma, e que “a cirurgia dera nascimento a dois pontos de interrogação deitados, quase dois acentos circunflexos incompletos, sem acomodação”,voltava ao quadro para desenhar os dois pequenos ganchos que ficaram no lugar das sobrancelhas do personagem.

O melhor digo agora no fim. Vocês não vão acreditar no lirismo de que é capaz a infância. Os meninos rebatizaram o conto. Em lugar de Daniel, eles me pediam sempre para ouvir, de novo,  O menino-passarinho.


Urariano Mota. in. Direto da Redação


sábado, 14 de abril de 2012

Reescrever um livro*

Neil Gaiman, por Mizzy Chan

Grande parte das carreiras literárias são resultado de uma experiência inesquecível de leitura que faz alguém pensar: “Quero escrever assim também”. Ninguém começa a escrever sem ter lido algo que o emocionou, que lhe deu uma nova maneira de pensar, de ver as coisas. Jean-Paul Sartre, na infância, copiava à mão romances de aventuras, trocando os nomes dos personagens e algumas peripécias, e os assinava com seu próprio nome. August Derleth era um fã tão ardoroso das histórias de Sherlock Holmes que inventou um detetive praticamente idêntico, mas para poder publicar as histórias trocou o nome do personagem para Solar Pons. Outras vezes, a motivação pode vir de um livro ruim. Diz-se que Fenimore Cooper trabalhava como marinheiro e um dia, numa daquelas longas esperas a que os marinheiros são submetidos, estava lendo um livro de aventuras. A certa altura jogou-o para um lado dizendo: “Que coisa idiota, até eu seria capaz de escrever um livro melhor do que este”. Os amigos riram dele, fizeram algumas apostas, e Cooper escreveu O Último dos Moicanos.

Neil Gaiman, o autor de Sandman, falou numa palestra sobre a impressão que lhe causou a leitura de O Senhor dos Anéis de Tolkien. Totalmente arrebatado pela obra, diz ele, “cheguei à conclusão de que O Senhor dos Anéis era, provavelmente, o melhor livro que poderia ser escrito, o que me colocou numa espécie de sinuca. Eu queria ser um escritor quando crescesse. Não, não é verdade: eu queria ser um escritor naquele momento exato. E eu queria escrever O Senhor dos Anéis. O problema é que ele já tinha sido escrito”. Esse tipo de entusiasmo é resolvido, hoje, pela existência do que chamamos “fan fiction”, histórias escritas pelos fãs utilizando o universo e os personagens de uma obra que admiram. Prolongamentos, extensões amadorísticas de uma obra profissional em sua origem. É uma atividade ironizada por muita gente, mas que acho positiva, porque ajuda o jovem fã a treinar sua mão dentro de um contexto dramatúrgico que ele já conhece bem e onde sabe se movimentar.


Depois da fan fiction, entretanto, pode surgir a literatura profissional. Neil Gaiman não reescreveu Lord of the Rings, em compensação criou a série Sandman de quadrinhos e uma porção de ótimos romances, como Neverwhere, American Gods, The Graveyard Book. Será que são tão bons e tão historicamente importantes quanto obra de Tolkien? Não importa: são os livros de Gaiman, os livros que ele tirou de sua própria imaginação e de sua memória afetiva, livros modernos ambientados em Londres, nos EUA, em cidadezinhas imaginárias... Livros que Tolkien não poderia ter escrito.


Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo


segunda-feira, 19 de março de 2012

Grandes canalhas da literatura (i)*



Por Xico Sá





Vadinho e Dona Flor

Só existem dois tipos de homens, amigo, os Vadinhos e os Teodoros.

Simples assim e esquemático.

Ou se é um ou se é o outro.

O primeiro não presta, mas derrete o coração das mulheres com a sua canalhice; o segundo é um sujeito virtuoso, direito, o objeto de desejo de uma fêmea quando está sofrendo, no dia-a-dia do lar, com um macho desmantelado.

Os dois se completam. Os Vadinhos jogam, bebem e são raparigueiros, piolhos de cabarés, só voltam para casa quando fecha a última barraca do mercado do Peixe, para ficarmos na geografia soteropolitana.

Os Teodoros não deixam faltar nada em casa, homens corretos, responsáveis, cumpridor dos seus deveres.

Como de besta não tinha nada, Dona Flor, por força da quentura do corpo e de alguma espiritualidade, conseguiu o milagre de viver com os dois maridos ao mesmo tempo, o safado e o virtuoso.

Morena gulosa. Mas fez por merecer em vida o banquete, a moqueca de machos fervida no óleo da testosterona.

Fora dos livros e do cinema, pode ser que o esquema não funcione a contento, mas o centenário Jorge Amado realizou o desejo secreto das mulheres, aquela vontade guardada lá no fundo do pote do juízo.

E assim começamos a série sobre grandes canalhas da literatura. Sugestões para as próximas crônicas?

Quem é o seu canalha predileto?




quarta-feira, 14 de março de 2012

Sobre os clássicos*



Por Italo Calvino



1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo..." e nunca "Estou lendo...".

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.



in. Por que ler os clássicos. Ed. Comp. das Letras, 2007, pp. 9-16.



quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os teus pés*



Por Pablo Neruda



Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Último desejo*



Por Eduardo Galeano


La Coruña, verão de 1936: Bebel García morre fuzilado.

Bebel usava a esquerda para jogar e para pensar.
No estádio, veste a camiseta do Depor. Na saída do estádio, veste a camiseta da Juventude Socialista.

Onze dias depois da morte de Franco, quando acaba de fazer vinte e dois anos, enfrenta o pelotão de fuzilamento:

 - Um momento – ordena.

E os soldados, galegos como ele, boleiros como ele, obedecem.

Então Bebel desabota a braguilha, lentamente, botão por botão, e cara a cara com o pelotão lança uma longa mijada.

Depois, abotoa a bragueta:

- Agora, sim.

­in: Espelhos, 2009, p. 271.

Amor*



Por Paulo Leminski



Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.


in: Caprichos & relaxos, 1985.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Que tal*




Por Torquato Neto


Torquato Neto

Quero morrer no Carnaval
Curtindo a sensacional desgraça
Dessa praça completamente igual
Ao resto que conheço em beira de estrada
Quero morrer no Carnaval
Encalhado na monumental bagunça tropical
Que por obra e graça dessa mesma praça
Danço, danço feito um mais
Que se salva
Uma corrente é uma corrente
Assim como uma rosa é uma certa rosa
Quente, superquente, distante diante da frente
Dessa praça completamente igual
Que eu conheço
Trivial variado
É o lado de dentro
Trancado, trancado
que tal.


(1972)


in: Kenard Kruel, Torquato Neto ou a carne seca é servida, 2008, p. 288.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Lima Barreto nas ruas de hoje*

Por José Castello



Entre tantas coisas, o que mais me entusiasma na leitura de "O passeador", romance de Luciano Hidalgo (Rocco), é seu esforço, delicado mas firme, para recuperar a imagem ainda hoje tão esmaecida, tão "escolar", do genial Lima Barreto. Seu esforço para segui-lo pelas ruas de um Rio de Janeiro que decai, enquanto se moderniza - o escritor como testemunha aflita de uma transformação. Para recuperar sua força, tão desprezada pelas vozes enfáticas e cheias de si do Modernismo de 1922. 

Ainda hoje, o Modernismo de 22 ergue-se como uma barreira entre nosso presente, nosso acelerado século 21, e a obra de Afonso Henriques de Lima Barreto. Morto justamente no ano de 1922, aos 41 anos de idade, ele teve no modernismo uma espécie nada sutil de carrasco. Com suas palavras de ordem renovadoras, sua aposta cega nas vanguardas, sua obsessão pelo futuro, os modernistas não souberam ver a força renovadora, a postura avançada, a aliança com o futuro que a obra de Lima significa. 

Misturando dados biográficos com uma imaginação exuberante, Luciana Hidalgo nos dá um romance que coloca Lima Barreto justamente onde ele devia sempre estar: no centro de uma grande aflição. Quase um século depois de sua morte, essa alma andarilha e aflita continua a nos servir como modelo para enfrentar um mundo que há muito desistiu das vanguardas (e,portanto, do futuro), mas que se transformou numa espécie monstruosa de devorador do presente. 

Mundo do imediato, do instantâneo, do tempo real, como se sentiria nele Lima Barreto? Certamente, nada bem. Contudo, ele se pudesse caminhar pelo Rio de Janeiro de hoje, onde duas vertentes opostas - beleza profunda e modas fúteis - também se misturam, nos ofereceria, por certo, um olhar devastador. Aquele olhar em que a crítica forte se mistura com a doçura, mescla que tanto nos falta. 

Lima Barreto via com desconfiança o mundanismo - e veria com a mesma desconfiança, por certo, o universo de celebridades que, hoje, toma a frente da cena midiática. Desconfiava do progresso a qualquer preço - e hoje desconfiaria também de certa idéia repetitiva e vazia de futuro que, enquanto parece avançar, nos arrasta para trás. Mulato em um país que acabava de abolir a escravatura, Lima veria hoje com desconfiança, por certo, a suposta "falta de preconceitos" raciais que esconde, no dia a dia, os preconceitos mais repulsivos. 

Faltam-nos os olhos agudos de Lima Barreto, sempre discreto, sempre pequeno, um tanto irônico quando pensa em si mesmo. Sem pose, sem desejo de fama e fortuna, livre das pressões da glória, disposto apenas - como fazem os grandes escritores - a viver e escrever. Se frequentava, com entusiasmo, um sebo na rua Gonçalves Dias, hoje, por certo, ele ainda estaria no mesmo sebo - em vez de perambular pelas livrarias de shopping. Retrocesso? Apego doentio ao passado? Ou, vamos experimentar pensar assim, busca de um caminho que seja apenas seu? 

O andarilho solitário é o oposto do homem contemporâneo que busca os holofotes e flerta com as multidões. O gosto pelo lentos passeios a pé (o flanar) contrasta com a alegria rápida dos jovens de hoje (Lima morreu jovem!), que preferem a inércia das lan house ou, ao contrário, as performances espetaculosas dos esportes radicais à lentidão do livre pensar. Observe-se as fotos que ficaram do escritor e nelas encontramos uma placidez que se mistura com a paciência. Paciência que tanto nos falta. 

Lima Barreto: nosso contemporâneo. É através de uma ficção, um romance delicado, e não de uma defesa de tese, que isso se torna mais claro. O romance de Luciana Hidalgo nos sugere que leiamos o velho Lima com novos olhos. Com nossos olhos - e não com os olhos daqueles que o desprezaram e até tentaram anular. Com os olhos do presente, um presente que não se ilude nem com o sangue do passado, nem com as miragens do futuro. Que tal encarar Lima Barreto? Um mundo inteiro se abre.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O diabo é mulher*



Por Eduardo Galeano



    "O Julgamento de George Jacobs, Agosto 5, 1692"
T.H. Matteson, 1855. Pintura a óleo.
Peabody and Esses Museum


O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomendava o mais impiedoso exorcismo contra o demônio que tinha tetas e cabelos compridos.

Dois inquisidores alemães, Henrich Kramer e Jakob Sprenger, escreveram, por encomenda do Papa Inocêncio VIII, esse fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Santa Inquisição.

Os autores demonstravam que as bruxas, harém de Satã, representavam as mulheres em estado natural, porque toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável. E advertiam que esses seres de aspecto belo, contato fétido e mortal companhia encantavam os homens e os atraíam, com silvos de serpente, caudas de escorpião, para os aniquila-los.

Esse tratado de criminologia aconselhava a submeter a tormentos todas as suspeitas de bruxaria. Se confessavam, mereciam o fogo. Se não confessavam, também, porque só uma bruxa, fortalecida pelo amante, o Diabo, nas festas de feitiçaria, conseguia resistir a semelhante suplício sem abrir a boca.

O Papa Honório III havia sentenciado:

- As mulheres não devem falar. Seus lábios levam o estigma de Eva, que foi a perdição dos homens.

Oito séculos mais tarde, a Igreja Católica continua negando-lhes o púlpito.

O mesmo pânico faz com que os fundamentalistas muçulmanos lhes mutilem o sexo e tapem seus rostos.

E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus muito ortodoxos a começar o dia sussurrando: 

- Obrigado, Senhor, por não ter me feito mulher. 


in: Espelhos, 2009, pp.115-116.

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