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quarta-feira, 1 de maio de 2013

A mulher de trinta anos*




O passo mais importante e decisivo na vida das mulheres é precisamente aquele que consideram sempre o mais insignificante. [...] Só aos trinta anos pode uma mulher conhecer os recursos desta situação. Aproveita-a para rir, gracejar e enternecer-se sem se comprometer. Possui então o tato necessário para atacar no homem todas as cordas sensíveis e estudar os sons que daí tira. O seu silêncio é tão perigoso como as suas palavras. Nunca se pode adivinhar, se nessa idade, é franca ou falsa, se zomba ou se é de boa fé nas suas confissões. Depois de ter-nos dado o direito de lutar com ela, de repente, com uma palavra, um olhar, um desses gestos cujo poder lhe é conhecido, termina o combate, nos abandona, e fica senhora do nosso segredo, ou para nos imolar com um gracejo, ou para se ocupar de nós, protegida igualmente pela sua fraqueza e pela nossa força.

*Honoré de Balzac in. “A mulher de trinta anos”. Ed. Nova Cultural, 1995, pp. 86-87.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Teus cabelos*



Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.

Na Itália te batizariam de Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pêlo.

Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira

pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pêlo.


*Pablo Neruda in. “Cem sonetos de amor”. Ed. l&pm, 1979, p.24.

________

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A Solteirona*


Leve, como após a morte,
as luvas e o lenço toma.
Da cômoda, um cheiro forte
suplanta o dileto aroma

tão próprio de antigamente
já vaidosa não indaga
(a algum remoto parente)
– Que tal? – e em sonhos divaga

na alcova, que assim bonita
conserva e trata e aprimora:
porque certamente a habita
a mesma moça de outrora.

Rainer Maria Rilke in. “Poemas”. Ed. Ediouro, s/d. p.47.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Receita de Mulher*


Por Josenias Silva
  
Lizzie Miller, manequim 42, modelo “plus size”

As muito magras que me perdoem, mas uma gordurinha é fundamental. Que haja qualquer coisa em que se possa pegar, qualquer coisa de verdadeiro, qualquer coisa de gostosura em tudo isso. Que haja graça e dança ao invés de culpa. Que tenha pernas, coxas, nádegas (como diria Vinicius de Moraes, nádegas é importantíssimo), barriguinha (por que não?), braços, seios etc. Mas acima de tudo, que haja presença de espírito, sorriso, tramas, que haja poesia em cada detalhe, em cada gesto mínimo. Enfim, que na (im)perfeição das formas possa estar a coisa mais bonita da criação, a mulher.



Coisa Bonita

Roberto Carlos/Erasmo Carlos


Amo você assim e não sei porque tanto sacrifício
Ginástica dieta não sei pra que tanto exercício
Olha eu não me incomodo um quilinho a mais não é antistético
Pode até me beijar pode me lamber que eu sou dietético
Não acho que é preciso comer de tudo que tem na mesa
Mas passar fome não contribui em nada para a beleza
Já no passado os mestres da arte diante da formosura
Não dispensava o charme de uma gordinha em sua pintura
Gosto de me encostar nesse seu decote quando te abraço
De ter onde pegar nessa maciez enquanto te amasso
Eu não sou massagista e não entendo nada de estética
Mas a nossa ginástica é mais gostosa e menos atlética
Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi que disse que tem
Que ser magra pra ser formosa? Coisa bonita, coisa gostosa,
Você é linda, é do jeito que eu gosto, é maravilhosa.


in. Roberto Carlos, CBS, 1993.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

As Liberalas*



As liberalas, que eram chamadas desse jeito pelos policiais de Cádiz, conspiravam em código.

De suas avós andaluzas tinham aprendido a linguagem secreta do leque, que servia tanto para desobedecer ao marido como ao rei: aqueles lentos movimentos e súbitas acelerações, aquelas ondulações, aquele bater de asas.

Se as damas afastavam os cabelos da testa com o leque fechado, diziam: não me esqueça.
Se escondiam os olhos atrás do leque aberto: te amo.
Se abriam o leque sobre os lábios: me beija.
Se apoiavam os lábios sobre o leque fechado: não confio.
Se com um dedo roçavam as varetinhas: precisamos conversar.
Se abanando-se chegavam perto da varanda: nos vemos lá fora.
Se fechavam o leque ao chegar: hoje não posso sair.
Se era com a mão esquerda que se abanavam: não acredite nisso.


Eduardo Galeano. “Leques” in. Espelhos. Ed. l&pm 2009, p.182.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Uma história do corpo feminino*

A medicina é uma disciplina dominante na percepção da carne e dos ossos humanos, e a medicina grega persistiu como modelo para a ciência ocidental por séculos. Galeno, o principal médico do século II d.C., foi o livro-texto em hospitais europeus mesmo após Willian Harvey descobrir a circulação do sangue 1.500 anos depois; a compreensão da histeria, por exemplo, a doença feminina par excellence, sempre dependeu de modelos da mente e do corpo feminino profundamente influenciados por essa longa tradição. A medicina formula nossa compreensão do corpo, e a medicina grega concebia o corpo feminino através de maneiras particularmente significativas.

Para a medicina clássica dos textos hipocráticos, o corpo de uma mulher é como um cântaro, com tubos interconectados para a circulação do sangue e dos fluidos - tubos que podem ser perigosamente obstruídos. Portanto, caso se queira verificar a fertilidade de uma menina, deve-se colocar um pedaço de alho em sua vagina à noite. Se de manhã ela tiver mau hálito, isso indica que, por sorte, seus tubos estão devidamente desobstruídos e que não há impedimento para a gravidez. O tubo que se estende das narinas até o útero deve estar desobstruído. Essa via de conexão explica por que os médicos gregos podiam pensar que a voz da mulher engrossava depois da primeira relação sexual: a desobstrução do orifício de baixo naturalmente afeta o orifício de cima. A conexão entre boca e vagina ainda vigora no vocabulário médico moderno: médicos se referem aos "lábios" vaginais e à "cérvice" (pescoço) do útero. A fisiologia feminina requer explicações científicas - e a ciência concebe ao leitor, e ao médico, poder sobre o mundo. A medicina é uma das maneiras como o lugar da mulher na sociedade é demarcado. A medicina modifica nossa visão sobre o corpo das mulheres.

[fragmento]

Simon Goldhill. in. "Amor, sexo & tragédia": como os gregos e romanos influenciam nossas vidas até hoje. Ed. Zahar, 2007. p. 44.

sábado, 23 de junho de 2012

A fúria feminina*

                        "... não existe no inferno nada que se compare à fúria de uma mulher rejeitada."

W. Shakespeare

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Retrato de família na Jordânia*



Num dia do ano de 1998, Yasmin Abdullah entrou em casa chorando. Só atinava dizer e repetir:

- Não sou mais uma menina.

Tinha ido visitar a irmã mais velha.

Foi violada pelo cunhado.

Yasmin foi parar no cárcere de Jweidah, até que o pai tirou-a de lá comprometendo-se a cuidar dela e pagando a fiança correspondente.

Naquela altura, o pai, a mãe, os tios e setecentos vizinhos tinham decidido, em assembleia, que a honra da família devia ser lavada com sangue.

Yasmin tinha dezesseis anos.

Seu irmão, Sarhan, meteu-lhe quatro balas na cabeça.

Sarhan passou seis meses na prisão. Foi tratado como herói.

Também foram tratados como heróis outros vinte e sete homens presos por casos semelhantes.

De cada quatro crimes cometidos na Jordânia, um é crime de honra.



Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 293-294.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Sexo e desejo*




"As mulheres querem amor, os homens querem sexo." Se esse simples estereótipo fosse verdade, não existiria a questão do vício do sexo. O apetite dos homens pelo sexo, com tantas parceiras quanto possível, seria simplesmente uma questão definidora de sua masculinidade. O desejo das mulheres pelo amor dominaria qualquer tendência para o sexo, que seria o preço para se conseguir a recompensa de amar e ser amada.

Mas esta antiga observação, pelo menos no mundo atual, poderia ser modificada. As mulheres querem sexo? Sim, pela primeira vez as mulheres coletivamente, e não como especialistas em uma ars erotica, são capazes de buscar o prazer sexual como um componente básico de suas vidas e de seus relacionamentos. Os homens querem amor? Certamente, apesar das aparências em contrário - talvez mais que a maioria das mulheres, embora de formas que ainda precisam ser investigadas. A posição dos homens no domínio público foi alcançada à custa de sua exclusão da transformação da intimidade.



Anthony Giddens. in. A transformação da intimidade, Ed.Unesp, 1993, p.79.


domingo, 25 de março de 2012

As invisíveis*


"la soldadera"

Mandava a tradição que os umbigos das recém nascidas fossem enterrados debaixo da cinza do fogão, para que cedo aprendessem qual é o lugar da mulher, e que dali não se sai.

Quando explodiu a revolução mexicana, muitas saíram, mas carregando os fogões nas costas. Por bem ou por mal, por seqüestro ou por vontade própria, seguiram os homens de batalha em batalha. Carregavam o bebê preso na teta e nas costas as panelas e caçarolas. E as munições: elas se encarregavam de que não faltassem tortillas nas bocas nem balas nos fuzis. E quando o homem caía, empunhavam a arma.

Nos trens, os homens e os cavalos ocupavam os vagões. Elas viajavam nos tetos, rogando a Deus que não chovesse.

Sem elas, soldadeiras, cucarachas, adelitas, vivandeiras, galletas, joanas, pelonas, guachas, aquela revolução não teria existido.

Nenhuma recebeu pensão.



Eduardo Galeano. in. Espelhos, Ed. L&PM, 2009, p. 251.



quarta-feira, 7 de março de 2012

Duas ou três coisas que sei sobre as mulheres*



Por Xico Sá

  
 Leila Diniz no filme "Todas as mulheres do mundo"


Alguns leitores mais ácidos – é bom tê-los como fiscais do meu lirismo bregamente derramado –  cutucam, provocam:

-Esse cara feio de doer é um populista com as fêmeas, quer arrebatá-las com essa conversinha mole, mimos, delicadezas, agás, nhenhenhéns…

Bem, falar mal à toa de mulher é que não vou. Besta é tu, besta é tu, como diriam os “Novos Baianos”, que as demonizam como envenenadas Evas expulsas do Paraíso.

Mulher é minha causa. Mulher é o meu dogma. Mulher sempre foi meu comunismo.

Maltratá-las é que não vou. Muito menos cair no conto de que elas não existem, como queria titio Lacan. Isso é papo-aranha de intelectual solteirão.

Tampouco é verdade essa historinha de que não sabemos o que querem as mulheres.

Pera lá. Não sabemos tudo, óbvio, não deciframos todos os mistérios, mas conhecemos muitos modos de agradá-las e cumprir parte da demanda.

Elas merecem e este, afinal, é o grande desafio na terra de um homem de boa vontade.

O que querem as mulheres? Entendemos a complexidade da clássica pergunta de Freud, mas a interrogação não veio ao mundo para nos acomodar.

Veio para instigar o cidadão.

As mulheres querem que os homens adivinhem, sintam, farejem os seus desejos como labradores do amor e antecipem essas realizações.

Bem-aventurados os que descobrem que elas estão a fim de uma viagem à montanha e levam-nas à montanha; bem-aventurados os que sabem que elas não agüentam mais aquele velho boteco sujo e levam-nas a um restaurante decente, dentro das posses, claro.

Bem-aventurados os que sabem que elas gostam de novidades e detestam quando os garçons nos dizem “o de sempre, amigo?” Essa confortável rotina é coisa de macho!

As nossas mulheres querem que tenhamos olhos só para elas. No que, aliás, foram contempladas biblicamente pelo décimo mandamento das tábuas da lei entregues por Deus a Moisés: não cobiçarás a mulher do próximo.

As mulheres querem que alternemos momentos de homens sensíveis e momentos de selvagens lenhadores.

Pena é que costumamos inverter as coisas. Na gana da obediência e do agrado, somos lenhadores quando nos queriam sensíveis e vice-versa. Comédia de erros. Onde queres Leblon sou Pernambuco… Onde queres romance, rock’n’roll…

As mulheres querem que reparemos no novo corte de cabelo, mesmo que a alteração tenha sido mínima, tipo só uma aparada nas pontas.

O radar capilar tem que acender a luzinha, sem falha, na hora, se liga! Se for luzes, entonces, cruzes!!!

As mulheres querem… massagem. Muita massagem. Primeiro nas costas, depois nos pés e sempre no ego.

As mulheres querem… molhinhos agridoces. Como elas se lambuzam lindamente!

As mulheres querem… flores e presentes. Não caia, jovem mancebo, nesse conto de que mulher gosta é de dinheiro. Se assim o fosse, amigo, os lascados de tudo não teriam nenhuma, nunca, jamé.

Repare que até debaixo do viaduto está lá a brava fêmea na companhia do desalmado. Ela e o cachorrinho magro, só o couro, o osso e a fidelidade. O que vale é a devoção, amigo.

Mesmo que você seja mais liso que os mussuns do brejo, pobre de marre-marré, pode muito bem presentear uma bijuteria com a dramaturgia de uma jóia da Tiffany´s.



domingo, 4 de março de 2012

Assassinos de pés*



Por Eduardo Galeano



Há um par de séculos, Li Yu-chen inventou uma China ao contrário. Em seu romance Flores do espelho havia um país das mulheres, onde elas mandavam.

Na ficção, elas eram eles; e eles, elas. Os homens, condenados a satisfazer as mulheres, eram obrigados às mais diversas servidões. Entre outras humilhações, tinham de aceitar que seus pés fossem atrofiados.

Ninguém levou a sério essa possibilidade impossível. E os homens continuaram amassando os pés das mulheres até transformá-los em alguma coisa parecida a patas de cabra.

Durante mais de mil anos, até bem avançado o século XX, as normas de beleza proibiram que o pé feminino crescesse. Na China foi escrita, no século IX, a primeira versão da Gata Borralheira, onde ganhou forma literária a obsessão masculina pelo pé feminino diminuto; e ao mesmo tempo, anos mais, anos menos, se impôs o costume de vendar, desde a infância, os pés das filhas.

E não apenas por um ideal estético. Além de tudo, os pés atados atavam: eram um escudo da virtude. Impedindo que as mulheres se movessem livremente, evitavam que uma escapadela indecente qualquer pudesse pôr em perigo a honra da família.


in. Espelhos, 2009, pp.26-27.

Por baixo da burca*



Por Asne Seierstad



Aparentemente, não há vida sexual no Afeganistão. As mulheres se escondem atrás da burca e sob ela vestem roupas grandes e largas. Por baixo das saias usam calças compridas e mesmo entre quatro paredes é raro ver um decote. Homens e mulheres que não são da mesma família não devem se sentar na mesma sala. Não devem conversar, nem comer juntos. No campo, a festa de casamento é dividida, as mulheres dançam e festejam numa sala e os homens fazem o mesmo em outra. Mas por trás das aparências tudo ferve.


in. O livreiro de Cabul, 2009, p.60.

sábado, 3 de março de 2012

Beleza*




“Beleza é o poder pelo qual uma mulher encanta o amante e aterroriza o marido.”


Ambrose Bierce

Teus cabelos*

Por Pablo Neruda



Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.

Na Itália te batizariam de Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pêlo.

Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira

pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pêlo.


in. Cem sonetos de amor, 1979, p.24.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A mulher vitoriana*



Por Emily Brontë



Cathy permaneceu em Thruscross Grage cinco semanas; até o Natal. Durante esse tempo, seu tornozelo curou-se completamente e seus modos melhoraram muito. A patroa, naquele período, visitou-a muitas vezes, e iniciou seu plano de reforma, tentando despertar-lhe o amor próprio, com belas roupas e lisonjas, que ela aceitava de boa vontade. De modo que, em vez de uma pequena selvagem, embarafustando pela casa, de cabeça descoberta, e lançando-se sobre a gente para abraçar-nos até tirar-nos o fôlego, vimos descer de um lindo poldro negro uma pessoa muito distinta, com cabelos castanhos que caiam de sob um chapéu de castor, enfeitado de plumas, e com um comprido vestido de veludo, que ela era obrigada a suspender com as duas mãos para poder andar. Hindley apeou-a do cavalo, exclamando, encantado:

- O que, Cathy! Estas uma verdadeira beleza! Quase não te conheço. Agora sim, estás parecendo uma senhora.


[fragmento]


in. O morro dos ventos uivantes, 1979, p. 53.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

O diabo é mulher*



Por Eduardo Galeano



    "O Julgamento de George Jacobs, Agosto 5, 1692"
T.H. Matteson, 1855. Pintura a óleo.
Peabody and Esses Museum


O livro Malleus Maleficarum, também chamado O martelo das bruxas, recomendava o mais impiedoso exorcismo contra o demônio que tinha tetas e cabelos compridos.

Dois inquisidores alemães, Henrich Kramer e Jakob Sprenger, escreveram, por encomenda do Papa Inocêncio VIII, esse fundamento jurídico e teológico dos tribunais da Santa Inquisição.

Os autores demonstravam que as bruxas, harém de Satã, representavam as mulheres em estado natural, porque toda a bruxaria provém da luxúria carnal, que nas mulheres é insaciável. E advertiam que esses seres de aspecto belo, contato fétido e mortal companhia encantavam os homens e os atraíam, com silvos de serpente, caudas de escorpião, para os aniquila-los.

Esse tratado de criminologia aconselhava a submeter a tormentos todas as suspeitas de bruxaria. Se confessavam, mereciam o fogo. Se não confessavam, também, porque só uma bruxa, fortalecida pelo amante, o Diabo, nas festas de feitiçaria, conseguia resistir a semelhante suplício sem abrir a boca.

O Papa Honório III havia sentenciado:

- As mulheres não devem falar. Seus lábios levam o estigma de Eva, que foi a perdição dos homens.

Oito séculos mais tarde, a Igreja Católica continua negando-lhes o púlpito.

O mesmo pânico faz com que os fundamentalistas muçulmanos lhes mutilem o sexo e tapem seus rostos.

E o alívio pelo perigo conjurado leva os judeus muito ortodoxos a começar o dia sussurrando: 

- Obrigado, Senhor, por não ter me feito mulher. 


in: Espelhos, 2009, pp.115-116.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mais um triunfo da mulher-comfort*



Por Xico Sá



Aos poucos a mulher-comfort, digo, as cheinhas e macias, vingam na moda internacional.

Aqui, ainda nem tanto, noves fora um ou outro evento específico de confecções “plus size”.

O mais irônico é que justamente o Brasil, terra abençoada com a fartura das ancas, coxas e bundas monumentais, resiste a quebrar o padrão que se entende como beleza-modelo.

Que erro.

Os franceses, naturalmente acostumados a mulheres mais magras, agora nos dão um belo exemplo na capa da revista “Elle” parisiense deste mês, com uma deusa cheinha que bate qualquer Gisele Bundchen.

Sim, damas e cavalheiros, ela mesma, a linda Tara Lynn. Um colosso! Repare bem na foto.

Nada como o colo de uma mulher macia.

Roberto & Erasmo já disseram muito sobre esse belo tipo em canção recente: 

“Gosto de me encostar/ Nesse seu decote quando te abraço/ De ter onde pegar/ Nessa maciez enquanto te amasso.’’

As anoréxicas que me perdoem, mas ter onde pegar é fundamental.

O que temos visto em revistas, passarelas e programas de auditório ou são as esqueléticas ou as musculosas em excessos, aquelas que batem fácil as pernas dos nossos mais bombados jogadores de futebol.

A maciez que é bom não tem espaço. 

Mais conforto  e menos músculo, sr. açougueiro do balcão da humanidade, e um contrapeso de coração, se é que você me entende, se é que não é pedir muito na véspera da festa da carne.


Fonte: Xico Sá



domingo, 12 de fevereiro de 2012

Por baixo do pano*



Por Rosemary Hawthorne


A história das calcinhas mal chega a cobrir dois séculos de existência – o que não é nada se comparado às trajetórias de outras peças do vestuário no mundo civilizado. Durante esse tempo elas sofreram inúmeras transformações interessantes, é verdade, mas o fato é que até a última década do século XVIII as nossas ancestrais não se davam ao trabalho de pensar numa peça de roupa específica para usar sobre suas partes baixas. A saia longa, uma ou duas anáguas, o corpete e uma camisola de linho usada diretamente sobre a pele eram toda a vestimenta considerada necessária – ou, na verdade, saudável, para a mulher.

Ao contrário do que se diz nos dias de hoje, naquela época as mulheres que ousassem envergar calções – chamados também de ceroulas e exclusivos do guarda-roupa masculino – eram tachadas de “criaturas libertinas e de moral duvidosa”. Mas foi a partir dessa base tão incerta que, quem diria, a calcinha nasceu para se tornar um símbolo do recato.

Na década de 1790, os ventos da moda sofreriam uma mudança drástica de direção. A Revolução Popular que irrompeu na França levou a uma simplificação geral do vestuário na Europa inteira, e as mulheres passaram a usar elegantes vestidos de cintura alta inspirados na vestimenta das gregas antigas. Confeccionados em finas musselinas, esses chamados vestidos império eram tremendamente sensuais e estavam no auge da moda – mas também deixavam as partes baixas um tanto arejadas demais. E, assim, foi por volta de 1800 que as calcinhas tiveram sua primeira grande chance de fazer história.



in: Por baixo do pano: a história da calcinha, 2009, pp. 13-15.


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O machismo da mídia*



Por Fernando Brito



Quando eu era um estagiário da editoria de Esportes de O Globo, no final dos anos 70, contava-se a história de que  ao descer à redação, coisa que não fazia muito, um dos irmãos de Roberto Marinho – se ainda me recordo, Rogério – perguntou a um velho funcionário do jornal, espantado com a quantidade de mulheres na redação:

- Mas elas se comportam direitinho?

Três décadas e meia depois, o comportamento da imprensa em relação às mulheres que chegam aos cargos de poder político parece lembrar este comportamento.
O Estadão, a partir de uma boa reportagem de Sérgio Torres, onde a futura presidente da Petrobras, Maria das Graças da Silva Foster, é apresentada como uma lutadora, boa mãe e amiga, militante política e até capaz de fazer-se pequenas tatuagens, é chamada de “dama de ferro”;. Expressão, aliás, que o repórter jamais utiliza.

Em outra “reportagem” a coisa é com Dilma. É chamada de autoritária e até – novamente a editoria – tem sua antessala definida como “sala de torturas”, porque todos teriam medo do que irá acontecer ao encontrarem a presidenta. O seu defeito? Ela “se irrita com promessas não cumpridas, projetos que não param em pé, pressão de aliados políticos por cargos no governo e “vazamentos” de notícias. Erros de português e números trocados também a tiram do sério”.

Ora, francamente, era para gostar? Cidadãos adultos, Ministros de Estado, dirigentes de empresas públicas, só porque vão tratar com uma chefe mulher devem esperar, ao deixarem de ser consistentes e competentes, a serem tratados na base do “bilú-bilú”? Isso é uma idiotice total e, quem espera algo assim, não deve levar uma, mas duas broncas: além da ineficácia, outra pela visão deformada que têm da condição feminina.
Mas como Dilma e Graça são mulheres, o fato de serem chefes exigentes é – e nem tão veladamente assim – criticado. “Gerentona”, “dama de ferro”, “duríssima”, “exigente” são alguns dos rótulos que lhes pregam.
Ora, as duas têm um trabalho duro, difícil, onde cada erro, além da exposição política, causa prejuízo ao povo brasileiro. Não estão ali por carreira ou brincadeira, nem pelo salário, apenas. Têm uma imensa responsabilidade.
Fossem homens, ninguém iria lhes cobrar gentilezas e rapapés. E é exatamente por esse comportamento machista, que acha que mulheres devem ser “polianas” que, às vezes, até têm de subir uma ou duas oitavas o tom do comando, porque sempre vai haver um bobalhão achando que ordem de mulher não é como ordem de homem e que é possível enrolá-las com “jeitinho”.
Ter chefe exigente e “cobrador” nunca foi problema para ninguém.
Pessoalmente, trabalhei por mais de 20 anos com uma pessoa tida como difícil e autoritária, Leonel Brizola. Nem era, mas também não era “um docinho”, nem deveria ser.  Isso nunca me fez mal algum e muito menos me tornou um cordeirinho amedrontado, por duas razões.
A primeira, retidão e lealdade. A segunda, um própósito em comum, como se deve ter quando se está em um projeto de mudança de um país. Levei algumas broncas e “peitei” algumas coisas e ninguém saiu machucado disso. E ele próprio, o mais velho, tomava a iniciativa de minimizar o estrago: “lenha boa é que sai faísca”, dizem bem os gaúchos.
Será que deve ser diferente só porque é uma mulher?
Mas a imprensa, infelizmente, reproduz essa visão machista que deveria ter ficado no passado de um país onde, felizmente, as mulheres começam – e apenas começam – a ter papéis decisórios secularmente “pertencentes” aos homens.
Nossos meios de comunicação, tão “moderninhos” e “politicamente corretos” deviam ter vergonha de pensarem como há 35 anos pensava o irmão Marinho, parte de um tempo no qual o mais importante que se podia dizer de uma mulher era  ser “senhora do Fulano de Tal”.
Que vergonha!


Fonte: Tijolaço

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