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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Que tal*




Por Torquato Neto


Torquato Neto

Quero morrer no Carnaval
Curtindo a sensacional desgraça
Dessa praça completamente igual
Ao resto que conheço em beira de estrada
Quero morrer no Carnaval
Encalhado na monumental bagunça tropical
Que por obra e graça dessa mesma praça
Danço, danço feito um mais
Que se salva
Uma corrente é uma corrente
Assim como uma rosa é uma certa rosa
Quente, superquente, distante diante da frente
Dessa praça completamente igual
Que eu conheço
Trivial variado
É o lado de dentro
Trancado, trancado
que tal.


(1972)


in: Kenard Kruel, Torquato Neto ou a carne seca é servida, 2008, p. 288.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Literato cantabile*



Por Torquato Neto


agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início
agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em minha orla
Os pássaros de sempre cantam assim,
do precipício:

a guerra acabou
quem perdeu agradeça
a quem ganhou.
não se fala. não é permitido
mudar de ideia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos
está vetado qualquer movimento
do corpo ou onde quer que alhures.
toda palavra envolve o precipício
e os literatos foram todos para o hospício
e não se sabe nunca mais do fim. agora o nunca.
agora não se fala nada, sim. fim. a guerra
acabou
e quem perdeu agradeça a quem ganhou.


[fragmento].


in: Kenard Kruel, Torquato Neto ou a carne seca é servida, 2008, p. 263.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Cogito*

Por Torquato Neto





eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível


eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora


eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim


eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.


sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Let’s play that*

Por TORQUATO NETO



quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre os dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes

(1972)

______
*Torquato Pereira de Araújo Neto (1944-1972), poeta, louco de pedra e palavra.
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