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terça-feira, 10 de julho de 2012

O Nordeste da TV: invenção e tradição


Este ano se comemora o centenário de nascimento de dois ícones da cultura brasileira, Luiz Gonzaga (1912 – 1989) e Jorge Amado (1912 – 2001), ambos representantes de um discurso regionalista nordestino marcado pelo folclore e pela tradição. O Nordeste, ao que parece, ganhou em virtude desse fato mais espaço na TV, são novelas, musicais, entrevistas e programas especiais em torno da cultura, da natureza e do povo nordestino.

Eis que emerge dessa curiosidade “estrangeira” um Nordeste exótico recortado e recontado através de regularidades imagético-discursivas que o dotam de certas características invariáveis. A seca, a rusticidade do povo, o cangaço, o retirante, a religiosidade e a dureza da caatinga foram (e ainda não deixaram de ser) ao longo de décadas imagens utilizadas para ser referir ao Nordeste e ao modo de ser nordestino. Segundo o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior:

“Antes que a unidade significativa chamada Nordeste se constituísse perante nossos olhos, foi necessário que inúmeras práticas e discursos ‘nordestinizadores’ aflorassem de forma dispersa e fossem agrupados posteriormente.” (in: A invenção do Nordeste e outras artes. Ed. Cortez, 2009, p. 79).

Nessa linha de pensamento, o Nordeste da Tv – naturalizado e folclorizado – tende a encobrir as disputas políticas, econômicas e ideológicas por trás da produção desse espaço no imaginário coletivo do país. Esse Nordeste, a-histórico, tradicional e mitificado, se apropria da literatura acadêmica (especialmente do romance de 30), do cordel, da música popular (especialmente de Luiz Gonzaga), da iconografia, etc. E se une a estes “discursos nordestinizadores” apagando as múltiplas possibilidades de práticas, costumes, modos de ser e de fazer de um Nordeste atual em nome de um Nordeste inventado, gestado a partir de estratégias midiáticas e de interesses escusos.

A força desse discurso gera, dentro e fora deste recorte geográfico (Nordeste), uma busca pelas raízes mais profundas e originais de uma nordestinidade. Inventa-se dessa forma um Nordeste da tradição, da festa junina, da comida típica, do cabra da peste, das Vidas Secas e dos Sertões, onde o sertanejo é antes de tudo um forte, um sujeito resignado na vida e fervoroso na fé. Neste percurso esquece-se, por exemplo, no Nordeste a prevalência do urbano (73,2%) sobre o rural (26, 8%); o aumento da escolarização; a melhoria na qualidade e expectativa de vida; o crescimento da geração de emprego e renda; a modernização de certos setores da economia; o movimento de retorno daqueles que se alocaram por anos a fio em subempregos e submoradias no Sul e Sudeste do país, etc. Enfim, nega-se o estágio atual de desenvolvimento do Nordeste, que obviamente ainda apresenta indicadores sociais bastante negativos, e procura-se reforçar uma imagem secular de atraso e subdesenvolvimento. Dessa forma, não é de se espantar as manifestações de preconceito contra nordestinos, amplamente divulgadas em redes sociais, e, o que é mais grave, essa estereotipizacão tem levado também a baixa auto-estima do próprio nordestino em relação à sua condição.

O Nordeste da Tv, em grande medida, é uma caricatura do Nordeste de fato e não serve à informação do grande público. Assim como sabemos que o Rio de Janeiro não se resume à violência, São Paulo aos congestionamentos e Brasília à corrupção, o Nordeste também não se resume à seca e à pobreza congênita. Todos estes espaços são produtos de embates históricos e processos políticos, não foram dados ao natural, portanto, reduzi-los a meros estereótipos é um risco que se corre em um país que ainda está em processo de auto-reconhecimento como o Brasil.


[Josenias Silva é Professor, Mestre em História do Brasil]

Ps.: O autor do texto, que é nordestino, reconhece o problema gravíssimo enfrentado por milhares de famílias vitimas da estiagem e lamenta o fato de o mesmo ser agravado por questões meramente "politiqueiras", quando não por desvio de verbas e sucateamento dos órgãos responsáveis para o combate à estiagem.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Snuff Movie na TV*




“A televisão mostra o que acontece? Em nossos países, a televisão mostra o que ela quer que aconteça; e nada acontece se a televisão não mostrar. A televisão, essa última luz que te salva da solidão e da noite, é a realidade. Por que a vida é um espetáculo: para os que se comportam bem, o sistema promete uma boa poltrona”. (GALEANO, Eduardo. "O livro dos abraços". 2.ed. Porto Alegre: L&PM, 2010, p.149).

Confortavelmente sentados em nossas poltronas somos “atacados” pela realidade, claro, uma realidade editada e ordinária. O espetáculo televisivo nos convida a participar, embora passivamente, do grande Show da vida. As telas cada vez maiores parecem colocar diante de nossos olhos enfeitiçados um mundo real. Somos aprisionados pela “grade” de programação. Somos atraídos por bundas, requebros, lágrimas, risos, tragédias, banalidades culinárias, falas discordantes e concordantes, produtos e Sangue.

Gostaria de me ater a esta última oferta, o Sangue. Não sei se vocês já repararam, mas nós temos uma atraçãozinha sádica pelo sangue. (O dos outros, óbvio!). Acidentes, desastres, morticínios, homicídios, suicídios, crimes de toda e qualquer monta nos prendem a atenção, mesmo que nos neguemos a olhá-los. As imagens de corpos dilacerados, carbonizados, fraturados, desmembrados, deformados etc., acabam alimentando o nosso pervertido e muitas vezes “inocente” desejo de sangue.

Incrível, mas não demorou muito a tornamos este fetiche algo comercial. A literatura, os jornais, o cinema, o rádio, a TV, e hoje a internet, são canais que nos alimentam, nos vendem e nos ligam a esta obscura faceta humana. O sangue corre solto por todos os lados, geralmente é o sangue alheio, e quanto mais distante, mais regozijo.

O cinema “clandestino” chegou mesmo a vender cenas de mortes REAIS de pessoas, não como estas que nos acostumamos a ver no noticiário jornalístico, mas cenas reais gravadas com o único fito de retratar alguém sendo assassinado. Estes filmes, conhecidos como Snuff Movie, atendem ao prazer perverso de determinados sujeitos. Os Snuff Movies representam o ápice do estado catártico de um indivíduo que se identifica com a violência potencializada na morte, no sofrimento, na dor e no sangue alheio.

O espetáculo em si tem o poder de extravasamento e purgação dos sentimentos reprimidos. Assim, por exemplo, o fazemos diante da tela mágica da TV quando nos mobilizamos para assistir um crime, uma violência qualquer, uma pornografia, uma traição, um ato incontido, uma revolta da carne ou do instinto, enfim, coisas que jamais teríamos a coragem de fazer, que teríamos medo, mas que naquele instante nós realizamos potencialmente, liberados que fomos dos demônios particulares, do sofrimento próprio e da morte própria.

Hoje, as câmeras espalhadas em cada fresta, em cada canto por nós frequentado alimentam nosso voyeurismo, nossa vontade de ver. Elas potencializaram nossa catarse porque tornaram pública a morte e a dor alheia, que já não pertencem mais ao foro íntimo, porque se transformaram em pauta jornalística. A dor e a morte reais estão na TV por vários ângulos, com nitidez de som e imagem em alta definição.

Quem não parou para assistir ao vivo, por exemplo, o ataque ao World Trade Center? Quem ainda não viu um crime registrado por “um circuito interno” de câmeras? Quem não acompanhou o passo a passo da morte da Juíza Patrícia Acioli, dado com “exclusividade” pelo Fantástico? Ou assistiu a morte, também ao vivo, da Professora Geísa no ônibus 174? A chacina na escola de Realengo no Rio? Ou coberturas feitas por programas "policiais" especializados no sensacionalismo? Sem falar de novelas, filmes, desenhos animados etc. Enfim, ossos, vísceras, tiros, facadas, membros contorcidos, cadáveres, gemidos, gritos, sangue... Tudo isso nos induz ao gozo coletivo, paramos para ver, ficamos chocados, comentamos, mas no intimo saímos com uma satisfaçãozinha perversa, parece até ficção, embora as mortes e os crimes sejam reais.

Os Snuff Movies estão na nossa programação diária, como um cardápio eles compõem nossa dieta visual. Eles tranqüilizam “quem se comporta bem”. Desligada a TV, levantamos ensanguentados e felizes da poltrona. Podemos até dizer que após esta pausa digestiva estamos prontos para encarar a vida lá fora.



Josenias Silva. in. Publicado no jornal O Dia, de Teresina – PI, em 01/10/2011. Caderno Em Dia, Coluna Fórum, pág. 4.


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