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sábado, 4 de fevereiro de 2012

O elogio da simplicidade*

 
Por Paulo Nogueira


Um poeta português disse que as cartas de amor são ridículas. Mas mais ridículo ainda é não escrever cartas de amor. Tenho um acréscimo à voz do poeta: algumas cartas de amor ultrapassam os limites do ridículo. São pomposas, verborrágicas, exageradas. A grande carta de amor é necessariamente simples e objetiva. Assim como a grande declaração de amor. A simplicidade é bela ao falar e ao escrever. Uma pessoa afetada na forma de se comunicar com as demais é afetada em outras esferas. “A verdade tem que falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo. O amor também. Isto é, se for verdadeiro.
As virtudes da economia ao se expressar têm notáveis exemplos históricos. Conta-se que os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a uma esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Num outro caso, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”. Para Sêneca, “nos grandes arroubos da eloqüência há mais ruído que sentido”.
Os espartanos serão eternamente reverenciados pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que os espartanos não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens aos feitos e não às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, escreveu Montaigne. (Realmente sinto que estou exagerando nas citações. Deus, pareço um almanaque. Mas olho para trás e tento cortar algumas citações, e não consigo, não por mérito meu, mas dos donos das frases. Dá para deletar a seguinte reflexão de Plutarco? Disse ele: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir. Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza”.)
Também no amor, há mais “ruído que sentido” nas frases espalhafatosas ditas ou escritas. A mais genuína, a mais poderosa declaração de amor é, muitas vezes, o olhar silencioso, o gesto mudo, e, no entanto, estamos quase sempre inclinados a berrar nossa paixão. Na cama, sobretudo, trava-se muitas vezes uma competição para ver quem gritar mais alto, um torneio de gemidos geralmente insinceros e ensurdecedores que cada parceiro acredita, numa mistura de ignorância e ingenuidade, serem excitantes. O berro amoroso incomoda o ouvido e dificilmente chega ao coração. E provoca não orgasmos maravilhosos, não maratonas sexuais inacreditáveis, mas simplesmente sede.


quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O maior desafio do mundo moderno*



Por Paulo Nogueira


Escrevi para a edição da Exame que está nas bancas um artigo sobre um tema que provoca nervosas, apaixonadas, raivosas discussões mundo afora neste momento: a desigualdade social, um processo que ganhou velocidade galopante nas últimas três décadas.
Vejo, satisfeito, que a BBC foi a fundo no assunto, e preparou um documentário chamado “The Wealth Gap” – a disparidade da riqueza, numa tradução livre.
Onde a iniquidade mais se manifesta é nos obcenos salários dos CEOs, os presidentes de empresas. Peter Drucker, o papa da moderna administração, dizia que a relação entre o salário de um presidente e o da média dos funcionários não poderia ser superior a 25 para 1. Ou então se rompiam coisas fundamentais para o sucesso de um empreendimento, como o sentimento de time.
Na Viacom, multinacional americana, o CEO em 2010 ganhou quase 2 000 vezes mais que a média dos empregados: mais de 80 milhões de dólares. Há muitos outros casos. Um levantamento do Senado americano mostrou que a renda do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 275%  entre 1979 e 2007. Os 20% de baixo da tabela viram sua renda crescer apenas 18%.
Na Inglaterra, atingida por uma crise econômica persistente, os salários dos CEOs das 100 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de Londres cresceram mais de 40% no ano passado – numa desconexão completa com o panorama do país.
Como os governos podem pedir sacrifícios à população quando uma elite ganha mais dinheiro que nunca e comanda uma concentração de renda absurda e injusta?
Uma das reações a esse quadro está na série de protestos que se espalharam pelo mundo nos últimos meses, sob o guarda-chuva do imperativo “Ocupe”. Os 99% estão dizendo basta ao 1% ganancioso que se beneficia de sua proximidade com o poder para extrair vantagens indecentes.
Vejo, satisfeito, que a BBC mudou de tom em relação aos protestos. Os manifestantes que acampam em frente da Catedral de São Paulo, em Londres, eram chamados, antes, de “anticapitalistas” pela BBC. Agora, a BBC reconhece que os protestos são contra a “ganância” corporativa e executiva.
Desigualdade em excesso gera mais crimes, mais insegurança etc etc. Por isso o tema é de interesse público, a despeito de ideologias. Estudos mostram que em países onde a diferença é menor, como no Japão e na Escandinávia, a vida é melhor – para todos, ricos e pobres.
Reduzir as desigualdades sociais é provavelmente o maior desafio do mundo moderno. Ou os governantes se mexem ou os próximos tempos serão plenos de tumultos, porque a paciência e a resignação dos excluídos têm limite — e isso ao longo da história já se manifestou em coisas como reis guilhotinados.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Em nome da mãe*



Por Paulo Nogueira




Leio na revista de história da BBC – minha predileta – um artigo que me chama a atenção.  É sobre um escritor soviético que só agora começa a ser reconhecido no Ocidente como deveria, ao lado de nomes como Pasternak e Soljntzein. O artigo é publicado porque uma rádio da BBC vai fazer uma série sobre ele.
Seu nome é Vasily Grossman, judeu nascido na Ucrânia em 1905 e morto da Rússia de Kruschev em 1969, de câncer.
Sua obra prima, que já comprei no iBooks e comecei a ler, é Vida e Morte, que tem sido comparado a Guerra e Paz, de Tolstoi. É o relato, em forma de ficção, da guerra entre soviéticos e alemães no começo dos anos 1940. Grossman estava no front, na antiga Estalingrado, atual Volvogrado, como correspondente de guerra de um jornal russo chamado Estrela Vermelha. (Uma antologia de seus textos foi lançada no Brasil pela Objetiva: Diários de Guerra.) Seus artigos, centrados nos jovens anônimos que estavam morrendo e matando, eram acompanhados avidamente na Rússia.
O reconhecimento tardio de Grossman se explica nos horrores da ditadura comunista na Rússia.
O manuscrito de Vida e Morte foi confiscado pelas autoridades soviéticas por acharem que não era boa a imagem do país que emanava do romance. Grossman começou a morrer aí. Ele dizia que seu livro tinha sido “preso”. Amigos contam que a asma voltou, o cabelo embranqueceu, um começo de calvície surgiu. Em pouco tempo Grossman estava morto. Antes disso, teve que ouvir de um líder comunista que seu livro só poderia ser publicado dali a “dois ou três séculos”. Uma reflexão sua ilustra a Frase do Dia do DCM: “A história da humanidade não é a batalha do bem contra o mal. É a batalha do grande mal para esmagar o pouco que existe de ternura humana.”
Na Rússia soviética, Grossman desapareceu como escritor. A ponto de não darem a ele o crédito de uma frase que está num muro que leva ao mausoléu do soldado morto na antiga Estalingrado, extraída dos Diários da Guerra. Um soldado alemão pergunta: “Eles estão atacando de novo. Será que são imortais?” A resposta de um soldado soviético, no muro, está gravada em ouro: “Éramos  na verdade mortais, e poucos de nós sobrevivemos, mas todos cumprimos nosso dever patriótico perante a sagrada Mãe Rússia.” Ainda hoje, guias do mausoléu dizem que não se sabe de quem é esta frase.
Grossman escreveu o livro como para se redimir do que fez, ou não fez, com sua mãe. Os alemães se aproximavam da cidadezinha em que ela morava. Grossman quis tirá-la de lá e levá-la para Moscou, mas sua mulher alegou que não havia espaço. Ela foi morta.
Grossman jamais se perdoou, e nem à sua mulher. “Penso … muitas, muitas vezes sobre como você morreu”, escreveu ele sobre a mãe. “Penso no carrasco. Foi a última pessoa que viu você viva. Sei que seu pensamento esteve o tempo todo em mim.”
A maternidade era caríssima a ele. Uma cena sublime de Vida e Destino mostra uma médica de meia idade, Sofia, sem filhos, a caminho da morte por gás num campo de concentração. Ela estava com um garotinho, David, com um corpo de “passarinho”. Na fila para a execução, os carrascos avisaram que médicos e enfermeiras estavam salvos. Sofia optou por seguir com David para a morte. O garoto morreu antes dela, em seus braços. “Agora finalmente sou mãe”, pensa Sofia.
É uma pena, uma imensa pena, que até agora nenhuma editora brasileira tenha incluído Vida e Destino em seu catálogo.
Grossman dedicou o romance à mãe, em nome da qual ele decidira ir para a guerra, mesmo sem jamais ter segurado uma arma. Suas limitações físicas e seu talento literário acabaram dando a ele o lugar certo: o de correspondente. “Enquanto eu viver, você viverá em mim. E depois, quando eu estiver morto, você vai viver no meu livro.”
Em sua carteira, foi encontrada uma foto em que ele aparecia com a mãe, na infância.
Em memória de minha mãe, que viverá em mim enquanto eu for vivo.



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