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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Argumentos da fé*

A "pêra da angústia", instrumento de tortura

Durante seis séculos, e em vários países, a Santa Inquisição castigou os rebeldes, os hereges, as bruxas, os homossexuais, os pagãos...

Muitos foram parar nas fogueiras; e com lenha verde arderam os condenados ao fogo lento. E muitos mais foram submetidos a torturas. Esses eram alguns dos instrumentos utilizados para arrancar confissões, corrigir convicções e semear pânico:

  o colar de arame farpado,
  a gaiola suspensa,
  a mordaça de ferro que evita gritos incômodos,
  a serra que lentamente partia um ser humano pela metade,
  os torniquetes esmaga-dedos,
  os torniquetes amassa-cabeças,
  o pêndulo quebra-ossos,
  a cadeira de espinhos,
  a longa agulha que penetrava nas pintas do Diabo,
  as garras de ferro que rasgavam a carne,
  as pinças e os alicates aquecidos em brasa viva,
  os sarcófagos com pregos na parte de dentro,
  as camas de ferro que se esticavam até desconjuntar as pernas e braços,
  os açoites com pontas de ganchos ou de lâminas afiadas,
  os tonéis cheios de merda,
  o alçapão, o cepo, as roldanas, as argolas, os tridentes,
 a pêra que se abria e rasgava a boca dos hereges, o cu dos homossexuais e a vagina das amantes de Satanás,
 a pinça que triturava as tetas das bruxas e das adúlteras,
 o fogo nos pés
 e outras armas da virtude.

Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 92-93.


  

quinta-feira, 5 de abril de 2012

É proibido rir*



As antigas festas dos ciclos da natureza se chamam agora Natal e Semana Santa, e já não são homenagens aos deuses pagãos, mas solenes rituais de veneração à divindade que ocupou seus dias e se apoderou de seus símbolos.

A festa Hilária, herdada ou inventada por Roma, saudava a chegada da primavera. A deusa Cibele se banhava no rio, convocando a chuva e a fertilidade dos campos, enquanto os romanos, vestidos com roupas extravagantes, capotavam de rir. Todos debochavam de todos, e não havia no mundo nada ou ninguém que não fosse digno de servir de mote para rir.

Por decisão da Igreja Católica, essa festa pagã da hilaridade, que rindo celebrava a ressurreição da primavera, coincide a cada março, dia mais, dia menos, com a ressurreição de Jesus, de quem os evangelhos não registram um único riso.

E por decisão da Igreja, o Vaticano foi construído no exato lugar onde a festa da alegria culminava. Ali, na vasta praça onde ressoavam gargalhadas da multidão, agora se ouve a voz grave do Papa recitando as páginas da Bíblia, um livro do qual ninguém nunca ri.


Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 61-62.



domingo, 15 de janeiro de 2012

Programa de auditório e a fé*



Por Affonso Romano de Sant´Anna





Qual a relação entre um programa de auditório e um culto religioso?

Existe um movimento em todos os credos para transformar os cultos em grandes happenings. Não basta, como antigamente, cantar hinos tristes e solenes, acender velas e orar contritamente,  é preciso animação, festa, gritaria para espantar o demônio e agregar os crentes.

A pastora Ana Lúcia, lá em Belford Roxo, bota prá quebrar. Num ritmo que mistura funk e gospel  vai cantando para o endemoniado: agora quebra, quebra, quebra, tá pegando fogo, tá pegando fogo. E o auditório vibra, canta, chora e dança enquanto os ex-pagodeiros  que agora formam o conjunto Os Gideões, mandam ver.

Assim como as igrejas protestantes e católicas invadiram a televisão com seus cultos, a pastora Ana Lúcia, até então desconhecida, invadiu  o  youtube e seu vídeo já foi visto por quase 400 mil pessoas. É a era da comunicação. Quem não se comunica não se salva (nem ganha dinheiro).

Riobaldo, o personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa dizia que se Deus resolvesse aparecer no sertão, que aparecesse armado.  Hoje se pode  dizer: se Cristo quisesse fazer o Sermão da Montanha, que  tratasse de trazer o DVD e CD para vender. Esta é que seria a verdadeira multiplicação de pães e peixes.

Quando eu dava aulas e estudava a questão da carnavalização em nossa cultura, ou seja, os rituais e festas, deparei-me com um teólogo protestante que  dizia que tínhamos que pensar que Cristo era um Arlequim e não um Pierrô. Era uma visão vital e alegre da fé em oposição à morbidez tradicional.

Agora, no entanto, criou-se algo bem mais radical. Exemplo disto  é o que eu chamaria de comédia evangélica. Um jornal cita três comediantes que se apresentam, não em teatros e na televisão, mas em igrejas.  Reparem, não é também o que antigamente se chamava de pastor conferencista - aquele pregador excepcional que vinha por uns dias para reativar  a fé amortecida das fiéis. Era sempre um  orador excepcional, Agora, não. Pode ser qualquer um que saiba manejar o bom humor. Um deles, por exemplo, é o radialista Robinho Silva, que antes já fazia o axé  católico e tem um cartaz de propaganda que diz: Evangelização com stand up e muito humor. Ou seja, segue a receita desse tipo de comédia americana: stand up-  que está virando moda no Brasil: um sujeito  sozinho no palco fazendo os outros rirem.

A formula não é nova, e aplicada à religião é apenas invertida. Os cultos tradicionais faziam as pessoas chorarem e desesperarem de suas vidas, a vida era mesmo uma cruz  e um suplício. Ou seja, onde havia morte celebra-se a vida, onde havia imobilidade, o movimento, onde havia murmúrio e reza, agora a dança e a gritaria. Mas o principio é o mesmo: uma pessoa conduzindo a massa, secundado às vezes por um côro, como acontecia nas tragédias gregas.

Como dizem os portugueses, isto tem piada, quer dizer, tem sua graça, pois o dentista Fabio Borges, um desses comediantes da fé, conta por exemplo, que uma fiel rezava assim a Ave Maria: Ave Maria cheia de graça, bendita suas avós entre as mulheres. Isto acontece. Me lembrei que quando eu era criança costumava (seriamente) cantar assim uma das linhas do Hino Nacional: verás que um filisteu não foge à luta.

Isto tudo, está preso àquilo que Gille Dorfles, nos  anos 60 profetizou como a sociedade do espetáculo.  Com efeito, a religião sempre lançou mão de rituais espetaculares, como forma de agregar e emocionar. Mas a modernidade, rompendo fronteiras e transgredindo sempre, está nos presenteando com algo intrigante: a vida virou um grande shopping, um grande programa de auditório onde os perdidos tentam se salvar dançando com muita fé.

(*) Estado de Minas/.15.01.2012




quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Salvação pelo riso*



Por Affonso Romano de Sant’Anna





Talvez por causa de Ruy Barbosa, talvez por causa do Padre Vieira, os baianos sempre foram relacionados com a oratória. E estou me lembrando aqui de um grande orador sacro, que poucos conhecem e que viveu na Bahia no século 17 chamado Frei Antonio das Chagas.

Dizem que seus sermões eram verdadeiros espetáculos. Para comover a platéia, ele não apenas gritava, chorava, arranhava o próprio rosto, mas carregava uma caveira para o púlpito, e esbofetando-a, conduzia os crentes a pensarem que somos pó  e ao pó retornaremos. Assim ele ia arrastando multidões em procissão dentro e fora da igreja.

Estou dizendo isto, porque nesses dias li várias reportagens que relatam que os pregadores hoje são verdadeiros animadores de auditório. Um bom animador de auditório tem o público na sua mão. Vejam o Sílvio Santos! Há uns 20 anos os partidos de centro e direita estavam tão desarvorados que queriam até que ele fosse candidato à presidência. E ele, grande animador de auditório, provavelmente ganharia o apoio das massas,  não fosse o Supremo  Tribunal Federal, através do juiz Francisco Rezek interferir nesse processo.

Vocês estão sabendo que a Baby Consuelo  fundou uma igreja que se reúne regularmente no Rio e tem como lema: No céu não vai ter molenga. Só casca grossa. Não é só ela. Muitos cantores viraram celebridades cantando músicas tipo Gospel. O sistema Globo sucumbiu a essa realidade musical. Pastores e padres rebolam, cantam e dançam alegando que o Rei Davi na Bíblia saía dançando enquanto tocava harpa. E agora apareceu um novo gênero: o comediante da fé. O indivíduo que em vez de fazer shows de humor em boites e teatros, conta piadas religiosas nas igrejas. E com isto, atraem multidões como o radialista Robinho, Denys Ricardo e o dentista Fábio Borges. Este prega que Rir é um santo remédio.

Os tempos mudaram. Os teólogos medievais diziam que o riso era coisa do diabo. E que Cristo nunca sorriu.

Será?



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