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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015





 L'Origine du monde –1866, Museu de Orsay, Paris.
Gustave Courbert, 1819-1877. 

Eu te saúdo, fenda de portentos
A luzir entre dois flancos macios;
Saúdo-te, buraco de amavios,
Que dás ao meu viver contentamento.

Enfim me libertaste dos tormentos
Do alado arqueiro e dos meus desvarios;
Só quatro noites eu te possuí e o
Poder do arqueiro fez-se em mim mais lento.

Pequeno furo, furo arteiro, furo
Tão bem guardado em matagal obscuro,
Que ao mais rebelde domas com presteza:

Todo vero galã, para te honrar,
Devia de joelhos te adorar,
Firme empunhando a sua vela acesa!

Pierre de Ronsard (1524-1585) 
(Trad. José Paulo Paes)


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Pintor de Mulheres*



Este pintor
sabe o corpo feminino e seus possíveis
de linha e de volumes reinventados.
Sabe a melodia do corpo em variações entrecruzadas.
Lê o código do corpo, de A ao infinito
dos signos e das curvas que dão vontade de morrer
de santo orgasmo e de beleza.

*Carlos Drummond de Andrade in. “Poesia Completa”. Ed. Nova Fronteira, 2007, p. 1235.

____________
The Lost Pleiad, 1884.
Oil on canvas,  195.5x95 cm.
William A. Bouguereau, 1825-1905.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Encarnação*



Carnais, sejam carnais tantos desejos, 
carnais, sejam carnais tantos anseios,
palpitações e frêmitos e enleios, 
das harpas da emoção tantos arpejos... 

Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, 
à noite, ao luar, intumescer os seios 
láteos, de finos e azulados veios 
de virgindade, de pudor, de pejos... 

Sejam carnais todos os sonhos brumos 
de estranhos, vagos, estrelados rumos 
onde as Visões do amor dormem geladas... 

Sonhos, palpitações, desejos e ânsias 
formem, com claridades e fragrâncias, 
a encarnação das lívidas Amadas!

*Cruz e Sousa in. “Broqueis”. Ed. l&pm, 2002.

_______________
Baigneuse Assise, 41 x 64 cm.
William A. Bouguereau, 1825-1905.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Bundamel bundalis bundacor bundamor*




Bundamel bundalis bundacor bundamor
bundalei bundalor bundanil bundapão
bunda de mil versões, pluribunda unibunda
                     bunda em flor, bunda em al
                     bunda lunar e sol
                     bundarrabil

Bunda maga e plural, bunda além do irreal
arquibunda selada em pauta de hermetismo
                     opalescente bun
                     incandescente bun
meigo favo escondido em tufos tenebrosos
a que não chega o enxofre da lascívia
e onde
a global palidez de zonas hiperbóreas
concentra a música incessante
do girabundo cósmico.

Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
Bunda mutante/renovante
que ao número acrescenta uma nova harmonia.
Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
o arco de triunfo, a ponte de suspiros
a torre de suicídio, a morte do Arpoador
                    bunditálix, bundífoda
bundamor bundamor bundamor bundamor.


Carlos Drummond de Andrade. in. Poesia Completa. Ed. Nova Fronteira, 2007, p. 1378.
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