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domingo, 9 de junho de 2013

Em tempos de copa*


Para a maior parte da humanidade hoje, onze homens jovens num campo de futebol é que personificam “o país”, o Estado, “o nosso povo”, e não os políticos, as constituições e as movimentações militares. Aparentemente, esses times nacionais são compostos de cidadãos nacionais. Mas todos nós sabemos que esses milionários dos esportes aparecem num contexto nacional apenas alguns dias por ano. Em sua principal ocupação, eles são mercenários transnacionais, regiamente pagos, quase todos a serviço de outros países. Os times aclamados a cada dia por um público nacional são montagens heterogêneas que só Deus sabe quantos países e raças, em outras palavras, daqueles que são reconhecidos como os melhores jogadores do mundo. Na maioria dos clubes nacionais bem-sucedidos há, por vezes, não mais que dois ou três jogadores nativos. Isso é lógico mesmo para torcedores racistas, pois o que eles querem acima de tudo é um clube vitorioso, ainda que não mais racialmente puro.


*Eric Hobsbawm in. “Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX”. Ed. Companhia das Letras, 2013, p. 52.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Os intelectuais: papel, função e paradoxo*


Sartre e Foucault em meio aos protestos de maio de 68

O “breve século XX” de revoluções e guerras de religião ideológica tornar-se-ia a era característica do engajamento político dos intelectuais. Eles não só defendiam suas próprias causas na época do antifascismo e depois do socialismo de Estado, mas também eram vistos dos dois lados como reconhecidos pesos pesados do intelecto.  Seu período de glória estendeu-se do fim da Segunda Guerra Mundial ao colapso do comunismo. Foi essa a grande época das mobilizações contra alguma coisa: contra a guerra nuclear, contra as últimas guerras imperiais da velha Europa e as primeiras do novo império mundial americano (Argélia, Suez, Cuba, Vietnã), contra o stalinismo, contra a invasão soviética da Hungria e da Tchecoslováquia, e assim por diante. Os intelectuais formavam a linha de frente de quase todas.

(...) Essa era do intelectual como principal face pública de oposição política recuou para o passado. Onde estão os grandes promotores de campanhas e signatários de manifestos? Com poucas e raras exceções, mais notavelmente o americano Noam Chomsky, estão calados ou mortos. Onde estão os celebrados maîtres à penser da França, os sucessores de Sartre, Marelau-Ponty, Camus e Raymond Aron, de Foucault, Althusser, Derrida e Bourdieu? Os ideólogos do fim do século XX preferiram abandonar a tarefa de buscar a razão e a mudança social, deixando-a para as operações automáticas de um mundo de indivíduos puramente racionais, supostamente maximizando seus benefícios através de um mercado que opera racionalmente e tem uma tendência natural, quando livre de interferência externa, a alcançar um equilíbrio duradouro. Numa sociedade de incessante entretenimento de massa, os ativistas agora acham os intelectuais menos úteis como fonte de inspiração duradoura de causas do que roqueiros e astros de cinema mundialmente famosos. Os filósofos já não têm condições de competir com Bono ou Eno, a não ser que se reclassifiquem como essa nova figura do novo mundo do espetáculo midiático – a “celebridade”. Vivemos uma nova era, ao menos até que o ruído universal de autoexpressão do Facebook e os ideais igualitários da internet produzam seu pleno efeito público.

O declínio dos grandes intelectuais protestativos deve-se, portanto, não apenas ao fim da Guerra Fria, mas à despolitização de cidadãos ocidentais num período de crescimento econômico e ao triunfo da sociedade de consumo. O trajeto que vai do ideal democrático da ágora ateniense às irresistíveis tentações de shopping center reduziu o espaço disponível para a grande força demoníaca dos séculos XIX e XX: a saber, a crença em que a ação política era o jeito de aperfeiçoar o mundo. A rigor, o objetivo da globalização neoliberal era precisamente reduzir o tamanho, o escopo e as intervenções públicas do Estado. Nisso, foi parcialmente bem-sucedida.


*Eric Hobsbawm in. “Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX”. Ed. Companhia das Letras, 2013, pp. 230-231.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Tempos Fraturados*

[no século xx] a combinação de tecnologias novas e consumo de massa não só criou o cenário cultural geral em que vivemos, mas também deu origem a sua melhor e mais original realização artística: o cinema. Vem daí a hegemonia dos Estados Unidos democratizados na aldeia global do século xx, sua originalidade nas formas de criação artística – literária, musical, teatral, misturando as tradições eruditas e subalternas –, mas também a escala do seu poder de corromper. O desenvolvimento de sociedades nas quais uma economia tecnoindustrializada imerge nossa vida em experiências universais, constantes e onipresentes de informação e produção cultural – de som, imagem, palavra, memória e símbolos – é, historicamente, inédito. Transformou totalmente nossa maneira de apreender a realidade e a produção de arte, sobretudo acabando com o tradicional status privilegiado das “artes” na velha sociedade burguesa, quer dizer, sua função como medida do que é bom e do que é ruim, como transmissoras de valores: verdade, beleza e catarse.

*Eric Hobsbawm in. “Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX”. Ed. Companhia das Letras, 2013, p. 14.

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Elvis I and II , c. 1963.
Andy Warhol, 1928 – 1987.



sábado, 23 de março de 2013

O sentido do passado*


Todo ser humano tem consciência do passado (definido como o período imediatamente anterior aos eventos registrados na memória de um indivíduo) em virtude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que interessam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colônias mais inovadoras são povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que já conta uma longa história. Ser membro de uma comunidade humana é situar-se em relação ao seu passado (ou da comunidade), ainda que apenas para rejeitá-lo. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. O problema para os historiadores é analisar a natureza desse “sentido do passado” na sociedade e localizar suas mudanças e transformações.

*Eric Hobsbawm in. “Sobre História”. Ed. Companhia das Letras, 1998, p.22.

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Eric J. Hobsbawm (1917-2012)


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Mundos do Trabalho*


Em que sentidos e direções desejamos transformar o mundo, ou: nossas pesquisas implicam transformação? Corremos o perigo de esquecer que o sujeito e o objeto de nossas pesquisas são seres humanos? Não deveríamos correr este risco, pois são pessoas – não o “trabalho”, mas homens e mulheres trabalhadores reais (...) – o que nosso estudo focaliza. Para muitos de nós o objeto final de nosso trabalho é criar um mundo no qual os trabalhadores possam fazer sua própria vida e sua própria história, ao invés de recebê-las prontas de terceiros, mesmo dos acadêmicos.

*Eric J. Hobsbawm in. “Mundos do Trabalho”. Ed. Paz & Terra, 2000, p.30.

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 Photo: Sebastião Salgado.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Lembrança e legado de Eric Hobsbawm*



Eric J. Hobsbawm (1917-2012)
Se Eric Hobsbawm tivesse morrido há 25 anos atrás, os obituários o descreveriam como o historiador marxista britânico mais notável e acabariam mais ou menos aí. Mas ao morrer agora, aos 95 anos, ele atingiu uma posição única na vida intelectual de seu país. Nos últimos anos, tornou-se o historiador britânico mais respeitado de qualquer tipo, reconhecido (se não aprovado) tanto pela esquerda quanto pela direita, e um dos poucos historiadores de qualquer era a desfrutar reconhecimento nacional e internacional genuíno.
Diferente de outros, Hobsbawm atingiu tal status sem voltar-se contra o marxismo ou Marx. Em seu 94º ano, ele publicou How to change the world [leia resenha em Outras Palavras], uma forte defesa da relevância contínua de Marx na sequência do colapso dos bancos de 2008-2010. Além disso, atingiu o auge de sua reputação em um momento em que as ideias e projetos socialistas, que tanto estimularam sua escrita por mais de meio século, estavam em desarranjo histórico – algo de que ele esteve muito consciente.

Em uma profissão conhecida por preocupações microscópicas, poucos historiadores envolveram-se num campo tão vasto, com tantos detalhes ou com tanta autoridade. Até o fim, Hobsbawm considerava-se essencialmente um historiador do século 19, mas seu entendimento desse e de outros séculos era amplo e cosmopolita.
O alcance de seu interesse pelo passado, e seu excepcional domínio dos temas pelos quais se embrenhava sempre espantaram a muitos, principalmente na série de quatro volumes A era das… na qual se destila a história do mundo capitalista de 1789 a 1991. “A capacidade de Hobsbawm de armazenar e recuperar detalhes atingiu agora a escala normalmente alcançada apenas por grandes arquivos com grandes equipes”, escreveu Neal Ascherson. Tanto por seu conhecimento de detalhes históricos quanto por seu extraordinário poder de síntese, tão bem colocados no projeto dos quatro volumes, ele foi incomparável.

Hobsbawm nasceu em Alexandria, um bom lugar para um historiador do império, em 1917, um bom ano para um comunista. Ele faz parte da segunda geração britânica de sua família, neto de um judeu polonês e marceneiro que foi para Londres nos anos 1870. Oito filhos, incluindo Leopold, pai de Eric, nasceram na Inglaterra e todos ganharam cidadania britânica quando nasceram (o tio de Hobsbawm, Harry, tornou-se o primeiro prefeito eleito pelo Partido Trabalhista em Paddington).
Mas Eric era um britânico com um background pouco comum. Outro tio, Sidney, foi para o Egito antes da Primeira Guerra Mundial e encontrou um emprego para Leopold numa agência de despachos marítimos. Lá, em 1914, Leopold Hobsbawm conheceu Nelly Gruen, uma jovem vienense de uma família de classe média, que tinha ganho uma viagem ao Egito como prêmio por ter terminado seus estudos. Os dois ficaram noivos, mas a eclosão da I Guerra Mundial os separou. O casal acabaria se casando na Suíça em 1916, voltando ao Egito para o nascimento de seu primeiro filho, Eric.

“Todo historiador tem sua história de vida, um ponto de vista privado para examinar o mundo”, ele disse em 1993, em uma palestra em Creighton, numa das várias ocasiões nos seus últimos anos em que tentou relacionar sua história de vida com sua escrita. “Meu ponto de vista foi construído a partir de uma infância em Viena nos anos de 1920, os anos em que Hitler ganhou força em Berlim, que determinaram minha visão política e meu interesse pela história; e na Inglaterra, especialmente em Cambridge nos anos 1930, quando confirmei as duas escolhas”.
Em 1919, a jovem família assentou-se em Viena, onde Eric frequentou a escola primária, período que ele mais tarde relembrou em 1995, em um documentário na televisão que mostrava fotos de um jovem Hobsbawm magro, usando shorts e meias até os joelhos. A política teve seu impacto mais ou menos nessa época. A primeira memória política de Eric é de Viena, em 1927, quando trabalhadores queimaram o Palácio da Justiça. A primeira conversa política de que ele se lembrava aconteceu em um sanatório, por volta desse ano. Duas mulheres judias estavam discutindo Leon Trotsky. “Diga o que você quiser”, uma disse a outra, “mas ele é um jovem judeu chamado Bronstein”.
Em 1929, seu pai morreu de um ataque cardíaco. Dois anos depois, sua mãe morreu de tuberculose. Eric tinha 14 anos, e seu tio Sidney assumiu a responsabilidade, e levou Eric e sua irmã Nancy para Berlim. Como um adolescente em Berlim na República Weimar, Eric inevitavelmente se politizou. Ele leu Marx pela primeira vez, e se tornou um comunista.
Ele sempre se lembrou do dia, em janeiro de 1933, quando, ao sair da estação Halensee S-Bahn voltando da escola para casa, viu uma manchete em um jornal anunciando que Hitler havia sido eleito chanceler. Por volta dessa época, juntou-se ao Socialist Schoolboys, que descreveu como “de fato parte do movimento comunista” e vendeu a publicação Schulkampf (“Luta Estudantil”). Ele manteve o mimeógrafo da organização sob sua cama e, dada sua facilidade posterior em escrever, provavelmente também redigiu também a maioria dos artigos. A família permaneceu em Berlim até 1933, quando Sidney Hobsbawm foi enviado para a Inglaterra por seus empregadores.

O garoto adolescente que foi morar com sua irmã em Edgware, em 1934, descreveu a si mesmo posteriormente como “completamente europeu e germanófono”. A escola, porém, “não era um problema” pois o sistema educacional inglês estava “muito atrás” do alemão. Um primo em Balham apresentou-o ao jazz pela primeira vez – o “som irrespondível”, ele chamava. O grande momento da conversa, ele escreveria uns 60 anos depois, foi quando ouviu pela primeira vez a banda Duque Ellington “em sua forma mais imperialista”. Atuou durante uma parte dos anos 1950 como crítico de jazz do New Statesman, e publicou uma edição especial, The Jazz Scene, sobre o assunto, em 1959, sob o pseudônimo de Francis Newton (muitos anos mais tarde, a obra foi relançada com Hobsbawm identificado como o autor).

Ao aprender a falar inglês corretamente, Eric tornou-se aluno na escola de gramática Marybone e ganhou, em 1936, uma bolsa de estudos para a King’s College, em Cambridge. Foi nessa época que uma frase ficou comum, entre seus amigos comunistas de Cambridge: “tem alguma coisa que o Hobsbawm não sabe?”. Ele tornou-se membro da legendária Cambridge Apostles. “Todos nós pensamos que a crise de 1930 era a crise final do capitalismo”, ele escreveu 40 anos depois. Mas, acrescentou, “não era”.
Quando a II Guerra Mundial teve início, Hobsbawm voluntariou-se, como muitos comunistas, para trabalho de inteligência. Mas suas ideias políticas, que nunca foram segredo, levaram à rejeição. Então ele tornou-se um escavador improvável na 560ª Companhia de Campo, que posteriormente descreveu como “uma unidade muito operária, tentando construir defesas notoriamente inadequadas contra invasões no litoral de East Anglia”. Essa também foi uma experiência formativa para o jovem prodígio intelectual, muitas vezes ausente. “Havia algo sublime sobre eles e a Inglaterra naquele tempo”, escreveu. “Aquela experiência na guerra converteu-me em um operário inglês. Eles não eram muito inteligentes, exceto os escoceses e galeses, mas eles eram pessoas muito, muito boas”.
Hobsbawm casou-se com sua primeira esposa, Muriel Seaman, em 1943. Depois da guerra, de volta a Cambridge, tomou outra decisão: abandonou um doutorado planejado sobre a reforma agrária no norte da África para fazer uma pesquisa sobre os socialistas fabianos. Foi uma escolha que abriu a porta tanto para uma vida de estudos sobre o século 19 quanto para uma preocupação igualmente duradora sobre os problemas da esquerda. Em 1947, ele conseguiu seu primeiro trabalho permanente, como professor conferencista de história no Birkbeck College, em Londres, onde permaneceu grande parte da sua vida como professor.
Com o início da Guerra Fria, um macartismo acadêmico muito britânico fez com que a cátedra de Cambridge, que Hobsbawm sempre cobiçou, nunca se materializasse. Ele viajava de Cambridge para Londres, como um dos principais organizadores e animadores do Grupo de Historiadores do Partido Comunista, uma academia brilhante e radical que reuniu alguns dos mais proeminentes historiadores do pós-guerra. Entre seus membros, estavam Christopher Hill, Rodney Hilton, AL Morton, EP Thompson, John Saville e, mais tarde, Raphael Samuel. O que quer que o grupo tenha alcançado (e Hobsbawm escreveu uma dissertação sobre ele em 1978), a experiência certamente estabeleceu um núcleo para seus primeiros passos como grande escritor de História.
O primeiro livro de Hobsbawm, “Labour’s Turning Point” (1948) – uma coleção editada de documentos da era do socialismo Fabiano – pertence claramente à época de militância no Partido Comunista, assim como o seu engajamento no debate famoso sobre as consequências econômicas do início da Revolução Industrial, um tema sobre o qual ele e RM Hartwell teceram argumentos em sucessivos números da Economic History Review. A fundação do jornal Past and Present também pertence ao mesmo período. É até hoje o mais duradouro periódico do grupo de historiadores do PC britânico.

Hobsbawm nunca deixou o Partido Comunista e sempre pensou em si mesmo como parte de um movimento internacional comunista. Para muitos, este continua a ser o obstáculo insuperável para abraçar sua obra. Contudo, ele sempre manteve-se muito mais como um livre-pensador autorizado a permanecer dentro das fileiras do partido. Sobre a invasão da Hungria pela União Soviética, em 1956, um evento que dividiu o PC e provocou a saída de muitos intelectuais do partido, ele foi uma voz de protesto que, no entanto, permaneceu.
 Todavia, a exemplo de seu contemporâneo Christopher Hill, que deixou o PC naquele momento, a combinação, de alguma forma, do trauma político de 1956 e o início de um longo e feliz segundo casamento, provocou um período sustentado e frutífero de produção no campo da História, o que veio a estabelecer sua fama e reputação. Em 1959, ele publicou sua primeira grande obra, “Primitive Rebels”, um relato notavelmente original, especialmente para aqueles tempos, das sociedades secretas e das culturas milenares do Sul da Europa (ele ainda estava escrevendo sobre o assunto recentemente, em 2011). Voltou a esses temas uma década depois, em Captain Swing, um estudo detalhado do protesto rural do início do século 19 na Inglaterra, em co-autoria com George Rudé, eBandidos, um esforço mais abrangente de síntese. Essas obras servem de lembretes de como Hobsbawm foi tanto uma ponte entre a historiografia europeia e a britânica e, também, um precursor do aumento notável do estudo da história social no pós-1968 britânico.

À essa altura, porém, Hobsbawm já havia publicado o primeiro dos trabalhos sobre os quais suas reputações popular e acadêmica iriam se assentar. Uma coleção de alguns dos seus ensaios mais importantes, Labouring Men, apareceu em 1964 (uma segunda coleção,Worlds of Labour, iria surgir 20 anos mais tarde). Mas foi Industry and Empire (1968), uma compilação convincente de muito do seu trabalho sobre a revolução industrial da Grã-Bretanha, que alcançou o mais alto reconhecimento – e, não à toa, raramente a obra encontra-se fora de catálogo.

Foi ainda mais influente, no longo prazo, a série a Era de…, que começou em 1962 com a A Era das Revoluções: 1789-1848. Ela foi sucedida por A Era do Capital: 1848-1875 (1975) e, depois, por A Era do Império: 1875-1914 (1987). Um quarto volume, A Era dos Extremos: 1914-1991, mais peculiar e especulativo, ainda que, sob alguns aspectos, mais notável e admirável do que as obras anteriores, ampliou a sequência em 1994.

Os quatro volumes incorporam todas as melhores qualidades de Hobsbawm – a varredura do tema e a compreensão estatística combinadas pelo ar de anedota, a atenção pelas nuances e o significado das palavras além de, sobretudo, um incomparável poder de síntese (não há lugar onde o capitalismo dos meados do século 19 esteja mais bem disposto do que o clássico sumário presente na primeira página do segundo volume). Os livros não foram concebidos como tetralogia, mas adquiriram, assim que surgiram, status individual e, ao mesmo tempo, cumulativo, de claśsico. Eles foram um exemplo, como diria o próprio Hobsbawm, “daquilo que os franceses chamam de ‘haute vulgarisation‘ [alta vulgarização]” (e ele não disse isso no sentido autodepreciativo). Os livros ornaram-se, nas palavras de um revisor, “parte da mobília dos ingleses bem-formados”.

O primeiro casamento de Hobsbawm tinha terminado em 1951. Durante os anos 1950, ele teve outro relacionamento, que resultou no nascimento de seu primeiro filho, Joss Bennathan; mas a mãe do garonto não quis casar-se. Em 1962, ele casou-se de novo, agora com Marlene Schwartz, de ascendência austríaca. Mudaram-se para Hampstead e compraram uma segunda casa pequena em Gales. Tiveram dois filhos, Andrew e Julia.
Nos anos 1970, a fama crescente de Hobsbawm como historiador viu-se acompanhada pelo crescimento da sua fama como narrador de seu próprio tempo. Embora ele respeitasse, como historiador, a disciplina centralista do Partido Comunista, sua eminência intelectual deu-lhe uma independência que lhe permitiu conquistar o respeito de pensadores críticos ao comunismo, a exemplo de Isaiah Berlin. Isso também garantiu-lhe o considerável elogio de não ter nenhum de seus livros publicados na União Soviética. Armado e protegido, ele navegou sem medo por todo o campo da esquerda, das páginas mensais do Partido Comunista ao Marxism Today, uma publicação consideravelmente heterodoxa na qual tornou-se sumidade da casa.

Suas conversas com o comunista – e, agora, presidente – italiano Giorgio Napolitano datam daqueles anos e foram publicadas em A Estrada Italiana para o Socialismo. Mas sua mais influente contribuição política foi a crescente certeza de que o movimento proletário europeu perdera a capacidade de realizar a função transformadora que os marxistas primordiais lhe creditavam. Esses artigos revisionistas descompromissados foram organizados sob o título “The Forward March of Labour Halted” [A Marcha do Trabalho Interrompida].

Em 1983, quando Neil Kinnock tornou-se líder do Partido Trabalhista britânico, por conta de sua sorte eleitoral, a influência de Hobsbawm começou a se estender para além do Partido Comunista e para dentro do Trabalhista. Kinnock reconheceu publicamente sua dívida para com Hobsbawm e permitiu-se ser entrevistado pelo homem que descreveu como “meu marxista favorito”. Embora Hobsbawm tenha desaprovado firmemente muito daquilo que seria conhecido depois como “Novo Trabalhismo” – algo que via, entre coisas, como covardia histórica – ele foi, sem dúvida, o precursor intelectual mais influente do revisionismo iconoclasta do trabalhismo dos anos 1990.

Seu status foi sublinhado em 1998, quando o então primeiro-ministro Tony Blair concedeu-lhe a distinção de Companion of Honour, poucos meses depois de ter completado 80 anos. Na sua justificativa, o premiê disse que Hobsbawm continuava a publicar trabalhos que “localizam na História e na política problemas que reemergem, para perturbar a complacência da Europa”.

Nos últimos anos, Hobsbawm viu sua reputação crescer. Suas comemorações de aniversário de 80 e 90 anos foram premiadas com a presença da intelectualidade liberal e de esquerda da Grã-Bretanha. Ao longo dos últimos anos, ele continuou a publicar volumes de ensaios, incluindo On the History (1997) e Uncommon People (1998), trabalhos nos quais Dizzy Gillespie e Salvatore Giuliano colocaram-se lado a lado no índice de testemunhas das crescente curiosidade de Hobsbwm. Também são dessa época uma autobiografia muito bem-sucedida, Tempos Interessantes, publicada em 2002, eGlobalização, Democracia e Terrorismo, de 2007.

Mais famoso no fim de sua vida do que provavelmente em qualquer outro período, ele manteve com regularidade suas palestras, comunicações e o papel como performer no Festival de Literatura de Hay, do qual tornou-se presidente aos 93 anos, após a morte de Lord Bingham de Cornhill. Um tombo, em 2010 reduziu severamente sua mobilidade, mas seu intelecto permaneceu intocado, assim como sua vida social e cultura, graças aos esforços, ao amor e à culinária de Marlene.

Que seus escritos tenham continuado a sensibilizar tantos públicos, no momento em que sua política foi, de certa forma, eclipsada, era o tipo de disjunção que exasperava os direitistas. Mas foi também o paradoxo em que seu intelecto sutiu e jamais complacente refestelou-se. Em seus últimos anos, ele gostava de citar EM Forster, segundo o qual o próprio Hobsbawm sabia “permanecer sempre num ângulo suave do universo”. Se o comentário diz mais sobre Hobsbawm ou sobre o universo era algo que ele gostava de debater, confiante na noção de que se tratava, em muitos sentidos de um aprendizado para ambos. Ele deixa Marlene e seus três filhos, sete netos e um bisneto.
Por Martin Kettle e Dorothy Wedderburn, no The Guardian | Tradução: Daniela Frabasile e Hugo Albuquerque in. Outras Palavras

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Intérprete incansável do século 20*



“O perfil do bom historiador não pode se parecer nem com o carvalho nem com o cedro, por mais majestosos que sejam, e sim com um pássaro migratório, igualmente à vontade no ártico e no trópico – e que sobrevoa ao menos a metade do mundo.” Ao escrever isso em 2002, Eric J. Hobsbawm talvez estivesse descrevendo a própria trajetória, que se encerrou na manhã de ontem, em Londres, onde o historiador morreu aos 95 anos, vítima de uma pneumonia.
Nascido em Alexandria em 1917, de família judaica – pai do East End londrino e mãe da Áustria dos Habsburgos –, passou a infância em Viena, ficou órfão aos 14 anos e foi morar em Berlim com uma tia, entrando para o Partido Comunista alemão (KPD) ainda no fim do curso ginasial. Após a ascensão de Hitler, foi para Londres onde concluiu os estudos secundários. Em 1936, na febre da Front Populaire em Paris, perambulou na carroceria de um caminhão do cinejornal do Partido Socialista; depois cruzou a fronteira para a Catalunha, logo no início da Guerra Civil espanhola.
Nos anos da Segunda Guerra Mundial integrou a divisão do Exército britânico que cavava trincheiras, atuando ainda como tradutor no setor de inteligência militar. Quando concluiu seus estudos, pagou o aluguel escrevendo uma coluna semanal sobre jazz no New Statesman – com o pseudônimo de Francis Newton (textos depois reunidos no livro História Social do Jazz). Em 1962, em sua segunda visita a Cuba, serviu até de tradutor para Che Guevara.
“Não se podia ensinar nada a ele, seria impossível. Eric já sabia de tudo.” Assim resumiu Christopher Morris, orientador de estudos em Cambridge, quando indagado a respeito do jovem Hobsbawm: daí começou a carreira ininterrupta de um historiador instintivamente poliglota e cosmopolita em todas as suas referências e um dos raros representantes de uma geração que teve o privilégio de ser, ao mesmo tempo, testemunha e intérprete dos últimos 90 anos da história mundial.
Nas décadas de 1930/40, quando se formou, a Inglaterra era o único país onde surgiu uma escola de historiadores marxistas. Talvez porque no rol curricular das universidades inglesas a literatura havia tomado o espaço deixado pela filosofia. É que a geração de Hobsbawm – representada por nomes como Christopher Hill, Edward Thompson e Raymond Williams – adentrou a oficina da história através da paixão pela literatura. O extremo rigor da pesquisa também marcou a obra historiográfica desta geração new left, que se formou no auge do clima ideológico de suspeita da Guerra Fria. Certamente, veio da paixão pela literatura o domínio que estes historiadores tinham da escrita e o motivo pelo qual Hobsbawm tenha se tornado um mestre da prosa inglesa: sem teorizações intrincadas e nenhum traço de narcisismo autocomplacente, ele é dono de um estilo claro, conciso, equilibrando – em doses exatas – distanciamento e engajamento crítico.
“Fui um antiespecialista em um mundo de especialistas, um intelectual cujas convicções políticas e obra acadêmica foram dedicadas aos não intelectuais”, escreveu em Tempos Interessantes – livro que virou um paradigma de como deveriam ser escritas todas as autobiografias. Apesar do seu precoce – e nunca explicitamente abandonado – engajamento comunista, sempre assumiu um olhar historiográfico desenraizado e pouco afetivo. Definia-se como “um historiador pertencente a minorias atípicas, imigrante na Grã-Bretanha, inglês entre centro-europeus e judeu em toda parte – sentindo-se anômalo até entre os comunistas”, reconhecendo-se apenas na frase definidora que E. M. Forster utilizava para definir um poeta: “Ele ficava num ângulo ligeiramente oblíquo em relação ao universo”.
O que também o tornou um pesquisador suscetível a uma versatilidade incomum. Das rebeldias primitivas ao banditismo social, das rebeliões de trabalhadores pobres ao significado do feriado do 1.º de maio, da máfia aos luddistas e às tradições inventadas –, Hobsbawm escreveu sobre os mais diversos temas, revelando domínio dos fatos e surpreendentes interpretações. Sua panorâmica história do “triunfo e transformação do capitalismo”, que começa com a dupla revolução – a Primeira Revolução Industrial inglesa e a Revolução Francesa – e termina com a queda dos regimes comunistas na década de 1990 –, tornou-o mundialmente famoso. Traduzido em centenas de países, estes quatro livros – abrangendo da era das revoluções até o breve século 20 – se tornaram parte da bagagem obrigatória não apenas dos estudantes de humanidades, mas de um público bem mais amplo.
Hobsbawm sempre tinha algo importante a dizer e seus posicionamentos foram sempre críticos. Quando caiu o Muro de Berlim, muitos apressadinhos anunciaram e apegaram-se à desacreditada ideia do “fim da história”. Francis Fukuyama retocou a maquiagem de um antigo livro de Alexandre Kojève sobre Hegel e colocou em circulação esse diagnóstico vistoso, mas pouquíssimo convincente – que foi solenemente abandonado depois dos eventos tristemente célebres de setembro de 2001. Hobsbawm chegou a dizer que até acreditava no “fim da história” – mas, num sentido bem diferente: é o fim da história tal como a conhecemos nos últimos 10 mil anos. Isto porque, nos primeiros anos do terceiro milênio, as mudanças estão se acelerando num ritmo estonteante, quase impossível de se acompanhar com os olhos, os conceitos – e até com as próprias palavras – que dispúnhamos para compreender o século 20.
Era sempre difícil para um historiador de formação marxista reconhecer, mas o autor de A Era dos Extremos não acreditava em saltos ou mudanças radicais no capitalismo. Nem por isto deixava de assumir uma posição impiedosamente crítica em relação à história mundial. A globalização trouxe consigo uma dramática acentuação das desigualdades econômicas e sociais, tanto no interior das nações quanto entre elas próprias. Embora a escala real da globalização permaneça modesta, seu impacto político e cultural é desproporcionalmente grande e muito mais sensível para os que menos se beneficiam dela. Por outro lado, nos seus últimos escritos e entrevistas, Hobsbawm deixava bastante claro como estávamos enfrentando os problemas do século 21 com um pífio conjunto de mecanismos políticos, flagrantemente inadequados para resolvê-los. Sua defesa dos valores iluministas era intransigente: acreditava que eles constituíam os únicos alicerces que temos para construir sociedades justas, seja qual for o lugar da Terra e para todos os seres humanos. “Quando as pessoas não têm mais eixos de futuros sociais acabam fazendo coisas indescritíveis”, escreveu no ensaio Barbárie: Manual do Usuário.
Ele próprio, apesar de “pássaro migratório”, como historiador nunca perdeu seu eixo, que sempre foi o marxismo. Suas convicções políticas incluíam a hostilidade a toda forma de imperialismo, tanto das grandes potências que afirmam “estar fazendo um favor às suas vítimas ao conquistá-las, quanto a do homem branco que pressupõe uma superioridade automática sobre as pessoas cuja pele tem outra cor”. Mas seu tom só se elevava quando confrontado com as lúgubres perversidades da era stalinista. O episódio da violenta intervenção soviética na Revolução Húngara em 1956 é um exemplo marcante. Certa vez, quando Arthur Koestler – irritado e em alto estado etílico numa tarde emotiva num bar austríaco – lhe cobrou a ausência de posicionamento, Hobsbawm mostrou-lhe uma carta coletiva na qual havia denunciado as atrocidades.
Mais recentemente, o historiador Tony Judt disse que Hobsbawm era admirável em sua fidelidade ao comunismo, mas alfinetou: “Para fazer algum bem no novo século, devemos começar dizendo a verdade sobre o antigo e um historiador do seu quilate não poderia mais se recusar a encarar o demônio e chamá-lo pelo nome: o stalinismo e todos os seus crimes hediondos”. Hobsbawm respondeu que as críticas de Judt eram improcedentes, pois em A Era dos Extremos encarava o problema, criticando-o. Retrucou ainda que condenava “aqueles intelectuais anticomunistas que hoje têm apenas uma bandeira única, a de serem exclusivamente anticomunistas, esquecendo-se completamente das ideias pelas quais lutavam”. “Judt deseja apenas que eu diga que estava errado – e não vou satisfazê-lo”, finalizou Hobsbawm. A polêmica não rendeu, parando nestas tantas cutiladas curtas, até porque logo depois Judt cairia doente e morreria. É pena. Pois o debate poderia se alongar, ao refletir sobre o imenso abismo ético que se abriu entre os intelectuais europeus do “leste” e os “ocidentais” em função da própria história e da experiência de cada um com o comunismo. Abismo que se mantém até hoje.
Perscrutador incansável do seu século, Hobsbawm deixou uma obra que é aula magistral de história contemporânea. Ele sabia ainda, quando necessário, provocar o leitor com tiradas irônicas. Seu relato dos estertores da democracia alemã, no fim da República de Weimar, é resumido numa única frase: “Estávamos no Titanic, e todos sabiam que ele estava batendo no iceberg”. Ao discorrer sobre os movimentos estudantis dos anos 1960, ele chegava a argumentar que “a marca distintiva realmente importante na história da segunda metade do século 20 não é a ideologia nem as ocupações estudantis, e sim o avanço do jeans”. E, finalmente, ao refletir sobre o poder em geral, sintetiza-o simplesmente pela megalomania, que ele define como “a doença ocupacional dos países e dos governantes que creem que seu poder e seu êxito não têm limites”.
Um humorista inglês brincou, certa vez, definindo a escola de historiadores marxistas de Hobsbawm como os “cavaleiros da távola redonda em busca do perdido Graal”. Com a morte de Hobsbawm desaparece um dos mais brilhantes historiadores de nossa época e talvez o último daquela primeira geração de marxistas, para os quais a Revolução de Outubro – uma espécie de Graal – era referência central no horizonte político. Marca também o desaparecimento de um dos últimos historiadores que colaram de tal forma sua trajetória de vida com a história pública, que elas parecem indistinguíveis. “O sonho da Revolução de Outubro ainda está em algum lugar dentro de mim, assim como um texto apagado no computador lá permanece, à espera dos técnicos que o recuperem dos discos rígidos”, confessou Hobsbawm. E em lacônica resposta à tirada humorística, concluiu: “Porque se desistirmos do Graal, desistiremos de nós mesmos”.
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[Elias Thomé Saliba é livre-docente em História pela Universidade de São Paulo, professor titular de Teoria da História na mesma universidade]
Fonte: Reproduzido do Estado de S.Paulo, 2/10/2012

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A bandeira alta e tremulante de Eric Hobsbawm*



Eric Hobsbawm - que, por um desses acasos combinados da história e da biologia, nasceu justamente no ano que ele próprio apontou, muito mais tarde, como o ano em que terminou o século 19 e início do século 20, o ano revolucionário de 1917 - foi não apenas o maior historiador de nosso tempo mas um grande renovador de sua ciência, a história.

As dezenas de livros que escreveu constituem uma notável investigação cujo marco inicial é a Revolução Francesa de 1789 e as revoluções burguesas na Europa - série a que denominou A Era das Revoluções, encerrada com o volume sobre a século 20, A Era dos Extremos. Tudo isso entremeado com investigações sobre cultura, ciência, história do nacionalismo, estudos sobre os trabalhadores, sua organização e sua luta. E também pela monumental História do Marxismo, que organizou e dirigiu entre as décadas de 1970 e 1980.

O destacado historiador que foi Hobsbawm foi um homem de seu tempo - das lutas de seu tempo. Ele próprio contou, em sua autobiografia que intitulou Tempos Interessantes, como despertou para a importância da luta política e ocorreu sua adesão ao marxismo.

Tendo vivido parte da adolescência em Berlim nos anos anteriores à ascensão do nazismo, ele escreveu: “qualquer um que tenha assistido, de primeira mão, à ascensão de Hitler, não poderia ter evitado ser politicamente moldado por este acontecimento. E este garoto está ainda dentro de mim, sempre estará”, garantia. "Os meses da minha estadia em Berlim fizeram de mim um comunista para toda a vida”, escreveu, ressaltando outra influência decisiva que trouxe desde a infância: “pertenço à uma geração para quem a revolução bolchevique representou uma esperança para o mundo”.

Estas são as raízes mais longínquas, e mais firmes, de uma prática historiográfica que atravessou o século, enfrentou modismos efêmeros e nunca arredou pé da compreensão da história como uma ciência fundamentalmente política e intimamente ligada à luta pelo socialismo. Convicção reforçada ainda menino quando, morando com um tio comunista, em Londres, leu o Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels. Foi uma iluminação, reconheceu mais tarde referindo-se a estes anos iniciais.

Hobsbawm filiou-se ao Partido Comunista Britânico em 1936, quando tinha 19 anos de idade. Anos depois, fez parte do grupo de historiadores ligados à escola do Partido e que incluía nomes que iriam renovar a ciência da história nas décadas seguintes - entre eles Maurice Dobb, Christopher Hill, Rodney Hilton, Edward Palmer Thompson, George Rudé etc. 

O grupo funcionou desde 1946. Em 1956, sob o impacto da crise aberta no 20º Congresso do Partido Comunista da União Soviética, das denúncias contra Stálin e da ação soviética contra o levante na Hungria, aquele grupo entrou em crise e muitos se afastaram, seja do partido, seja do próprio pensamento marxista. Hobsbawm ficou. Não abriu mão do marxismo e, mesmo com críticas, manteve-se ligado ao partido até o fim da vida, embora sem o ímpeto militante inicial.

O grupo de historiadores do Partido Comunista Britânico foi pioneiro no estudo da história dos trabalhadores, do povo, dos “de baixo”, inovando a pesquisa histórica em uma série de aspectos. Tinham claro compromisso com a luta política dos trabalhadores, deixando em segundo plano os maneirismos acadêmicos. Em 1952 fundaram uma revista importante chamada Past and Present(Passado e Presente) para desenvolver uma historiografia baseada no marxismo. Em 1992, os remanescentes daquele grupo de historiadores criaram a Social History Society (Sociedade da História Social), que admitia membros que já não fossem filiados ao Partido, e lançou a revista Socialist History (História Socialista).

Numa entrevista, em 2002, Hobsbawm explicou sua relação com o Partido Comunista: “Fui um membro fiel do partido comunista por duas décadas antes de 1956 (invasão soviética da Hungria) e depois me tornei um integrante silencioso sobre coisas que seriam razoáveis de não se calar.”

Mas Hobsbawm distinguiu-se entre seus colegas historiadores por não abrir mão da luta pelo socialismo e subordinar a ela sua elaboração historiográfica. Se a relação partidária teve altos e baixos, a convicção marxista nunca esmaeceu. A contrário, viu-se confirmada quando a crise econômica trouxe o pensamento de Marx de volta ao primeiro plano. “A redescoberta de Marx está acontecento”, disse numa entrevista em há poucos anos atrás, “porque ele previu muito mais sobre o mundo moderno do que qualquer outra pessoa em 1848. É isso, acredito, o que atrai a atenção de vários observadores novo”.

Analista refinado e atento, foi um crítico radical do conservadorismo neoliberal que via na superação do capitalismo uma necessidade histórica e a promessa de novos ganhos civilizatórios para a humanidade. 

Neste sentido, disse certa vez sentir-se “mais em casa na América Latina”, por um razão simples: “é o único lugar no mundo em que as pessoas fazem política e falam dela na velha linguagem - a dos séculos 19 e 20, de socialismo, comunismo e marxismo” Isto é, a linguagem que remete às promessas do futuro.

Afirmação confirmada por avaliações positivas sobre as mudanças que ocorrem em nossos países, e sobre lideranças importantes como Luís Inácio Lula da Silva ou Fidel Castro. Em 2010, ao final do governo Lula, saldou a experiência bem sucedida de seus dois mandatos, favorecendo os brasileiros e também o mundo. “Lula ajudou a mudar o equilíbrio do mundo ao trazer os países em desenvolvimento para o centro das coisas", disse. Em outra entrevista, na mesma ocasião, dizia ser muito significativo o fato de Lula ser “o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ninguém o havia feito nunca na história desse país”. Daí a grande popularidade do presidente, explicou. “Porque no Brasil há muitos pobres e ninguém jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a indústria e a exportação de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos”.

Em relação a Fidel Castro, semelhante avaliação positiva foi taxativa. Quando o repórter Geneton Moraes Neto perguntou a ele “Como é que a História vai julgar Fidel Castro? Daqui a meio século, ele vai receber um julgamento positivo ou vai ser condenado como o último ditador comunista?”, Hobsbawm não teve dúvida. “O julgamento será positivo, sem dúvida alguma”, disse. “Fidel Castro será claramente a figura mais importante da história nacional de Cuba. Quanto à América Latina como um todo, Fidel Castro será um símbolo de libertação”.

A confiança na superação do capitalismo por uma sociedade superior foi reafirmada em 2011, quando lançou seu último livro, Como mudar o mundo? Numa entrevista ao jornal inglês The Guardian, rejeitou o fim, ou a redução, da esperança. “Não existe esperança reduzida hoje. O que digo agora é que os problemas do século 21 exigem soluções com as quais nem o mercado puro nem a democracia liberal pura conseguem lidar adequadamente. É preciso calcular uma combinação diferente.”


A renovação da história

Hobsbawm foi um renovador da forma de contar a história, renovação que não buscou inovar por modismo. O que ele fez foi aplicar os ensinamentos do pensamento marxista nas análises e na reconstrução magistral que fez das lutas dos séculos 19 e 20. Primeiro, tirou o foco tradicional dos historiadores, constituído pelos donos do poder e do dinheiro e, juntamente com seus parceiros marxistas do Partido Comunista britânico, dirigiu o olhar aos “de baixo”. Abriu o leque das preocupações, incluindo a política, a economia, a cultura, as artes, as ciências, os costumes em análises abrangentes para compreender a luta de classes e suas motivações mais profundas.

Além disso, usou o marxismo como um método de análise para compreender não só a luta do povo e dos trabalhadores, mas para analisar a evolução do próprio pensamento marxista. Ligou-se de forma perene ao pensamento de Marx seja por usá-lo como ferramenta de investigação e análise, seja por ter coordenado a indispensável História do Marxismo (publicada no Brasil em 12 volumes), seja por mudar a compreender o pensamento de Marx. Ele foi o autor de uma famosa Introdução ao pequeno volume que contém extratos do Grudrisse (rascunho de O Capital, publicado desde a década de 1950 mas mais conhecidos desde a versão em inglês de 1973). 

Na época da publicação do pequeno volume que tem a Introdução de Hobsbawm (em 1964), os Grundrisse só existiam, na íntegra, em alemão, dificultando seu conhecimento nos outros países. O pequeno volume recebeu o título de Formações Econômicas Pré Capitalistas e, desde seu aparecimento incorpora a Introdução de Hobsbawm como uma parte necessária que ajuda não apenas ao conhecimento do pensamento marxista mas, sobretudo, da avançada maneira como Marx encarava a mudança histórica.
Numa entrevista publicada em 1988 no jornal O Estado de S. Paulo, Hobsbawm deixou claro porque. “A história marxista - na verdade qualquer história boa - não é apenas uma tentativa de investigar, descrever e analisar o passado, mas analisar como o mundo muda”. Este é o “problema básico”, disse. Isto é, não basta descrever o passado, sendo preciso compreender como a vida mudou. O “problema principal da análise histórica, que até mesmo o historiador mais especializado não pode esquecer, é como explicar essa extraordinária transformação”. Esforço de compreensão que tem no marxismo uma ferramenta indispensável, baseado que está na compreensão “da relação entre a base e estrutura, ou seja, como as várias atitudes ou atividades da vida estão ligadas, num período particular” Na mesma entrevista, ele rejeitou os modismos contemporâneos: “o tipo de História Social que analisa seja lá o que for, a história do cheiro, ou da menstruação ou alguma coisa assim, não tem ligação direta, em si mesma, com os problemas principais da transformação histórica. Por outro lado, tem uma relação direta com o problema das superestruturas, exatamente como, digamos, o conceito de sexualidade se relaciona com outros aspectos da sociedade. São, frequentemente, muito inteligentes, intuitivas e perceptivas, mas não acho que sejam marxistas”.

É preciso manter a “bandeira tremulando”, disse a seu colega o historiador liberal estadunidense Simon Schama. Disse que era assim que desejava ser lembrado. E será!

José Carlos Ruy in. Vermelho.org

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Consciência de classe*

Toffs and Toughs, 1937 by Jimmy Sime. 

Uma classe, em sua acepção plena, só vem a existir no momento histórico em que as classes começam a adquirir consciência de si próprias como tal.


Eric J. Hobsbawm. in. "Mundos do Trabalho". Ed. Paz e Terra, 2000, p. 34.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Dentro e fora da história*


Eu costumava pensar que a profissão de historiador, ao contrário, digamos, da de físico nuclear, não pudesse, pelo menos, produzir danos. Agora sei que pode. Nossos estudos podem se converter em fábricas de bombas, como os seminários nos quais o IRA aprendeu a transformar fertilizante químico em explosivos. Essa situação nos afeta de dois modos. Temos uma responsabilidade pelos fatos históricos em geral e pela crítica do abuso político-ideológico em particular.

Eric Hobsbawm. Sobre História. Ed. Companhia das Letras, 1998, p. 17-18.


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