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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Receita de Mulher*


Por Josenias Silva
  
Lizzie Miller, manequim 42, modelo “plus size”

As muito magras que me perdoem, mas uma gordurinha é fundamental. Que haja qualquer coisa em que se possa pegar, qualquer coisa de verdadeiro, qualquer coisa de gostosura em tudo isso. Que haja graça e dança ao invés de culpa. Que tenha pernas, coxas, nádegas (como diria Vinicius de Moraes, nádegas é importantíssimo), barriguinha (por que não?), braços, seios etc. Mas acima de tudo, que haja presença de espírito, sorriso, tramas, que haja poesia em cada detalhe, em cada gesto mínimo. Enfim, que na (im)perfeição das formas possa estar a coisa mais bonita da criação, a mulher.



Coisa Bonita

Roberto Carlos/Erasmo Carlos


Amo você assim e não sei porque tanto sacrifício
Ginástica dieta não sei pra que tanto exercício
Olha eu não me incomodo um quilinho a mais não é antistético
Pode até me beijar pode me lamber que eu sou dietético
Não acho que é preciso comer de tudo que tem na mesa
Mas passar fome não contribui em nada para a beleza
Já no passado os mestres da arte diante da formosura
Não dispensava o charme de uma gordinha em sua pintura
Gosto de me encostar nesse seu decote quando te abraço
De ter onde pegar nessa maciez enquanto te amasso
Eu não sou massagista e não entendo nada de estética
Mas a nossa ginástica é mais gostosa e menos atlética
Coisa bonita, coisa gostosa, quem foi que disse que tem
Que ser magra pra ser formosa? Coisa bonita, coisa gostosa,
Você é linda, é do jeito que eu gosto, é maravilhosa.


in. Roberto Carlos, CBS, 1993.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

A mulher que passa*

Cena do filme "Monella" (1998), de Tinto Brass

Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca! 

Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!


[fragmento]


Vinicius de Moraes. in. Nova antologia poética. Ed. Comp. das Letras, 2005, p. 20.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

De tudo, ao meu amor serei atento*



Por Josenias Silva




Acho que todo mundo que conheço já leu o soneto de fidelidade de Vinicius de Moraes. O soneto, se levado ao pé da letra, fala muito da biografia sentimental do próprio Vinicius que, para quem não sabe, casou-se nove vezes.

Ninguém mais que ele levou tão a sério esse negócio de que seja infinito enquanto dure. E foi assim, vivendo cada vão momento, que o poeta casou  fielmente com: Beatriz Azevedo de Melo, Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues Santamaria e Gilda de Queirós Mattoso.

Ele mesmo, um boêmio inveterado, apreciador de charutos e uísque, sempre dizia em tom de brincadeira a cada novo enlace: “Esta agora será a minha viúva”. No fim, o que se sabe é que ele aproveitou a vida e amou a todas.

Vinicius morreu (curiosamente) dentro da banheira de sua casa, no Rio de Janeiro, no dia 09 de Julho de 1980. Não sei se ele “brincava sério” ou se realmente queria saber, mas ficou para a história que sua última esposa - e viúva oficial - foi Gilda.


Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes in: Nova Antologia poética, 2005, p.40.

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