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sexta-feira, 22 de junho de 2012

O que faz o brasil, Brasil?*



[...] tanto os homens como as sociedades se definem por seus estilos, seus modos de fazer as coisas. Se a condição humana determina que todos os homens devem comer, dormir, trabalhar, reproduzir-se e rezar, essa determinação não chega ao ponto de especificar também que comida ingerir, de que modo produzir, com que mulher (ou homem) acasalar-se e para quantos deuses ou espíritos rezar. É precisamente aqui, nessa espécie de zona indeterminada, mas necessária, que nascem as diferenças e, nelas, os estilos, os modos de ser e estar, os “jeitos” de cada qual. Porque cada grupo humano, cada coletividade concreta, só pode pôr em prática algumas dessas possibilidades de atualizar o que a condição humana apresenta como universal. As restantes ficam como uma espécie de fantasma a nos recriminar pelo fato de as termos deixado nos bastidores, como figuras banidas de nosso palco, embora estejam de algum modo presentes na peça e no teatro.

No fundo, essa questão do relacionamento dos universais de qualquer sistema com um sistema específico é das mais apaixonantes de quantas existem no panorama das Ciências Humanas. Trata-se, sempre, da questão da identidade. De saber quem somos e como somos, de saber por que somos. Sobretudo quando nos damos conta de que o homem se distingue dos animais por ter a capacidade de se identificar, justificar e singularizar: de saber quem ele é. De fato, a identidade social é algo tão importante que o conhecer-se a si mesmo através dos outros deixou os livros de filosofia para se constituir numa busca antropologicamente orientada. Mas o mistério, como se pode adivinhar, não fica na questão do saber quem somos. Pois será necessário descobrir como construímos nossas identidades. Sei que sou José da Silva, brasileiro, casado, funcionário público, torcedor do Flamengo, carnavalesco da Mangueira, apreciador incondicional das mulatas, católico e umbandista; jogador esperançoso e inveterado da loto, porque acredito em destino – e não outra pessoa qualquer. Em sendo José, não sou Napoleão ou William Smith, cidadão americano de Nova York; ou Ivan Ivanovich, patriota soviético. Posso distinguir-me assim porque me associo intensamente a uma série de atributos especiais e porque com eles e através deles formo uma história: a minha história. Mas como é que sei o que sou? Como posso discutir a passagem do ser humano que nasci para o brasileiro que sou?

Como se constrói uma identidade social? Como um povo se transforma em Brasil? A pergunta, na sua discreta singeleza, permite descobrir algo muito importante. É que no meio de uma multidão de experiências dadas a todos os homens e sociedades, algumas necessárias à própria sobrevivência, como comer, dormir, morrer, reproduzir-se etc., outras acidentais ou superficiais: históricas, para ser mais preciso – o Brasil foi descoberto por portugueses e não por chineses, a geografia do Brasil tem certas características como as montanhas na costa do Centro-Sul, sofremos pressão de certas potências européias e não de outras, falamos português e não francês, a família real transferiu-se para o Brasil no início do século XIX etc. Cada sociedade (e cada ser humano) apenas se utiliza de um número limitado de “coisas” (e de experiências) para construir-se como algo único, maravilhoso, divino e “legal”...

Sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer feijoada e não hambúrguer; porque sou menos receptivo a coisas de outros países, sobretudo costumes e idéias; porque tenho um agudo sentido de ridículo para roupas, gestos e relações sociais; porque vivo no Rio de Janeiro e não em Nova York; porque falo português e não inglês; porque, ouvindo música popular, sei distinguir imediatamente um frevo de um samba; porque futebol para mim é um jogo que se pratica com os pés e não com as mãos; porque vou à praia para ver e conversar com os amigos, ver as mulheres e tomar sol, jamais para praticar um esporte; porque sei que no carnaval trago à tona minhas fantasias sociais e sexuais; porque sei que não existe jamais um “não” diante de situações formais e que todas admitem um “jeitinho” pela relação pessoal e pela amizade; porque entendo que ficar malandramente “em cima do muro” é algo honesto, necessário e prático no caso do meu sistema; porque acredito em santos católicos e também nos orixás africanos; porque sei que existe destino e, no entanto, tenho fé no estudo, na instrução e no futuro do Brasil, porque sou leal a meus amigos e nada posso negar a minha família; porque, finalmente, sei que tenho relações pessoais que não me deixam caminhar sozinho neste mundo, como fazem os meus amigos americanos, que sempre se vêem e existem como indivíduos!

Pois bem: somando esses traços, forma-se uma seqüência que permite dizer quem sou, em contraste com o que seria um americano, aqui definido pelas ausências ou negativas que a mesma lista efetivamente comporta. A construção de uma identidade social, então, como a construção de uma sociedade, é feita de afirmativas e de negativas diante de certas questões. Tome uma lista de tudo o que você considera importante – leis, idéias relativas a família, casamento e sexualidade; dinheiro; poder político; religião e moralidade; artes; comida e prazer em geral – e com ela você poderá saber quem é quem. Não é de outro modo que se realizam as pesquisas antropológicas e sociológicas. Descobrindo como as pessoas se posicionam e atualizam as “coisas” desta lista, você fará um “inventário” de identidades sociais e de sociedades. Isso lhe permitirá descobrir o estilo e o “jeito” de cada sistema. Ou, como se diz em linguagem antropológica, a cultura ou ideologia de cada sociedade. Porque, para mim, a palavra cultura exprime precisamente um estilo, um modo e um jeito, repito, de fazer coisas.

Mas é preciso não esquecer que essas escolhas seguem uma ordem. É certo que eu inventei um “brasileiro” e um “americano” que o acompanhava por contraste linhas atrás, mas quem me garante que aquilo que disse é convincente para definir um brasileiro foi a própria sociedade brasileira. Ou seja: quando eu defini o “brasileiro” como sendo amante do futebol, da música popular, do carnaval, da comida misturada, dos amigos e parentes, dos santos e orixás etc., usei uma fórmula que me foi fornecida pelo Brasil. O que faz um ser humano realizar-se concretamente como brasileiro é a sua disponibilidade de ser assim. Caso eu falasse em elegância no vestir e no falar, no gosto pelas artes plásticas, na visita sistemática a museus, no amor pela música clássica, na falta de riso nas anedotas, no horror ao carnaval e ao futebol etc., certamente estaria definindo outro povo e outro homem. Isso indica claramente que é a sociedade que nos dá a fórmula pela qual traçamos esses perfis e com ela fazemos desenhos mais ou menos exatos.


Roberto DaMatta. in. “O que faz o brasil, Brasil?”. Ed. Rocco, 1986. p.15-18.

sábado, 9 de junho de 2012

O artista medíocre*



Sou um artista medíocre que vive em uma cidade medíocre, povoada por pessoas medíocres.

A vida aqui é prosaica, nunca há um só tema bom para ser explorado, as pessoas não gostam de arte.

Quando olho o que faço sei que sou ruim, talvez não exista pior. Mas as pessoas aqui me consideram um artista, falam de mim como artista, me respeitam como artista e tenho medo de mudar o meu modo de ser.

Se respeitam a minha  mediocridade devo continuar a ser medíocre e talvez o meu grande talento seja esse, ser admirado pela mediocridade.

É do que gostam aqui, não querem que eu mude, faça coisas diferentes.

É bastante confortável viver assim.

Não ir contra a corrente. Igualar-se às pessoas.

A mediocridade é uma coisa confortável, sabendo que você é medíocre, ninguém espera nada de você.

Não preciso ser original, não preciso entender de nada, ler nada.

Um medíocre se destaca numa conversação, porque a mediocridade é a coisa mais admirada neste Brasil.

Temos a melhor televisão do mundo, e as maiores audiências, exatamente por ela ser medíocre.

Olhar sem pensar, sem raciocinar, sem refletir, sem ter papos cabeça.

É uma coisa confortável.

Vivemos a mais medíocre das civilizações, nunca este lindo país foi tão medíocre.

Políticos, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, professores, doutores, banqueiros e bancários, industriais, comerciantes e comerciários, alunos, putas (até putas estão medíocres, transam mal, chupam mal, recebem mal), padres, pastores, cantores, escritores, metalúrgicos, alfaiates, bordadeiras, marqueteiros, publicitários, futebolistas, treinadores, relojoeiros, bigbrothers, noveleiros, missionários, templários, cruzados, reis, príncipes, estilistas, mudos, cegos, surdos, anões, caolhos, zarolhos, mancos.

Não escapa ninguém.

Por isso me tranqüilizo sendo medíocre, ninguém é mais do que eu, nem menos.

Os brasileiros se igualam todos.

A humanidade vai se igualar em breve.

O futuro será medíocre.

Assim como medíocre é este texto, é quem o lê, é quem gosta dele, é quem o detesta, é quem o entende, é quem não o entende.

Como eu. Estou escrevendo e não sei o que escrevo.

Gostaria de ganhar o Premio Nobel de Mediocridade.

A palavra medíocre está na letra M de qualquer dicionário.



Ignácio de Loyola Brandão. in. “Revista Revestrés”. fev., 2012, p.66.


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