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domingo, 9 de junho de 2013

Em tempos de copa*


Para a maior parte da humanidade hoje, onze homens jovens num campo de futebol é que personificam “o país”, o Estado, “o nosso povo”, e não os políticos, as constituições e as movimentações militares. Aparentemente, esses times nacionais são compostos de cidadãos nacionais. Mas todos nós sabemos que esses milionários dos esportes aparecem num contexto nacional apenas alguns dias por ano. Em sua principal ocupação, eles são mercenários transnacionais, regiamente pagos, quase todos a serviço de outros países. Os times aclamados a cada dia por um público nacional são montagens heterogêneas que só Deus sabe quantos países e raças, em outras palavras, daqueles que são reconhecidos como os melhores jogadores do mundo. Na maioria dos clubes nacionais bem-sucedidos há, por vezes, não mais que dois ou três jogadores nativos. Isso é lógico mesmo para torcedores racistas, pois o que eles querem acima de tudo é um clube vitorioso, ainda que não mais racialmente puro.


*Eric Hobsbawm in. “Tempos Fraturados: cultura e sociedade no século XX”. Ed. Companhia das Letras, 2013, p. 52.

domingo, 3 de junho de 2012

A seleção brasileira e a aula de OSPB*



1975. Uma classe de quinta série. Os alunos estão um tanto sonolentos em seus uniformes brancos e azuis. A professora Dona Elza, que tem um cabelo tão armado que faz sua cabeça lembrar uma grande lâmpada, abre seu livro de OSPB. 

Sem muito entusiasmo, ela lê um capítulo que explica que os símbolos do Brasil são quatro: o hino, a bandeira, o brasão e o selo nacional. Foi então que um dos meninos, não muito esperto, levantou a mão e perguntou:


- E a seleção, professora?

- A seleção?

- É, a seleção de futebol. Ela não é símbolo do Brasil?

Dona Elza põe e tira o lápis em seu vasto penteado seguidas vezes, matutando uma resposta. 

Enquanto ela pensa, aproveito para esclarecer que o aluno pouco esperto era eu e que essa era uma dúvida justa naquele tempo. A imagem da seleção era muito ligada ao governo, e os presidentes, com aqueles seus óculos escuros de delegado, até iam aos jogos de vez em quando.

Na prática, a seleção era um símbolo do país. Claro que isso foi incentivado pela ditadura, mas mesmo antes e depois dos governos militares, nossos jogadores já eram uma metáfora de nossos soldados, combatendo as outras nações dentro do gramado.

Mas isso acabou. A seleção já não é mais um símbolo nacional. Ela perdeu seu lugar no coração dos brasileiros. E os motivos também são quatro: 


Equipes ruins: Os times de Lazaroni, Dunga e Parreira, mesmo o que venceu em 1994, não conquistaram o torcedor. Não tinham um jeito “brasileiro” de jogar e por isso não puderam se tornar símbolos da nação.

Ricardo Teixeira: Com sua constante fuga da imprensa e cercado por denúncias de corrupção, também ajudou a diminuir a simbologia do escrete, explicitando que se tratava de uma entidade privada, sem vínculos com a nação.

Publicidade: A ligação com marcas comerciais deixou mais claro que a seleção não era a pátria de chuteiras, mas a pátria de chuteiras Nike, tomando Guaraná Antártica, guardando seu dinheiro no Itaú, usando relógios Parmigiani, telefonando pela Vivo, comendo chocolates Nestlé, voando pela TAM, barbeando-se com Gillette, andando de Volkswagen e comprando carnes Seara no Pão de Açúcar. Sim, hoje a seleção tem 11 patrocinadores. 

Êxodo: Hoje não sabemos mais quem são vários dos atletas que vestem a “amarelinha”. Antes eles eram quase que parte da família. Mas, por conta do êxodo de nossos atletas, muitos dos convocados são menos conhecidos que o cunhado da prima da sobrinha da vizinha. Por exemplo, você conhece este tal de Hulk, que fez dois gols contra a Dinamarca? Talvez saiba que ele joga no Porto, mas duvido que saiba (pelo menos, eu não sabia) que seu nome é Givanildo, que nasceu em Campina Grande, que tem seis irmãs, que jogou no Vitória, que fez a maior parte de sua carreira no Japão e que ajudava o pai numa barraca de carnes na feira.

Por conta destes quatro fatores, já não amamos mais a seleção. Hoje os brasileiros preferem os clubes. Tanto que o último jogo da seleção teve 13 pontos de audiência e a partida entre Corinthians e Vasco chegou a 34.

Dona Elza estava sendo profética quando tirou o lápis cabelo armado e respondeu: “Não, menino, a seleção não é um símbolo nacional.”


José Roberto Torero. in. Carta Maior


*Nota do Blog: OSPB (Organização Social e Política Brasileira) – Disciplina que, de acordo com o Decreto Lei 869/68, tornou-se obrigatória no currículo escolar brasileiro a partir de 1969, juntamente com a disciplina de Educação Moral e Cívica (EMC). Ambas foram adotadas em substituição às matérias de Filosofia e Sociologia e ficaram caracterizadas pela transmissão da ideologia do regime autoritário ao exaltar o nacionalismo e o civismo dos alunos e privilegiar o ensino de informações factuais em detrimento da reflexão e da análise. O contexto da época incluía a decretação do AI5, desde 1968, e o início dos “anos de chumbo” - a fase mais repressiva do regime militar cujo “slogan” mais conhecido era “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Dessa forma, as duas matérias foram condenadas pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), estabelecidos pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) de 1996, por terem sido impregnadas de um “caráter negativo de doutrinação”. Fonte: Dicionário Interativo da Educação Brasileira.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

O socialismo venceu!*


Por José Roberto Torero




Segundo a Wikipédia, o socialismo é um sistema em que há um forte planejamento central, o fim da diferenciação de classes e a propriedade coletiva dos meios de produção. Além disso, Marx dizia que, no socialismo, os homens poderiam trabalhar um dia como pescadores, no outro como pintores e depois como cozinheiros. O trabalho não seria apenas o modo de ganhar a vida, mas seria a própria vida. 

O socialismo ficou identificado como uma ideologia que pretendia diminuir o sofrimento de nossa existência, que queria acabar com a pobreza extrema, que achava que os homens deviam ter chances iguais. Essa ideia deu origem a organizações de trabalhadores, partidos políticos e guerras. Dominou boa parte do mundo e depois sumiu de boa parte dele. 

Nunca foi o que se esperava, por conta de seus adversários e de seus próprios homens. Em Cuba precisa de reformas e na China houve tantas reformas que há quem diga se transformou num capitalismo de estado. 

Porém, neste domingo, felizmente e infelizmente, o socialismo venceu. 

Não, não houve uma nova revolução que não saiu nos jornais. Nem um novo PC ganhou alguma eleição. O socialismo de que falo é um socialismo ludopédico, o socialismo do Barcelona. Um socialismo com uma pitada de anarquismo.

E nem me venham dizer que é exagero. Vejam bem, o time tem um planejamento central forte, feito por Pep Guardiola, que conhece bem seus recursos naturais e os utiliza de forma racional para o bem comum. Há também uma certa abolição de classes. Não há mais uma separação nítida entre zagueiros, meio campistas e atacantes. Principalmente entre estes dois últimos. Messi pode ser visto na ponta direita e zanzando como volante, Fábregas é um meio-campista mas aparece para finalizar, Dani Alves é um lateral que mais parece um ponta. Assim sendo, obviamente temos a propriedade coletiva dos meios de produção do gol, pois todos podem, e devem, atacar.

Quanto à pitada de anarquismo, vem da mobilidade decidida pelos próprios jogadores dentro de campo. Não é “cada um faz o que quer”, como se pensa erradamente sobre o anarquismo, mas um conjunto orgânico, que funciona como um ser vivo, com cada indivíduo se comportando como a célula de um grande organismo.

Muitos cronistas esportivos, imitando Francis Fukuyama, diziam que a história do futebol tinha acabado. Que a divisão de classes entre homens de ataque e de defesa era definitiva, com algumas exceções que confirmavam a regra. Mas não. De Barcelona, cidade que esteve ao lado da república na Guerra Civil Espanhola e flertou com o anarquismo, veio uma mudança radical. 

Hoje o Barcelona é o “fantasma que assombra a Europa”, como começa o Manifesto Comunista falando do socialismo. E não assombra só a Europa, mas o mundo inteiro. 

Se eu não fosse santista, teria me sentido um privilegiado por ter visto ao vivo esta vitória do Barcelona. Como sou, para mim foi um espetáculo cruel e sangrento, com o time grená mostrando o cálculo frio de um vilão de história em quadrinhos e um sadismo de nazista de filme americano.

Mas tudo bem. Passada a dor profunda, sei que vou poder assistir a jogos do time catalão com prazer. Certamente nunca verei o replay deste jogo contra o Santos, mas doravante assistirei a todos outros jogos desta utopia que vai mudar o futebol, porque os outros times terão que imitá-lo de alguma forma, do mesmo modo que o socialismo acabou sendo responsável pela socialdemocracia dos países nórdicos. 

Boleiros do mundo, uni-vos. Uni-vos ao belo futebol do Barcelona. Vós não tendes nada a perder, pois o futebol no resto do mundo, inclusive nestas nossas bandas, anda feio e sem arte.



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*Quero ver agora quem será o próximo imbecil a estufar o peito e dizer que “O Brasil é o país do Futebol”... Piada! Sempre sonhei com o dia em que perderíamos esta infeliz referência. Só falta agora “o carnaval”, e chegaremos lá...

Ps.: Apenas acho que o José Roberto Torero esqueceu de falar dos níquei$ que rolam por trás desse esporte tão lucrativo e pouco afeito a “socialismos”. 

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Qual o melhor esquema no futebol?*



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*Para quem gosta de futebol e não é um telespectador João Sorrisão, eis um belo texto! Ele destoa em gênero, número e grau daquelas pérolas que ouvimos todos os dias na crônica esportiva.


Como amante do futebol falo de maneira geral sobre o que vejo: Sinceramente, não agüento mais ver jogo da seleção (internacional) brasileira e tampouco tenho “saco” para as infames crônicas futebolísticas da trupe esportiva na tv. Pô, será que já não basta a seleção do “Mano” para nos torturar? Temos que ouvir ainda os comentários sem graça dos jornalistas esportivos falando do cabelo do Neymar ou das dancinhas do Fred, isso é maldade.


Como diz o nosso (des)prezado cronista piauiense, Bogéa – "Futebol é coisa séria, meus amigos." Ou pelo menos é o assunto mais importante entre os assuntos sem importância alguma. 

Por Josenias Silva
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