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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Dicas úteis para uma vida fútil*


Por Mark Twain









Num Velório

(1881)


Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

in: Dicas úteis para uma vida fútil – um manual para a maldita raça humana, 2005, pp. 39-40.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Fundação do tráfego urbano*



Por Eduardo Galeano





Relinchavam os cavalos, amaldiçoavam os cocheiros, silvavam os chicotes no ar.

O nobre senhor estava que era uma fúria só. Fazia séculos que esperava. Sua carruagem tinha sido bloqueada por outra carruagem, que em vão tentava dar volta entre muitas outras carruagens. E perdeu a nenhuma paciência que lhe sobrava, desceu, desembainhou a espada e estripou o primeiro cavalo que encontrou atravessado em seu caminho.

Isso aconteceu ao anoitecer de um sábado do ano de 1766, na Place des Victoires, em Paris.

O nobre senhor era o Marquês de Sade.

Muito mais sádicos são os engarrafamentos de hoje.



Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p. 331.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fundação da Beleza*



Por Eduardo Galeano



Lá estão, pintadas nas paredes e nos tetos das cavernas.

Essas figuras, bisontes, alces, ursos, cavalos, águias, mulheres, homens, não têm idade. Nasceram há milhares de milhares de anos, mas nascem de novo cada vez que alguém as vê.

Como puderam, nossos remotos avós, pintar de maneira tão delicada? Como puderam eles, aqueles brutamontes que lutavam mano a mano contra as feras, criar figuras tão cheias de graça? Como puderam eles desenhar essas linhas voadoras que escapam da pedra e vão-se embora pelos ares? Como eles puderam…?

Ou seriam elas?

Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p.13.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Macabéa e Olímpico de Jesus*





Por Clarice Lispector






Olímpico de Jesus trabalhava de operário numa metalúrgica e ela nem notou que ele não se chamava de “operário” e sim de “metalúrgico”. Macabéa ficava contente com a posição social dele porque também tinha orgulho de ser datilógrafa, embora ganhasse menos que o salário mínimo. Mas ela e Olímpico eram alguém no mundo. “Metalúrgico e datilógrafa” formavam um casal de classe. A tarefa de Olímpico tinha o gosto que se sente quando se fuma um cigarro acendendo-o do lado errado, na ponta da cortiça. O trabalho consistia em pegar barras de metal que vinham deslizando de cima da máquina para colocá-las embaixo, sobre uma placa deslizante. Nunca se perguntara por que colocava a barra embaixo. A vida não lhe era má e ele até economizava um pouco de dinheiro: dormia de graça numa guarita em obras de demolição por camaradagem do vigia.

Macabéa disse:

– As boas maneiras são a melhor herança.

– Pois para mim a melhor herança é mesmo muito dinheiro. Mas um dia vou ser muito rico disse ele que tinha uma grandeza demoníaca: a sua força sangrava.



Clarice Lispector, A Hora da Estrela, 1984, p.68.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Celebração da desconfiança*

Por Eduardo Galeano




 No primeiro dia de aula, o professor trouxe um vidro enorme:

- Isto está cheio de perfume – disse a Miguel Brun e aos outros alunos. – Quero medir a percepção de cada um de vocês. Na medida em que sintam o cheiro, levantem a mão.

E abriu o frasco. Num instante, já havia duas mãos levantadas. E logo cinco, dez, trinta, todas as mãos levantadas.

- Posso abrir a janela, professor? - suplicou uma aluna, enjoada de tanto perfume, e várias vozes fizeram eco. O forte aroma, que pesava no ar, tinha se tornado insuportável para todos.

Então o professor mostrou o frasco aos alunos, um por um. Estava cheio de água.


In: O Livro dos Abraços, 2010, p. 156.

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*Desconfiar sempre, mesmo que isso signifique perder a inocência das coisas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Perto do coração selvagem*

Por Clarice Lispector




[...] Não se sentia fraca, mas pelo contrário possuída de um ardor pouco comum, misturado a certa alegria, sombria e violenta. Estou sofrendo, pensou de repente e surpreendeu-se. Estou sofrendo, dizia-lhe uma consciência a parte. E subitamente esse outro ser agigantou-se e tomou o lugar do que sofria. Nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer... Podiam-se parar os acontecimentos e bater vazia como os segundos do relógio. Permaneceu oca por uns instantes, vigiando-se atenta, perscrutando a volta da dor. Não, não a queria! E como para deter-se, cheia de fogo, esbofeteou o próprio rosto. [...].

Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, 1992, p. 62.

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*Fragmento.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nijinski*

Por Eduardo Galeano




Na Suíça, em 1919, num salão do hotel Suvretta de Saint Moritz, Vaslav Nijinski dançou pela última vez.

Diante de um público de milionários, o bailarino mais famoso do mundo anunciou que ia dançar a guerra. E à luz dos candelabros, dançou-a.

Nijinski girava em furiosos torvelinhos e se desprendia do solo e no ar se partia e ao solo caía, e se revirava como se fosse de barro o chão de mármore e outra vez se lançava a girar e subindo quebrava, uma vez e outra e outra, até que no fim aquele resto dele, aquele alarido mudo, espatifou-se contra a janela e se perdeu na neve.

Nijinski entrou no reino da loucura, sua terra de exílio. Nunca mais voltou.


Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p. 245.

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*Na dança existe um antes e um após Nijinski, um gênio encantado e de passos alucinantes. 

domingo, 4 de dezembro de 2011

Germaine*

Por Henry Miller




Foi numa tarde de domingo, muito parecida com esta, que encontrei Germaine pela primeira vez. Estava andando pelo Boulevard Beaumarchais, enriquecido por uns cem francos que minha mulher remetera da América freneticamente por meio de cabograma. Havia um toque de primavera no ar, uma primavera venenosa e maléfica que parecia irromper das bocas de esgoto. Noite após noite, eu voltava a esse trecho, atraído por certas ruas leprosas que só revelavam seu sinistro esplendor quando a luz do sol se esvaía e as prostitutas começavam a ocupar seus postos.

A Rue Pasteur Wagner é uma que lembro particularmente, na esquina da Rue Amelot, que se esconde por trás de um bulevar, como sonolento lagarto. Aqui, no gargalo da garrafa, por assim dizer, havia sempre um bando de abutres que grasnavam e batiam as asas sujas, que estendiam as garras afiadas e nos empurravam para uma porta. Demônios joviais e vorazes que nem davam tempo de abotoar as calças depois de acabar. Levavam-nos para um quartinho ao lado da rua, geralmente um quarto sem janela, e, sentando-se na beirada da cama, com a saia erguida, faziam-nos uma rápida inspeção, cuspiam-nos no membro colocavam-no no lugar. Enquanto um se lavava, outro estava em pé na porta, e ela, segurando a vítima pela mão, observava indiferentemente o que dava os toques finais na toalete.

Germaine era diferente. Em sua aparência nada me dizia isso. Nada a distinguia das outras prostitutas que se reuniam à tarde e à noitinha no Café de L'Eléphant. Como disse, era um dia de primavera e os poucos francos que minha mulher conseguira juntar para mandar-me pelo cabograma tiniam-me no bolso. Eu tinha uma vaga premonição de que não chegaria à Bastille sem ter sido arrastado por uma daquelas aves de rapina. Caminhando ao longo do bulevar, eu a notara convergindo em minha direção, com aquele curioso ar vadio da prostituta, os saltos gastos dos sapatos, as jóias baratas e a aparência macilenta do seu tipo, que o ruge só consegue acentuar.

 Não foi difícil chegar a acordo com ela. Sentamo-nos no fundo do pequeno tabac chamado L'Eléphant e conversamos rapidamente. Poucos minutos depois, estávamos em um quarto de cinco francos na Rue Amelot, as cortinas fechadas e as cobertas puxadas para o fundo da cama. Germaine não fazia as coisas com pressa. Sentou-se no bidê, ensaboando-se e falando-me amavelmente sobre isto e aquilo; havia gostado dos knickerbockers que eu vestia. Très chic! pensava ela. Haviam sido antigamente, mas eu já lhes gastara os fundilhos. Felizmente, o paletó me cobria a bunda. Quando se levantou para enxugar-se, ainda falando amavelmente comigo, deixou cair de repente a toalha e, avançando devagar em minha direção, começou a esfregar a vagina afetuosamente, segurando-a com as duas mãos, dando-lhe palmadinhas, acariciando-a, acariciando-a.

Em sua eloqüência naquele momento e na maneira como jogava aquela roseira sob meu nariz, havia algo que permanece inesquecível; falava dela como se fosse um objeto estranho, um objeto que adquirira por alto preço, um objeto cujo valor aumentara com o tempo e que agora prezava acima de tudo no mundo. Suas palavras impregnavam-na de uma fragrância peculiar; não era mais apenas seu órgão privado, mas um tesouro, um tesouro mágico e potente, uma coisa dada por Deus - nada perdendo por negociá-la dia após dia em troca de algumas moedas de prata. Quando se jogou na cama, com as pernas bem abertas, pôs as mãos em concha sobre ela e deu-lhe mais algumas palmadinhas, murmurando todo o tempo, com aquela sua voz rouca e dissonante, que era boa, bonita, um tesouro, um pequeno tesouro. E era boa, aquela sua vaginazinha! Naquela tarde de domingo, com seu hálito venenoso de primavera no ar, tudo voltou de novo a correr bem. Quando saímos do hotel, olhei-a outra vez sob a luz clara do dia e vi claramente que puta ela era - os dentes de ouro, o gerânio no chapéu, os saltos gastos etc., etc. Nem mesmo por haver conseguido arrancar-me um jantar, cigarros e táxi, exerceu efeito perturbador sobre mim. Na verdade eu a encorajei. Gostei tanto dela que, depois do jantar, voltamos ao hotel e fizemos outra vez. "No amor", desta vez. E de novo aquela sua coisa grande e cabeluda mostrou florescência e magia. Ela começava a ter uma existência independente - para mim também. Havia Germaine e havia aquela sua roseira. Eu gostava das duas separadamente e gostava delas juntas.

Como disse, Germaine era diferente. Mais tarde, quando descobriu as verdadeiras circunstâncias em que eu vivia, tratou-me com nobreza - pagou-me bebidas, deu-me crédito, empenhou minhas coisas, apresentou-me a seus amigos e assim por diante. Chegou mesmo a pedir desculpas por não me emprestar dinheiro, o que compreendi muito bem depois que me apontaram seu maquereau. Noite após noite, eu descia o Boulevard Beaumarchais até o pequeno tabac onde todas elas se reuniam e esperava que ela chegasse e me desse alguns minutos de seu precioso tempo.
     
Quando, algum tempo depois, vim a escrever sobre Claude, não era em Claude que eu pensava, mas em Germaine... "Todos os homens com que ela esteve e agora você, precisamente você, e barcas passando, mastros e cascos, toda a maldita corrente da vida fluindo através de você, através dela, através de todos os caras antes de você e depois de você, as flores e os pássaros e o sol fluindo, e a fragrância disso sufocando-o, aniquilando-o." Isso foi para Germaine! Claude não era a mesma coisa, embora eu a admirasse tremendamente - embora tivesse mesmo pensado durante algum tempo que a amava. Claude tinha uma alma e uma consciência; tinha também refinamento, o que é ruim - numa puta. Claude sempre dava impressão de tristeza; deixava a impressão, sem querer, naturalmente, de que você era apenas mais um acrescentado à corrente que o destino criara para destruí-la. Sem querer, digo eu, porque Claude seria a última pessoa no mundo a criar conscientemente tal imagem no espírito da gente. Era excessivamente delicada, excessivamente sensível para isso. No fundo, Claude era apenas uma boa moça francesa, de criação e inteligência medianas, a quem a vida enganara de uma maneira qualquer; havia nela algo que não era bastante forte para resistir ao choque da experiência cotidiana. Para ela eram destinadas aquelas terríveis palavras de Louis-Philippe: "E chega uma noite em que tudo está acabado, em que tantas mandíbulas se fecharam sobre nós que não temos mais força para resistir e nossa carne pende sobre nossos corpos, como se mastigada por todas as bocas". Germaine, por outro lado, era uma puta desde o berço; estava plenamente satisfeita com seu papel, gostava realmente dele, exceto quando o estômago lhe doía ou seus sapatos acabavam, pequenas coisas superficiais sem importância, nada que lhe devorasse a alma, nada que criasse tormento. Ennui! Era o que já sentira de pior. Havia dias, sem dúvida, em que se enchia, como dizemos mas nada mais do que isso! Na maior parte do tempo gostava daquilo - ou dava a ilusão de gostar. Fazia diferença, naturalmente, com quem ela ia - ou vinha. Mas o principal era um homem. Um homem! Isso é o que ela queria. Um homem tendo entre as pernas alguma coisa que pudesse deleitá-la, que pudesse fazê-la contorcer-se em êxtase, que a fizesse agarrar aquela sua vulva cabeluda com ambas as mãos e esfregá-la alegremente, jactanciosamente, orgulhosamente, com um senso de conexão, um senso de vida. Esse era o único lugar onde ela experimentava alguma vida - ali embaixo, onde segurava com ambas as mãos.

Germaine era uma puta de alto a baixo, até mesmo em seu bom coração, seu coração de puta que não era realmente um bom coração, mas um coração preguiçoso, indiferentemente e flácido, capaz de comover-se por um momento, um coração sem referência a qualquer ponto fixo dentro, um grande e flácido coração de puta que podia destacar-se por um momento de seu verdadeiro centro. Entretanto, por mais vil e circunscrito que fosse aquele mundo que ela criara para si própria, funcionava nele soberbamente. E isso por si só é uma coisa tônica. Quando, depois que já nos havíamos tornado bem conhecidos, suas companheiras me censuravam, dizendo que eu estava amando Germaine (situação quase inconcebível para elas), eu dizia: "Claro! Claro que a amo! E, ainda mais, vou ser fiel a ela!" Mentira, naturalmente, pois eu não poderia pensar em amar Germaine mais do que poderia pensar em amar uma aranha; e, se era fiel, não era a Germaine, mas àquela coisa cabeluda que ela tinha entre as pernas. Sempre que olhava para outra mulher pensava imediatamente em Germaine, naquela touceira ardente que ela deixara em minha mente e que parecia imperecível. Causava-me prazer sentar no terrasse do pequeno tabac e observá-la em seu ofício, observá-la recorrer com os outros aos mesmos trejeitos, aos mesmos truques, que usara comigo. "Ela está no seu trabalho!" era como me sentia em relação àquilo e era com aprovação que lhe acompanhava as transações. Posteriormente, quando me liguei a Claude e a via noite após noite sentada em seu lugar de costume, o traseirinho redondo roliçamente acomodado no assento de pelúcia, eu sentia uma espécie de inexpressível revolta contra ela; uma puta, pensava eu, não tinha o direito de sentar-se ali como uma dama, esperando timidamente que alguém se aproximasse, e o tempo todo a sorver abstemiamente seu chocolat. Germaine era uma pessoa ativa. Não esperava que alguém chegasse até ela - saía e agarrava-o. Lembro-me tão bem dos furos de suas meias e dos sapatos tortos e rasgados! Lembro-me de como ficava em pé no bar e, com cega e corajosa determinação, lançava uma bebida forte no estômago e marchava para fora de novo. Uma pessoa ativa! Talvez não fosse agradável cheirar-lhe o hálito de bebida, aquele hálito composto de café fraco, conhaque, apéritifs, Pernods e todas as outras coisas que ela engolia nos intervalos, tanto para aquecer-se como para reunir força e coragem, mas o fogo delas penetrava-a, descia-lhe ardendo entre as pernas, onde as mulheres devem arder, e lá estabelecia aquele circuito que nos faz sentir de novo a terra sob os pés. Quando ficava lá deitada com as pernas abertas e gemendo, ainda que gemesse daquele jeito para todo mundo, era bom, era uma demonstração apropriada de sentimento. Não fitava o forro com ar vazio, nem contava os percevejos no papel da parede; conservava a mente em seu negócio, falava sobre as coisas que um homem deseja ouvir quando está trepando em uma mulher. Ao passo que Claude - bem, com Claude sempre havia certa delicadeza, mesmo quando estava com alguém embaixo das cobertas. E sua delicadeza me ofendia. Quem quer uma puta delicada? Claude chegava a pedir que você virasse o rosto quando ela se agachava sobre o bidê. Tudo errado! Um homem, quando ardendo de paixão, quer ver coisas; quer ver tudo, até mesmo com elas mijam. E, embora seja muito bonito saber que uma mulher tem uma mente, literatura vinda do cadáver frio de uma puta é a última coisa que se pode servir na cama. Germaine tinha a idéia certa: era ignorante e sadia, punha o coração e a alma em seu trabalho... puta de alto a baixo - e essa era a sua virtude.


Henry Miller, Trópico de Câncer, 1987, pp. 45-50.

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*Sexo e lirismo numa das melhores passagens do livro, simplesmente soberbo!!!.... Leia também: Henry Miller, aquele cão dos diabos, relato de como conheci esse autor.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Com a puta: [na] Potsdamerstrasse*



Por Ignácio de Loyola Brandão



- Alô, sorriu a puta. Coxas de fora, saída de um filme de Fellini, instalada na porta do hotel-bar-cassino. No alto de uma escada, fliperamas lampejam sinais luminosos.

- Alô.

Ela disse qualquer coisa em alemão. Devia corresponder aos nossos: Vamos fazer nenê? Quer uma coisa diferente? Bunda e língua. Que tal um amorzinho? E daí em diante.

- Ich verstehe nicht (não entendo), respondi.

- Lat’s make love?

- Wieviel? (Quanto?)

- Depende.

- Do quê?

- Do que você gosta.

- Normal.

- Não parece.

- Tenho cara de gostar do quê?

Fiquei curioso.

- Eu sei aqui comigo.

- Diz.

- Lá em cima.

- E se você não faz o que gosto?

- Não existe uma puta em Berlim que faça o que eu faço.

- Quanto?

- 50 marcos para você. Tem cara de bom sujeito.

- Você acabou de me dizer que não pareço normal.

- Um homem pode ser um bom sujeito e não gostar de coisas normais.

- 50 marcos é muito para mim.

- 40, então, mas tem de ser rápido.

- Demoro.

- Está brincando? Você é o quê? Não tem cara de turco. Francês?

- Brasileiro.

- Não são bons de cama.

- Como sabe?

- Tenho quatro clientes.

- Podem ser exceções.

- Peguei logo os quatro piores? Não, tem umas putas que são brasileiras e elas dizem a mesma coisa.

- Bem, só tenho 25 marcos.

- E pensa que vai fazer o que com isso?

- Amor com você.

- Com esse dinheiro você sobe e faz sozinho.

- Prefiro o peep-show, é mais barato.

- Só que lá você fica fechado na cabine. Aqui é no quarto e você pode tocar em mim com uma das mãos.

- Só com uma?

- A outra está ocupada, não é?

- É.

- Vai ou não vai? Estou perdendo fregueses com toda essa conversa.

Oito da noite, terça-feira, ninguém na Potsdamerstrasse, a não ser os habitantes drogados e bêbados. Na esquina, turcos tomavam sorvete de pistache com cobertura de chocolate.

- Acho que não, me desculpe.

- Me dê cinco marcos.

- Por quê?

- Para pagar a conversa.


Ignácio de Loyola Brandão, O verde violentou o muro, 1985, pp. 85 – 86. 

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*O verde violentou o muro: visões e alucinações alemãs (1.ed. 1984), de Ignácio de Loyola Brandão, para mim ainda não perdeu seu encanto. Ele conta as experiências do autor que viveu parte do cotidiano alemão sob a existência do Muro de Berlim. No livro destaca-se, obviamente, o Muro, porém mais que isso, destaca-se a Vida tentando prevalecer em cada fresta, embora cercada pelos fantasmas do pós-guerra, do espectro nazista, da ameaça nuclear, da reconstrução e divisão da Alemanha, entre outras catástrofes para aquele país. O livro tem uma narrativa simplesmente maravilhosa. Vale a pena ler.  (Dica: já existe uma edição ampliada que relata o retorno do autor na pós-queda do Muro).

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

O olhar*

Por MILAN KUNDERA




O olhar do homem já foi descrito muitas vezes. Ele pousa friamente sobre a mulher, ao que parece, como se a medisse, a pesasse, a avaliasse, a escolhesse, ou seja, como se a transformasse em coisa.
O que não se sabe tão bem é que a mulher não está inteiramente desarmada contra esse olhar. Se ela é transformada em coisa, ela então observa o homem com o olhar de uma coisa. [...]

Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento, 1990.


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*Milan Kundera (1929), escritor tcheco. 

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

O perfume*



Por PATRICK SUSKIND





No século XVIII viveu na França um homem que pertenceu à galeria das mais geniais e detestáveis figuras daquele século nada pobre em figuras geniais e detestáveis. A sua história é contada aqui. Ele se chamava Jean-Baptiste Grenouille e se, ao contrário dos nomes de outros geniais monstros como, digamos, Sade, Saint-Just, Fouché, Bonaparte etc, o seu nome caiu hoje no esquecimento, isto certamente não ocorreu porque Grenouille tenha ficado atrás desses homens das trevas mais famosos em termos de arrogância, desprezo à raça humana, imoralidade, ou seja, em impiedade, mas porque o seu gênio e a sua única ambição se concentravam numa área que não deixa rastros na história: o fugaz reino dos perfumes.

Na época de que falamos, reinava nas cidades um fedor dificilmente concebível por nós, hoje. As ruas fediam a merda, os pátios fediam a mijo, as escadarias fediam a madeira podre e bosta de rato; as cozinhas, a couve estragada e gordura de ovelha; sem ventilação, salas fediam a poeira, mofo; os quartos, a lençóis sebosos, a úmidos colchões de pena, impregnados do odor azedo dos penicos. Das chaminés fedia o enxofre; dos curtumes, as lixívias corrosivas; dos matadouros fedia o sangue coagulado. Os homens fediam a suor e a roupas não lavadas; da boca eles fediam a dentes estragados, dos estômagos fediam a cebola e, nos corpos, quando já não eram mais bem novos, a queijo velho, a leite azedo e a doenças infecciosas. Fediam os rios, fediam as praças, fediam as igrejas, fedia sob as pontes e dentro dos palácios. Fediam o camponês e o padre, o aprendiz e a mulher do mestre, fedia a nobreza toda, até o rei fedia como um animal de rapina, e a rainha como uma cabra velha, tanto no verão quanto no inverno. Pois à ação desagregadora das bactérias, no século XVIII, não havia sido ainda colocado nenhum limite e, assim, não havia atividade humana, construtiva ou destrutiva, manifestação alguma de vida, a vicejar ou a fenecer, que não fosse acompanhada de fedor.

Naturalmente, em Paris o fedor era maior, pois Paris era a maior cidade da França. E em Paris, por sua vez, um lugar havia onde o fedor imperava de modo especialmente infernal, entre a Rue aux Fers e a Rue de la Ferronnerie, ou seja, no Cimetière des Innocents. Ao longo de oitocentos anos, tinham sido para ali trazidos os mortos do hospital Hôtel-Dieu e das comunidades eclesiais das redondezas; ao longo de oitocentos anos, carretas traziam até ali, dia após dia, cadáveres às dúzias, jogados em longas covas; ao longo de oitocentos anos, acumulados nas criptas e ossários, camadas e mais camadas de ossinhos. E só mais tarde, às vésperas da Revolução Francesa, depois que algumas das covas haviam desabado perigosamente e o fedor do saturado cemitério havia levado os moradores das cercanias não mais a meros protestos, mas a verdadeiros levantes, é que ele foi finalmente fechado e transferido, tendo os milhões de ossos e crânios sido enterrados nas catacumbas de Montmartre e, no seu lugar, surgiu uma praça com uma feira livre.

Bem ali, no lugar mais fedorento de todo o reino, foi que nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de julho de 1738. Era um dos dias mais quentes do ano. O calor pairava como chumbo por sobre o cemitério e empurrava para as ruas vizinhas os gases da putrefação que cheiravam a uma mistura de melões podres e chifre queimado. Quando as dores começaram, a mãe de Grenouille estava numa peixaria da Rue aux Fers e escamava pescadas, as quais acabara de eviscerar. Os peixes, presumidamente recolhidos do Sena naquela manhã, já fediam tanto que o seu fedor se sobrepunha ao dos cadáveres. Mas a mãe de Grenouille não percebia nem o cheiro dos peixes nem o dos cadáveres, pois o seu nariz era praticamente insensível a odores e, além disso, doía-lhe o corpo, e a dor tirava-lhe toda sensibilidade para sensações externas. Queria só uma coisa: que a dor cessasse, e deixar para trás o quanto antes o horror do parto. Era o seu quinto. Os quatro anteriores ela havia resolvido ali na peixaria, e os quatro haviam nascido mortos ou semimortos, pois a carne ensangüentada que dela saíra não se diferenciava muito das vísceras dos peixes que já estavam atiradas pelo chão, e também não vivia mais muito tempo, e à noite era tudo jogado junto em carretas e levado para o cemitério ou lá para baixo no rio. Assim deveria ocorrer também hoje.

... 


[trecho do primeiro capítulo] 


Patrick Suskind, O perfume, Rio de Janeiro: Record, 1985.

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*Um livro com uma história genial. Foi uma ótima sacada do autor, o alemão Patrick Suskind, ter tomado o cheiro como o principal elemento da narrativa. Isso prova que os sentidos, tão negligenciados pelos historiadores, é algo que deve ser explorado. Afinal de contas, ele compõe o cenário das nossas vivências tanto quanto as palavras, as cores, os sons, os gestos ou os sentimentos.

Grenouille, o personagem central do romance, é um típico personagem do ensaio “A vida dos homens infames” de Michel Foucault. Ele é da mesma categoria de Pierre Rivière ou Damiens. Loucos, assassinos que só entraram para a história em função de seus horrendos crimes.

Sugiro a leitura do Livro, ou para quem não tem tanto tempo assim, indico o filme (Perfume: a história de um assassinato) baseado no mesmo romance. Ambos são experiências incríveis. 

domingo, 30 de outubro de 2011

Contrabandistas de palavras*

Por EDUARDO GALEANO


Os pés de Yang Huanyi haviam sido atrofiados na infância. Aos tombos, caminhou pela vida. Morreu no outono de 2004, quando estava a ponto de fazer um século de vida.

Era a última conhecedora do Nushu, a linguagem secreta das mulheres chinesas.

Esse código feminino vinha de tempos antigos. Expulsas do idioma dos homens, do idioma masculino, que elas não podiam escrever, tinham fundado seu próprio idioma, clandestino, proibido aos homens. Nascidas para ser analfabetas, tinham inventado seu próprio alfabeto, feito de sinais que simulavam ser adornos e eram indecifráveis aos olhos de seus amos.

As mulheres desenhavam suas palavras em roupas e leques. As mãos que as bordavam não eram livres. As palavras, sim.

Eduardo Galeano, Espelhos, 2009.

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*Para uma história das mulheres sem história...

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

As cidades e os mortos*

Por ITALO CALVINO


Não existe cidade mais disposta a aproveitar a vida e a evitar aflições do que Eusápia. E, a fim de que o salto da vida para a morte seja menos brusco, os habitantes construíram no subsolo uma cópia idêntica da cidade. Os cadáveres, dessecados de modo que os esqueletos restem revestidos de pele amarela, são levados para baixo e continuam a cumprir antigas atividades. Destas, as preferidas são as que reproduzem momentos de despreocupação: a maioria é posicionada em torno de mesas servidas, ou colocada em posições de dança ou no gesto de tocar trombeta. Mas todos os comércios e profissões da Eusápia dos vivos são recriados no subsolo, ao menos os que os vivos realizaram com mais satisfação do que aborrecimento: o relojoeiro, no meio de todos os relógios parados de sua oficina, encosta a orelha seca num relógio de pêndulo sem corda; um barbeiro ensaboa com um pincel seco o osso dos zigomas de um ator enquanto este repassa o seu papel examinando o roteiro com as órbitas vazias; uma moça de crânio risonho ordenha uma carcaça de bezerra.
Claro que muitos dos vivos pedem para depois da morte um destino diferente do que lhes coube em vida: a necrópole é apinhada de caçadores de leões, meios-sopranos, banqueiros, violinistas, duquesas, concubinas, generais, em número maior do que jamais contou a cidade vivente.
A incumbência de acompanhar os mortos para baixo e instalá-los no lugar desejado é conferida a uma confraria de encapuzados. Ninguém mais tem acesso à Eusápia dos mortos e tudo o que se sabe de lá de baixo sabe-se por intermédio deles.
Dizem que a mesma confraria existe entre os mortos e que não deixa de lhes dar uma ajuda; após a morte, os encapuzados continuarão com o mesmo ofício também na outra Eusápia; fazem crer que alguns deles já morreram e continuam a ir de cima para baixo. Claro, a autoridade dessa congregação sobre a Eusápia dos vivos é muito ampla.
Dizem que cada vez que descem encontram alguma mudança na Eusápia de baixo; os mortos apresentam inovações em sua cidade; não muitas, mas certamente fruto de uma reflexão ponderada, não de caprichos passageiros. De um ano para o outro, dizem, não se reconhece a Eusápia dos mortos. E os vivos, para não ficarem para trás, querem fazer tudo o que os encapuzados contam a respeito das novidades dos mortos. Assim, a Eusápia dos vivos começou a copiar a sua cópia subterrânea.
Dizem que não é só agora que isso ocorre: na realidade, foram os mortos que construíram a Eusápia de cima semelhante à sua cidade. Dizem que nas duas cidades gêmeas não existe meio de saber quem são os vivos e quem são os mortos.

Italo Calvino, As cidades invisíveis, 1990.

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*Italo Calvino (1923-1985) é um daqueles escritores que você não pode, aproveitando a deixa do texto, morrer sem conhecê-lo. Deste autor encanta-me especialmente As cidades invisíveis, uma obra com uma qualidade narrativa fora de série... Fica a dica.

Por Josenias Silva

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Os ninguéns*



As pulgas sonham em comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico de sorte chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte , por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, e sim folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

Eduardo Galeano, O livro dos abraços, 2010.

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*Poucos escritores chegaram ao nível de Eduardo Galeano, dizer muito em poucas linhas. Gosto sempre de citá-lo, Eduardo Galeano ainda representa aquela nesga de sinceridade e de utopia há muito perdida. Ele ainda é um dos poucos a ensinar com palavras. Suas micro-histórias são poesia e arte em favor de uma causa, a humana.

Por Josenias Silva

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Os "maus costumes" de Foucault*

Ele é um rapaz que parece gostar da solidão, que foge do convívio com as outras pessoas. A presença dos outros lhe parece ser um incômodo, que procura resolver usando o seu humor e sua capacidade de ironizar. Zomba de todo mundo com uma ferocidade que o torna imediatamente antipatizado. Briga com os colegas, com quem se atraca em público. Adora se exibir. É logo tido por maluco. Suas atitudes bizarras chamam atenção e levam ao surgimento daquele equivoco murmúrio que turva o ambiente em volta de cada um. Um dia seu corpo indócil é encontrado estendido no chão e ferido a navalhadas. E quando tenta o suicídio, a maioria de seus colegas vê neste gesto a confirmação de duas suspeitas: a de seu exótico fascínio pela morte e a de seu precário equilíbrio psicológico. Passa, então, a viver isolado numa enfermaria, onde se dedica apenas aos estudos. Ainda se sucederão inumeras tentativas ou encenações de suicídio, bem como ainda será apanhado quase se transformando num homicida, ao perseguir um colega, com um punhal nas mãos, pelos corredores da escola onde estuda. Faz frequentes expedições noturnas pelos pontos de encontro ou bares homossexuais. Parece, nestas ocasiões, ser tomado por uma enorme culpa que o esmaga, que o prostra durante horas, doente, aniquilado pela vergonha.

Talvez, por isso, na busca de um conhecimento de si, tenha se interessado pela psicanálise e pela psiquiatria; tenha se dedicado à leitura dos escritores de “transgressão”, da experiência-limite, do excesso e da exibição: Bataille, Blanchot, Klossowski; tenha se apaixonado pela possibilidade do filósofo louco e pelo saber da loucura. O encontro com os escritos de Nietzsche, sob o sol forte de uma praia africana, parece ter apenas sedimentado essa paixão e a sua forma de pensamento. A gaia ciência nietzscheana se torna um acontecimento definitivo na vida deste rapaz que, apesar de ter se tornado um intelectual maduro e um autor reconhecido na França e internacionalmente, nunca abandonou o uso do riso como a sua principal arma, seja nas lutas acadêmicas, seja nas lutas políticas e pessoais. Mesmo quando estava próximo de morrer, vitimado pela peste do século, tinha constantes acessos de riso. Quando lhe falaram, pela primeira vez, da existência de um câncer que só atingia homossexuais, ele chegou a cair do sofá, contorcendo-se num acesso de riso, dizendo que era muito bonito para ser verdade. Não se sabe ao certo se chegou a saber do verdadeiro mal que o acometia, pois teve o orgulho insensato, a generosidade de não contar a ninguém, para deixar as amizades viverem livres como o ar, descuidadas e eternas, como diz Hervé Guilbert. Suspeita-se que tenha contraído aids freqüentando o que ele chamava “os laboratórios de experimentação sexual de São Francisco e Nova York”. Ele adorava orgias violentas em saunas. O medo de ser reconhecido o impedia de freqüentar as saunas parisienses. Mas, quando partia para o seu seminário anual perto de São Francisco, esbaldava-se nas inúmeras desta cidade. Nelas os homossexuais desta cidade realizavam as fantasias mais insensatas. Mesmo após a epidemia de aids ter se confirmado, ele volta de São Francisco testemunhando que nunca houvera tanta gente nestes lugares antes, que a ameaça que pairava no ar criava novas cumplicidades, novas ternuras, novas solidariedades; as pessoas se falavam, definindo precisamente por que estavam ali. Quando morreu, o companheiro com quem viveu durante 25 anos encontrou no armário do apartamento um grande saco cheio de chicotes, de capuzes de couro, de coleiras, de freios e algemas.

De quem estivemos falando até aqui? Por que a escolha de detalhes que podem parecer sórdidos para alguns, insignificâncias degradantes para outros? Para desenhar tal pessoa, para traçar a biografia deste rapaz, poderíamos ter escolhido outros traços marcantes seus: sua cabeça brilhante, tanto por maquinar ideias originais como por ser completamente raspada, sem um fio de cabelo, cabeça onde às vezes podiam se ver restos de sangue, de um pequeno corte feito pela navalha; seus olhos brilhantes; o beijo com que sempre se despedia de seus amigos; a capa longa e às vezes puída com que desfilava pelas ruas de Paris; a sua rotina de oito horas de leitura diária na Biblioteca Nacional onde, às vezes, chegava a ler oito obras ao mesmo tempo; uma presença constante em passeatas e manifestações, onde assinou inúmeros manifestos e foi preso algumas vezes; sua solidariedade com todos os discriminados, perseguidos, exilados; seu total desprendimento das coisas materiais, tendo deixado, por exemplo, de descontar inúmeros cheques de grande valor que foram achados depois de sua morte, tendo dormido quase a vida inteira num velho colchão jogado no chão; ou sua retórica fulgurante que fascinava as platéias que se apinhavam para ouvir suas aulas no College de France.

Os detalhes que escolhemos, se fossem apreendidos na grade de um discurso moral, com certeza classificariam este rapaz como um ser de “maus costumes”, um ser bizarro, exótico, anormal, marginal. Mas quem é este individuo, este sujeito construído por esta recolha de detalhes? Paul-Michel? Muzil? Julian de l’Hôspital? Michel Foucault? Foucault? [...].


Durval Muniz de Albuquerque Júnior. in. História: a arte de inventar o passado. Ed. Edusc, 2007. p. 113-115.

domingo, 11 de setembro de 2011

Tetas*



Para fugir do castigo, alguns homossexuais se disfarçavam de mulheres e se faziam passar por prostitutas.

No final do século XV, Veneza ditou uma lei que obrigava as profissionais a exibir suas tetas. Os peitos nus deviam ser mostrados nas janelas onde elas se ofereciam aos clientes que passavam. Trabalhavam numa ponte, perto do Rialto, que até hoje se chama Ponte delle Tette.


Eduardo Galeano, Espelhos: uma história quase universal, 2009.

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*Interessante como o cinema, o bom cinema, às vezes surpreende em nível de pesquisa. Assistindo o filme O Mercador de Veneza (2004), baseado na obra homônima de W. Shakespeare, me surpreendeu esse detalhe das “prostitutas” trabalhando de seios nus sobre uma ponte. Fui investigar, sem muito esforço me caiu nas mãos esse livro de Eduardo Galeno que traz este pequeno fato histórico, que poderia ter passado despercebido, mas que mostra que Hollywood ainda pode surpreender. O filme deu seu jeito com a ponte, mas manteve a nudez dos seios como um detalhe do cotidiano da Veneza do Século XVI. Sobre o filme em si, para mim um clássico, só assistindo.



Memória de minhas putas tristes*


No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver.
Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:
— É hoje.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.
Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta.
Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe.
O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos.
Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Diário de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indígena as notícias do mundo, que agarrávamos em pleno vôo pelo espaço sideral através das ondas curtas ou do código Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofício extinto; me sustento menos com a de professor de gramática castelhana e latim, quase nada com a crônica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio século, e nada em absoluto com as resenhas de música e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intérpretes notáveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas,  sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor.

Gabriel Garcia Marquez, Memórias de Minhas Putas Tristes, 2005.

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* Li este livro de uma só tirada numa das minhas noites insones. Às vezes agradeço quando elas acontecem, penso que terei muito tempo para dormir depois de morto. No texto, como se pode degustar um pouquinho, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-) conta uma história pra lá de insólita. Um homem, “da raça dos sem méritos nem brilhos”, no dia dos seus noventa anos resolve provar para si mesmo que ainda estava vivo, em todos os sentidos. Até ai tudo bem, só que o incomum é que ele deseja presentear-se com uma noite de “amor louco” com uma adolescente virgem. Deste ponto em diante a história ganha contornos fascinantes, mescla memória, mediocridade, egoísmo, erotismo e certa dose de risibilidade. Mais paternal do que carnal, lembrei-me dos complexos de Freud, o livro em si nos remete a alguns íntimos desejos platônicos que acalentamos secretamente e também põe em questão o dilema da velhice, sobre o que faremos de nossas vidas no tempo que nos resta. É um livro em que a suavidade não esconde a profundidade de suas conclusões. 



Por Josenias Silva
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