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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Da Solidão*



“É preciso ter, se possível, mulher, filhos, fortuna e principalmente saúde, mas não se prender a isso a ponto de prejudicar nossa felicidade. É preciso ter como reserva um recanto pessoal, independente, em que sejamos livres em toda a acepção da palavra, que seja nosso principal retiro e onde estejamos absolutamente sozinhos. Aí nos entreteremos de nós com nós mesmos, e a essa conversa, que não versará nenhum outro assunto, ninguém será admitido. Aí nos abandonaremos a nossos pensamentos sérios ou divertidos, como se não tivéssemos mulher nem filhos, nem bens, nem casa, nem criadagem, de maneira que se algum dia eles nos faltarem não nos custe demasiado a carência.

É preciso romper com quaisquer obrigações imperativas. Talvez ainda gostemos disto ou daquilo, mas só a nós mesmos poderemos desposar. Em outras palavras, o que está fora de nós pode não nos ser indiferente, mas não a ponto de se colar a nós de modo que não se arranque sem nos esfolar e sem levar alguma parcela de nós. A coisa mais importante do mundo é saber pertencer-nos.”


Michel de Montaigne in. “Ensaios”. Ed. Abril Cultural, 1980. p.116.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O mistério do gostar, as virtualidades, as vacilações*


Por que gostamos do outro? Convivemos, cotidianamente. Quando nos sentimos isolados alguma coisa parece quebrada. O silêncio faz bem, traz sossego, mas é importante não diluir as sociabilidades. Não gostamos de todo mundo. Seria impossível. Há pessoas que desmancham prazeres com ironias e arrogâncias. Freud explica. Posso ser simpático para muitos companheiros, sem agradar aos que estão próximos no trabalho. É difícil calcular a medida. O que atrai o afeto, o que deixa seguro, o que nos encanta? Construir uma classificação de valores é tarefa inútil. Não dispensamos, contudo, as diferenças. Não é a proximidade e o cuidado que, fatalmente, nos farão felizes.
Muita gente no mundo não tem solucionado o problema da solidão. As moradias estreitas, sem ares de aconchego, incomodam. As ruas cheias de ruídos, agressividades gratuitas, irritam. A arte do encontro é repleta de energias indecifráveis. Há amizades que se desfazem depois de anos, sem guardar vestígios. Há paixões que duram uma semana e alteram o cotidiano radicalmente. O sentimento não descansa. É preciso não anular as atenções, falar com estranhos, viajar por territórios desconhecidos. Prolongar o amor é o desejo da maioria. No entanto, o descartável é feroz. Não está, apenas, no consumo, segue pela história.
Somos animais sociais. Não vejo como duvidar disso. Por que as escolhas, por que uns desagradem, outros enternecem? Mesmo nas redes sociais, onde a virtualidade prospera, não fugimos das buscas. Não curtimos tudo ou exercemos o compartilhamento com apenas certas figuras. Há grupos fechados, antipatias implícitas, má vontade em responder. A multiplicidade de ações é incomensurável. Mas navegar no facebook é prova de que a sociabilidade possui outras atmosferas. Somos surpreendidos por reações. Muitas vezes, desistimos de persistir com diálogos. Não tem razão cartesiana que esgote as ansiedades que surgem nos momentos de dúvida.
Cada sociedade cultiva seus hábitos. Eles têm mudado com a velocidade da tecnologia. Ninguém consegue se esconder dos estragos que fazem um telefone celular ou alguém que estica sua curiosidade nos papos pela internet. Os interesses variam. Os telefones fixos perderam sua soberania. Pesam, servem como peças de ornamentação. Não vendo as imagens dos amigos virtuais atiçamos desejos e idealizações. Muitos planejam casamentos, tardes em cafés,  abraços envolventes, soluções imediatas para o desconforto afetivo. Não faltam decepções. Elas ocorrem, pois não há milagres, nem códigos que nos salvem de tudo.
Os desenganos não acabam com as tentativas. Quem conhece outras alternativas sente nostalgias do escurinho do cinema,  joga fora a tristeza, volta para aventuras mais antigas. Quem está entrando nas novidades com ares sedutores pode escorregar e maldizer a inexperiência. A vida não perde seu ritmo de jogo, pois é preciso abalar a mesmice, arriscar. Reservar-se sempre ou considerar-se senhor das verdades afasta redefinições, firma esconderijos melancólicos. As perdas estão nas regras do jogo, como a leveza no voo do tapete mágico. Não adiantar excessos.  Eles agitam incertezas. O bom é o gostar que chega, sem muita vacilações, acariciado pelo inesperado. Muita objetividade é sinal de desamores mascarados.

Antonio Rezende in. Astúcias de Ulisses 

segunda-feira, 12 de março de 2012

Política da solidão*



Por Marcia Tiburi



Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades.

Em um mundo em que a política foi destruída pelo poder transformado em violência, a solidão é o sintoma do medo do outro que ameaça o indivíduo.

Diz-se indivíduo daquele que não pode ser dividido, que é inteiro. Podemos dizer que a solidão é constitutiva de si no mais simples sentido metafísico. Mas há a solidão como um fato que diz respeito à vida vivida fora das relações. É essa solidão que deve ser inscrita na filosofia política como afeto político.

Mas não há nada de anormal em um indivíduo viver só. A solidão da qual muitos se queixam hoje como um desprazer pode ser para outros tantos um prazer. Viver em comunidade não faz sentido para todo mundo e isso não leva necessariamente à conclusão de antissociabilidade da qual o indivíduo seria a vítima ou o culpado.

A solidão nas cidades grandes é muito mais um sinal da precariedade do sentido da comunidade e da convivência, é mais um problema sociocultural do que de escolha individual.

Selva de pedra

Certamente ela reflete a impossibilidade de retornar às florestas, como um dia fez Henry Thoreau. As florestas estão em extinção, assim como, curiosamente, a ideia de humanidade. Resta fugir para a moderna caverna na selva de pedra – sem querer reeditar lugares-comuns – que é a casa de cada um.

A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.

A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos.




quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Conte apenas com você mesmo*



Por Paulo Nogueira



UMA BREVE  discussão ‘filosófica’.
Somos todos atormentados pela idéia da solidão, não somos? Certo.
Almoçar sozinho, ir ao cinema sozinho, viajar sozinho: estes são alguns dos nossos pesadelos de todos os dias. A solidão é um anátema, um estigma, quase uma marca cravada na carne do solitário.
Mas.
Mas por quê?
Bem, uma das razões é que a solidão é tratada a pontapés em todos os filmes, em todas as novelas e em todas as conversas que vemos e travamos. Ninguém basta a si próprio. Essa a mensagem contínua que recebemos.
Faz sentido?
Não, não faz. Isso nos leva a depender sempre dos outros para sermos felizes. Cícero disse o seguinte: “Quem depende apenas de si mesmo e em si mesmo coloca tudo tem todas as condições de ser feliz.”
Muito tempo depois, Dostoievski escreveu que ficar sozinho é uma “necessidade natural, como dormir e comer”. Schoppenhauer disse que as pessoas não suportam a solidão porque não suportam a si mesmas. Os chineses ricos, no final da vida, costumavam abandonar toda a riqueza e conforto para, numa vida solitária e remota, terem a chance de meditar e refletir.
Uma única vez vi, num filme, uma mensagem sábia sobre o tema. Foi em Beleza Americana. A menina adolescente presencia uma briga horrível entre os pais num jantar. Fica chocada e vai para o seu quarto, onde a mãe depois aparece e diz: “Hoje você aprendeu a maior das lições. Conte apenas com você mesma.”
Platão não teria dito uma frase melhor.


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