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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015


apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme

Paulo Leminski in. Caprichos e Relaxos. Ed. Brasiliense, 1985.
 

Painting - “Juliette” or “The Green Girl” 
— John White Alexander (c. 1897-1898)



domingo, 8 de fevereiro de 2015


Ratto delle sabine, 1574-1580 (dett.)
Jean de Boulogne (1529 – 1608)
Loggia dei Lanzi, Firenze
A Bunda, Que Engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai

pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora – murmura a bunda – esses garotos
ainda lhes falta muito o que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda,
redunda.

Carlos Drummond de Andrade in. Poesia Completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, pp. 1373-4.


 

sábado, 7 de fevereiro de 2015



CHEGADA DE RAUL SEIXAS AO CASTELO DE AVALON
 





Brilhava a lua cheia sobre o lago congelado de Avalon
Zunia o vento fustigando as garras fractais do arvoredo
Menestréis e neuromantes distraíam os convivas no salão
E na varanda um drúida recitava um cordel de Castañeda.
Era uma noite escura como as grutas de Sabá
e as fogueiras do castelo crepitavam sem parar...
A Távola Redonda celebrava o Ritual do Resplendor.
Dezesseis orientais, numa tela de cinema
começavam a traçar com hexagramas um teorema,
quando um calafrio de terror arrepiou o Rei Artur...
Alguém desconhecido se aproximava do portão
cantando feito um bêbado em dia de inundação
um rock do tipo “wo-bop-pa-baluba wop-bop bem-bum...”
E no meio da neve dos bosques os lobos uivavam:
- Rauuuuuullll...

O mago Merlin empunhou o seu binóculo.
O mago Crowley embainhou o seu punhal.
Os dragões do reino o cercaram. Os vídeo-monitores o focaram.
E ele rodeava a muralha do castelo dançando com a própria sombra
como um menino, ou como um velho;
e as imagens se alternavam nos monitores do salão
num arranjo serial da sua canção...
E ouvindo aquele bolero meio baião e meio blue,
O chinês Lao-Tsé e o judeu Leopold Bloom
discutiam quais as chances de sucesso de um filósofo zulu...
E no meio da neve do bosque os lobos uivavam:
- RauuuuuullllII...

Mas ele não gritava pras janelas, nem tocava no portão
puxava atrás de si, atada a cordas, uma carga de coisas...
E os Templários contemplaram numa tela de alta definição
a carga que o peregrino arrastava, no limite das forças...
A carroça de uns saltimbancos achada no chão de outro planeta;
um astrônomo caldeu manuseando uma luneta;
bailarinas metaleiras seduzindo a virgindade de um Xamã...
Ossadas de elefantes no cemitério dos automóveis;
um velho Dr. Frankenstein rodeado de monstros jovens
e o olho com a calma kamikaze de quem já foi no sertão...
O olho chamejante  de um alquimista tropical
que engoliu a semente do Fruto do Bem e do Mal
com um gole de Santo Daime
na taça do Santo Graal
em jejum...
E no meio da neve do bosque, os lobos uivavam:
- Rauuuulll...


Braulio Tavares in. O Homem Artificial. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999, pp. 62-63.


 
photo: teddy locquard


Na hora do Lobo

Quando um homem consome a madrugada
rabiscando umas folhas de papel
e ele sabe que a vida é tonelada
oscilando na ponta de um cordel;

ele sabe que o fim de toda estrada
não desagua no inferno nem no céu,
e ele pensa na feira, na empregada,
água e luz, condomínio e aluguel;

quando um homem fatiga a voz cansada
com palavras da Torre de Babel
e ele entende que a coisa mais amada
se transmuda na coisa mais cruel;

quando a taça em que bebe está quebrada,
tanto vidro a boiar em tanto fel
e no peito uma dor desatinada
essa dor que é tão nítida e fiel;

quando um homem de boca tão calada
sente a mente girar num carrossel,
ele escreve através da madrugada
com cuidados de abelha que faz mel:
sua vida, talvez, foi destinada
a salvar estas folhas de papel.

Braulio Tavares in. O Homem Artificial. Rio de Janeiro: Ed. Sete Letras, 1999, p. 9.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Paupéria Revisitada

Putas, como os deuses,
vendem quando dão.
Poetas, não.
Policiais e pistoleiros
vendem segurança
(isto é, vingança ou proteção).
Poetas se gabam do limbo, do veto
do censor, do exílio, da vaia
e do dinheiro não).
Poesia é pão (para
o espírito, se diz), mas atenção:
o padeiro da esquina balofa
vive do que faz; o mais
fino poeta, não.
Poetas dão de graça
o ar de sua graça
(e ainda troçam
— na companhia das traças —
de tal “nobre condição”).
Pastores e padres vendem
lotes no céu
à prestação.
Políticos compram &
(se) vendem
na primeira ocasião.
Poetas (posto que vivem
de brisa) fazem do No, thanks
seu refrão.

Ricardo Aleixo in. “Máquina Zero”. Scriptum Ed., 2004.

Photo: Poetas populares, Salvador, Brasil, 1946-1950 (Pierre Verger)


poeta popular cuica de santo amaro
 
Kai

   Mínimo templo
para um deus pequeno,
   aqui vos guarda,
em vez da dor que peno,
   meu extremo anjo de vanguarda.

   De que máscara
se gaba sua lástima,
   de que vaga
se vangloria sua história
   saiba quem saiba.

   A mim me basta
a sombra que se deixa,
   o corpo que se afasta.

Paulo Lemisnki in. Distraídos Venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Tela: Catrin Welz-Stein


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Elogio do Cio*



Está decidido:
doravante excluo
da minha poesia
a palavra amor.

amor atrai dor
amor traz dor
amor trai: dor
amor traidor.

(dor)avante troco
a palavra amor
pelo termo cio

que soa a céu
e a sol e a sal
e a rio: não a mar.

*Alcenor Candeira Filho in. “Seleta em verso e prosa”. Ed. Sieart, 2010, p. 173.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Natal 2012*


(Catryn Arno)

..e estou de volta ao ponto de partida, 
ao trampolim do Tempo que me impele 
a saltar para fora desta pele 
como quem larga a roupa no banheiro. 
Meu último dezembro? Ou o primeiro 
noutro plano que não este de agora? 
É noite. Ruge o trânsito lá fora 
nessa avenida insone que não para 
e as multidões arquejam no Saara 
buscando o oásis do crédito fácil. 

E onde diabos perdi o meu palácio? 
Em que bolso esqueci o meu castelo? 
Quede o meu submarino, aquele yellow, 
que cruzava universos transversais? 
As alucinações sensoriais 
transportaram meu corpo a outro porto 
onde um dia, não sei, voltarei morto 
e encontrarei meu rosto adormecido 
num travesseiro feito do tecido 
que as aranhas bordaram para mim. 

Someone tells me that life is but a dream 
e a guilhotina do despertador 
decepa o sono no melhor do amor 
e me projeta nesta Distopia 
em que mais queima e dói a luz do dia, 
o ferro-em-brasa de qualquer verão, 
do que a treva, a ausência, o nada, o não, 
o Nirvana do zero absoluto... 
Bastam só as besteiras que eu escuto 
pra sonhar em viver como um Beethoven 

pois os surdos não sofrem do que ouvem 
como nós, a nadar no som alheio, 
um rumor que jamais diz a que veio 
mas aumenta o volume e abaixa o nível. 
Bora lá, paladinos do impossível, 
combater o mau gosto, o gosto médio! 
Quero afogar em vodka este tédio, 
sufocar o Medíocre em si mesmo, 
essa tela que berra à balda, a esmo, 
como se fossem gralhas coloridas. 

Este ano custou-me tantas vidas... 
mas eis-me aqui ao fim de tudo, intacto, 
intratável e áspero; o cacto 
de Bandeira, que morre e não se entrega. 
E em dezembro retorna a luta cega 
das comemorações obrigatórias, 
mil cervejas, mil risos, mil histórias, 
tudo festivo como um Facebook 
onde cada usuário emprega um truque 
pra divulgar o seu melhor retrato. 

Nessa luta de cão-e-gato-e-rato 
não dá pra dispensar a hipocrisia, 
que não deixa de ser diplomacia, 
revestida de boas intenções. 
Sendo assim... tragam logo esses garçons, 
o champanhe, a cerveja, os canapés... 
Que seja a vida como os cabarés 
ou a buate que eu chamava “bôite”, 
onde a festa feliz virava a noite 
e o álcool desmanchava o sofrimento. 

Este ano passou feito um momento:
vupt! – e pronto, é Natal mais uma vez.
É hora de lembrar o que se fez,
empurrar o não-feito mais pra frente,
abraçar, receber e dar presente,
como a peça mil vezes encenada
que toda noite vem modificada
pela corrente oculta dos Acasos
visto que o Tempo não tolera atrasos
e que nossa viagem é só de ida...

Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O Caminhoneiro*

"O caminhoneiro". Já vi essa cena dezenas de vezes na Av. Duque de Caxias (zona norte de Teresina). 
Ontem resolvi registrá-la, pela câmera do celular. Foto: Daniel Solon

A Imagem me Lembra um poema de Mário Quintana:


Auto-retrato*

No retrato que me faço 
- traço a traço -
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
- pouco a pouco -
minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
corrigido por um louco!

Mário Quintana in. "Nova Antologia Poética". Ed. Globo, 2007, p.138.

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