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quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Biografias eróticas*



Todo homem possuí duas biografias eróticas. Em geral só se fala da primeira, que se compõe de uma lista de casos e de encontros amorosos.

A mais interessante é, sem dúvida alguma, a outra biografia: o bando de mulheres que nos escaparam, a história dolorosa das possibilidades irrealizadas.

Mas existe ainda uma terceira, uma misteriosa e inquietante categoria de mulheres. Elas nos agradam, nós lhes agradamos, mas ao mesmo tempo compreendemos logo que não podíamos tê-las porque, na nossa relação com elas, nos encontrávamos do outro lado da fronteira.

[Fragmento]


Milan Kundera in. “O livro do riso e do esquecimento”. Ed. Círculo do Livro, 1990. p.194.

sábado, 10 de março de 2012

A fronteira*



Por Milan Kundera



Já era noite alta; eles estavam em casa de Edwige, e uma garrafa de uísque esvaziada pela metade estava diante deles sobre uma mesa baixa.

– O que você quer dizer com isso? – perguntou ela.

– Quero dizer que – respondeu Jan –, quando um homem e uma mulher fazem a mesma coisa, não é a mesma coisa. O homem violenta, a mulher castra.

– Você quer dizer com isso que é feio castrar um homem, mas que é uma bela coisa violentar uma mulher.

– Com isso, quero dizer apenas que – replicou Jan – a violação faz parte do erotismo, mas que a castração é sua negação.

Edwige esvaziou seu copo de um só gole e respondeu, encolerizada:

– Se a violação faz parte do erotismo, isso quer dizer que todo o erotismo é dirigido contra a mulher e que é preciso, portanto, inventar outro.


[fragmento]


in. O livro do riso e do esquecimento, 1990, p.198.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Os teus pés*



Por Pablo Neruda



Quando não posso contemplar teu rosto,
contemplo os teus pés.

Teus pés de osso arqueado,
teus pequenos pés duros.

Eu sei que te sustentam
e que teu doce peso
sobre eles se ergue.

Tua cintura e teus seios,
a duplicada púrpura
dos teus mamilos,
a caixa dos teus olhos
que há pouco levantaram voo,
a larga boca de fruta,
tua rubra cabeleira,
pequena torre minha.

Mas se amo os teus pés
é só porque andaram
sobre a terra e sobre
o vento e sobre a água,
até me encontrarem.



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