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sexta-feira, 19 de julho de 2013

O Ser para a Morte*


Photo: Ricky Brown

A publicidade da convivência cotidiana “conhece” a morte como uma ocorrência que sempre vem ao encontro, ou seja, como “casos de morte”. Esse ou aquele, próximo ou distante, “morre”. Desconhecidos “morrem” dia a dia, hora a hora. “A morte” vem ao encontro como um acontecimento conhecido, que ocorre dentro do mundo. Como tal, ela permanece na não-surpresa característica de tudo aquilo que vem ao encontro da cotidianidade. (...) O discurso pronunciado ou, no mais das vezes, “difuso” sobre a morte diz o seguinte: algum dia, por fim, também se morre mas, de imediato, não se é atingido pela morte.

*Martin Heidegger. In. “Ser e Tempo”. Ed. Vozes, 2005, pp.35. (v.2).

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Roda viva*

_____A humanidade concordou em desconhecer que a morte seja também a juventude do mundo. De olhos vendados recusamo-nos a ver que só a morte incessantemente assegura um rejuvenescimento sem o qual a vida declinaria. Recusamo-nos a ver que a vida é a armadilha oferecida ao equilíbrio, que a vida é inteiramente instabilidade e desequilíbrio e que neles se precipita. É um movimento tumultuoso que incessantemente provoca a explosão, mas explosão incessante, que não cessa de esgotar, e que só pode prosseguir sob uma condição: a de que os seres que ela gera e cuja força explosiva está esgotada cedam o lugar a novos seres que entram na roda com nova força.

*Georges Bataille in. “O Erotismo”. Ed. Antígona, 1988, p.52.

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Morning bouquet.
Alfred Guillou, 1884-1926


sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

A consciência da morte*


Toda vida está posta entre dois parênteses: nascimento e morte. E só o homem tem consciência disso. O nascimento é fato de que não se tem lembrança. Quem se reconhece existindo tem a impressão de que sempre existiu, de que desperta de um sono sem memória. Ouvir falar do próprio nascimento não estimula qualquer recordação. Pessoa alguma guarda experiência do início de seu existir. Estamos todos destinados à morte. Ignorando o momento em que ela virá, procedemos como se nunca devesse chegar. Em verdade, vivendo, não acreditamos realmente na morte, embora ela constitua a maior de todas as certezas. A consciência puramente vital desconhece a morte. É preciso que nos demos conta da morte, para que ela se torne uma realidade para nós. A partir daí, transforma-se a morte em uma situação-limite: aqueles que me são mais caros e eu próprio cessaremos de existir. A resposta a essa situação-limite há de ser encontrada na consciência existencial de mim mesmo.

*Karl Jaspers in. “Introdução ao pensamento filosófico”. Ed. Cultrix, 1993, p. 127.

_____________

“El beso de la muerte”, Artemi Barba.
Cemitério de Poblenou, Barcelona.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

O tempo cura*

Foto: “After Prayer”, Don Hong-Oai (1929-2004).


O tempo cura, também, porque vai deixando o passado cada vez mais "atrás", mais "distante", mais "pesado", e com esse distanciamento diminui a intensidade do pretérito e fica limitada sua parte angulosa e pungente. O tempo cura, definitivamente, porque vai atuando como sepultador e é cúmplice do esquecimento: aplana tudo o que é vivo e agudo, a alegria, a tristeza, a paixão, a dor... Como o tempo, gênio astuto, deve rir dissimuladamente quando ouve as pessoas jurarem amor, amizade ou fidelidade eterna ou "para sempre"!

O tempo cura porque nos endurece: "Essa mineralização ou dissecação da dor é a forma mais natural de consolo". Erosão e desgaste progressivo que fazem com que a dor vá se esfumando. O tempo consola desse modo, adormecendo sem persuadir. Cura sem fazer quase nada, simplesmente deixando-se passar a si mesmo. Não cura com solícitos cuidados, mas sim passiva e impessoalmente. O tempo cura com o tempo, com a senilidade, o envelhecimento, a amnésia, a sedação... E culmina essa cura com a morte. Vence debilitando o adversário (e talvez, no fundo, com o consentimento deste).

Josep M. Esquirol in. "O Respirar dos Dias". Ed. Autêntica, 2010, p. 47.


domingo, 13 de janeiro de 2013

As festas da agonia*


(Photo: Leandro Pena)

“Para as Festas da Agonia / Vi-te chegar; como havia / Sonhado que já chegasses: / Vinha teu vulto tão belo / Em teu cavalo amarelo, / Anjo meu, que, se me amasses, / Em teu cavalo eu partiria...” (Mario Faustino in. “O homem e sua hora”. Ed. Companhia das Letras, 2009, p.69.).


Tem momentos em que a ideia de morte me assalta. Não que isso se constitua um problema para mim, como tenho certeza que o é para a maioria das pessoas. Para ser sincero, até gosto de pensar na morte. De imaginá-la chegando, como no poema de Mário Faustino, montada em seu cavalo amarelo. Mas a razão de pensar na morte é justamente porque estamos vivos. E a vida nos assusta a tal ponto que precisamos do seu contrário para minimamente explicá-la. E assim, pensando na morte, vivemos mais um pouco. Quero dizer, ela deixa de ser uma dama misteriosa que nos espreita, que nos rouba o viço da juventude, para tornar-se nossa companheira de cavalgada. Chego à conclusão de que a morte é uma amiga que ceia conosco, que seguramente ri do nosso medo, das nossas fraquezas, mas que, tranqüila e infalível, nos carregará no seu saco para algum lugar distante.

*Josenias S. Silva in. Fronteiras Literárias.

sábado, 17 de novembro de 2012

Quem tem medo da morte?*


"Nada perece e nada morre, a não ser o revestimento, a forma, o invólucro carnal, em que o Espírito, encarcerado, se debate, luta, sofre, aperfeiçoa-se. Morre a forma - essa carcaça - mas rebrilha a alma - esse gnomo de luz; e o que é a existência do corpo - um sopro - perante a existência da alma - a eternidade? Mortos andamos nós, os vivos, mortos na vida, para ressurgir vivos na morte" 

Alberto Veiga

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O Bosque de Birnam*



Macbeth é um nobre escocês que certa noite hospeda o rei em seu castelo. Quando o rei está dormindo, Macbeth entra no quarto, corta-lhe a garganta e assume o trono da Escócia, de espada em punho, olhando em redor com aquela cara de “Que foi que viu? Vai encarar?!” Como dizia Dom Pedro Dinis Quaderna, uma maneira muito européia e fidalga de tornar-se rei.

Preocupado, Macbeth vai se consultar com as feiticeiras locais, e elas lhe dizem que, entre outros sinais, ele só será derrubado do trono “quanto o bosque de Birnam chegar a Dunsinane”, que é o castelo onde ele mora. É um pouco como dizer – quando a Floresta da Tijuca chegar ao Palácio do Catete. Macbeth sente firmeza e começa a praticar os maiores despautérios, até que os outros nobres mobilizam as tropas e marcham contra seu castelo. Ao passarem por Birnam, eles, sem sequer saberem da profecia, cortam os galhos das árvores e os empunham, para disfarçar o número de seus soldados. Macbeth recebe o alarma, vai até a muralha de Dunsinane, e o que vê no horizonte? O bosque de Birnam marchando na direção do seu castelo.

É vezo das profecias parecerem impossíveis e depois se concretizarem graças a um pulo-do-gato qualquer. Há um livro notável e pouco conhecido de Malba Tahan intitulado Sob o Olhar de Deus, que em sua primeira edição tinha o título “O Aviso da Morte”, mais descritivo do seu conteúdo. Célio Musafir, um escritor de sucesso, recebe uma noite a visita da Morte, que faz um pacto com ele: quando chegar a hora de levá-lo embora, lhe dará um aviso. Aliviado com esta promessa, Musafir passa a viajar, ter aventuras, fazer caçadas, escalar montanhas, etc., confiante de que a Morte cumprirá a palavra. Anos depois ela volta a lhe aparecer e diz que está na hora. Ele reclama que não recebeu aviso nenhum. E a Morte diz: “Meu amigo! E aquelas avalanches na montanha, e aquele tigre que quase o alcançou, e aquele seu barco que naufragou, etc. – isso não foi aviso suficiente de que eu estava chegando perto?!”

Compreensivelmente, ele diz que não entendeu assim. Quer um aviso claro, inconfundível; e a Morte diz: “Então tá bom. Escolha o aviso”. Ele pensa um pouco e diz: “Quero que o aviso seja esta cena: uma mulher de preto, sentada num piano, à luz de velas, tocando a Marcha Fúnebre de Chopin”. A Morte aceita: “Tá legal. Quando chegar sua hora, você verá exatamente isso”. E desaparece.

Musafir respira aliviado e pensa: “Bom, tudo que eu tenho a fazer daqui em diante é deixar de ir a concertos de piano”. E vai à janela, para fechá-la e ir dormir. Quando chega lá, vê do lado oposto da rua que na mansão em frente está havendo uma festa: pela janela ele vê a sala da mansão, e bem ali, no meio, adivinhem o quê. Ele vacila, cambaleia, leva a mão ao coração e (a frase final é uma citação de Dante) “caiu como um corpo morto cai”. Bem feito. Ele, um homem culto, leitor dos clássicos, deveria saber que o bosque de Birnam sempre chega a Dunsinane.

  
Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Nos destinos da fronteira*



Num dia, há vida. Um homem, por exemplo, em perfeita saúde, nem sequer é velho, sem nenhum histórico de doenças. Tudo é como era, e sempre será. Ele segue de um dia para o outro, cuidando das suas coisas, sonhando apenas com a vida que se estende à sua frente. E então, de repente, acontece que há morte. Um homem solta um pequeno suspiro, tomba da cadeira, e é a morte. O inesperado da coisa não deixa espaço para nenhum pensamento, não dá nenhuma chance para a mente procurar uma palavra capaz de consolar. Somos deixados sem nada a não ser a morte, o fato irredutível de nossa própria mortalidade. A morte após uma longa doença é algo que poderíamos aceitar com alguma resignação. Mesmo a morte acidental podemos atribuir ao destino. Mas um homem morrer sem nenhuma causa aparente, um homem morrer apenas porque é um homem, nos leva para tão perto da fronteira invisível entre a vida e a morte que não sabemos mais de que lado estamos. A vida se transforma em morte e é como se essa morte tivesse possuído essa vida o tempo todo. Morte sem aviso. Em outras palavras: a vida pára. E pode parar a qualquer momento.


Paul Auster in. “A Invenção da Solidão”. Ed. Companhia das Letras, 1999, p. 11.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Quando eu me chamar saudade*



Sei que amanhã quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração.
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão.
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora.

Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais.

(Nelson do Cavaquinho/ Guilherme de Brito)

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Ao deus Verme*

Laurence Olivier interpretando Hamlet

[Fragmento do diálogo entre Hamlet e Horácio diante de uma caveira no cemitério. Cena I, Ato V.]


Hamlet

Essa caveira possuía língua, e outrora podia cantar! Como esse pícaro a atira ao solo, qual se fosse a queixada de Caim, que cometeu o primeiro assassínio! Essa pode ter sido a cabeça de um cavilador, que esse asno agora sobrepuja; de alguém que teria gostado de enganar a Deus, não pode?

Horácio

Pode, meu senhor.

Hamlet

Ou de um cortesão, capaz de dizer: "Bom dia, dileto senhor! Como estás, bom senhor?" Este pode ter sido o fidalgo tal, que gabava o cavalo do fidalgo qual, quando tinha a intenção de pedi-lo, não pode?

Horácio

Pode, meu senhor.

Hamlet

Ora, é isso mesmo; e agora pertence à fidalguia Vérmina, desqueixado e golpeado no cocuruto com a pá de um sacristão; eis uma boa mudança: fôssemos hábeis para vê-la! Custou tão pouco a formação desses ossos, que servem apenas para jogar a malha? Só de pensar nisso os meus me doem.

[...]

Hamlet

Eis outra. Não será - quem sabe - a caveira de um causídico? Onde estão agora suas distinções, suas sutilezas, seus processos, seus direitos de posse e subterfúgios? Como é que suporta que esse rude pícaro lhe pespegue cacholetas com uma pá imunda, e não lhe fala num processo por lesões corporais? (Pega a caveira.) Hum! esse indivíduo talvez tenha sido em seu tempo um grande comprador de terras, com seus títulos debitórios e obrigações de solver, com suas ficções legais para transformar em domínio pleno a propriedade vinculada, seus duplos fiadores, seus expedientes para invalidar gravames: esse é o final de tais chicanas, e o resultado de tais simulações, ficar com o solerte crânio cheio de pura sujeira? Não lhe quererão os garantes simples nem duplos garantir as compras que excedem o comprimento e a largura de um contrato em pergaminho denteado? As próprias escrituras de suas terras dificilmente caberão nesta caixa (Bate na caveira.) e o próprio dono não possui mais terra do que cabe nela, não?

Horácio

Nem mais um nada que seja, meu senhor.

...

W.Shakespeare. in. A tragédia de Hamlet: príncipe da Dinamarca. Ed. Abril, 1976. p. 203-5. 

sábado, 2 de junho de 2012

A Morte dos Pobres*


Retrato de "Cosette" por Émile Bayard, 
da edição original de Les Misérables (1862)

É a morte que consola e que nos faz viver!
É o motivo da vida, é a única esperança.
Elixir que nos inebria, nos encanta
e nos dá forças para ver o anoitecer.   

Através da tormenta, da neve, do frio,
é a clareza vibrante no horizonte escuro.
É o albergue famoso inscrito no livro,
em que vamos comer, dormir e estar seguros.

É um Anjo que tem em seus dedos magnéticos
o dom do sono, o dom dos sonhos extasiados,
e refaz a cama dos pobres desnudados.

É o resplendor dos Deuses, é o celeiro místico,
é o recinto dos pobres e seu berço antigo,
pórtico aberto sobre os céus desconhecidos!    
                          
Charles Baudelaire
Tradução: Márcia Sanchez Luz

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Feynman, amor e morte*


Richard e Arline Feynman

Um dos sujeitos que mais admiro é Richard Feynman (pronuncia-se “fáin-man”). Acho até que ele era mais inteligente do que eu (ganhou um Prêmio Nobel de Física, e eu não). Você é cientista, caro leitor? Seus estudos, ou sua carreira profissional, são no domínio das Ciências, do entendimento das leis do Universo, do cultivo do pensamento lógico e organizado? Não leia Einstein nem Isaac Newton: leia Feynman. Lógica e doidice, rigor e imaginação atingiram ali o ponto de equilíbrio que conjuga o máximo de duas forças mutuamente contraditórias e interdependentes.

A primeira esposa de Feynman, Arline, morreu de tuberculose em junho de 1945, quando ele trabalhava em Los Alamos, nas pesquisas para a construção da bomba atômica. Junto da cama dela no hospital havia um relógio. Arline disse a Feynman que aquele relógio era um símbolo do tempo que os dois tinham para viver juntos. No dia em que ela morreu, Feynman, a quilômetros de distância, recebeu uma notificação do hospital, na qual estava registrada a hora exata do óbito. Quando chegou lá, ele observou que o relógio na cabeceira da cama marcava exatamente a hora em que ela tinha morrrido. O relógio parara no momento exato da morte dela.

Pelo menos, é o que qualquer pessoa pensaria. Feynman, mesmo arrasado pela dor, recusou a explicação sobrenatural. Pensou, pensou, e ocorreu-lhe que o relógio era velho, o mecanismo era precário. Provavelmente quando Arline morreu, o relógio já tinha parado. Quando a enfermeira constatou a morte, olhou para ver as horas – e simplesmente anotou o que o relógio parado estava marcando. Diz Feynman: “Nunca pensei numa explicação sobrenatural. Tive que parar e procurar entender o que tinha acontecido”.

Insensíveis, os cientistas? Em outubro de 1946, mais de um ano após a morte de Arline, Feynman escreveu-lhe uma carta, que foi encontrada entre os papéis dele após sua morte em 1988. Ele dizia: “Querida, eu adoro você. Há muito tempo não lhe escrevo, mas você vai me perdoar porque sabe que eu sou assim, teimoso e realista. Achei que não havia sentido em lhe escrever. Mas agora eu sei que preciso fazer isto, fazer o que demorei tanto: dizer que te amo. É difícil entender, com a minha mente, o que significa amar alguém depois de morta. Mas eu ainda quero lhe confortar, tomar conta de você. E quero que você me ame e tome conta de mim. Quero ter problemas para poder discuti-los com você; quero que a gente faça planos juntos. Planos de aprender a costurar nossas próprias roupas, ou de aprender chinês, ou comprar um projetor de cinema. Será que posso fazer isto? Não. Estou sozinho, sem você que era a instigadora de todas as nossas aventuras malucas. (...) Você é tudo que me restou. Você é real. Minha esposa querida, eu adoro você. Eu amo minha esposa. Minha esposa está morta.” A carta, que ele nunca mostrou a ninguém, tinha a aparência de ter sido muitas vezes manuseada e relida ao longo daqueles 42 anos.

Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo


domingo, 15 de abril de 2012

Desgaste e passagem*

Bonsai

Construímos - criamos, elaboramos, fabricamos... - e depois mantemos - conservamos, guardamos, sustentamos... Nossa capacidade criadora e técnica nos permite produzir objetos e estruturas, muitos dos quais duram mais que a nossa própria vida: casas e cidades, livros e esculturas, pontes e estradas. Pois bem, sabendo, como sabemos, que tudo isso que produzimos também está submetido ao desgaste, procuramos conservá-lo e cuidá-lo. O fato de algumas coisas que produzimos durarem mais do que nós, leva-nos, de certo modo, a nos projetarmos nelas e a nos identificarmos com elas. Por meio delas sobrevivemos a nós mesmos. Com nossas obras resistimos parcialmente à implacável passagem do tempo. Elas são nossa pequena e passageira vitória sobre o tempo destruidor.

Nossas obras são como nosso refúgio, onde nos abrigamos um pouco para que a passagem do tempo não nos prejudique em demasia. Para me referir a essa dimensão da condição humana uso os termos cosmicidade e capacidade cosmopoiética. Nossa destreza técnica (agrícola, industrial, "tecnológica" (...) nos permite enfrentar o desgaste e as ameaças de destruição. Quando a habilidade técnica está a serviço da construção e não da destruição, procurando o progresso da ordem e não do caos, pode-se falar de cosmopoiesis (que literalmente significa "capacidade de produzir cosmicidade, ordem, harmonia"). Nesse sentido, cabe dizer que o homo faber - o homem capaz de fabricar e construir - é a expressão do homem cósmico.

Todos os ordenamentos e arranjos que nós os homens realizamos - todas as nossas obras - estão sempre ameaçadas de destruição e desaparecimento, e esta ameaça mais tarde ou mais cedo acabará se cumprindo. Então, embora às vezes com data de decadência e extinção mais longínqua, todas as nossas obras têm o mesmo destino nosso. A criação técnica e o desaparecimento de culturas e de seus artefatos são também indissociáveis como a vida e a morte. A passagem do tempo - a própria essência da realidade - implica decadência, ameaça e desgaste, aos quais nós tratamos de resistir criando, cuidando, vigiando. Mas com a passagem do tempo tudo acaba caindo, desmoronando, se convertendo em pó.

Assim sendo, por que motivo nós, os seres humanos, nos esforçamos para continuar construindo e ordenando, se sobre todas as nossas obras pesa, no final das contas, uma ameaça fatal? Uma primeira resposta é óbvia: criamos, construímos e depois nos esforçamos para conservar o que fizemos porque, enquanto contarmos com nossas obras, podemos obter frutos delas - a vinha dá uvas e estas dão vinho; os caminhos comunicam os povos entre si; as instituições oferecem identidade, coesão, serviços... Uma segunda resposta: mesmo prescindindo de sua utilidade e de seu serviço, a harmonia e a ordem são motivos de gozo e satisfação - a pessoa se sente bem quando limpou e arrumou a casa ou o escritório ou a oficina. Terceira resposta: ocasionalmente, por trás da realização de nossas obras, que têm todas como destino último o nada, pulsam o desejo e a esperança de alcançar algum tipo de ordem não ameaçada pela passagem do tempo - às vezes, no fundo de nossas obras, necessariamente submetidas ao desgaste e à ameaça de destruição, palpita um desejo de "eternidade".


Josep. M. Esquirol. in. O respirar dos dias. Ed. Autêntica, 2010, pp. 32-34.


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Versos a um coveiro*


Numerar sepulturas e carneiros,
Reduzir carnes podres a algarismos,
Tal é, sem complicados silogismos,
A aritmética dos coveiros!

Um, dois, três, quatro, cinco... Esoterismos
Da Morte! E eu vejo, em fúlgidos letreiros,
Na progressão dos números inteiros
A gênese de todos os abismos!

Oh! Pitágoras da última aritmética,
Continua a contar na paz ascética
Dos tábidos carneiros sepulcrais

Tíbias, cérebros, crânios, rádios e úmeros,
Porque, infinita como os próprios números,
A tua conta não acaba mais!


Augusto dos Anjos. in. Toda a Poesia. Ed. Paz e Terra, 1976, p. 171.


Retrato de família na Jordânia*



Num dia do ano de 1998, Yasmin Abdullah entrou em casa chorando. Só atinava dizer e repetir:

- Não sou mais uma menina.

Tinha ido visitar a irmã mais velha.

Foi violada pelo cunhado.

Yasmin foi parar no cárcere de Jweidah, até que o pai tirou-a de lá comprometendo-se a cuidar dela e pagando a fiança correspondente.

Naquela altura, o pai, a mãe, os tios e setecentos vizinhos tinham decidido, em assembleia, que a honra da família devia ser lavada com sangue.

Yasmin tinha dezesseis anos.

Seu irmão, Sarhan, meteu-lhe quatro balas na cabeça.

Sarhan passou seis meses na prisão. Foi tratado como herói.

Também foram tratados como heróis outros vinte e sete homens presos por casos semelhantes.

De cada quatro crimes cometidos na Jordânia, um é crime de honra.



Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009, pp. 293-294.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Consciência da morte*


"Anjos", representação da morte infantil no Brasil dos oitocentos


Sabemos que a morte faz parte da vida e que nascer é começar a morrer (não conhecemos outra forma de vida senão a finita, a que se acaba...); sabemos que o ser humano é mortal, que todos havemos de morrer e que disso ninguém escapa. Não sabemos qual será a nossa hora nem se o fato de morrer é um ponto final absoluto. Tememos, por um lado, o sofrimento que eventualmente pode preceder a morte, e, por outro lado, tememos, com outra espécie de temor, que com a morte tudo se acabe para nós; nos angustia a ideia de uma aniquilação definitiva.

Sabemos, pois, que a morte não é um problema ou obstáculo - eventualmente superável -, mas sim uma condição. Essa condição nos é revelada, em parte, pela efemeridade. É óbvio que não há remédio que funcione contra a morte, e tampouco a saúde é esse remédio. Esse conhecimento nos acompanha por toda a vida e, inclusive quando se pretende mantê-lo em voluntário esquecimento, nos segue qual sombra sussurrante.

A consciência da morte dá motivo para a afirmação de que só o homem morre. Ainda que  normalmente expliquemos o contraste entre o inanimado, que passa, se desgasta, se destrói, desaparece, e o vivo, que morre, também se poderia dizer com uma certa propriedade que só o homem morre, já que só ele é consciente do morrer: a planta murcha, o animal expira, o homem morre. Sua vida está configurada pela consciência de sua mortalidade. As plantas e os animais também "morrem", porém não são conscientes disso; são finitos, mas ignoram sua finitude.


Josep. M. Esquirol. in. O respirar dos dias, Ed. Autêntica, 2010, p. 102.


domingo, 25 de março de 2012

O tempo que nos resta*



Há um simples e precioso conselho, exemplo de sabedoria prática, na Regra que escreveu São Benedito para seus monges: “Fazes as pazes antes do por do sol...” Fazer as pazes pode ser perdoar, desculpar-se, entender-se, falar-se, dar-se a mão, abraçar-se ou dedicar um simples olhar benévolo. Fazer as pazes também é uma maneira de dar tempo ao outro. Como convivência entre as pessoas nem sempre é fácil e cômoda, podendo haver mal-entendidos, erros, ofensas, invejas, cuidados e diversas desavenças, deve-se procurar agir de maneiras que permitam continuar convivendo; uma dessas maneiras de agir é fazer as pazes.

Mas, segundo São Benedito, é oportuno fazer esse gesto antes que o sol se ponha, ou seja, antes que o dia acabe; evidência que nunca deveríamos esquecer: que o dia acaba, que a vida humana e seu tempo são finitos. A expressão mais inequívoca de tal finitude é a mortalidade, e, provavelmente, a característica que mais define a nossa condição é que somos conscientes de nossa mortalidade. Somos ou teríamos de sê-lo, já que, às vezes, por efeito de diversas espécies de anestésicos, vivemos e fazemos as coisas como se isso houvesse de durar para sempre. Assim pois, o bom conselho beneditino, além de deixar clara nossa capacidade de amar o próximo, é também uma maneira de manter desperta a consciência de nossa condição finita e mortal.

Há, todavia, outro aspecto que merece ser destacado: a partir de um ponto de vista tanto individual como coletivo, saber que o tempo não se amplia indefinidamente, e sim que tudo chega ao fim, nos torna mais responsáveis. Certamente temos de responder pelo que está em nossas mãos enquanto ainda temos tempo. Apenas à primeira vista isso pode parecer um pouco chocante, mas logo depois se descobre sua lógica: quando sabemos que não temos todo o tempo do mundo, e sim um tempo limitado, é que decidimos fazer o esforço. A consciência da finitude leva à ação.

Paradoxalmente, é quando há previsões a curto e médio prazo que o alarme dispara e se começa a estar disposto a fazer alguma coisa. Poderíamos apresentar um sem número de exemplos e situações sociais nas quais não se agiu até que o mal já fosse iminente. Em muitos desses casos já não se pode evitar a desgraça. Ou seja, não se agiu (não se fizeram as pazes) quando realmente fazia falta (antes do pôr do sol). Contudo, “melhor tarde do que nunca”..., sempre se pode ter a sorte de acabar salvando alguma coisa.


[fragmento]


Josep M. Esquirol. in. O respirar dos dias, Ed. autêntica, 2010, pp. 99-100.


sexta-feira, 23 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Morte*



Por Alcenor Candeira Filho



por que te chamam a megera fria
ou das trevas a eterna namorada
ou a amante de garras assassinas
ou a ignorada das ignoradas?

por que do além à voz inaudível
que nos silêncios da cova ecoa
como macabro som inconfundível
se dobram todas as vítimas próximas?

os que te chama a infalível musa
por que adoram adornar-te com flores
as nebulosas e sinistras formas?

o que procuram na invisível luz
os que te chamam a consoladora
se não és mais que candelabro d´ossos?


in. Seleta em verso e prosa. Ed. Sieart, 2010, p. 181.


terça-feira, 6 de março de 2012

Oração por Marilyn Monroe*




Senhor,
recebe a esta moça conhecida em toda parte pelo nome de Marilyn Monroe, mesmo que esse não fosse seu verdadeiro nome (mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã violada aos 9 anos e da empregadinha de loja que aos 16 anos já queria se matar) e que agora se apresenta diante de Ti sem maquiagem sem um agente de imprensa sem fotógrafos e sem dar autógrafos, solitária como um astronauta diante da noite espacial.

[fragmento]


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