Na selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se olharam com curiosidade. Era estranho o que tinham entre as pernas.
- Te cortaram? Perguntou o homem.
- Não - disse ela. - Sempre fui assim.
Ele examinou-a de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga aberta.
Disse:
- Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se abra ao amadurecer. Eu te curarei. Deita na rede e descansa.
Ela obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus de ervas e se deixou aplicar as pomadas e os unguentos. Tinha de apertar os dentes para não rir, quando ele dizia:
- Não te preocupes.
Ela gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de viver em jejum, estendida em uma rede. A memória das frutas enchia sua boca de água.
Uma tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava saltos de euforia e gritava:
- Encontrei! Encontrei!
Acabava de ver o macaco curando a macaca na copa de uma árvore.
É assim - disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando acabou o longo abraço, um aroma espesso, de flores e frutas, invadiu o ar. Dos corpos, que jaziam juntos, se desprendiam vapores e fulgores jamais vistos, e era tanta formosura que os sóis e os deuses morriam de tanta vergonha.
Eduardo Galeano in. Mulheres.Ed. l&pm, 2007, pp. 07-08.
Asliberalas,que eram
chamadas desse jeito pelos policiais de Cádiz, conspiravam em código.
De suas avós andaluzas
tinham aprendido a linguagem secreta do leque, que servia tanto para
desobedecer ao marido como ao rei: aqueles lentos movimentos e súbitas
acelerações, aquelas ondulações, aquele bater de asas.
Se as damas afastavam os
cabelos da testa com o leque fechado, diziam:não
me esqueça.
Se escondiam os olhos atrás
do leque aberto:te amo.
Se abriam o leque sobre os
lábios:me beija.
Se apoiavam os lábios sobre
o leque fechado:não confio.
Se com um dedo roçavam as
varetinhas:precisamos
conversar.
Se abanando-se chegavam
perto da varanda:nos vemos lá
fora.
Se fechavam o leque ao
chegar:hoje não posso sair.
Se era com a mão esquerda
que se abanavam:não acredite
nisso.
Eduardo Galeano. “Leques” in. Espelhos. Ed. l&pm2009,
p.182.
Mais do que contabilizar os números trágicos da
violência urbana e/ou da onda de medo pulverizada pela mídia, precisamos de
poesia, mesmo que seja para constatar o presente. Leia abaixo algo que W.
Bonner poderia "noticiar" no seu JN.
Provisoriamente não
cantaremos o amor,
que se refugiou mais
abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que
esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio,
porque este não existe,
existe apenas o medo,
nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos
sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o
medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos
ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da
morte e o medo de depois da morte.
Depois morreremos de
medo
e sobre nossos túmulos
nascerão flores amarelas e medrosas.
Carlos Drummond de
Andrade in. “Obra completa” Ed. José
Aguilar, 1967, p.105.
Por que gostamos do outro? Convivemos,
cotidianamente. Quando nos sentimos isolados alguma coisa parece quebrada. O
silêncio faz bem, traz sossego, mas é importante não diluir as sociabilidades.
Não gostamos de todo mundo. Seria impossível. Há pessoas que desmancham
prazeres com ironias e arrogâncias. Freud explica. Posso ser simpático para
muitos companheiros, sem agradar aos que estão próximos no trabalho. É difícil
calcular a medida. O que atrai o afeto, o que deixa seguro, o que nos encanta?
Construir uma classificação de valores é tarefa inútil. Não dispensamos,
contudo, as diferenças. Não é a proximidade e o cuidado que, fatalmente, nos
farão felizes.
Muita gente no mundo não tem solucionado o problema
da solidão. As moradias estreitas, sem ares de aconchego, incomodam. As ruas
cheias de ruídos, agressividades gratuitas, irritam. A arte do encontro é
repleta de energias indecifráveis. Há amizades que se desfazem depois de anos,
sem guardar vestígios. Há paixões que duram uma semana e alteram o cotidiano
radicalmente. O sentimento não descansa. É preciso não anular as atenções,
falar com estranhos, viajar por territórios desconhecidos. Prolongar o amor é o
desejo da maioria. No entanto, o descartável é feroz. Não está, apenas, no
consumo, segue pela história.
Somos
animais sociais. Não vejo como duvidar disso. Por que as escolhas, por que uns
desagradem, outros enternecem? Mesmo nas redes sociais, onde a virtualidade
prospera, não fugimos das buscas. Não curtimos tudo ou exercemos o
compartilhamento com apenas certas figuras. Há grupos fechados, antipatias
implícitas, má vontade em responder. A multiplicidade de ações é
incomensurável. Mas navegar nofacebooké prova de que a sociabilidade possui
outras atmosferas. Somos surpreendidos por reações. Muitas vezes, desistimos de
persistir com diálogos. Não tem razão cartesiana que esgote as ansiedades que
surgem nos momentos de dúvida.
Cada sociedade cultiva seus hábitos. Eles têm mudado
com a velocidade da tecnologia. Ninguém consegue se esconder dos estragos que
fazem um telefone celular ou alguém que estica sua curiosidade nos papos pela
internet. Os interesses variam. Os telefones fixos perderam sua soberania.
Pesam, servem como peças de ornamentação. Não vendo as imagens dos amigos
virtuais atiçamos desejos e idealizações. Muitos planejam casamentos, tardes em
cafés, abraços envolventes, soluções imediatas para o desconforto
afetivo. Não faltam decepções. Elas ocorrem, pois não há milagres, nem códigos que
nos salvem de tudo.
Os desenganos não acabam com as tentativas. Quem
conhece outras alternativas sente nostalgias do escurinho do cinema, joga
fora a tristeza, volta para aventuras mais antigas. Quem está entrando nas
novidades com ares sedutores pode escorregar e maldizer a inexperiência. A vida
não perde seu ritmo de jogo, pois é preciso abalar a mesmice, arriscar.
Reservar-se sempre ou considerar-se senhor das verdades afasta redefinições,
firma esconderijos melancólicos. As perdas estão nas regras do jogo, como a
leveza no voo do tapete mágico. Não adiantar excessos. Eles agitam
incertezas. O bom é o gostar que chega, sem muita vacilações, acariciado pelo
inesperado. Muita objetividade é sinal de desamores mascarados.
Não
havia escapatória. Entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina
adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como sua mãe a
tinha parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre
com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la
da beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha
sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os
pêlos incipientes de seu púbis. Haviam cacheado seus cabelos e tinha nas unhas
das mãos e dos pés um esmalte natural, mas a pele cor de melaço parecia áspera
e maltratada. Os seios recém-nascidos ainda pareciam de menino, mas viam-se
urgidos por uma energia secreta a ponto de explodir. O melhor de seu corpo eram
os pés grandes de passos sigilosos com dedos longos e sensíveis como se fossem
de outras mãos. Estava ensopada num suor fosforescente apesar do ventilador, e
o calor se tornava insuportável à medida que a noite avançava. Era impossível
imaginar como seria a cara lambuzada de cores, a espessa crosta de pó-de-arroz
com dois remendos de carmim nas bochechas, as pestanas postiças, as
sobrancelhas e pálpebras que pareciam pintadas com tição, e os lábios aumentados
com um verniz de chocolate. Mas nem os trapos nem as tinturas eram suficientes
para dissimular seu gênio: o nariz altivo, as sobrancelhas encontradas, os
lábios intensos. Pensei: Um meigo touro de briga.
Às
onze fui aos meus assuntos de rotina no banheiro, onde estava sua roupa de
pobre dobrada sobre uma cadeira com um esmero de rica: um vestido de
algodãozinho barato com borboletas estampadas, umas calcinhas amarelas de chita
e umas sandálias de corda trançada. Em cima da roupa havia uma pulseira de
miçanga e uma correntinha muito fina com a medalha da Virgem. Na beira da pia,
uma bolsinha de mão com um batom, um estojo de ruge, uma chave e umas moedas
soltas. Tudo tão barato e envilecido pelo uso que não consegui imaginar ninguém
tão pobre como ela.
Me
despi e dispus as peças de roupa do melhor jeito que pude no cabide para não
estropiar a seda da camisa e o linho bem-passado. Urinei na privada sentado e
como me ensinou, desde menino, Florina de Dios, para que não molhasse a beira
do vaso, e ainda, modéstia à parte, com um jorro imediato e contínuo de potro
bravio. Antes de sair cheguei perto do espelho da pia. O cavalo que me olhou do
outro lado não estava morto mas lúgubre, e tinha uma papada de Papa, as
pálpebras inchadas, e mirradas as crinas que haviam sido minha melena de músico.
—
Merda — eu disse a ele —, o que é que eu posso fazer se você não gosta de mim?
Tratando
de não despertá-la, sentei-me nu na cama com os olhos já acostumados aos enganos
de luz avermelhada, e revisei-a palmo a palmo. Deslizei a ponta do dedo
indicador ao longo de sua nuca empapada e ela inteira estremeceu por dentro
como um acorde de harpa, virou-se para mim com um grunhido e me envolveu no
clima de seu hálito ácido. Apertei seu nariz com o polegar e o indicador, e ela
se sacudiu, afastou a cabeça e me deu as costas sem despertar. Tentei separar
suas pernas com meu joelho por causa de uma tentação imprevista. Nas duas
primeiras tentativas ela se opôs com as coxas tensas. Cantei em seu ouvido: A
cama de Delgadina de anjos está rodeada.
Relaxou um pouco. Uma corrente cálida subiu pelas minhas veias, e meu lento
animal aposentado despertou de seu longo sono.
Delgadina,
minha alma, supliquei ansioso. Delgadina. Lançou um gemido lúgubre, escapou de
minhas coxas, me deu as costas e enroscou-se como um caracol em sua concha. A
poção de valeriana deve ser tão eficaz para mim como para ela, porque não
aconteceu nada, nem com ela nem com ninguém. Mas não me importei. Perguntei-me
de que adiantaria despertá-la, humilhado e triste do jeito que me sentia, e
frio que nem uma pescada amarela.
Nítidas,
inelutáveis, soaram então as badaladas das doze da noite, e começou a madrugada
do 29 de agosto, dia do Martírio de São João Batista. Alguém chorava aos gritos
na rua e ninguém dava confiança. Rezei por ele, se fizesse falta, e também por
mim, em ação de graças pelos benefícios recebidos: Que ninguém se engane, não, pensando que o que espera haverá de durar
mais do que durou o que viu. A menina gemeu em sonhos, e também rezei por
ela: Pois eis que tudo haverá de passar
dessa maneira. Depois apaguei o rádio e a luz para dormir.
Acordei
de madrugada sem me lembrar onde estava. A menina continuava dormindo de costas
para mim em posição fetal. Tive a sensação indefinida de que havia sentido a
maneira como ela se levantava na escuridão e de ter ouvido a descarga do
banheiro, mas bem que podia ter sido um sonho. Foi algo novo para mim. Ignorava
as manhas da sedução e sempre tinha escolhido ao acaso as noivas de uma noite,
mais pelo preço que pelos encantos, e fazíamos amores sem amor, meio vestidos
na maior parte das vezes e sempre na escuridão para imaginar-nos melhores.
Naquela noite descobri o prazer inverossímil de contemplar, sem as angústias do
desejo e os estorvos do pudor, o corpo de uma mulher adormecida.
Levantei-me
às cinco, inquieto porque minha crônica dominical deveria estar na mesa da redação
antes do meio-dia. Fiz minha deposição pontual, ainda com os ardores da lua
cheia, e quando soltei a corrente da água senti que meus rancores do passado
foram-se embora pelos canos. Quando voltei fresco e vestido ao dormitório, a
menina dormia de barriga para cima na luz conciliadora do amanhecer,
atravessada lado a lado na cama, com os braços abertos em cruz e dona absoluta
da sua virgindade. Que Deus a conserve, disse a ela. Todo dinheiro que me
sobrava, o dela e o meu, pus no travesseiro, e me despedi para sempre e nunca
mais com um beijo em sua testa. A casa, como todo bordel ao amanhecer, era a
coisa mais parecida com o paraíso. Saí pelo portão do pomar para não encontrar
ninguém. Debaixo do sol abrasador da rua comecei a sentir o peso dos meus
noventa anos, e a contar minuto a minuto os minutos das noites que me faltavam
para morrer.
Gabriel
García Marques in. “Memória de minhas putas tristes” Ed. Record, 2005, pp. 31–36.
A
obra de Julio Verne foi a primeira a misturar com sucesso o conceito de
aventuras geográficas e o de especulação científico-tecnológica. Outros o
tentaram antes; nenhum o conseguiu com tal brilhantismo, nem provocou impacto
tão duradouro. As “viagens extraordinárias” de Verne são lidas com fervor por
garotos adolescentes e, mesmo que venham depois a ser esnobadas, e trocadas
pelos inevitáveis Balzac ou Flaubert (para ficarmos apenas nas letras
francesas), a impressão que deixam é profunda.
Verne encarnou um curioso aspecto dualista da aventura colonial. Por um lado,
as nações européias dedicaram todo o século 19 à descoberta, conquista e
exploração dos recantos mais remotos do mundo. Os europeus desse tempo pareciam
imbuídos duma fascinação pelo exótico, pelo misterioso, pelo desconhecido. Era
um tal de embrenhar-se na selva, escalar as cordilheiras, cruzar os desertos,
navegar para além do crepúsculo... O romance de aventuras, como gênero
literário, nasceu nesse tempo. Surgiram escritores capazes de infundir beleza,
poesia e excitação à Aventura – uma atividade que, vamos e venhamos, consistia
apenas em fazer imensos esforços físicos, passar por privações, e correr perigo
de vida.
Muitos o fizeram pela ambição do enriquecimento, alguns por interesse
científico, outros por achar que era aquilo que a Pátria esperava deles. Mas o
romance de aventuras (Verne inclusive) nasceu da noção de que era belo e
excitante ir em busca do desconhecido. Era a atração do mistério que os levava
à nascente do Congo, à jângal de Bornéu ou às geleiras do Polo.
O que impelia esses aventureiros, no entanto, era um impulso inverso ao sonho
que aparentemente os motivava. O que aguçava essa fome de mistério era
justamente a ansiedade que a civilização burguesa e tecnológica experimenta
diante do mistério, do desconhecido, do imprevisível, do imponderável. Para
essa sociedade (que hoje vive nos EUA sua mais recente mutação: o Complexo
Industrial-Militar insuflado pelo espírito conservador e expansionista do Evangelismo
de Direita) todo mistério é perigoso. Tudo precisa ser sabido, tudo deve ser
quantificado e registrado, para que fique sob vigilância e controle, e não
possa vir a ser uma ameaça. Ela ama o mistério como o caçador ama a caça que
sonha em abater.
É irônico que os grandes aventureiros sejam também os grandes coveiros da
aventura. Porque tudo que descobrem eles entregam de mão beijada ao espírito
anexador da sociedade burguesa. Assim como a grama não mais crescia por onde
passava Átila, o rei dos hunos, por onde passam os grandes aventureiros e
exploradores o mistério vai deixando de existir. Verne foi um escritor de
aventuras que recuava cautelosamente diante do fantástico, diante do misterioso
e do inexplicável. Seus heróis percorrem todo o globo terrestre atraídos pelo
mistério, mas é para extinguir esse mistério que arriscam suas vidas.
Num
dia, há vida. Um homem, por exemplo, em perfeita saúde, nem sequer é velho, sem
nenhum histórico de doenças. Tudo é como era, e sempre será. Ele segue de um
dia para o outro, cuidando das suas coisas, sonhando apenas com a vida que se
estende à sua frente. E então, de repente, acontece que há morte. Um homem
solta um pequeno suspiro, tomba da cadeira, e é a morte. O inesperado da coisa
não deixa espaço para nenhum pensamento, não dá nenhuma chance para a mente
procurar uma palavra capaz de consolar. Somos deixados sem nada a não ser a
morte, o fato irredutível de nossa própria mortalidade. A morte após uma longa
doença é algo que poderíamos aceitar com alguma resignação. Mesmo a morte
acidental podemos atribuir ao destino. Mas um homem morrer sem nenhuma causa
aparente, um homem morrer apenas porque é um homem, nos leva para tão perto da
fronteira invisível entre a vida e a morte que não sabemos mais de que lado
estamos. A vida se transforma em morte e é como se essa morte tivesse possuído
essa vida o tempo todo. Morte sem aviso. Em outras palavras: a vida pára. E pode parar a qualquer momento.
Paul
Auster in. “A Invenção da Solidão”. Ed. Companhia das Letras, 1999, p. 11.
No dia 1º de novembro de 1922 o Brasil perdia um dos
seus maiores escritores. Morria aos 41 anos de idade, na Rua Major Mascarenhas,
nº 46, no bairro de Todos os Santos, subúrbio do Rio de Janeiro, o romancista e
jornalista Afonso Henriques de Lima Barreto. Coincidentemente, era dia de Todos
os Santos. Lima Barreto morreu na sua modesta residência, que ele tinha o
costume de chamar de “Vila Quilombo” para contrapor ao bairro de Copacabana.
Oriundo de uma família humilde, Lima Barreto nasceu
no dia 13 de maio de 1881, na cidade do Rio de Janeiro. Quando completou sete
anos, no ano de 1888, acompanhou atento as festividades em comemoração à
libertação dos escravos. Mal sabia ele que passaria por muitos reveses por
conta de sua cor, pois, como era mulato, muito cedo saberia que esta condição
seria a razão do preconceito que sofreria na sua trajetória.
Lima Barreto ingressou no
jornalismo profissional em 1905, no jornalCorreio da Manhã, produzindo diversas
reportagens. Apesar da morte prematura, foi na literatura que o escritor deixou
a sua marca conhecida: o embate com os donos do poder. A estreia como escritor
ocorreu em 1909, com o livroAsRecordações do Escrivão Isaias Caminha,
obra que denunciava o papel da grande imprensa na estrutura do poder e os
bastidores da redação de um grande jornal da época. O livro abordou o mundo das
notícias manipuladas, os elogios encomendados, as projeções dos falsos heróis e
as bajulações dos poderosos e revelou ainda o visível preconceito contra os
negros na sociedade brasileira.
“É triste não ser
branco”
Combativo em denunciar as mazelas sociais e o
racismo no país. Assim era Lima Barreto. Passados noventa anos de sua ausência,
muitos foram os avanços na luta contra a “engenhosa artimanha” do racismo
brasileiro que se mostra persistente, dissimulado, hipócrita e cínico,
adjetivos que o tornam, até os dias de hoje, difícil de ser combatido.
Apesar dos esforços da
grande imprensa, que tem atuado como tropa de choque na defesa dostatus
quodo grupo que
sempre se beneficiou com a marginalização e exclusão dos negros no processo de
distribuição da renda no país, o Estado brasileiro, reconhecendo que há racismo
de fato, vem implementando políticas de ações afirmativas voltadas,
particularmente, para a inclusão da população negra. Essas políticas, ainda que
tardias, visam a concluir um processo que se iniciou com o testemunho de Lima
Barreto em 13 de maio de 1888 e que só agora tem sua continuidade. Em 1888, o
Estado brasileiro não concedeu aos negros o direito à cidadania brasileira.
A negação dessa cidadania
encontra explicação no desabafo de Lima Barreto em seuDiário
íntimo: “É triste não ser branco.”
Eu quero um homem que...
1. Seja lindo,
2. Encantador,
3. Financeiramente estável,
4. Um bom ouvinte,
5. Divertido,
6. Em boa forma física,
7. Se vista bem,
8. Aprecie as coisas mais finas,
9. Faça muitas surpresas agradáveis,
10. Seja um amante criativo e romântico.
Lista
Revisada aos 32 Anos
Eu quero um homem que...
1. Seja bonitinho,
2. Abra a porta do carro
3 Tenha dinheiro suficiente para jantar fora com certa frequência
4. Ouça mais do que fale,
5. Ria das minhas piadas,
6. Carregue as sacolas do mercado com facilidade,
7. Tenha no mínimo uma gravata,
8. Lembre de aniversários e datas especiais,
9. Procure romance pelo menos uma vez por semana.
Lista
Revisada aos 42 Anos
Eu quero um homem que...
1. Não seja muito feio,
2. Espere eu me sentar no carro antes de começar a acelerar,
3. Tenha um emprego fixo
4. Balance a cabeça enquanto eu falo,
5. Esteja em forma ao menos para mudar a mobília de lugar,
6. Use camisetas que cubram sua barriga,
7. Não compre cidra achando que é champagne,
8. Se lembre de abaixar a tampa da privada
Lista
Revisada aos 52 Anos
Eu quero um homem que...
1. Corte os pelos do nariz e das orelhas,
2. Não coce o saco nem cuspa em público,
3. Não sustente as irmãs, nem as filhas do primeiro casamento
4. Não balance a cabeça até dormir enquanto eu estou reclamando,
5. Não conte a mesma piada o tempo todo.
Lista
Revisada aos 62 Anos
Eu quero um homem que...
1. Não assuste as crianças pequenas,
2. Ronque bem baixinho quando dorme,
3. Esteja em forma suficiente para ficar de pé sozinho,
4. Use cueca e meias limpas
Lista
Revisada aos 72 Anos
Eu quero um homem que...
1. Respire,
2. Lembre onde deixou seus dentes
Lista
Revisada aos 88 Anos
Eu quero um homem que...
1. O que é um homem, mesmo?
Vejoaqui,
em reportagem de Isabela Barros para oUOL,
respeitáveis especialistas, gente da USP etc, tratando da dificuldade que o macho
tem para terminar as relações.
E ponha
dificuldade nisso. E bote enrolação e nove-horas.
É isso mesmo.
Homem é frouxo, só usa vírgula, no máximo um ponto e virgula; jamais um ponto
final.
Sim, o
amor acaba, como sentenciou a mais bela das crônicas de Paulo Mendes Campos:
“Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e
silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde
começou a pulsar…”
Acaba, mas só as
mulheres têm a coragem de pingar o ponto da caneta-tinteiro do amor. E pronto.
Às vezes com três exclamações, como nas manchetes sangrentas de antigamente.
Sem reticências…
Mesmo, em
algumas ocasiões, contra a vontade. Sábias, sabem que não faz sentido
prorrogação, os pênaltis, deixar o destino decidir na morte súbita.
O homem até cria
motivos a mais para que a mulher diga basta, chega, é o fim!!!
O macho pode até
sair para comprar cigarro na esquina e nunca mais voltar. E sair por ai dando
baforadas aflitas no king-size do abandono, no Continental sem filtro da
covardia e do desamor.
Mulher se acaba,
mas diz na lata, sem metáforas.
Melhor mesmo
para os dois lados, é que haja o maior barraco. Um quebra-quebra miserável,
celular contra a parede, controle remoto no teto, óculos na maré, acusações
mútuas, o diabo-a-quatro.
O amor, se é
amor, não se acaba de forma civilizada.
Nem no Crato…nem
na Suécia.
Se ama de
verdade, nem o mais frio dos esquimós consegue escrever o “the end” sem uma
quebradeira monstruosa.
Fim de amor sem
baixarias é o atestado, com reconhecimento de firma e carimbo do cartório, de
que o amor ali não mais estava.
O mais frio, o
mais “cool” dos ingleses estrebucha e fura o disco dos Smiths, I Am Human, sim,
demasiadamente humano esse barraco sem fim.
O que não pode é
sair por ai assobiando, camisa aberta, relax, chutando as tampinhas da
indiferença para dentro dos bueiros das calçadas e do tempo.
O fim do amor
exige uma viuvez, um luto, não pode simplesmente pular o muro do reino da
Carençolândia para exilar-se, com mala e cuia, com a primeira criatura ou com o
primeiro traste que aparece pela frente.
Eu sou uma contadora de histórias e
gostaria de contar a vocês algumas histórias pessoais sobre o que eu gosto de
chamar “o perigo de uma história única”.
Eu cresci num campus universitário no
leste da Nigéria. Minha mãe diz que eu comecei a ler com 2 anos, mas eu acho
que 4 é provavelmente mais próximo da verdade.
Então, eu fui uma leitora precoce. E
o que eu lia eram livros infantis britânicos e americanos. Eu fui também uma
escritora precoce. E quando comecei a escrever, por volta dos 7 anos, histórias
com ilustrações em giz de cera, que minha pobre mãe era obrigada a ler, eu
escrevia exatamente os tipos de histórias que eu lia. Todos os meus personagens
eram brancos de olhos azuis. Eles brincavam na neve. Comiam maçãs. E eles
falavam muito sobre o tempo, em como era maravilhoso o sol ter aparecido.
Agora, apesar do fato que eu morava na Nigéria. Eu nunca havia estado fora da
Nigéria. Nós não tínhamos neve, nós comíamos mangas. E nós nunca falávamos
sobre o tempo porque não era necessário.
Meus personagens também bebiam muita
cerveja de gengibre porque as personagens dos livros britânicos que eu lia
bebiam cerveja de gengibre. Não importava que eu não tinha a mínima ideia do
que era cerveja de gengibre. E por muitos anos depois, eu desejei
desesperadamente experimentar cerveja de gengibre. Mas isso é uma outra
história.
A meu ver, o que isso demonstra é
como nós somos impressionáveis e vulneráveis face a uma história,
principalmente quando somos crianças. Porque tudo que eu havia lido eram livros
nos quais as personagens eram estrangeiras, eu convenci-me de que os livros,
por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros e tinham que ser sobre
coisas com as quais eu não podia me identificar. Bem, as coisas mudaram quando
eu descobri os livros africanos. Não havia muitos disponíveis e eles não eram
tão fáceis de encontrar quanto os livros estrangeiros,
Mas devido a escritores como Chinua
Achebe e Camara Laye eu passei por uma mudança mental em minha percepção da
literatura. Eu percebi que pessoas como eu, meninas com a pele da cor de
chocolate, cujos cabelos crespos não poderiam formar rabos-de-cavalo, também
podiam existir na literatura. Eu comecei a escrever sobre coisas que eu
reconhecia.
Bem, eu amava aqueles livros
americanos e britânicos que eu lia. Eles mexiam com a minha imaginação, me
abriam novos mundos. Mas a consequência inesperada foi que eu não sabia que
pessoas como eu podiam existir na literatura. Então o que a descoberta dos
escritores africanos fez por mim foi: salvou-me de ter uma única história sobre
o que os livros são.
Eu venho de uma família nigeriana
convencional, de classe média. Meu pai era professor. Minha mãe,
administradora. Então nós tínhamos, como era normal, empregada doméstica, que
frequentemente vinha das aldeias rurais próximas. Então, quando eu fiz 8 anos,
arranjamos um novo menino para a casa. Seu nome era Fide. A única coisa que
minha mãe nos disse sobre ele foi que sua família era muito pobre. Minha mãe
enviava inhames, arroz e nossas roupas usadas para sua família. E quando eu não
comia tudo no jantar, minha mãe dizia: “Termine sua comida! Você não sabe que
pessoas como a família de Fide não tem nada?” Então eu sentia uma enorme pena
da família de Fide.
Então, um sábado, nós fomos visitar a
sua aldeia e sua mãe nos mostrou um cesto com um padrão lindo, feito de ráfia
seca por seu irmão. Eu fiquei atônita! Nunca havia pensado que alguém em sua
família pudesse realmente criar alguma coisa. Tudo que eu tinha ouvido sobre
eles era como eram pobres, assim havia se tornado impossível pra mim vê-los
como alguma coisa além de pobres. Sua pobreza era minha história única sobre
eles.
Anos mais tarde, pensei nisso quando
deixei a Nigéria para cursar universidade nos Estados Unidos. Eu tinha 19 anos.
Minha colega de quarto americana ficou chocada comigo. Ela perguntou onde eu
tinha aprendido a falar inglês tão bem e ficou confusa quando eu disse que, por
acaso, a Nigéria tinha o inglês como sua língua oficial. Ela perguntou se podia
ouvir o que ela chamou de minha “música tribal” e, consequentemente, ficou
muito desapontada quando eu toquei minha fita da Mariah Carey. (Risos) Ela
presumiu que eu não sabia como usar um fogão.
O que me impressionou foi que: ela
sentiu pena de mim antes mesmo de ter me visto. Sua posição padrão para comigo,
como uma africana, era um tipo de arrogância bem intencionada, piedade. Minha
colega de quarto tinha uma única história sobre a África. Uma única história de
catástrofe. Nessa única história não havia possibilidade de os africanos serem
iguais a ela, de jeito nenhum. Nenhuma possibilidade de sentimentos mais
complexos do que piedade. Nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos
iguais.
Eu devo dizer que antes de ir para os
Estados Unidos, eu não me identificava, conscientemente, como uma africana. Mas
nos EUA, sempre que o tema África surgia, as pessoas recorriam a mim. Não
importava que eu não sabia nada sobre lugares como a Namíbia. Mas eu acabei por
abraçar essa nova identidade. E, de muitas maneiras, agora eu penso em mim
mesma como uma africana. Entretanto, ainda fico um pouco irritada quando
referem-se à África como um país. O exemplo mais recente foi meu maravilhoso
voo dos Lagos 2 dias atrás, não fosse um anúncio de um voo da Virgin sobre o
trabalho de caridade na “Índia, África e outros países.” (Risos)
Então, após ter passado vários anos
nos EUA como uma africana, eu comecei a entender a reação de minha colega para
comigo. Se eu não tivesse crescido na Nigéria e se tudo que eu conhecesse sobre
a África viesse das imagens populares, eu também pensaria que a África era um
lugar de lindas paisagens, lindos animais e pessoas incompreensíveis, lutando
guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, incapazes de falar por eles
mesmos, e esperando serem salvos por um estrangeiro branco e gentil. Eu veria
os africanos do mesmo jeito que eu, quando criança, havia visto a família de
Fide.
Eu acho que essa única história da
África vem da literatura ocidental. Então, aqui temos uma citação de um
mercador londrino chamado John Locke, que navegou até o oeste da África em 1561
e manteve um fascinante relato de sua viagem. Após referir-se aos negros
africanos como “bestas que não tem casas”, ele escreve: “Eles também são
pessoas sem cabeças, que têm sua boca e olhos em seus seios.”
Eu rio toda vez que leio isso, e
alguém deve admirar a imaginação de John Locke. Mas o que é importante sobre
sua escrita é que ela representa o início de uma tradição de contar histórias
africanas no Ocidente. Uma tradição da África subsaariana como um lugar
negativo, de diferenças, de escuridão, de pessoas que, nas palavras do
maravilhoso poeta, Rudyard Kipling, são “metade demônio, metade criança”.
E então eu comecei a perceber que minha
colega de quarto americana deve ter, por toda sua vida, visto e ouvido
diferentes versões de uma única história. Como um professor, que uma vez me
disse que meu romance não era “autenticamente africano”. Bem, eu estava
completamente disposta a afirmar que havia uma série de coisas erradas com o
romance, que ele havia falhado em vários lugares. Mas eu nunca teria imaginado
que ele havia falhado em alcançar alguma coisa chamada autenticidade africana.
Na verdade, eu não sabia o que era “autenticidade africana”. O professor me
disse que minhas personagens pareciam-se muito com ele, um homem educado de
classe média. Minhas personagens dirigiam carros, elas não estavam famintas.
Por isso elas não eram autenticamente africanos.
Mas eu devo rapidamente acrescentar
que eu também sou culpada na questão da única história. Alguns anos atrás, eu
visitei o México saindo dos EUA. O clima político nos EUA àquela época era
tenso. E havia debates sobre imigração. E, como frequentemente acontece na
América, imigração tornou-se sinônimo de mexicanos. Havia histórias infindáveis
de mexicanos como pessoas que estavam espoliando o sistema de saúde, passando
às escondidas pela fronteira, sendo presos na fronteira, esse tipo de coisa.
Eu me lembro de andar no meu primeiro
dia por Guadalajara, vendo as pessoas indo trabalhar, enrolando tortilhas no
supermercado, fumando, rindo. Eu me lembro que meu primeiro sentimento foi
surpesa. E então eu fiquei oprimida pela vergonha. Eu percebi que eu havia
estado tão imersa na cobertura da mída sobre os mexicanos que eles haviam se
tornado uma coisa em minha mente: o imigrante abjeto. Eu tinha assimilado a
única história sobre os mexicanos e eu não podia estar mais envergonhada de mim
mesma. Então, é assim que se cria umaúnica história: mostre um povo como uma
coisa, como somente uma coisa, repetidamente, e será o que eles se tornarão.
É impossível falar sobre única
história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que
eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é
“nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro.”
Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo
princípio do “nkali”. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas
histórias são contadas, tudo realmente depende do poder.
Poder é a habilidade de não só contar
a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela
pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir
uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em
segundo lugar”. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e
não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente.
Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação
colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.
Recentemente, eu palestrei numa
universidade onde um estudante disse-me que era uma vergonha que homens
nigerianos fossem agressores físicos como a personagem do pai no meu romance.
Eu disse a ele que eu havia terminado de ler um romance chamado “Psicopata
Americano” – (Risos) – e que era uma grande pena que jovens americanos fossem
assassinos em série. (Risos) (Aplausos) É óbvio que eu disse isso num leve
ataque de irritação. (Risos)
Nunca havia me ocorrido pensar que só
porque eu havia lido um romance no qual uma personagem era um assassino em
série, que isso era, de alguma forma, representativo de todos os americanos. E
agora, isso não é porque eu sou uma pessoa melhor do que aquele estudante, mas,
devido ao poder cultural e econômico da América, eu tinha muitas histórias
sobre a América. Eu havia lido Tyler, Updike, Steinbeck e Gaitskill. Eu não
tinha uma única história sobre a América.
Quando eu soube, alguns anos atrás,
que escritores deveriam ter tido infâncias realmente infelizes para ter
sucesso, eu comecei a pensar sobre como eu poderia inventar coisas horríveis
que meus pais teriam feito comigo. Mas a verdade é que eu tive uma infância
muito feliz, cheia de risos e amor, em uma família muito unida.
Mas também tive avós que morreram em
campos de refugiados. Meu primo Polle morreu porque não teve assistência médica
adequada. Um dos meus amigos mais próximos, Okoloma, morreu num acidente aéreo
porque nossos caminhões de bombeiros não tinham água. Eu cresci sob governos
militares repressivos que desvalorizavam a educação, então, por vezes, meus
pais não recebiam seus salários. E então, ainda criança, eu vi a geleia
desaparecer do café-da-manhã, depois a margarina desapareceu, depois o pão
tornou-se muito caro, depois o leite ficou racionado. E acima de tudo, um tipo
de medo político normalizado invadiu nossas vidas.
Todas essas histórias fazem-me quem
eu sou. Mas insistir somente nessas histórias negativas é superficializar minha
experiência e negligenciar as muitas outras histórias que formaram-me. A única
história cria estereótipos. E o problema com estereótipos não é que eles sejam
mentira, mas que eles sejam incompletos. Eles fazem um história tornar-se a
única história.
Claro, África é um continente repleto
de catástrofes. Há as enormes, como as terríveis violações no Congo. E há as
depressivas, como o fato de 5.000 pessoas candidatarem-se a uma vaga de emprego
na Nigéria. Mas há outras histórias que não são sobre catástrofes. E é muito
importante, é igualmente importante, falar sobre elas.
Eu sempre achei que era impossível
relacionar-me adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem relacionar-me com
todas as histórias daquele lugar ou pessoa. A consequência de uma única
história é essa: ela rouba das pessoas sua dignidade. Faz o reconhecimento de
nossa humanidade compartilhada difícil. Enfatiza como nós somos diferentes ao
invés de como somos semelhantes.
E se antes de minha viagem ao México
eu tivesse acompanhado os debates sobre imigração de ambos os lados, dos
Estados Unidos e do México? E se minha mãe nos tivesse contado que a família de
Fide era pobre E trabalhadora? E se nós tivéssemos uma rede televisiva africana
que transmitisse diversas histórias africanas para todo o mundo? O que o
escritor nigeriano Chinua Achebe chama “um equilíbrio de histórias.”
E se minha colega de quarto soubesse
do meu editor nigeriano, Mukta Bakaray, um homem notável que deixou seu
trabalho em um banco para seguir seu sonho e começar uma editora? Bem, a
sabedoria popular era que nigerianos não gostam de literatura. Ele discordava.
Ele sentiu que pessoas que podiam ler, leriam se a literatura se tornasse
acessível e disponível para eles.
Logo após ele publicar meu primeiro
romance, eu fui a uma estação de TV em Lagos para uma entrevista. E uma mulher
que trabalhava lá como mensageira veio a mim e disse: “Eu realmente gostei do
seu romance, mas não gostei do final. Agora você tem que escrever uma
sequência, e isso é o que vai acontecer…” (Risos) E continuou a me dizer o que
escrever na sequência. Agora eu não estava apenas encantada, eu estava
comovida. Ali estava uma mulher, parte das massas comuns de nigerianos, que não
se supunham ser leitores. Ela não tinha só lido o livro, mas ela havia se
apossado dele e sentia-se no direito de me dizer o que escrever na sequência.
Agora, e se minha colega de quarto
soubesse de minha amiga Fumi Onda, uma mulher destemida que apresenta um show
de TV em Lagos, e que está determinada a contar as histórias que nós preferimos
esquecer? E se minha colega de quarto soubesse sobre a cirurgia cardíaca que
foi realizada no hospital de Lagos na semana passada? E se minha colega de
quarto soubesse sobre a música nigeriana contemporânea? Pessoas talentosas
cantando em inglês e Pidgin, e Igbo e Yoruba e Ijo, misturando influências de
Jay-Z a Fela, de Bob Marley a seus avós. E se minha colega de quarto soubesse
sobre a advogada que recentemente foi ao tribunal na Nigéria para desafiar uma
lei ridícula que exigia que as mulheres tivessem o consentimento de seus
maridos antes de renovarem seus passaportes? E se minha colega de quarto
soubesse sobre Nollywood, cheia de pessoas inovadoras fazendo filmes apesar de
grandes questões técnicas? Filmes tão populares que são realmente os melhores
exemplos de que nigerianos consomem o que produzem. E se minha colega de quarto
soubesse da minha maravilhosamente ambiciosa trançadora de cabelos, que acabou
de começar seu próprio negócio de vendas de extensões de cabelos? Ou sobre os
milhões de outros nigerianos que começam negócios e às vezes fracassam, mas
continuam a fomentar ambição?
Toda vez que estou em casa, sou
confrontada com as fontes comuns de irritação da maioria dos nigerianos: nossa
infraestrutura fracassada, nosso governo falho. Mas também pela incrível
resistência do povo que prospera apesar do governo, ao invés de devido a ele.
Eu ensino em workshops de escrita em Lagos todo verão. E é extraordinário pra
mim ver quantas pessoas se inscrevem, quantas pessoas estão ansiosas por
escrever, por contar histórias.
Meu editor nigeriano e eu começamos
uma ONG chamada Farafina Trust. E nós temos grandes sonhos de construir
bibliotecas e recuperar bibliotecas que já existem e fornecer livros para
escolas estaduais que não tem nada em suas bibliotecas, e também organizar
muitos e muitos workshops, de leitura e escrita para todas as pessoas que estão
ansiosas para contar nossas muitas histórias. Histórias importam. Muitas
histórias importam. Histórias tem sido usadas para expropriar e tornar malígno.
Mas histórias podem também ser usadas para capacitar e humanizar. Histórias
podem destruir a dignidade de um povo, mas histórias também podem reparar essa
dignidade perdida.
A escritora americana Alice Walker
escreveu isso sobre seus parentes do sul que haviam se mudado para o norte. Ela
os apresentou a um livro sobre a vida sulista que eles tinham deixado para
trás. “Eles sentaram-se em volta, lendo o livro por si próprios, ouvindo-me ler
o livro e um tipo de paraíso foi reconquistado.” Eu gostaria de finalizar com
esse pensamento: Quando nós rejeitamos uma única história, quando percebemos
que nunca há apenas uma história sobre nenhum lugar, nós reconquistamos um tipo
de paraíso. Obrigada.[sic]
Chimamanda
Adichie in. You Tube ................... Assista ao vídeo abaixo:
Muitos anos atrás, não sei
precisar quantos, deparei-me com o quadroA origem do mundo(L’Origine
du Monde, 1866) e me encantei. Nele, o francês Gustave Courbet
pinta uma vagina. Cheguei a ela desavisada e fui tomada por uma sensação
profunda de beleza. Forte o suficiente para sonhar, deste então, com a compra
de uma reprodução, um plano sempre adiado. Quando passei a trabalhar em casa,
há dois anos, desejei ainda mais ter o quadro na parede do meu escritório, onde
reúno tudo aquilo que me apaixona em um pequeno universo perfeito e só meu. No
último aniversário, em maio, meu marido me deu a reprodução de presente. Só na
semana passada, porém, o quadro chegou da vidraçaria onde fez escala para
receber moldura. Então, algo inusitado aconteceu.
Ouvi um grito:
- É o fim do mundo!
Eu estava no quarto e saí
correndo, alarmada, para ver o que tinha acontecido. Encontrei Emilia, a mulher
que limpa nossa casa uma vez por semana, com o rosto tomado por um vermelho
sanguíneo, diante deA origem do mundo, que, ainda sem lugar
na parede, jazia encostado em um armário.
- É o fim do mundo! –
gritava ela, descontrolada. – Nunca pensei ver algo assim na minha vida!
Eliane, que coisa horrível!
Meio atordoada, eu repetia:
“Não é o fim do mundo, é o começo!”. E depois, sem saber mais o que fazer para
acalmá-la, me saí com essa estupidez: “É arte!”. Como se, por ser “arte”, ela
tivesse de ter uma reação mais controlada, quando é exatamente o oposto que se
espera. Beirando o desespero diante do desespero dela que eu não conseguia
aplacar, apelei: “Mas, Emilia, metade da humanidade tem vagina – e a humanidade
inteira saiu de uma vagina! Por que você acha feio?”.
O fato é que, para Emilia,
era o fim do mundo – e não o começo. Tentei fazer piada, mas percebi que a
perturbação não viraria graça. A questão para ela era séria – e ela só não
pedia demissão porque trabalha há 12 anos comigo e temos um vínculo forte.
Naquele dia, Emilia despediu-se incomodada e passei a temer que talvez ela não
suporte olhar para o quadro a cada quinta-feira.
Por que Emilia, uma mulher
adulta, que me conta histórias escabrosas da vida real, se horrorizou com a
visão de uma vagina? Por que eu me encantei com a visão de uma vagina? Quando
vivo uma experiência de transcendência, em geral eu não quero saber sobre a
história da pintura que a produziu, porque temo perder aquilo que é só meu, a
sensação única, pessoal e íntima que tive com aquela obra. É uma escolha
possivelmente besta, mas faz sentido para mim. Por isso, eu quase nada sabia
sobre “A origem do mundo”, para além do fato de que eu a adorava. Só no ano
passado, ao ler um pequeno livro sobre um dos grandes nomes da história da
psicanálise, o francês Jacques Lacan, soube que ele foi o último dono da pintura.
Nos anos 90, sua família doou o quadro para o Museu D’Orsay, em Paris, onde
está desde então.
Graças ao estranhamento de
Emilia, transtornada que foi pela experiência artística quando se preparava
para passar o pano no chão, fui levada a um percurso inesperado. Descobri queA
origem do mundocausa
escândalo desde que foi pintada. E agora quem está horrorizada sou eu, mas pela
ausência de horror em mim diante do quadro. Por quê? Por que eu não sinto
horror? O que há de errado comigo que não sinto horror?, cheguei a me
perguntar. De repente, nossas posições, a minha e a de Emilia diante do quadro,
inverteram-se. Eu, que não compreendia o horror dela, passei a suspeitar do meu
não horror.
Eis uma breve trajetória da
obra.A origem do mundofoi
encomendada a Courbet, um pintor do realismo, por um diplomata turco chamado
Khalil-Bey. Colecionador de imagens eróticas, ele pediu um nu feminino
retratado de forma crua. E Courbet lhe entregou um par de coxas abertas, de
onde despontava uma vagina após o ato sexual. A obra teria sido instalada no
luxuoso banheiro do milionário, atrás de uma cortina que só se abria para
revelar o proibido para uns poucos escolhidos. Khalil-Bey teria perdido a
pintura em uma dívida de jogo, momento em que a tela passa a viver uma série de
peripécias.
O quadro teve vários donos
e, ao que parece, todos o escondiam atrás de uma cortina ou de uma outra
pintura. Na II Guerra Mundial, algumas versões afirmam que chegou a ser
confiscado pelos nazistas do aristocrata húngaro ao qual pertencia. Em seguida,
passou uma temporada nas mãos do Exército Vermelho. Até que, após uma
acidentada jornada, em 1954 foi comprado por Lacan e instalado na sua famosa
casa de campo.
Até mesmo Lacan, um
personagem pródigo em excentricidades e sempre disposto a chocar as
suscetibilidades alheias, ocultava o quadro com uma outra pintura, encomendada
ao pintor surrealista André Masson com esse objetivo. Como uma porta de correr,
esse “véu” retratava uma vagina tão abstrata que só um olhar atento a
adivinhava. Apenas visitantes especiais ganhavam o direito de desvelar e
acessar a vagina “real”. Segundo Elisabeth Roudinesco, a biógrafa mais notória
de Lacan, o psicanalista gostava de surpreender os amigos deslocando o painel.
Anunciava então “A origem do mundo”, com a seguinte declaração: “O falo está
dentro do quadro”. Boa parte dos intelectuais apresentados à tela ficava, como
Emilia, bastante incomodada.
Por quê?
Que há algo perturbador no
órgão sexual feminino não há dúvida. Até nomeá-lo é um problema. Vagina, como
tenho usado aqui, parece excessivamente médico-científico. É como pegar a
língua com luvas cirúrgicas. Boceta ou xoxota ou afins soa vulgar e, conforme o
interlocutor, pejorativo. É a língua lambuzada pelo desejo sexual – e, por
consequência, também pela repressão. Não há distanciamento, muito menos
neutralidade possível nessa nomeação. É uma zona cinzenta, entregue a
turbulências, e a palavra torna-se ainda mais insuficiente para nomear o que
Courbet chamou de “A origem do mundo”. Para Lacan, “o sexo da mulher é
impossível de representar, dizer e nomear” – uma das razões pelas quais teria
comprado o quadro.
Em busca de respostas para o horror de Emilia, que, por oposição, revela o meu
não horror, naveguei por algumas interpretações do quadro – e da perturbação
gerada por ele. Jorge Coli, historiador, crítico de arte e autor de umlivrosobre
Courbet para a editora francesa Hazon, assim comentou sobreA
origem do Mundo, em um artigo publicado em 2007: “Parece-me a
radicalização do processo de transformar a mulher em um objeto orgânico, pois
ele esconde a cabeça (pensante) e os braços e pernas (elementos da ação). Vemos
a ponta do seio e, sobretudo, o sexo”. Coli assinala que uma das questões do
século XIX era a ameaça do desejo contida no feminino. Inerte, entregue à
contemplação, a mulher não ameaçaria.
Em algumas manifestações escandalizadas, o fato de Courbet ter “reduzido” a
mulher a um pedaço da anatomia foi considerado uma afronta. Uma mulher sem
cabeça, sem braços, sem história. A pintura chegou a ser definida pelo escritor
e fotógrafo francês Maxime Du Camp como um “lixo digno de ilustrar as obras do
Marquês de Sade”. Análises mais psicanalíticas explicam o horror de quem olha
pela castração. Diante do espectador, entre as coxas abertas da mulher se
revelaria a ferida aberta, a falta, a impossibilidade de ser completo. As
mulheres se horrorizariam pela constatação da castração, os homens pelo temor a
ela. Se alguns olhares produzem pistas, outros reforçam apenas o incômodo que a
obra produzia.
O efeito do quadro já foi tentado em fotografias de mulheres, em geral
prostitutas, colocadas na mesma posição, mas o resultado revelou-se diverso. Ao
transpor para a fotografia, não é mais a imagem de Courbet, mas outra. Até que,
em 1989, uma artista francesa, Orlan, fez algo marcante – e com grande
potencial para gerar polêmica – a partir da obra original. Ela reproduziu a
pintura trocando a vagina por um pênis – ou a boceta por um caralho. E chamou-a
deA origem da guerra. Olhar para essa imagem causa um
estranhamento, especialmente porque a posição, deitada de costas, é muito mais
íntima da mulher do que do homem. O pênis, no caso, se oferece ereto ao olhar,
mas a partir de um corpo na horizontal, entregue.
É instigante, desde que a provocação não seja reduzida a um feminismo
indigente, banalizado pela crença pueril do “a mulher gera a vida, o homem a
morte”. A intenção de Orlan, segundo Roudinesco, era bem mais refinada. Ela
“pretendia desmascarar o que a pintura dissimulava, realizando uma fusão da
‘coisa’ irrepresentável com seu fetiche negado”. Reivindicava então a
“imprecisão do gênero e da identidade” que marca o nosso tempo, anunciando, por
sua vez: “Sou um homem e uma mulher”.
O que se pode afirmar é que Courbet revelou o que está sempre coberto, oculto,
escondido. No Carnaval brasileiro, por exemplo, como lembra a psicanalista
Maria Cristina Poli em umartigointeressante sobre o feminino, tudo é
exposto – e até superexposto – do corpo da mulher, menos a vagina. Mas a força
do quadro não está só no “mostrar”. Há algo de incapturável e único na forma
como Courbet mostrou o “imostrável”, já que a transposição da imagem para a
fotografia não causa o mesmo efeito. E o que é?
Não sei.
A vagina pintada por Courbet é peluda como não vemos mais nos dias de hoje. A
depilação quase total do sexo feminino tornou-se um popular produto de
exportação do Brasil. Tanto que virou um dos significados da palavra
“Brazilian” no renomado Dicionário Oxford: "Estilo de depilação no qual
quase todos os pelos pubianos da mulher são retirados, permanecendo apenas uma
pequena faixa central”. Pelo visto, a partir dos trópicos supostamente
liberados e sexualizados, a vagina depilada virou um clássico contemporâneo.
Este é um ponto interessante. Ao primeiro olhar, a extração dos pelos serviria
para revelar mais a vagina, mas me parece que este é mais um daqueles casos,
bem pródigos na nossa época, em que se mostra para ocultar – a superexposição
que ofusca e cega. A vagina sem pelos é uma vagina flagelada – e arrancar os
pelos com cera é mesmo um flagelo. É também uma vagina infantilizada pela
força. E é ainda uma vagina esterilizada, já que vale a pena lembrar que no
passado recente essa depilação agressiva só acontecia nos hospitais para,
supostamente, facilitar o parto. “Se não depilo totalmente, me sinto suja”,
disse-me uma amiga. Suja?
Em janeiro de 2000, a atriz Vera Fischer exibiu sua vagina peluda em um ensaio
fotográfico da revistaPlayboy. Causou furor. Falou-se na “Mata
Atlântica”, na “Amazônia”, na “selva” onde sempre é perigoso penetrar. Havia
algo de poderoso e incontrolável na vagina em estado “natural” de Vera Fischer,
e a polêmica se fez. Era uma mulher não domesticada ali. Uma mulher adulta.
Não me parece – e nunca saberemos se tenho razão – que, se Courbet tivesse
pintado uma vagina careca, ela teria causado tanto o horror de Emilia quanto o
êxtase em mim. A vagina pintada por Courbet é uma vagina que revela. Mas o quê?
Não sei. A maravilha da arte é que ela nos transtorna sem a menor intenção de
nos dar respostas – muito menos caminhos a seguir. A arte é sempre labiríntica.
Não há sentimentos “certos” ou “errados” diante da expressão artística, há
sentimentos apenas. Movimentos. Que nos levam por aí, aqui. É em respeito a
essa ideia que decidi não colocar nenhuma imagem do quadro aqui, nem mesmo um
link – ou um atalho – para a imagem na internet. A busca da origem do mundo é
pessoal e intransferível. Assim como a decisão de buscá-la.
A obra de Courbet sempre foi oculta por uma outra pintura. Ou cortina. Exceto
agora, que a exibição no museu deu a ela uma espécie de salvo-conduto, por ser
ali “o lugar certo”. De algum modo, até então, a vagina mais famosa da História
da Arte fora coberta por um véu – além do véu representado pela própria
pintura.
Decidi não cobrir minha reprodução deA origem do mundocom uma burca. Vamos ver o que
acontece.