quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Rímel, batom e lágrimas*




Por Durval Muniz de Albuquerque Junior


 Jimmy Paulette and Tabboo! undressing, NYC, 1991
Photograph on paper. 1015 x 695 mm
Nan Goldin, Tate Gallery, London

Os homossexuais cedo aprendem que as coisas não são o que aparentam, que as identidades são mascaras que se colocam ou que se tiram ao sabor das conveniências e das ocasiões. Muito cedo um homossexual aprende a desconfiar da seriedade do que lhe é dito e da forma como as coisas são justificadas. Desde cedo aprende que a sociedade é feita de representação e que há um descompasso entre as palavras e as ações, o discurso e as práticas. Tendo aprendido, por experiência, que os sujeitos podem se transformar ao simples fechar de uma porta, que uma respeitável verdade pode desaparecer em poucos segundos, entre lençóis, o homossexual tende a relativizar as identidades e as verdades, duvidar das certezas e pôr em questão os valores morais dominantes. A homossexualidade é uma vivência de fronteira, de limite, é um não lugar, que permite um olhar distanciado e crítico em relação à norma, à ordem, aos lugares estabelecidos e valorados positivamente. A vivência homossexual, numa sociedade heteronormativa, é quase uma ironia, já que é a vivencia do descompasso entre o que se diz e o que se vive, entre o discurso e o corpo, entre o que deve ser e o que é. A homossexualidade é vivenciada, quase sempre, como desordem, como anomalia, como fantasia, como simulação, como desconcerto e descompasso, como desajuste, como experiência do fora, como riso farsesco que visa a evitar a morte e o suicídio. A história destes seres da noite, das fimbrias, dos desvãos, dos esconderijos, dos guetos, das máscaras e dos limites só pode ser narrada com certa dose de amarga ironia, de sarcasmo, história com gosto amargo na boca, história com rímel, batom e lágrimas. Uma história-batalha, de seres mal tratados.


[fragmento]


in: História: a arte de inventar o passado, 2007, p. 192.


________
*Nota do Blog: Este espaço é contra toda e qualquer violência de gênero e a favor da criminalização da homofobia. (Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006).

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A bicicleta de Einstein*








A vida é como andar de bicicleta. Para se manter o equilíbrio é preciso estar em movimento.

Albert Einstein

Mais um triunfo da mulher-comfort*



Por Xico Sá



Aos poucos a mulher-comfort, digo, as cheinhas e macias, vingam na moda internacional.

Aqui, ainda nem tanto, noves fora um ou outro evento específico de confecções “plus size”.

O mais irônico é que justamente o Brasil, terra abençoada com a fartura das ancas, coxas e bundas monumentais, resiste a quebrar o padrão que se entende como beleza-modelo.

Que erro.

Os franceses, naturalmente acostumados a mulheres mais magras, agora nos dão um belo exemplo na capa da revista “Elle” parisiense deste mês, com uma deusa cheinha que bate qualquer Gisele Bundchen.

Sim, damas e cavalheiros, ela mesma, a linda Tara Lynn. Um colosso! Repare bem na foto.

Nada como o colo de uma mulher macia.

Roberto & Erasmo já disseram muito sobre esse belo tipo em canção recente: 

“Gosto de me encostar/ Nesse seu decote quando te abraço/ De ter onde pegar/ Nessa maciez enquanto te amasso.’’

As anoréxicas que me perdoem, mas ter onde pegar é fundamental.

O que temos visto em revistas, passarelas e programas de auditório ou são as esqueléticas ou as musculosas em excessos, aquelas que batem fácil as pernas dos nossos mais bombados jogadores de futebol.

A maciez que é bom não tem espaço. 

Mais conforto  e menos músculo, sr. açougueiro do balcão da humanidade, e um contrapeso de coração, se é que você me entende, se é que não é pedir muito na véspera da festa da carne.


Fonte: Xico Sá



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Perguntas de um trabalhador que lê*



Por Bertold Brecht

Woman with olla – 1926, por Tina Modotti 

Quem construiu a Tebas de sete portas?
Nos livros estão nomes de reis.
Arrastaram eles os blocos de pedra?
E a Babilônia várias vezes destruída
Quem a reconstruiu tantas vezes? Em que casas
Da Lima dourada moravam os construtores?
Para onde foram os pedreiros, na noite em que
a Muralha da China ficou pronta?
A grande Roma está cheia de arcos do triunfo
Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A decantada Bizâncio
tinha somente palácios para os seus habitantes? Mesmo
na lendária Atlântida
os que se afogavam gritaram por seus escravos
na noite em que o mar a tragou.
O jovem Alexandre conquistou a Índia.
Sozinho?
César bateu os gauleses.
Não levava sequer um cozinheiro?
Filipe da Espanha chorou, quando sua armada
naufragou. Ninguém mais chorou?
Frederico II venceu a Guerra dos Sete Anos.
Quem venceu além dele?
Cada página uma vitória.
Quem cozinhava o banquete?
A cada dez anos um grande Homem.
Quem pagava a conta?
Tantas histórias.
Tantas questões.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

O santo e o culto*



Por Braulio Tavares


É uma história tão espalhada por aí que pode ser considerada um mito menor. Uma narrativa cuja estrutura básica surge em diferentes culturas, em qualquer época: a vida de um sujeito cujas façanhas o tornam famoso e respeitado, e que um belo dia morre (geralmente na guerra) ou desaparece. Em torno de sua memória cria-se um culto que acaba tomando proporções inesperadas. Outro belo dia, o Herói, que na verdade não tinha morrido, reaparece. E vê com espanto (ele volta incógnito, sem que ninguém o reconheça) que está sendo cultuado de uma maneira totalmente equivocada. O futuro celebrizou uma pessoa completamente diferente de quem ele julga ser.

A novela Roque Santeiro (Dias Gomes e Aguinaldo Silva) utilizou esta situação básica, fazendo com que Roque (José Wilker), que é na verdade um espertalhão, se divirta com o culto que se criou em torno dele, endeusado como se fosse um santo. Esta parece ser uma narrativa muito presente na memória nordestina. Em Livro dos Homens, de Ronaldo Correia de Brito, acontece algo parecido: encontra-se no rio o cadáver de um homem, bem vestido, morto a facadas. Pessoas piedosas o sepultam, começam a rezar junto à cova do morto desconhecido. Isso se torna um hábito local, e daí a alguns anos aquela sepultura recebe enormes romarias de peregrinos. Um dia, alguém chega ali e descobre que a pessoa que está sendo adorada é um homem que cometeu um crime e que foi morto por vingança.

A ficção científica deu sua contribuição a este mito com Um Cântico para Leibowitz (1960) de Walter M. Miller Jr., e com Limbo (1952) de Bernard Wolfe. Neste, um cientista, Martine, é dado como morto durante uma guerra mundial. Seus manuscritos científicos, encontrados por amigos, tornam-se a base para a reconstrução do mundo futuro, onde a ânsia pacifista leva os homens a amputar os braços e pernas e substituí-los por próteses. Acontece que Martine está vivo; ele passara 20 anos perdido entre os selvagens de uma ilha remota, e quando consegue voltar para a civilização fica aterrorizado com o mundo que encontra. Fica mais surpreso, e furioso, quando descobre que esse mundo tem seus escritos (mal interpretados) como um verdadeiro Evangelho. O resto do livro é sua tentativa para destruir esse mundo do qual é o involuntário profeta.

Limbo é o único livro de FC de Bernard Wolfe, escritor que teve uma vida aventureira, tendo sido inclusive guarda-costas de Leon Trotsky no México, e é uma interessante retomada desse antigo tema. Todo culto a um morto é um mal-entendido, e em muitos casos é também uma traição a esse morto, que, se retornasse, não se reconheceria na imagem que fazem dele.


(12.02.2012)



Por baixo do pano*



Por Rosemary Hawthorne


A história das calcinhas mal chega a cobrir dois séculos de existência – o que não é nada se comparado às trajetórias de outras peças do vestuário no mundo civilizado. Durante esse tempo elas sofreram inúmeras transformações interessantes, é verdade, mas o fato é que até a última década do século XVIII as nossas ancestrais não se davam ao trabalho de pensar numa peça de roupa específica para usar sobre suas partes baixas. A saia longa, uma ou duas anáguas, o corpete e uma camisola de linho usada diretamente sobre a pele eram toda a vestimenta considerada necessária – ou, na verdade, saudável, para a mulher.

Ao contrário do que se diz nos dias de hoje, naquela época as mulheres que ousassem envergar calções – chamados também de ceroulas e exclusivos do guarda-roupa masculino – eram tachadas de “criaturas libertinas e de moral duvidosa”. Mas foi a partir dessa base tão incerta que, quem diria, a calcinha nasceu para se tornar um símbolo do recato.

Na década de 1790, os ventos da moda sofreriam uma mudança drástica de direção. A Revolução Popular que irrompeu na França levou a uma simplificação geral do vestuário na Europa inteira, e as mulheres passaram a usar elegantes vestidos de cintura alta inspirados na vestimenta das gregas antigas. Confeccionados em finas musselinas, esses chamados vestidos império eram tremendamente sensuais e estavam no auge da moda – mas também deixavam as partes baixas um tanto arejadas demais. E, assim, foi por volta de 1800 que as calcinhas tiveram sua primeira grande chance de fazer história.



in: Por baixo do pano: a história da calcinha, 2009, pp. 13-15.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O riso do diabo*



Por Milan Kundera


Quando o anjo ouviu pela primeira vez o riso do demônio, foi tomado de estupor. Isso se passou num festim; a sala estava cheia de gente e as pessoas foram dominadas umas após as outras pelo riso do diabo, que é horrivelmente contagiante. O anjo compreendeu claramente que esse riso era dirigido contra Deus e contra a dignidade de sua obra. Sabia que tinha de reagir rapidamente, de uma maneira ou de outra, mas sentia-se fraco e sem defesa. Não conseguindo inventar nada, imitou seu adversário. Abrindo a boca, emitiu sons entrecortados, descontínuos, em intervalos acima de seu registro vocal [...], mas dando-lhe o sentido oposto: enquanto o riso do diabo mostrava o absurdo das coisas, o anjo, ao contrário, queria alegra-se por tudo aqui embaixo ser bem ordenado, sabiamente concebido, bom e cheio de sentido. Assim, o anjo e o diabo se enfrentavam e, mostrando a boca aberta, emitiam mais ou menos os mesmos sons, mas cada um expressava, com seu ruído, coisas absolutamente contrárias. E o diabo olhava o anjo ri, e ria cada vez mais, cada vez melhor e cada vez mais francamente, porque o anjo rindo era infinitamente cômico.


in: O livro do riso e do esquecimento, 1990, p.61.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Vila Esperança*



Por Adoniran Barbosa


Vila Esperança, foi lá que eu passei
O meu primeiro carnaval
Vila Esperança, foi lá que eu conheci
Maria Rosa, meu primeiro amor
Como fui feliz, naquele fevereiro
Pois tudo para mim era primeiro
Primeira rosa, primeira esperança
Primeiro carnaval, primeiro amor criança
Numa volta no salão ela me olhou
Eu envolvi seu corpo em serpentina
E tive a alegria que tem todo Pierrô
Ao ver que descobriu sua Colombina
O carnaval passou, levou a minha rosa
Levou minha esperança, levou o amor criança
Levou minha Maria, levou minha alegria
Levou a fantasia, só deixou uma lembrança...

Link: vídeo de “vila esperança”no youtube  [só ouvindo... maravilhoso!].

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Diálogos e silêncios das imagens*


Por Boris Kossoy


    La Baguette Parisienne, 1953 – por Robert Doisneau 


Diálogos e silêncios permeiam nossa relação com as imagens. O que elas dizem em suas iconografias nos é relativamente inteligível. É por trás da aparência, porém, no ato de sua concepção e ao longo de sua trajetória, naquilo que ela tem de oculto, em seus silêncios, que residem as histórias secretas dos objetos e dos seres, das paisagens e dos caminhos. São os mistérios que encobrem o significado dos conteúdos gravados nesses pequenos pedaços de papel. O próprio aparente se carrega de sentido na medida em que recuperamos o ausente da imagem.

Toda imagem fotográfica tem atrás de si uma história. Se, enquanto documento, ela é um instrumento de fixação da memória e, neste sentido, mostra-nos como eram os objetos, os rostos, as ruas, o mundo, ao mesmo tempo, enquanto representação, ela nos faz imaginar os segredos implícitos, os enigmas que esconde, o não manifesto a emoção e a ideologia do fotógrafo.


in: Os tempos da fotografia: o efêmero e o perpétuo, 2007, pp. 156-157.


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Mandamentos de Miller*



Por Braulio Tavares



Poucos indivíduos terão sido tão mentalmente saudáveis quanto Henry Miller. Dos livros dele, com sua mistura de boemia, sexo, crítica social e disponibilidade para curtir a vida, emana a alegria de viver, presente inclusive nos capítulos em que ele descreve a pindaíba financeira em que viveu, ou suas brigas conjugais, ou sua guerra sem fim contra o “pesadelo com ar condicionado”, a vida classe-média nos EUA, a cultura do enlatado e do artificial. J. G. Ballard escreveu que ele foi “o primeiro escritor proletário a criar uma literatura pornográfica baseada na linguagem e no comportamento sexual das classes trabalhadoras”. Talvez a nenhum de nós ocorresse considerar Miller um escritor proletário, por ele não ser de esquerda. Mas sua ética e sua literatura são a do norte-americano trabalhador, pragmático, sem nonsense, que aprecia os prazeres físicos da vida mas tem leitura e educação suficiente para ver transcendência nas pequenas coisas.

Ballard o chamou de “Proust das classes trabalhadoras”, aludindo ao seu memorialismo compulsivo. Miller foi talvez o primeiro escritor, lido entre os 20 e os 30 anos, que me fez perceber o ato da escrita como um ato que envolve a totalidade da pessoa, do momento, da vida, de tudo que o cara experimentou, tudo que sabe e não sabe, tudo que teme e deseja, convergindo para aquele instante mágico (este instante mágico, exatamente agora) em que ele dedilha num teclado. Descobri lendo Miller que escrever não era apenas contar uma história legal ou produzir uma frase bem feita. Escrever era algo tão físico-mental e tão atávico quanto fazer sexo.

Miller preparou nos anos 1930, quando escrevia “Trópico de Câncer”, uma lista de onze mandamentos do escritor.

“1) Trabalhe numa coisa de cada vez, até terminar. 2) Não comece nenhum livro novo, e pare de juntar material para Primavera Negra[o outro livro que ele escrevia na época]. 3) Não fique nervoso. Escreva com calma, alegremente, incansavelmente, com o que tiver à mão. 4) Escreva de acordo com o que programou, e não de acordo com seu estado de espírito. Pare na hora marcada. 5) Mesmo quando você não consegue criar, pode escrever. 6) Cimentar um pouco por dia, ao invés de adicionar fertilizantes. 7) Seja um ser humano: encontre as pessoas, saia de casa, beba se estiver a fim. 8) Não seja um burro de carga. Só escreva com prazer. 9) Descarte o programa quando lhe convier, mas volte a ele no dia seguinte. Concentre. Focalize. Corte. 10) Esqueça os livros que gostaria de escrever, e pense somente no que está escrevendo. 11) Escreva sempre, antes de tudo. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isto vem depois”.


(05.02.2012)



domingo, 5 de fevereiro de 2012

Drummond: “Família”*



Por Braulio Tavares



Uma parte considerável de Alguma Poesia (primeiro livro de Carlos Drummond, publicado em 1930) é de poemas sobre a vida doméstica, descrita de diferentes pontos de vista (“Infância”, “Sweet Home”, etc.). Um tema que foi se diluindo gradualmente. Não lembro de nenhum texto nessa linha em livros como Claro Enigma, por exemplo. Na verdade, há dois tipos de textos muitos diferentes: os poemas em que Drummond evoca sua família real, suas lembranças reais (o pai, a mãe, etc.) e os poemas em que ele compõe pequenos quadros de vida doméstica que não se referem propriamente a ele mesmo, mas a famílias imaginárias cuja existência está plantada na zona limítrofe entre a paz e a pasmaceira, entre a tranquilidade e o tédio.

“Família” pertence a essa linha: “Três meninos e duas meninas, / Sendo uma ainda de colo. / A cozinheira preta, a copeira mulata, / o papagaio, o gato, o cachorro, / as galinhas gordas no palmo de horta / e a mulher que trata de tudo”. Parece a descrição da fotografia de uma família. Ou um daqueles “grupos de família numa sala” que os pintores antigos gostavam de compor. Essa enumeração de personagens humanos e animais, porém, soa como uma receita de bolo, uma lista de ingredientes necessários para preparar a família mineira ideal.

Além dos personagens, a família inclui uma cenografia meticulosa de objetos, e pequenos rituais associados a eles: “A espreguiçadeira, a cama, a gangorra, / o cigarro, o trabalho, a reza, / a goiabada na sobremesa de domingo, / o palito nos dentes contentes, / o gramofone rouco toda noite / e a mulher que trata de tudo”. Note-se a reiteração da frase “e a mulher que trata de tudo” num tom de calculada ambiguidade. A mulher é mencionada como se fosse a figura mais poderosa, e ao mesmo tempo a frase tem aquele tom taxativo, machista, bem tradicional, dos sujeitos que dizem: “aqui na casa quem manda é a patroa”, num tom que deixa bem clara a situação de subserviência dessa “patroa”.

A vida social de-portas-afora é descrita em breves cápsulas na estrofe final: “O agiota, o leiteiro, o turco, / o médico uma vez por mês, / o bilhete todas as semanas / branco! Mas a esperança sempre verde. / A mulher que trata de tudo / e a felicidade”. Rotina, vidinha conservadora e um tanto fundada em preconceitos (veja-se o tom com que se refere ao “turco”, à “cozinheira preta e a copeira mulata”, como se fossem coisas). A palavra “felicidade” na linha final surge como um elemento obrigatório a partir do qual todos os outros tivessem sido deduzidos. Parece um retrato de família a óleo mostrando na parede um dístico: “Aqui nesta casa todo mundo é obrigado a ser feliz”.


(16.12.2011)


Reclame*



Por Chacal



Se o mundo não vai bem
a seus olhos, use lentes
... ou transforme o mundo

ótica olho vivo
agradece a preferência


in: Poesia marginal, 2006.

Tragédia brasileira*



Por Manuel Bandeira


Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade, conheceu Maria Elvira na Lapa – prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.

Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo o que ela queria.

Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.

Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.

Viveram três anos assim.

Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.

Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bom Sucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...

Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.


in: Estrela da vida inteira. 7.ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1979, pp. 133-134.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

O elogio da simplicidade*

 
Por Paulo Nogueira


Um poeta português disse que as cartas de amor são ridículas. Mas mais ridículo ainda é não escrever cartas de amor. Tenho um acréscimo à voz do poeta: algumas cartas de amor ultrapassam os limites do ridículo. São pomposas, verborrágicas, exageradas. A grande carta de amor é necessariamente simples e objetiva. Assim como a grande declaração de amor. A simplicidade é bela ao falar e ao escrever. Uma pessoa afetada na forma de se comunicar com as demais é afetada em outras esferas. “A verdade tem que falar uma linguagem simples, sem artifícios”, escreveu um filósofo. O amor também. Isto é, se for verdadeiro.
As virtudes da economia ao se expressar têm notáveis exemplos históricos. Conta-se que os embaixadores de uma cidade grega tentavam convencer o rei de Esparta a aderir a uma esforço de guerra. O espartano deixou-os falar longamente. Depois disse: “Não lembro do começo nem do meio da argumentação de vocês. Quanto à conclusão, simplesmente não me interessa”. Num outro caso, dois arquitetos atenienses disputavam a honra de construir um grande edifício. A platéia à qual cabia a escolha ouviu um extenso discurso do primeiro arquiteto. As pessoas já se inclinavam por ele quando o segundo disse apenas: “Senhores atenienses, o que este acaba de dizer eu vou fazer”. Para Sêneca, “nos grandes arroubos da eloqüência há mais ruído que sentido”.
Os espartanos serão eternamente reverenciados pela simplicidade com que viviam e se expressavam. Uma vez perguntaram a uma autoridade de Esparta por que os espartanos não colocavam por escrito as regras da valentia para que os jovens pudessem lê-las. A resposta foi que os espartanos queriam acostumar seus jovens aos feitos e não às palavras. “O mundo é apenas tagarelice e nunca vi homem que não dissesse antes mais do que menos do que devia”, escreveu Montaigne. (Realmente sinto que estou exagerando nas citações. Deus, pareço um almanaque. Mas olho para trás e tento cortar algumas citações, e não consigo, não por mérito meu, mas dos donos das frases. Dá para deletar a seguinte reflexão de Plutarco? Disse ele: “A palavra expõe-nos, como nos ensina o divino Platão, aos mais pesados castigos que deuses e homens podem infligir. Mas o silêncio jamais tem contas a dar. Não só não causa sede como confere um traço de nobreza”.)
Também no amor, há mais “ruído que sentido” nas frases espalhafatosas ditas ou escritas. A mais genuína, a mais poderosa declaração de amor é, muitas vezes, o olhar silencioso, o gesto mudo, e, no entanto, estamos quase sempre inclinados a berrar nossa paixão. Na cama, sobretudo, trava-se muitas vezes uma competição para ver quem gritar mais alto, um torneio de gemidos geralmente insinceros e ensurdecedores que cada parceiro acredita, numa mistura de ignorância e ingenuidade, serem excitantes. O berro amoroso incomoda o ouvido e dificilmente chega ao coração. E provoca não orgasmos maravilhosos, não maratonas sexuais inacreditáveis, mas simplesmente sede.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Agora é oficial: Kassab, o Jânio sem álcool*



Por Xico Sá


  
Quando digo que o Kassab, o Sr. K., é o Jânio Quadros sem álcool, muita gente acha ruim.

Principalmente os religiosos janistas. Com alguma dose a mais de razão.

Além de fazer mais pela cidade, no seu segundo mandato como prefeito nos anos 1980, Jânio era mais autêntico na sua tragicomédia política. Um artista.

Kassab é um Jânio sem álcool até ao imitar, voluntária ou involuntariamente – vai saber do que são capazes os homens do marketing - a pose clássica de JQ durante a assombrada passagem pela Presidência.

O fotógrafo Luis Carlos Murauskas, da Folhapress, que sabe mais de política do que nós todos juntos, deve ter dado risadas durante o seu clique – foto acima.

O moonwalk de uma nota só de Jânio é mais estiloso. A água escocesa realmente azeita a musculatura e ajuda na coreografia.


Em ambos, porém, o passo provoca a mesma ilusão de ótica que tínhamos com o gênio e inventor Michael Jackson: quando achamos que estão andando para a frente, estão de marcha à ré na história.

Outra marca janista que o sr. K. imita é a das proibições. Quem não governa, proíbe. É bem mais fácil.

Se Jânio vetou o biquíni no Ibirapuera, Kassab mandou logo lacrar os puteiros e inferninhos.  

A blitz, a pegadinha, a visita-surpresa a órgãos públicos também era outra característica de JQ.

O senhor K. até que tenta, mas o charme do dramalhão janista é insuperável. Foi um dos maiores atores que o país já teve.

Kassab é mais sincero, sua face corada entrega a farsa. Taí uma grande vantagem do alcaide paulistano.

Quem seria hoje, em matéria de artes dramáticas, o grande nome na política?



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