sexta-feira, 9 de março de 2012

Os enredados*



Por Miguel Reale Júnior

No círculo midiático de hoje, a reflexão e a assunção sopesada de convicções individuais, bem como o silêncio e a solidão, cederam passo a uma saraivada contínua de comunicações. Reage-se a esta prevalência do virtual de forma passiva ou com manifestações apressadas de cunho emocional. Neste mundo de inter-relações imediatas, vive-se com a mídia e pela mídia, segundo Manuel Castells, para quem, com as redes sociais se instala uma virtualidade real.
“Todos são iguais perante o Facebook”, eis o novo direito fundamental. Diversos enredados na rede social expõem a si próprios e cada qual passa a ter acesso ao mundo do outro. Se a televisão, o principal meio de comunicação em nosso país, está presente em todos os instantes, a criar, de um lado, o monólogo e, de outro, a audiência preguiçosa, com as crescentes redes sociais se torna viável que o enredado possa manifestar-se sem a preocupação de ser razoável.
Esse fenômeno carrega contraposições.
A primeira, relativa à minimização do valor da intimidade e da vida privada, um dos direitos da personalidade consagrados nas modernas Constituições democráticas, mas violado pelo descaso com que muitos dos enredados tratam sua própria área de exclusividade, em compulsão pelo compartilhamento de cada instante de sua vida.
Intimidade e voyeurismo

No inciso X do artigo 5.º da Constituição federal, no capítulo Dos Direitos e Garantias Fundamentais, consagra-se que “são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra, a imagem das pessoas (...)”. O direito à privacidade constitui atributo da personalidade, requisito essencial à realização da pessoa humana, instaurando a expectativa de respeito à própria singularidade. A Constituição distingue entre intimidade e vida privada, estabelecendo dois campos: um de grande reserva e interioridade, ligada às próprias convicções e expressões de pensamento, bem como relativamente ao que se passa entre quatro paredes; outro, menos restrito, relativo à vida doméstica, aos hábitos cotidianos, acessível a pessoas próximas nas quais se confia.
Para Hannah Arendt, há uma zona de exclusividade onde sem cuidados se desenvolve a própria existência, definida por Judith Martins Costa como a especial esfera da vida em relação à qual é garantida a imunidade ao próprio modo de ser da pessoa, defesa à interferência alheia, pois é o locus, material e espiritual, em que cada qual fixa sua singularidade, seus gostos particulares a serem usufruídos reservadamente. Há uma diferença no grau de intensidade de exclusividade: a intimidade diz respeito ao modo de ser singular que cada qual tem no campo nuclear de sua existência, aos dados de foro o mais restrito, enquanto a vida privada diz respeito a formas de pensar e agir a serem sabidas apenas por poucos.

Vê-se agora, todavia, que a inserção numa rede social faz muitos dos fisgados desprezarem os limites quer da vida privada, de acesso limitado aos mais chegados, quer também do próprio núcleo mais fechado da vida íntima, como se viver só tivesse sentido ao se compartilhar e socializar com muitos outros, pela rede, todas as sensações e vivências, devendo-se divulgar aos demais todos os acontecimentos da existência. De um lado, franqueia-se a intimidade, de outro, instala-se um voyeurismo compulsivo: deixar-se ver e ver os outros.

Incitação ao ódio e à discriminação

A segunda contraposição decorre de ser o internauta alvo de comunicações em série, mas ao mesmo tempo ter a possibilidade de se manifestar livremente, sobre tudo e sobre todos, jorrando, sem compromisso, opiniões que vão do elogio apaixonado à agressividade desmedida, em aplauso ou crítica ao comportamento de alguém ou de algum grupo de pessoas.
A liberdade de manifestação de pensamento constitui gênero de primeira necessidade na vida democrática, condição essencial de desenvolvimento dos cidadãos, pois areja, alimenta a multiplicidade de opiniões, garante a difusão de pensamentos e a participação pelo conhecimento e pela crítica dos fatos. A amplitude da liberdade de manifestação, estatuída no artigo 220 da Constituição, exige, todavia, a observância da composição com outros valores, em especial a dignidade sexual, a honra e a vida privada, a não discriminação. Veem-se, contudo, em comentários de internautas, novatos no exercício da liberdade de pensamento, excessos, com violação da honra alheia, de sua intimidade ou incitando o ódio e a discriminação das mais variadas espécies. Só o tempo consertará tais exageros.
Tempos de urgência, exposição e interação

Por fim, a última contraposição surge da ilusão de que a plena possibilidade de manifestação de pensamento iguale o valor das diversas perspectivas. Não se deve, porém, confundir o direito de se exprimir com atribuir a mesma validade às diversas visões manifestadas, em inaceitável relativismo. A pessoa humana, enquanto titular dos direitos de não ser discriminada, de manter a integridade física e psíquica, de não ter violada sua honra ou intimidade, de exercer liberdade religiosa, constitui valor conquistado arduamente no processo histórico do Ocidente, a prevalecer como fonte nuclear de outros direitos fundamentais.
A maior intensidade valorativa da dignidade da pessoa humana não impede que se garanta a liberdade de opinar contra a liberdade religiosa, ou de imprensa, ou em favor do comandante Schettino (do Costa Concordia). O vertiginoso crescimento dos meios de manifestação, no entanto, traz o risco do relativismo que iguala o diferente e nega a prevalência de valores essenciais obtidos ao longo da História. A multiplicidade de opiniões exigiria avaliá-las criteriosamente e não dar a todas o mesmo peso.
Cabe, ao final, realçar: essas perplexidades não retiram os benefícios propiciados pelas redes sociais por aproximar pessoas e ventilar questões de interesse geral. Mas fica sempre o desafio de entender os valores dominantes nestes tempos de urgência, de exposição e interação contínuas.

Reproduzido do Estado de S. Paulo, 3/3/2012

***

Educação dos olhos*



Os olhos que nunca choraram raramente aprendem a ver.

Meimei

Os turpilóquios nossos de cada dia*



Por Josenias Silva


Dercy, um dos maiores ícones dos turpilóquios no Brasil

Caro leitor, você já usou algum turpilóquio na vida?

Eu tenho certeza que sim.

Mas calma, não se preocupe! Turpilóquio não é nenhuma droga nova, embora vicie muita gente. Eu, por exemplo, tenho um repertório considerável de turpilóquios sempre comigo; não que me orgulhe disso, mas fazer o quê? A gente precisa, porra! Olha um turpilóquio aí. Sim, caro leitor, turpilóquio é palavrão. É uma expressão torpe, segundo o Aurélio, é um dito obsceno, uma palavrada.

Saibam que falar palavrão não é exclusividade de brasileiro, e mais, nem mesmo somos os campeões nisso. Perdemos de longe para franceses e alemães, cada qual com cerca de 9 mil pachouchadas na bagagem. (aprenda alguns aqui)

Assim, aos que quiserem enriquecer seu conhecimento acerca do uso social dos palavrões na língua nossa de cada dia, indico uma ótima leitura: Dicionário de Palavrões e Termos Afins (Ed. Leitura, 2010). Fruto de uma pesquisa de mais de cinco anos, o livro, de Mário Souto Maior e prefaciado por Gilberto Freyre, é um dos mais brilhantes registros no campo da sociolingüística no Brasil. De norte a sul, o autor foi registrando/demonstrando, através da literatura e do próprio cotidiano, o uso corrente dos palavrões e expressões afins como recursos de fala de todas as classes sociais, gêneros e regiões do país.

Dessa forma, caro leitor, não se culpe tanto quando um destes petardos da língua escaparem naquelas situaçõezinhas em que um V.T.C. surtir mais efeito que um Por favor. Enfim, como costumo falar sempre, aprender palavrão é um fator imprescindível para a socialização de qualquer um. Mas, saber usá-los (in)corretamente é uma arte.

E se me permitem, à merda com o politicamente correto!


Se a canoa não virar*




Se a canoa não virar,
Olê olê olê olá
Eu chego lá

Se a canoa não virar,
Olê olê olê olá
Eu chego lá

Toda nudez será castigada*



Caminhos*


"Perder-se também é caminho."

Clarice Lispector

A ordem do discurso*



Por Nicolau Sevcenko



As potencialidades do homem só fluem sobre a realidade através das fissuras abertas pelas palavras. Falar, nomear, conhecer, transmitir, esse conjunto de atos se formaliza e se reproduz incessantemente por meio da fixação de uma regularidade subjacente a toda ordem do social: o discurso. A palavra organizada em discurso incorpora em si, desse modo, toda sorte de hierarquias e enquadramentos de valor intrínsecos às estruturas sociais de que emanam. Daí porque o discurso se articula em função das regras e formas convencionais, cuja contravenção esbarra em resistências firmes e imediatas. Maior, pois, do que a afinidade que se supõe existir entre as palavras e o real, talvez seja a homologia que elas guardam com o ser social.


in. Literatura como missão, 2003, p. 28.


A desmemória*



Por Eduardo Galeano



Estou lendo um romance de Louise Erdrich.
A certa altura, um bisavô encontra seu bisneto.
O bisavô está completamente lelé (seus pensamentos têm a cor da água) e sorri com o mesmo beatífico sorriso de seu bisneto recém-nascido. O bisavô é feliz porque perdeu a memória que tinha. O bisneto é feliz porque não tem, ainda, nenhuma memória.
Eis aqui, penso, a felicidade perfeita. Não a quero.


in. O livro dos abraços, 2010, p.109.



quinta-feira, 8 de março de 2012

Toda nudez não será castigada*



Só o rosto é indecente. Do pescoço para baixo, podia-se andar nu.

Nelson Rodrigues

O poço do dinheiro*



Por Braulio Tavares



Workers by the Money Pit, 1909

Existem dois tipos de mistério, o mistério sobrenatural (que envolve espíritos, almas, etc.) e o mistério natural (que se reduz ao mundo da matéria). Este segundo tipo se divide em mistérios fantásticos e mistérios realistas. Os fantásticos incluem coisas que, se confirmada sua existência, mudariam nossa visão do mundo (sem envolver nada espiritual): o monstro do Lago Ness, a Atlântida, por exemplo. Os mistérios realistas envolvem apenas segredos, enigmas, etc., nada que mude nossa visão das ciências; são os mistérios históricos. Quem foi Kaspar Hauser? Quem era o Prisioneiro da Máscara de Ferro? Quem foi o Embuçado que avisou os inconfidentes mineiros que seu plano fôra descoberto? São fatos isolados, específicos, cuja solução em nada alteraria os paradigmas da Ciência humana.

Um dos mais interessantes é o que Rupert Furneaux chamou, em seu livro Grandes Mistérios da Humanidade, o Poço do Dinheiro. Em 1795, alguns rapazes descobriram em Oak Island (uma ilhota em Nova Escócia, na costa do Canadá) o que parecia ser uma escavação circular, como um poço soterrado. Iniciaram então uma “busca ao tesouro” que durou o resto das suas vidas, atravessou os séculos 19 e 20, e continua até hoje (veja o saite aqui). Toda a engenharia contemporânea não foi capaz de chegar ao fundo desse poço onde já foram encontrados vários tipos de artefatos (o que é de se esperar) e numerosas camadas protetoras de madeira ou de pedra indicando que quem enterrou algo ali cercou-se de enormes precauções para que aquilo não fosse descoberto. Talvez já se tenham gasto milhões de dólares na escavação desse poço, mas cada vez que se vai mais fundo ele é inundado pela água do mar (que fica próximo) por um “sofisticado sistema de túneis protetores”.

O que diabo pode haver ali? Talvez dinheiro dos piratas ou dos revolucionários do século 18. As teorias mais delirantes falam no Santo Graal, na Arca Perdida da Aliança, nos segredos dos Templários, e até (não estou brincando) na prova de que as peças de Shakespeare foram escritas por Sir Francis Bacon. A teoria mais cética diz que aquilo é apenas um sumidouro, uma terra alagadiça que desmorona sobre si mesma sempre que é escavada, e que engoliu artefatos dos antigos pioneiros ou de marujos que fizeram ali algum ponto de apoio provisório. O Poço do Dinheiro é um mistério natural (ninguém sugeriu explicações espirituais) e realista, porque o que quer venha a ser encontrado dificilmente mudará nossa visão do mundo. A menos que seja uma antecâmara para a cripta submarina em R’lyeh, onde Cthulhu prepara, sonhando, o seu retorno à Terra.

(07.03.12)


  



Senhor, não mova a montanha*



Senhor, Não Mova Minha Montanha / Mas dê-me forças para subir / E, Senhor, não tire meus tropeços / Mas Guia-me Todo / Oh Senhor! Você não tem que mover a montanha / Mas dê-me forças para subir / E, Senhor, não tire meus tropeços / Mas Guia-me Todo...

Etta James

Canção para álbum de moça*



Bom dia: eu dizia à moça / que de longe me sorria. / Bom dia: mas da distância / ela nem me respondia. / Em vão a fala dos olhos / e dos braços repetia / bom-dia a moça que estava, / de noite como de dia, / bem longe de meu poder / e de meu pobre bom-dia. / Bom-dia sempre: se acaso / a resposta vier fria / ou tarde vier, contudo / esperarei o bom-dia. / E sobre casas compactas / sobre o vale e a serrania / irei repetindo manso / a qualquer hora: bom dia. / O tempo é talvez ingrato / e funda a melancolia / para que se justifique / o meu absurdo bom-dia. / Nem a moça põe reparo, / não sente, não desconfia / o que há de carinho preso / no cerne deste bom-dia. / Bom dia: repito à tarde / à meia-noite: bom-dia. / E de madrugada vou / pintando a cor de meu dia / que a moça possa encontrá-lo / azul e rosa: bom-dia. / Bom-dia: apenas um eco / na mata (mas quem diria) / decifra minha mensagem, / deseja bom o meu dia. / A moça, sorrindo ao longe, / não sente, nessa alegria, / o que há de rude também / no clarão deste bom-dia. / De triste, túrbido, inquieto, / noite que se denuncia / e vai errante, sem fogos, / na mais louca nostalgia. / Ah, se um dia respondesses / Ao meu bom-dia: bom-dia! / Como a noite se mudara / no mais cristalino dia!


Carlos Drummond de Andrade. in. Poesia Completa, 2006, pp. 266-267.

quarta-feira, 7 de março de 2012

Duas ou três coisas que sei sobre as mulheres*



Por Xico Sá

  
 Leila Diniz no filme "Todas as mulheres do mundo"


Alguns leitores mais ácidos – é bom tê-los como fiscais do meu lirismo bregamente derramado –  cutucam, provocam:

-Esse cara feio de doer é um populista com as fêmeas, quer arrebatá-las com essa conversinha mole, mimos, delicadezas, agás, nhenhenhéns…

Bem, falar mal à toa de mulher é que não vou. Besta é tu, besta é tu, como diriam os “Novos Baianos”, que as demonizam como envenenadas Evas expulsas do Paraíso.

Mulher é minha causa. Mulher é o meu dogma. Mulher sempre foi meu comunismo.

Maltratá-las é que não vou. Muito menos cair no conto de que elas não existem, como queria titio Lacan. Isso é papo-aranha de intelectual solteirão.

Tampouco é verdade essa historinha de que não sabemos o que querem as mulheres.

Pera lá. Não sabemos tudo, óbvio, não deciframos todos os mistérios, mas conhecemos muitos modos de agradá-las e cumprir parte da demanda.

Elas merecem e este, afinal, é o grande desafio na terra de um homem de boa vontade.

O que querem as mulheres? Entendemos a complexidade da clássica pergunta de Freud, mas a interrogação não veio ao mundo para nos acomodar.

Veio para instigar o cidadão.

As mulheres querem que os homens adivinhem, sintam, farejem os seus desejos como labradores do amor e antecipem essas realizações.

Bem-aventurados os que descobrem que elas estão a fim de uma viagem à montanha e levam-nas à montanha; bem-aventurados os que sabem que elas não agüentam mais aquele velho boteco sujo e levam-nas a um restaurante decente, dentro das posses, claro.

Bem-aventurados os que sabem que elas gostam de novidades e detestam quando os garçons nos dizem “o de sempre, amigo?” Essa confortável rotina é coisa de macho!

As nossas mulheres querem que tenhamos olhos só para elas. No que, aliás, foram contempladas biblicamente pelo décimo mandamento das tábuas da lei entregues por Deus a Moisés: não cobiçarás a mulher do próximo.

As mulheres querem que alternemos momentos de homens sensíveis e momentos de selvagens lenhadores.

Pena é que costumamos inverter as coisas. Na gana da obediência e do agrado, somos lenhadores quando nos queriam sensíveis e vice-versa. Comédia de erros. Onde queres Leblon sou Pernambuco… Onde queres romance, rock’n’roll…

As mulheres querem que reparemos no novo corte de cabelo, mesmo que a alteração tenha sido mínima, tipo só uma aparada nas pontas.

O radar capilar tem que acender a luzinha, sem falha, na hora, se liga! Se for luzes, entonces, cruzes!!!

As mulheres querem… massagem. Muita massagem. Primeiro nas costas, depois nos pés e sempre no ego.

As mulheres querem… molhinhos agridoces. Como elas se lambuzam lindamente!

As mulheres querem… flores e presentes. Não caia, jovem mancebo, nesse conto de que mulher gosta é de dinheiro. Se assim o fosse, amigo, os lascados de tudo não teriam nenhuma, nunca, jamé.

Repare que até debaixo do viaduto está lá a brava fêmea na companhia do desalmado. Ela e o cachorrinho magro, só o couro, o osso e a fidelidade. O que vale é a devoção, amigo.

Mesmo que você seja mais liso que os mussuns do brejo, pobre de marre-marré, pode muito bem presentear uma bijuteria com a dramaturgia de uma jóia da Tiffany´s.



terça-feira, 6 de março de 2012

A banalidade do mal*



Por Josenias Silva


Corpos de prisioneiros do Campo de Buchenwald, leste da Alemanha.


A frase sob o portão parecia denotar alguma esperança - ARBEIT MACHT FREI (O trabalho liberta) - mas no fundo, levando-se em consideração o contexto, a frase não passava de um escárnio aos que tiveram a má sorte de cruzá-la ao transpor o portão. Auschwitz entrou para a história como o campo da vergonha. Desde o início do seu funcionamento (20/05/1940) até seu fechamento (27/01/1945) este campo constituiu-se numa verdadeira fábrica da morte, onde se estima que pelo menos 1.100.000 prisioneiros foram assassinados.

O principal campo de extermínio nazista também representou a epítome do estado burocrático, onde se pôde ver, pela primeira vez na história, uma burocracia do mal que outra finalidade não tinha que exterminar da maneira mais eficiente possível o maior número de seres humanos. Quando da libertação do campo - em fins de janeiro de 1945 - a realidade sobre a “solução final” do problema judeu veio à tona. As imagens que correram o mundo assombraram e constrangeram a maioria das consciências. As terríveis experiências infligidas ao corpo das vítimas ultrapassavam qualquer parâmetro de controle do comportamento humano até então conhecido. As seleções, as categorizações, o controle minucioso da vida e da morte, a tortura física e psicológica e a dor, se constituíram em experiências limite no corpo de milhões de prisioneiros.

A implementação de um plano de extermínio sistemático de judeus, homossexuais, ciganos, dissidentes políticos etc., foi algo que se operou de maneira gradual na Alemanha nazista, que desde a ascensão de Adolf Hitler ao poder (1933) já contava com uma política de exclusão de alguns grupos da vida alemã. Os judeus, embora não sendo os únicos, foram gradualmente vilipendiados de sua condição de cidadãos, foram demitidos dos seus empregos, boicotados em seus negócios, proibidos de participar da vida pública, foram expulsos de suas casas e – a partir de 1939 – obrigados a alojar-se em guetos sob condições insalubres e desumanas. Porém, nada ainda comparado ao que viria a acontecer nos campos de extermínio espalhados pelas regiões conquistadas do Leste europeu.

A literatura de testemunho dos que sobreviveram às atrocidades dos campos de concentração nos é farta de detalhes sobre este processo de dominação total pela violência e extermínio. Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo, afirma que a fabricação em massa de cadáveres vivos foi precedida por três passos essenciais; sendo o primeiro passo a Morte Jurídica, conseguida através da exclusão de algumas categorias do amparo da lei, de sua criminalização e banimento da ordem do direito; o segundo passo constituiu-se na morte da Pessoa Moral, o que visou atingir diretamente a consciência do indivíduo que posto sob tais circunstancia (fome, violência, trabalho escravo etc.) foi obrigado muitas vezes a corromper-se e “compactuar” com seus algozes; e por fim, a Morte da Individualidade que foi sentida diretamente no corpo através da perda da espontaneidade e da capacidade de reação. De acordo com Arendt: “Morta a individualidade, nada resta senão horríveis marionetes com rostos de homem, todas com o mesmo comportamento do cão de Pavlov, todas reagindo com perfeita previsibilidade, mesmo quando marcham para a morte.”

Assim, o sistema que conseguiu desumanizar suas vítimas e bestializar seus algozes de maneira a torná-los tão distintos - e ao mesmo tempo tão inumanos quanto animais subjugados - não pode estar muito distante das imagens que cotidianamente nos assombram no meio da rua e na televisão. Estas imagens, que parecem se repetir ao longo da história do homem, nos levam a refletir sobre a própria condição humana e sobre a banalidade do mal. A própria Hannah Arendt certa vez pronunciou uma frase de perturbar qualquer consciência sensível à condição humana. Segundo ela, “hoje sabemos que matar está longe de ser o pior que o homem pode infligir ao homem.” Portanto, fenômenos históricos como o Holocausto e o Nazismo devem servir para dimensionar o quanto o homem pode possuir de animalesco, de destrutivo e também o quanto deste mal pode estar banalizado no próprio cotidiano sob outras formas, sob outros totalitarismos.


Oração por Marilyn Monroe*




Senhor,
recebe a esta moça conhecida em toda parte pelo nome de Marilyn Monroe, mesmo que esse não fosse seu verdadeiro nome (mas Tu conheces seu verdadeiro nome, o da pequena órfã violada aos 9 anos e da empregadinha de loja que aos 16 anos já queria se matar) e que agora se apresenta diante de Ti sem maquiagem sem um agente de imprensa sem fotógrafos e sem dar autógrafos, solitária como um astronauta diante da noite espacial.

[fragmento]


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