terça-feira, 13 de setembro de 2011

O mal-estar na cultura*


O que os próprios seres humanos, através de seu comportamento, revelam ser a finalidade e o propósito de suas vidas? O que exigem da vida, o que nela querem alcançar? É difícil errar a resposta: eles aspiram à felicidade, querem se tornar felizes e assim permanecer. Essa aspiração tem dois lados, uma meta positiva e outra negativa: por um lado a ausência de dor e desprazer, por outro, a vivência de sensações intensas de prazer. Em seu sentido literal mais estrito, “felicidade” refere-se apenas a segunda. Correspondendo a essa bipartição das metas, a atividade dos seres humanos se desdobra em duas direções, segundo busquem realizar – predominante ou mesmo exclusivamente – uma ou outra dessas metas.

Como se percebe, o que estabelece a finalidade da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer. Esse princípio comanda o funcionamento do aparelho psíquico desde o início; não cabem dúvidas quanto a sua conveniência, e, no entanto, seu programa está em conflito com o mundo inteiro, tanto com o macrocosmo quanto com o microcosmo. Ele é absolutamente irrealizável, todas as disposições do universo o contrariam; seria possível dizer que o propósito de que o homem seja “feliz” não faz parte do plano da “Criação”. Aquilo em que sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico. 

Sigmund Freud, O mal-estar na cultura, 2010.


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* O certo é que S. Freud (1856-1939) não é tão simples assim. Mas com certeza seu pensamento desbancou o império da razão tão sonhada pelos racionalistas do século das luzes. Freud descobriu o inconsciente e descortinou o sexo, ou melhor, nos despiu. Nesse fragmento acima ele fala sobre a finalidade última de nossas vidas, a felicidade. Desde o choro incontido da criança exigindo o peito até a compra daquele objeto tão desejado, tudo é regido pelo programa do princípio do prazer, que é a ausência de dor e desprazer e a sensação intensa de prazer. Mas como bem sabemos, sempre existe uma “pedrinha” infame bem no meio caminho. A consciência é uma maldita pedra, a moral e a cultura, outra. Quanto mais cultura e quanto mais consciência, mais sofrimento, mais culpa. Enfim, somos um bando de bípedes com um desejo enorme de felicidade, mas com uma carga cultural muito pesada para carregar. Embora quase sempre demos aquela escapadinha, só no detalhe... não é verdade?



Por Josenias Silva

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Uma cara para conferir*





Minha fisionomia, se nunca me encantou pela excepcionalidade, também nunca me pareceu tão, assim, ordinária, excessivamente familiar, lugar-comum. Contudo é espantoso o entusiasmo com que conhecidos, recém-conhecidos, amigos, e até parentes, a toda hora se lembram de terem visto uma pessoa parecidinha comigo. De todas as pessoas que encontrei, em minha já não curta vida, rara é a que não tem um primo, um tio, um colega de escola, um professor, um padrasto ou um amante que é a minha cara, igualzinha, impressionantemente igual, esculpida e encarnada (cuspida e escarrada). Algumas pessoas encontram também, acho que por generosidade, semelhança impressionante até com vultos históricos, de Shakespeare a Júlio César, se é que alguém sabe como eles foram. Até hoje, curiosamente, ninguém me comparou ainda a Jesus Cristo. Deve ser pela barba, que eu não tenho. Eu deixo crescer.


Noutro dia, porém, aconteceu o que não esperava mas, evidentemente, tinha que acontecer um dia. Fui apresentado a uma jovem maravilhosa senhora, que, depois de poucos minutos de conversa, colocou na pauta a inevitável descoberta: "Mas, engraçado, você me lembra muito alguém conhecido". Imediatamente, com minha vasta experiência, lhe ofereci logo um imenso catálogo de pessoas, locais, nacionais e internacionais, que, dizem, se parecem comigo. Nenhuma a satisfez. Curioso que, enquanto conversávamos, a fisionomia da jovem também não me parecia estranha. Mas, quando, afinal, embora não se lembrando do nome da pessoa, ela afirmou estar certa de que tinha sido no Teatro TBC, em São Paulo, imediatamente eu me lembrei da cena e da hora em que a tinha conhecido. E me veio a satisfação de encontrar, afinal, uma pessoa que me achava parecido - não muito, eu sei, apenas uma vaga semelhança - comigo mesmo, alguns anos atrás.


Millôr Fernandes, Todo Homem é minha caça, 2005.



domingo, 11 de setembro de 2011

Deus é Naja*

Estás desempregado? Teu amor sumiu? Calma: sempre pode pintar uma jamanta na esquina.
Tenho um amigo, cujo nome, por muitas razões, não posso dizer, conhecido como o mais dark. Dark no visual, dark nas emoções, dark nas palavras: darkésimo. Não nos conhecemos a muito tempo, mas imagino que, quando ainda não havia darks, ele já era dark. Do alto de sua darkice futurista, devia olhar com soberano desprezo para aquela extensa legião de paz e amor, trocando flores, vestida de branco e cheia de esperança.
Pode parecer ilógico, mas o mais dark dos meus amigos é também uma das pessoas mais engraçadas que conheço. Rio sem parar do humor dele- humor dark, claro. Outro dia esperávamos um elevador, exaustos no fim da tarde, quando de repente ele revirou os olhos, encostou a cabeça na parede, suspirou bem fundo e soltou essa: -"Ai, meu Deus, minha única esperança é que uma jamanta passe por cima de mim..." Descemos o elevador rindo feito hienas.
Devíamos ter ido embora, mas foi num daqueles dias gelados, propícios aos conhaques e às abobrinhas. Tomamos um conhaque no bar. E imaginamos uma história assim: você anda só, cheio de tristeza, desamado, duro, sem fé nem futuro. Aí você liga para o Jamanta Express e pede: -"Por favor, preciso de uma jamanta às 30h15, na esquina da rua tal com tal. O cheque estará no bolso esquerdo da calça". Às 20h14, na tal esquina (uma ótima esquina é a Franca com Haddock Lobo, que tem aquela descidona), você olha para esquina de cima. E lá está- maravilha!- parada uma enorme jamanta reluzente, soltando fogo pelas ventas que nem um dragão de história infantil. O motorista espia pela janela, olha para você e levanta o polegar. Você levanta o polegar: tudo bem. E começa a atravessar a rua. A jamanta arranca a mil, pneus guinchando no asfalto. Pronto: acabou. Um fio de sangue escorrendo pelo queixo, a vítima geme suas últimas palavras: - "Morro feliz. Era tudo que eu queria..."
Dia seguinte, meu amigo dark contou: - "Tive um sonho lindo. Imagina só, uma jamanta toda dourada..." Rimos até ficar com dor na barriga. E eu lembrei dum poema antigo de Drummond. Aquele Consolo na Praia, sabe qual? "Vamos não chores / A infância está perdida/ A mocidade está perdida/ Mas a vida não se perdeu" – ele começa, antes de enumerar as perdas irreparáveis: perdeste o amigo, perdeste o amor, não tens nada além da mágoa e solidão. E quando o desejo da jamanta ameaça invadir o poema – Drummond, o Carlos, pergunta: "Mas, e o humour?" Porque esse talvez seja o único remédio quando ameaça doer demais: invente uma boa abobrinha e ria, feito louco, feito idiota, ria até que o que parece trágico perca o sentido e fique tão ridículo que só sobra mesmo a vontade de dar uma boa gargalhada. Dark, qual o problema?
Deus é naja - descobrimos outro dia.
O mais dark dos meus amigos tem esse poder, esse condão. E isso que ele anda numa fase problemática. Problemas darks, evidentemente. Naja ou não, Deus (ou Diabo?) guarde sua capacidade de rir descontroladamente de tudo. Eu, às vezes, só às vezes, também consigo. Ultimamente, quase não. Porque também me acontece – como pode estar acontecendo a você que quem sabe me lê agora - de achar que tudo isso talvez não tenha a menor graça. Pode ser: Deus é naja, nunca esqueça, baby.
Segure seu humor. Seguro o meu, mesmo dark: vou dormir profundamente e sonhar com uma jamanta. A mil por hora.

Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias, 2006.


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*Segundo o filósofo Ludwig Wittgenstein (1889-1951), “o humor não é um estado de espírito, mas uma visão de mundo”, dessa forma, o Humor, como uma maneira singular de enxergar as coisas, significa para este filósofo uma ação política que dota de sentido a realidade. Para Caio Fernando Abreu, por exemplo, o Humor assume o papel de tornar a vida menos amarga, pincelar com cores alegres o fundo trágico da existência. O Humor para Caio F. é antes de tudo alento, “único remédio quando a dor ameaça doer demais”. Enfim, entre o político de Wittgenstein e o debochado de Caio, acredito que devemos dosar a cada situação o tom do riso, ou da gargalhada, se for o caso, sem nunca perder a oportunidade de descomplicar a vida, afinal de contas, dizem os especialistas, sorrir faz bem.



Por Josenias Silva

Tetas*



Para fugir do castigo, alguns homossexuais se disfarçavam de mulheres e se faziam passar por prostitutas.

No final do século XV, Veneza ditou uma lei que obrigava as profissionais a exibir suas tetas. Os peitos nus deviam ser mostrados nas janelas onde elas se ofereciam aos clientes que passavam. Trabalhavam numa ponte, perto do Rialto, que até hoje se chama Ponte delle Tette.


Eduardo Galeano, Espelhos: uma história quase universal, 2009.

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*Interessante como o cinema, o bom cinema, às vezes surpreende em nível de pesquisa. Assistindo o filme O Mercador de Veneza (2004), baseado na obra homônima de W. Shakespeare, me surpreendeu esse detalhe das “prostitutas” trabalhando de seios nus sobre uma ponte. Fui investigar, sem muito esforço me caiu nas mãos esse livro de Eduardo Galeno que traz este pequeno fato histórico, que poderia ter passado despercebido, mas que mostra que Hollywood ainda pode surpreender. O filme deu seu jeito com a ponte, mas manteve a nudez dos seios como um detalhe do cotidiano da Veneza do Século XVI. Sobre o filme em si, para mim um clássico, só assistindo.



Memória de minhas putas tristes*


No ano de meus noventa anos quis me dar de presente uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar aos seus bons clientes quando tinha alguma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma de suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza de meus princípios. Também a moral é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, você vai ver.
Era um pouco mais nova que eu, e não sabia dela fazia tantos anos que podia muito bem estar morta. Mas no primeiro toque reconheci a voz no telefone e disparei sem preâmbulos:
— É hoje.
Ela suspirou: Ai, meu sábio triste, você desaparece vinte anos e volta só para pedir o impossível. Recobrou em seguida o domínio de sua arte e me ofereceu meia dúzia de opções deleitáveis, mas com um senão: eram todas usadas. Insisti que não, que tinha de ser donzela e para aquela noite. Ela perguntou alarmada: Mas o que é que você está querendo provar a si mesmo? Nada, respondi, machucado onde mais doía, sei muito bem o que posso e o que não posso. Ela disse impassível que os sábios sabem de tudo, mas não tudo: Virgens sobrando neste mundo só os do seu signo, dos nascidos em agosto. Por que não encomendou com mais tempo? A inspiração não avisa, respondi. Mas talvez espere, disse ela, sempre mais sabichona que qualquer homem, e me pediu nem que fossem dois dias para revirar o mercado a fundo. Eu repliquei a sério que numa questão dessas, e na minha idade, cada hora é um ano. Então não tem jeito, disse ela sem o menor fiapo de dúvida, mas não importa, assim é mais emocionante, merda, deixa que eu telefono em uma hora.
Não preciso nem dizer, porque dá para reparar a léguas: sou feio, tímido e anacrônico. Mas à força de não querer ser assim consegui simular exatamente o contrário. Até o sol de hoje, em que resolvo contar como sou por minha livre e espontânea vontade, nem que seja só para alívio da minha consciência. Comecei com o telefonema insólito a Rosa Cabarcas, porque, visto de hoje, aquele foi o início de uma nova vida, e numa idade em que a maioria dos mortais está morta.
Vivo numa casa colonial na calçada de sol do parque de San Nicolás, onde passei todos os dias da minha vida sem mulher nem fortuna, onde viveram e morreram meus pais, e onde me propus morrer só, na mesma cama em que nasci e num dia que desejo longínquo e sem dor. Meu pai comprou a casa num leilão público no final do século XIX, alugou o andar de baixo para lojas de luxo de um consórcio de italianos e reservou-se este segundo andar para ser feliz com a filha de um deles, Florina de Dios Cargamantos, intérprete notável de Mozart, poliglota e garibaldina, e a mulher mais formosa e de melhor talento que jamais houve na cidade: minha mãe.
O espaço da casa é amplo e luminoso, com arcos de estuque e pisos axadrezados de mosaicos florentinos, e quatro portas envidraçadas sobre uma sacada corrida onde minha mãe sentava-se nas noites de março para cantar árias de amor com suas primas italianas. Dali se vê o parque de San Nicolás com a catedral e a estátua de Cristóvão Colombo, e mais além os armazéns do cais fluvial e o vasto horizonte do rio grande da Magdalena a vinte léguas de seu estuário. A única coisa ingrata na casa é que o sol vai mudando de janelas no transcurso do dia, e é preciso fechar todas elas para tratar de dormir a sesta na penumbra ardente. Quando fiquei sozinho, aos meus trinta e dois anos, mudei-me para a que tinha sido a alcova de meus pais, abri uma porta de passagem para a biblioteca e para viver comecei a vender o que estava sobrando, e que terminou sendo quase tudo, exceto os livros e a pianola de rolos.
Durante quarenta anos fui o domador de telegramas do El Diário de La Paz, tarefa que consistia em reconstruir e completar em prosa indígena as notícias do mundo, que agarrávamos em pleno vôo pelo espaço sideral através das ondas curtas ou do código Morse. Hoje me sustento, mal ou bem, com minha aposentadoria daquele ofício extinto; me sustento menos com a de professor de gramática castelhana e latim, quase nada com a crônica dominical que escrevi sem esmorecimento durante mais de meio século, e nada em absoluto com as resenhas de música e teatro que me publicam de favor nas muitas vezes em que intérpretes notáveis passam por aqui. Nunca fiz nada diferente de escrever, mas não tenho vocação nem virtude de narrador, ignoro por completo as leis da composição dramática, e se embarquei nessa missão é porque confio na luz do muito que li pela vida afora. Dito às claras e às secas,  sou da raça sem méritos nem brilho, que não teria nada a legar aos seus sobreviventes se não fossem os fatos que me proponho a narrar do jeito que conseguir nesta memória do meu grande amor.

Gabriel Garcia Marquez, Memórias de Minhas Putas Tristes, 2005.

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* Li este livro de uma só tirada numa das minhas noites insones. Às vezes agradeço quando elas acontecem, penso que terei muito tempo para dormir depois de morto. No texto, como se pode degustar um pouquinho, o escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez (1927-) conta uma história pra lá de insólita. Um homem, “da raça dos sem méritos nem brilhos”, no dia dos seus noventa anos resolve provar para si mesmo que ainda estava vivo, em todos os sentidos. Até ai tudo bem, só que o incomum é que ele deseja presentear-se com uma noite de “amor louco” com uma adolescente virgem. Deste ponto em diante a história ganha contornos fascinantes, mescla memória, mediocridade, egoísmo, erotismo e certa dose de risibilidade. Mais paternal do que carnal, lembrei-me dos complexos de Freud, o livro em si nos remete a alguns íntimos desejos platônicos que acalentamos secretamente e também põe em questão o dilema da velhice, sobre o que faremos de nossas vidas no tempo que nos resta. É um livro em que a suavidade não esconde a profundidade de suas conclusões. 



Por Josenias Silva

sábado, 10 de setembro de 2011

A mais justa das saias*


Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus—a aids psicológica.
A primeira vez que ouvi falar em aids foi quando Markito morreu. Eu estava na salinha de TV do velho Hotel Santa Teresa, no Rio, assistindo ao Jornal Nacional. “Não é possível” — pensei — “Uma espécie de vírus de direita, e moralista, que só ataca aos homossexuais?” Não, não era possível. Porque homossexualidade existe desde a Idade da Pedra. Ou desde que existe a sexualidade — isto é: desde que existe o ser humano. Está na Bíblia, em Jônatas e Davi (“... a alma de Jônatas apegou-se à alma de Davi e Jônatas o amou como a si mesmo” —i Samuel, i8-), nos gregos, nos índios, em toda a história da humanidade. Por que só agora “Deus” ou a “Natureza” teriam decidido puni-los?
Mas de coisa-que-se-lê-em-revista ou que só-acontece-aos-outros, o vírus foi chegando mais perto. Matou o inteligentíssimo Luiz Roberto Galizia, que eu conhecia relativamente bem (tínhamos até um vago e delirante projeto de adaptar para teatro Orlando, de Virginia Woolf, com Denise Stoklos no papel principal, já pensou?). Matou Fernando Zimpeck, cenógrafo e figurinista gaúcho, supertalentoso. E Flávio Império, Timochenko Webbi, Emile Eddé — pessoas que você encontrava na rua, no restaurante, no cinema. O vírus era real. E matava.
Aí começaram as confusões. A pseudotolerância conquistada nos últimos anos pelos movimentos de liberação homossexual desabou num instantinho. Eu já ouvi — e você certamente também — dezenas de vezes frases tipo “bicha tem mesmo é que morrer de aids”. Ou propostas para afastar homossexuais da “sociedade sadia” — em campos de concentração, suponho. Como nos velhos e bons tempos de Auschwitz? Tudo para o “bem da família”, porque afinal — e eles adoram esse argumento — “o que será do futuro de nossas pobres criancinhas?”
Só que homossexualidade não existe, nunca existiu. Existe sexualidade — voltada para um objeto qualquer de desejo. Que pode ou não ter genitália igual, e isso é detalhe. Mas não determina maior ou menor grau de moral ou integridade. (É curioso, e revelador, observar que quando Gore Vidal vem ao Brasil, toda a imprensa se refere a ele como “o escritor homossexual” mas estou certo que se viesse, por exemplo, Norman Mailer, ninguém falaria do “escritor heterossexual”.)
Sim, a moral & os bons costumes emboscados por trás do falso liberalismo — e muito bem amparados pelo mais reacionário papa de toda a (triste) história do Vaticano — arreganha agora os dentes para declarar: “Viram como este vício hediondo não só corrompe, mas mata?”
Corrompe nada, mata nada. Acontece apenas que a única forma possível de consumação do ato sexual entre dois homens é mais favorável à transmissão do vírus, que se espalhou nesse grupo devido à alta rotatividade sexual de alguns. E é aí que começa a acontecer isso que chamo de “a mais justa das saias”. Afinal é preciso que as pessoas compreendam que um homossexual não é um contaminado em potencial, feito bomba-relógio prestes a explodir. Isso soa tão cretino e preconceituoso como afirmar que todo negro é burro e todo judeu, sacana.
Heteros ou homos (?) a médio prazo iremos todos enlouquecer, se passarmos a ver no outro uma possibilidade de morte. Tem muita gente contaminada pela mais grave manifestação do vírus — a aids psicológica. Do corpo, você sabe, tomados certos cuidados, o vírus pode ser mantido a distância. E da mente? Porque uma vez instalado lá, o HTLV-3 não vai acabar com as suas defesas imunológicas, mas com suas emoções, seu gosto de viver, seu sorriso, sua capacidade de encantar-se. Sem isso, não tem graça viver, concorda?
Você gostaria de viver num mundo de zumbis? Eu, decididamente não. Então pela nossa própria sobrevivência afetiva — com carinho, com cuidado, com um sentimento de dignidade — ô gente, vamos continuar namorando. Era tão bom, não era?

Caio Fernando Abreu, O Estado de S. Paulo, 25/3/1987.

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*Texto do insubstituível Caio Fernando Abreu (1948-1996), que, se estivesse vivo, faria 63 anos neste próximo dia 12/09/11. Um texto escrito sob o período mais critico da Aids no Brasil e no Mundo, doença nova, carregada de estigmas e que, de fato, assombrou psicologicamente toda uma geração. Os preconceitos continuam, embora hoje já se possa dizer que, acima de tudo, a Vida é possível.



Amor*



Na selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se olharam com curiosidade. Era estranho o que tinham entre as pernas.
- Te cortaram? -  Perguntou o homem.
- Não – disse ela. – Sempre fui assim.
Ele examinou-a de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga aberta.
Disse:
- Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se abra ao amadurecer. Eu te curarei. Deita na rede, e descansa.
Ela obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus e ervas e se deixou aplicar pomadas e os ungüentos. Tinha de apertar os dentes para não rir, quando ele dizia:
- Não te preocupes.
Ela gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de viver em jejum, estendida em uma rede. A memória das frutas enchia sua boca de água.
Uma tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava saltos de euforia e gritava:
- Encontrei! Encontrei!
Acabava de ver o macaco curando a macaca na copa de uma árvore.
- É assim – disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando acabou o longo abraço, um aroma espesso, de flores e frutas, invadiu o ar. Dos corpos, que jaziam juntos, se desprendiam vapores e fulgores jamais vistos, e era tanta formosura que os sóis e os deuses morriam de vergonha.

Eduardo Galeano, Mulheres, 2007.

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*Nesta narrativa de origem o escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940) coloca uma outra perspectiva para o mito do nascimento do sexo humano. Esta, por sua vez, vem leve e sem o carregado fardo da tradição judaico-cristã, que introduziu o pecado no lugar mesmo do prazer. O mistério e a descoberta, a falta e a completude, eis o sexo em seu mais puro devir.



Por Josenias Silva

Melros*



Ao longo dos últimos duzentos anos, o melro abandou as florestas para tornar-se um pássaro das cidades. Primeiramente na Grã-Bretanha, desde o final do século XVIII, algumas dezenas de anos mais tarde em Paris e na bacia do Ruhr. No decorrer do século XIX, ele conquistou, uma após a outra, as cidades da Europa. Instalou-se em Viena e em Praga por volta de 1900, depois progrediu em direção ao leste, ganhado Budapeste, Belgrado e Istambul.
Aos olhos do planeta, essa invasão do melro no mundo do homem é incontestavelmente mais importante do que a invasão da América do Sul pelos espanhóis ou do que o retorno dos judeus à Palestina. A modificação das relações entre as diferentes espécies da criação (peixes, pássaros, homens, vegetais) é uma modificação de uma ordem mais elevada do que as mudanças das relações entre os diferentes grupos de uma mesma espécie. Que a Boêmia seja habitada pelos celtas ou pelos eslavos, a Bessarábia, conquistada pelos romanos ou pelos russos, a Terra não dá importância a isso. Mas que o melro tenha traído a natureza para seguir o homem no seu universo artificial e contra a natureza, eis um fato que muda alguma coisa na organização do planeta.
Contudo, ninguém ousa interpretar os dois últimos séculos como a história da invasão da cidade do homem pelo melro. Somos todos prisioneiros de uma concepção estática do que é e do que não é importante; fixamos sobre o que é importante olhares ansiosos, enquanto, às escondidas, às nossas costas, o insignificante conduz sua guerrilha que terminará por mudar sub-repticiamente o mundo e vai pular sobre nós de surpresa. 

Milan Kundera, O livro do riso e do esquecimento, 1978.

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* Verdadeiramente fomos acostumados a olhar o mundo sob o prisma dos gigantes, altos, soberbos, senhores das alturas, recusamo-nos a olhar o minúsculo, o ínfimo, o pequeno gesto, ou sutileza escondida no detalhe. Grandes e cegos, é o que somos. Talvez a vida tivesse outro sentido, além dos muitos que já tem, se reacusássemos alguns sistemas que já nos capturaram, como por exemplo, aquele que diz que algumas coisas são mais importantes do que outras.



Por Josenias Silva

Mis Libros*

Mis libros (que no saben que yo existo)
Son tan parte de mí como este rostro
De sienes grises y de grises ojos
Que vanamente busco en los cristales
Y que recorro con la mano cóncava.
No sin alguna lógica amargura
Pienso que las palabras esenciales
Que me expresan están en esas hojas
Que no saben quién soy, no en las que he escrito.
Mejor así. Las voces de los muertos
Me dirán para siempre.

Jorge Luis Borges, Obras Completas, 1989. Tomo.II.


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*Um belo poema do escritor argentino mais destacado no século XX, Jorge Luis Borges (1889-1986), sobre livros e as buscas de si, sobre as fronteiras perdidas entre as coisas.





Por Josenias Silva
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