domingo, 18 de dezembro de 2011

A queima dos livros*

Por Bertolt Brecht


Quando o regime ordenou que fossem queimados publicamente
Os livros que continham saber pernicioso, e em toda a parte
Fizeram bois arrastarem carros de livros
Para as pilhas em fogo, um poeta perseguido
Um dos melhores, estudando a lista dos livros queimados
Descobriu, horrorizado, que os seus
Haviam sido esquecidos. A cólera o fez correr
Célere até sua mesa, e escrever uma carta aos donos do poder.
Queimem-me! Escreveu com pena veloz. Queimem-me!
Não me façam uma coisa dessas! Não me deixem de lado! Eu não
Relatei sempre a verdade em meus livros? E agora tratam-me
Como um mentiroso! Eu lhes ordeno:
Queimem-me!

Alento*

 Por Caio Fernando Abreu




Quando nada mais houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.
E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.
Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.


in: Caio 3D, O Essencial da Década de 1970, p.144.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Cinema dentro da história*

Por Arlindenor Pedro




Todos aqueles que hoje assistem ao documentário O Triunfo da Vontade, da cineasta alemã Leni Riefenstahl, dificilmente deixarão de refletir sob seus diversos aspectos subjacentes. E esta é a sua força, pois estamos diante de uma obra perene, que não se esgota no processo histórico. Pelo contrário: trata-se de um valioso instrumento de reflexão sobre o nosso tempo — e também de parâmetro para tempos vindouros.

Quando Adolf Hitler pediu à jovem cineasta dirigisse um documentário sobre o VI Congresso do Partido Nacional-Socialista, na cidade de Nuremberg, entre os dias 4 e 10 de setembro de 1934, esperava uma obra grandiosa, que espelhasse política e esteticamente, para Alemanha e o mundo, as ideias do nazismo. Após terem conquistado o poder político no país, era a primeira vez que os nazistas realizavam um Congresso nacional.

Na época, Leni Riefenstahl já era uma conhecida e prestigiosa atriz do cinema alemão. Começou sua carreira como bailarina, mas desenvolveu-se como atriz em belos filmes ambientados nos Alpes. Invariavelmente, as películas retratavam a vitória da tenacidade humana sob a adversidade da natureza, destacando-se a força física, a beleza e o caráter do povo alemão nas figuras de montanheses e alpinistas.

Talvez tenham sido estas características que fizeram com que o próprio Fuhrer, após ser apresentado a Leni por Joseph Goebbels, se encantasse com o talento da cineasta, incumbindo-lhe da realização do documentário. Para que pudesse cumprir com sua nobre tarefa, Hitler abriu-lhe as portas da estrutura do Estado, a despeito da oposição da maioria da cúpula do partido. Assim, Leni recebeu todos os recursos necessários. O resultado foi a criação do mais importante documentário de propaganda política de todos os tempos, até hoje admirado pelo seu valor técnico e por trazer até os dias atuais a “visão de mundo” dos alemães no pós-guerra.

Escolhido pelo próprio Fuhrer, o título nietzschiano, Der Triumph des Willens, busca refletir a tarefa a que se propôs o povo alemão: superar todas as barreiras e levar a cabo a utopia da construção de um mundo nacional socialista. O documentário, como numa obra de grandiosidade wagneriana, supervisionado em todos os detalhes pelo seu idealizador, realça, através de 12 grandes quadros, a relação do povo alemão — ali retratado pelos delegados do VI Congresso — com o depositário de suas esperanças: Adolf Hitler.

Numa narrativa cinematográfica em que não existe texto, as imagens falam por si, através de planos que nos lembram o ápice dos triunfos das legiões romanas, desfilando massas de jovens retratados dentro da estética de fisiocultura grega, rendendo homenagens ao seu líder supremo. Numa integração entre os hinos nazistas e canções tradicionais, o documentário só quebra o seu impressionante ritmo para que possamos ver e ouvir o desempenho oratório do Fuhrer, em discursos variados, onde formula suas concepções políticas, oriundas da obra máxima do ideário nacional socialista: Mein Kampf (Minha Luta), escrito por ele na prisão, após o fracasso do levante de Munique.

Leni Riefenstahl soube traduzir em linguagem cinematográfica as duas vertentes poderosas que se ocultavam por detrás da imagem de Hitler, e que eram muito eficazes junto ao público alemão. A primeira delas vinha da tradição cristã, que, tanto nos Evangelhos como no Livro do Apocalipse, deposita enormes esperanças na chegada de um salvador, de um messias. Num contexto de miséria e humilhação, o líder nazista se encaixava perfeitamente nesse papel.

A outra vertente advinha do herói da mitologia teutônica, Siegfried, o lendário guerreiro que, acompanhado de mil nibelungos, depois de incríveis aventuras e feitos extraordinários, mata o dragão às margens do Rio Reno, livrando os alemães da desgraça. O Fuhrer era o Partido Nacional-Socialista, ele era a Alemanha: sua tarefa era conduzir o povo. Hitler era invencível, como Siegfried, e somente ele reergueria a Alemanha e levaria os alemães a liderar a reorganização do mundo.

Um dos maiores méritos dos documentários de Leni Riefenstahl (ela realizou inúmeros para o terceiro Reich, e dentre eles se destaca o genial Olimpia, que encantou as plateias com as imagens altamente inovadoras dos 11° Jogos Olímpicos, realizados na Alemanha) é trazer até nós, na atualidade, uma narrativa essencialmente nazista sobre a Alemanha. São imagens e discursos feitos pelos próprios lideres nazistas — e não através das lentes e interpretações dos vencedores da II Grande Guerra, que satanizaram o Nacional-Socialismo alemão e seus líderes, passando-nos uma versão superficial e maniqueísta da história, onde o bem venceu o mal.

Assim como o italiano Roberto Rossellini, que trabalhou para o fascismo, e Serguei Eisenstein, com seus geniais filmes para o governo Soviético, Leni, como a maioria do povo alemão, acreditou e viveu uma utopia. Foi presa após a guerra e, embora tenha sido libertada pelos Aliados — pois ficou comprovado que nunca tinha participado das decisões políticas do regime —, até a sua morte, em 2003, sofreu com a discriminação por ter realizado filmes para o Estado nazista.

Sua vida e obra nos remetem ao debate e reflexão sobre o papel dos artistas, intelectuais e mesmo cientistas perante as utopias e seus engajamentos ideológicos. Remete-nos também à reflexão do que é Arte e Ciência, e qual o seu papel na história.

É um debate difícil, ainda mais se lembrarmos que, passada a ameaça nazista, tanto EUA quanto URSS não tiveram nenhum pudor em contratar os cientistas alemães que desenvolviam o programa nuclear do Fuhrer. Os pesquisadores receberam a cidadania americana ou soviética e em nenhum momento questionou-se seus papéis junto ao terceiro Reich. Mesmo o conceito do que é bem e mal fica abalado, quando vemos o Estado de Israel patrocinar o mesmo tipo de prática desumana e xenófoba que um dia foi utilizado contra os judeus.

Klaus Mann, filho mais velho de Thomas Mann, escreveu o conhecido romance Mephisto, em que retrata a vida de Gustaf Grundgens, um ator alemão que foi casado com sua irmã, Erika Mann, e que, embora mantivesse estreitas relações com comunistas alemães, permaneceu na Alemanha após a ascensão de Adolf Hitler. Gustaf tornou-se uma referência cultural no país ao interpretar o papel de Mefisto na peça Fausto, de Goethe. Os nazistas gostavam muito da encenação, e o romance de Klaus retrata o lado dúbio do personagem, que, segundo ele, vendeu a alma ao regime. Mephisto se defende e diz que ele é um ator e não pode viver sem representar.

Tal situação retrata o dilema em que vivem os artistas, intelectuais, cientistas etc. quando estão submetidos a regimes como o nazista e se dão conta que seu trabalho é utilizado pelo Estados Militaristas para fins que não compartilham.

Guy Debord e seus amigos da Internacional Situacionista propugnavam que a arte, desde que exista, passa a não ter mais propriedade e serve a todos os propósitos. Dessa forma, aplicavam a técnica do detournement (colagem) sobre as obras de outros artistas e as montavam dentro de suas obras, muitas vezes mudando completamente o seu sentido, para fins revolucionários. Vemos, por exemplo, muitos filmes de Debord em que o texto transforma o sentido das imagens extraídas de películas as mais diversas.

Só poderemos então compreender aos filmes de Leni Riefenstahl contextualizando-os dentro do espírito em que foram produzidos, na Alemanha nazista, onde praticamente todos acreditavam na utopia propugnada pelo Fuhrer. Afinal, Hitler chegou ao poder pelo voto da maioria esmagadora do povo alemão.


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*Assista ao Filme-Documentario O Triunfo da Vontade aqui.

Rosselini em silêncio*


Por José Castello



Observo pessoas que lêem no metrô, nos ônibus, aeroportos, nas praias agitadas do verão. Que lêem em qualquer lugar. É espantoso o poder de abstração que a leitura nos fornece. Toda a zoeira, todo o burburinho infernal do mundo contemporâneo, o falatório das ruas, bares e escritórios, tudo se dissolve nas páginas do livro aberto - que se transforma em uma espécie de redoma inviolável, a nos proteger da agitação externa.

Nada - nem os muros mais grossos, tampouco os vidros blindados - nos protege com tanta segurança. Na verdade, o silêncio não está no livro, mas no ato de debruçar-se sobre ele. Está no ato de introspecção. Experiência que pode ser vivida mesmo no cinema, a mais técnica e ruidosa das artes.

Federico Fellini gostava de lembrar do modo quase mágico como Roberto Rosselini (1906-1977), seu mestre, se distanciava do mundo enquanto filmava. Rosselini lhe mostrou que "o cinema também poderia ser feito na mais completa solidão, apesar de toda a confusão em volta". A lembrança está na longa entrevista que Fellini deu, pouco antes de morrer, em 1993, a Damien Pettigrew. Nos sebos ainda se pode encontrar uma edição brasileira desse diálogo, traduzido por Fernanda Borges e Roberto Paulino para a Nova Fronteira ("Eu sou um grande mentiroso").

Recorda Fellini do caos que caracteriza a experiência das filmagens, "essa mistura de desembarque militar na Normandia, de ataque de pára-quedistas, de batida policial em pleno mercado de peixes, somada a todas as psicologias caprichosas de vários atores e ainda ao aspecto técnico". Um verdadeiro front de guerra e de humores. Pois, em meio ao impensável caos, Fellini observou, muitas vezes, seu grande mestre, seguiu-o de perto, e se espantou com seu poder quase sobrehumano de abstração.

"Vi que ele ignorava completamente toda esta máquina guerreira tão mostruosa, hipertécnica, com todos os seus problemas de organização, de logística e de relações psicológicas". Ignorava como? Tranquilo, pacífico, Rosselini vagava entre aqueles corpos agitados e máquinas rangentes, regendo seu filme como se estivesse no topo de uma montanha. Ele era a montanha? Não, o próprio filme era a montanha. A arte, sim, nos eleva, somos apenas seus objetos.

Lembra Fellini ainda que essa lição - a do silêncio soberano - não se pode transmitir com palavras, e que só a aprendemos vivendo. Eis algo que se passa também na experiência da leitura, e também na escrita literária: de repente, o mundo exterior despenca em um grande vazio, "desaparece", e tudo o que temos para nos agarrar são as palavras. Mas agarrar-se em palavras? "As palavras são o corpo do pensamento", me lembrava, outro dia, meu amigo Murilo Salles - ele, também, talentoso cineasta. Palavras são invólucros, que guardam não só pensamentos, mas também aquele que os pensa. Ou, avançando mais um pouco, aquele que os lê (isto é, decifra).

Apostar na experiência do silêncio - atitude que nos parece demasiadamente oriental - é uma das estratégias cruciais do artista, esteja ele no Oriente, ou no Ocidente. Pensei nisso enquanto revia, hoje à tarde, "Viver" ("Ikiru"), o filme fabuloso de Akira Akurosawa (ele, um dos meus mestres). E constatei, mais uma vez, como o silêncio, para o cineasta japonês, era tão ou mais importante que a palavra.

É do silêncio que o burocrata Kanji Watanabe (vivido por Takashi Shimura), derruabado por um câncer terminal, se vale para superar a morte com a beleza da vida. É em silêncio - sem gritar, sem espernear, sem se exaltar, mas apenas seguindo quieto seu caminho - que ele renasce antes de se despedir. (Aliás: é em silêncio, e não mastigando pipocas, que assistimos aos grandes filmes. Isso, apesar dos shoppings, etc).

Mas, também para apreciar o silêncio, não só as imagens (dos cineastas), ou as palavras (dos escritores), é preciso erguer uma muralha invisível - longo manto caloroso - que nos proteja dos ruídos do mundo. A mesma colcha diáfana, mas inviolável, em que Rosselini se envolvia enquanto regia seus filmes.

Em resumo: tolice dizer que a agitação contemporânea nos impede de ler. Que ela nos atrapalha, nos dispersa, nos perturba. Que só aceitamos palavras bem mastigadas, ou em pedaços, para uma digestão fácil. Tudo isso é verdade, nosso mundo ferve e se fragmenta. Mas até por isso o ato da leitura se torna mais importante. Mais que isso: ele nos salva.




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*José Castello é jornalista e escritor, colunista do suplemento Prosa & Verso, de O Globo.

Celebração da desconfiança*

Por Eduardo Galeano




 No primeiro dia de aula, o professor trouxe um vidro enorme:

- Isto está cheio de perfume – disse a Miguel Brun e aos outros alunos. – Quero medir a percepção de cada um de vocês. Na medida em que sintam o cheiro, levantem a mão.

E abriu o frasco. Num instante, já havia duas mãos levantadas. E logo cinco, dez, trinta, todas as mãos levantadas.

- Posso abrir a janela, professor? - suplicou uma aluna, enjoada de tanto perfume, e várias vozes fizeram eco. O forte aroma, que pesava no ar, tinha se tornado insuportável para todos.

Então o professor mostrou o frasco aos alunos, um por um. Estava cheio de água.


In: O Livro dos Abraços, 2010, p. 156.

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*Desconfiar sempre, mesmo que isso signifique perder a inocência das coisas.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Sorria*

Por Gabriel O Pensador





Não coma de boca aberta, 
não fale de boca cheia; 
não beba de barriga vazia
não fale da vida alheia, 
não julgue sem ter certeza e 
não apoie os cotovelos sobre a mesa
não pare no acostamento, 
não passe pela direita, 
não passe embaixo de escada que dá azar
não cuspa no chão da rua, 
não cuspa pro alto, 
não deixe de dar descarga depois de usar
não use o nome de Deus em vão
não use o nome de Deus em vão,irmão
não use o nome de Deus em vão
não use remédios sem orientação

SORRIA! Você tá sendo filmado 
SORRIA! Você tá sendo observado 
SORRIA! Você tá sendo controlado
'cê tá sendo filmado! 'cê tá sendo filmado!

Não coma de boca aberta, não fale de boca cheia, 
não toque nos produtos se não for comprar 
não pise na grama, não faça xixi na cama; 
não ame quem não te ama [não ame quem não te ama!]
não chame os elevadores em caso de incêndio 
não entre no elevador sem antes verificar 
se o mesmo encontra-se neste andar
não chupe balas oferecidas por estranhos
não recuse um convite sem dizer obrigado
não diga palavras chulas na frente dos seus avós
não fale com o motorista; apenas o necessário
não se deixe levar pelos instintos carnais
não desobedeça seus pais
não dê esmola aos mendigos, 
não dê comida aos animais
não dê comida aos animais, 
não dê esmola aos mendigos
não coma de boca aberta, 
não fale de boca cheia, 
não dê na primeira noite, 
não coma a mulher do amigo.

Não use o nome de Deus em vão
não use o nome de Deus em vão, irmão
não use o nome de Deus em vão
não use remédios sem orientação

Não se deixe levar! 
não se deixe levar! 
não se deixe levar! 
não se deixe levar! (2x)

Coma de boca aberta, coma de boca fechada
coma nos elevadores
em caso de incêndio coma nas escadas
coma no chão da rua, coma na grama, coma na cama
ame quem não te ama, 
não recuse balas oferecidas por estranhos 
não dê esmola aos mendigos sem dizer obrigado
não chupe os animais, 
não desobedeça aos seus instintos carnais
não dê na primeira noite na frente dos seus avós
não use o nome de Deus se não for comprar
não coma a mulher do amigo sem antes verificar 
se o mesmo encontra-se neste andar.


In: Gabriel O Pensador, Caveleiro Andante, 2005. (Sony BMG)


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Assista ao vídeo aqui ...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Das garotas que se foram*


Por Andrew Clímaco




garotas vão embora
e deixam a tristeza
é a sua herança
como filhos que jamais chegaram a ter
e mesmo assim choram a noite inteira
em seu ouvido lamentando algo
que você já não tem
elas vão embora
como rios em busca
de um mar ilusório
elas apenas seguem seu leito estreito
ignorando a fome em suas margens
a sede que as águas não matam
elas querem ser livres

garotas vão embora
e não se importam
que um dia sonharam
seus braços quando estavam
e não eram de todo alegria mas
ao menos preenchiam aquele lugar vago
nas camas
nas mesas de jantar
nos seus porta-retratos
na sua vidinha besta demais
sua vidinha que era tudo o que pediam
sua vidinha breve demais como um último suspiro
e ainda assim longa o suficiente
para que uma delas
ficasse com você
até o fim

garotas vão embora
elas sempre vão
não importa o que você faça
outros homens
outros anseios
outro Deus que não o seu
elas sempre arrumam motivos
e partem partem partem
partem você ao meio
e saem sempre vitoriosas
porque enquanto você
ainda lembra
de cada uma delas
e sobre elas escreve poemas como este
há muito elas já o esqueceram.



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*Encontrei outro espaço onde se faz boa literatura: Crônica de um amor louco blog do Andrew Clímaco. Para quem curte o estilo Bukowski ou Henry Miller é um prato cheio. Vale a pena.


Papai Noel ataca novamente*


Por Josenias Silva


Para não dizer que estou com perseguição gratuita a este biltre barbudo, leiam a matéria abaixo publicada na página da Folha.com... Onde já se viu uma coisa dessa sô? kkkkk


Olha a matéria aí:

 

Papai Noel cobra R$ 770 para animar Natal por 20 minutos


Guia folha 11/12/11


Quem quiser animar as festas de Natal e contratar um Papai Noel com barba verdadeira tem de desembolsar R$ 770, por 20 minutos. Quem disponibiliza o serviço é a Companhia do Bafafá.



Já uma versão artificial (com barba postiça) tem um pequeno desconto e custa R$ 590. Para completar a festa, é possível ainda contratar uma trupe com duendes, fadas e a Mamãe Noel, por R$ 400.

O Papai Noel chega ao local tocando um sino e brincando com os convidados, acompanhado de um ajudante (motorista), que garante pontualidade e uma atuação bem realizada.

O bom velhinho pode levar uma pasta com os "relatórios natalinos", que pode ser elaborado previamente com informações sobre as crianças presentes na festa.



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Até que as fadinhas são bonitinhas, mas 770 contos por míseros 20 minutos, nem f....

Passeio Noturno*

Por Rubem Fonseca



Cheguei em casa carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos, pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher, jogando paciência na cama, um copo de uísque na mesa de cabeceira, disse, sem tirar os olhos das cartas, você está com um ar cansado. Os sons da casa: minha filha no quarto dela treinando impostação de voz, a música quadrifônica do quarto do meu filho. Você não vai largar essa mala?, perguntou minha mulher, tira essa roupa, bebe um uisquinho, você precisa aprender a relaxar.

Fui para a biblioteca, o lugar da casa onde gostava de ficar isolado e como sempre não fiz nada. Abri o volume de pesquisas sobre a mesa, não via as letras e números, eu esperava apenas. Você não pára de trabalhar, aposto que os teus sócios não trabalham nem a metade e ganham a mesma coisa, entrou a minha mulher na sala com o copo na mão, já posso mandar servir o jantar?

A copeira servia à francesa, meus filhos tinham crescido, eu e a minha mulher estávamos gordos. É aquele vinho que você gosta, ela estalou a língua com prazer. Meu filho me pediu dinheiro quando estávamos no cafezinho, minha filha me pediu dinheiro na hora do licor. Minha mulher nada pediu, nós tínhamos conta bancária conjunta.

Vamos dar uma volta de carro?, convidei. Eu sabia que ela não ia, era hora da novela. Não sei que graça você acha em passear de carro todas as noites, também aquele carro custou uma fortuna, tem que ser usado, eu é que cada vez me apego menos aos bens materiais, minha mulher respondeu.

Os carros dos meninos bloqueavam a porta da garagem, impedindo que eu tirasse o meu. Tirei os carros dos dois, botei na rua, tirei o meu, botei na rua, coloquei os dois carros novamente na garagem, fechei a porta, essas manobras todas me deixaram levemente irritado, mas ao ver os pára-choques salientes do meu carro, o reforço especial duplo de aço cromado, senti o coração bater apressado de euforia. Enfiei a chave na ignição, era um motor poderoso que gerava a sua força em silêncio, escondido no capô aerodinâmico. Saí, como sempre sem saber para onde ir, tinha que ser uma rua deserta, nesta cidade que tem mais gente do que moscas. Na avenida Brasil, ali não podia ser, muito movimento. Cheguei numa rua mal iluminada, cheia de árvores escuras, o lugar ideal. Homem ou mulher? Realmente não fazia grande diferença, mas não aparecia ninguém em condições, comecei a ficar tenso, isso sempre acontecia, eu até gostava, o alívio era maior. Então vi a mulher, podia ser ela, ainda que mulher fosse menos emocionante, por ser mais fácil. Ela caminhava apressadamente, carregando um embrulho de papel ordinário, coisas de padaria ou de quitanda, estava de saia e blusa, andava depressa, havia árvores na calçada, de vinte em vinte metros, um interessante problema a exigir uma grande dose de perícia. Apaguei as luzes do carro e acelerei. Ela só percebeu que eu ia para cima dela quando ouviu o som da borracha dos pneus batendo no meio-fio. Peguei a mulher acima dos joelhos, bem no meio das duas pernas, um pouco mais sobre a esquerda, um golpe perfeito, ouvi o barulho do impacto partindo os dois ossões, dei uma guinada rápida para a esquerda, passei como um foguete rente a uma das árvores e deslizei com os pneus cantando, de volta para o asfalto. Motor bom, o meu, ia de zero a cem quilômetros em nove segundos. Ainda deu para ver que o corpo todo desengonçado da mulher havia ido parar, colorido de sangue, em cima de um muro, desses baixinhos de casa de subúrbio.

Examinei o carro na garagem. Corri orgulhosamente a mão de leve pelos pára-lamas, os pára-choques sem marca. Poucas pessoas, no mundo inteiro, igualavam a minha habilidade no uso daquelas máquinas.

A família estava vendo televisão. Deu a sua voltinha, agora está mais calmo?, perguntou minha mulher, deitada no sofá, olhando fixamente o vídeo. Vou dormir, boa noite para todos, respondi, amanhã vou ter um dia terrível na companhia.


Rubem Fonseca, Contos Reunidos, 2000, pp.396-397.

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*Ficção, apenas?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Perto do coração selvagem*

Por Clarice Lispector




[...] Não se sentia fraca, mas pelo contrário possuída de um ardor pouco comum, misturado a certa alegria, sombria e violenta. Estou sofrendo, pensou de repente e surpreendeu-se. Estou sofrendo, dizia-lhe uma consciência a parte. E subitamente esse outro ser agigantou-se e tomou o lugar do que sofria. Nada acontecia se ela continuava a esperar o que ia acontecer... Podiam-se parar os acontecimentos e bater vazia como os segundos do relógio. Permaneceu oca por uns instantes, vigiando-se atenta, perscrutando a volta da dor. Não, não a queria! E como para deter-se, cheia de fogo, esbofeteou o próprio rosto. [...].

Clarice Lispector, Perto do coração selvagem, 1992, p. 62.

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*Fragmento.

Tudo na vida é passageiro*



Por  Daniel Cariello**




Francês adora discutir, mas detesta perder a classe.

- Táxi!

- Ei, ele é meu.

- Não, é meu, eu vi primeiro.

- Você viu primeiro, mas fui eu que chamei antes.

- Você chamou antes, mas eu já pensava em chamá-lo há tempos, mesmo antes dele aparecer.

Táxi em Paris é tão raro quanto um sorriso.

- Agora é tarde, é meu.

- Eu não vou sair da frente.

- Ah, vai sim. Senão eu bufo.

- Pois eu sei bufar também, ó: buffff.

- Se é assim, eu digo: você é chato!

- Oh!

- E repito: chato, cha-tão!

- Pois prepare-se que agora vou te ofender pra valer.

- Estou preparado.

- Você é um limitado.

- E você é um tolo.

- Tolo, eu? Melhor do que ser um inútil.

- Prefiro ser inútil do que um bobalhão como o que vejo na minha frente.

- E eu…

- Ei, olha, aquela mulher acabou de entrar no nosso táxi e ele arrancou. Foi embora.

- Zut.

- Buffff.

- Outro táxi a essa hora vai ser impossível.

- Vai mesmo.

- Não tenho mais escolha, vou voltar pra casa andando, sob a chuva.

- Pra que lado você vai?

- Bastille.

- Vem aqui, vamos dividir meu guarda-chuva. Eu vou pro mesmo lado.

- Merci. Você até que é um cara bacana.

- Você também é gentil. Ao contrário daquela senhora sem classe que roubou o meu táxi.

- Seu? Era meu.

- Coisa nenhuma, eu vi primeiro.

- Viu, mas fui eu que chamei.

- Chamou de metido que é, pois eu pensei em chamá-lo antes.

- Você é mesmo um bobo.

- Pelo menos não sou besta.

- Ei, estúpido, não mexe esse guarda-chuva, tô me molhando.

- Quieto, reclamão.

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*Chéri à Paris relata como um pequeno entrevero pode se transformar em amizade e—logo depois—novamente em briga na capital francesa.

**Daniel Cariello, editor da revista Brazuca, é colaborador regular do Outras Palavras. Escreve a coluna Chéri à Paris, uma crônica semanal que vê a cidade com olhar brasileiro. 

domingo, 11 de dezembro de 2011

A difícil arte de virar outra pessoa... *

Por Ferris Bueller*




Pode-se dizer que a função do ser humano é evoluir. Ou deveria, pelo menos. Mas, para tal, os processos são complicados, afinal, como dizem alguns, só aprendemos pelo amor ou pela dor. E é aí que complica a coisa.

Não sei vocês, mas eu tenho ciclos na vida. Fases onde a gente repensa coisas e vê o que está fazendo de certo ou errado. Antigamente era perto do meu aniversário e no ano novo. Depois de casar e minha filha nascer, isso passou a ser constante, já que os dilemas se aumentam depois disso.

Mas nem vamos focar em mim. Pensemos em modo geral. Como é o processo de deixar de ser uma coisa para começar a ser outra. Isso pode ser bem amplo, desde alguém querendo sair do armário em um meio conservador e pouco tolerante, até alguém que simplesmente deixou de ver benefício no que fazia e resolveu começar a agir de outra forma.

Pode-se dizer que sempre há um fato gerador. Para tudo! Desde impostos até mudanças subliminares acontecem motivados por alguma coisa. Pode ser um novo amor, ou um choque de um acontecimento qualquer que te fez ver o quanto a coisa ia errado e você nem percebia.

Acontece que, com o passar do tempo você se incompatibiliza com coisas. Mesmo aquelas que você estava acostumado a fazer. Ou por tradição, por falta de raciocínio ou só porque você era besta demais para se dar conta. Mas, o processo de incompatibilização sempre acarreta coisas. Uma: você pode achar que está endoidando. Afinal, dormiu de um jeito e acordou de outro. Outra: você começa a incompatibilizar-se também com aquele meio que antes transitava normalmente. Você começa a achar ruim coisas que não te atazanavam, começa a se sentir mal com situações em que antes dava risada, começa a sentir-se ridículo a cada lembrança do que fez. E é aí que pode-se dizer que o processo está instaurado.

Não, você não endoidou. Você apenas está começando a ver que há mais mundo além daquela sua visãozinha míope. Você pode se dar conta de que há coisas além da sua realidade. Que há uma série de fatores que te afetam, mas que afetam ainda mais o pessoal que convive contigo. E isso, meus amigos, requer uma puta força mental e física.

Você pode estar pensando agora em exemplos como: “ah, tomou um pé na bunda da nega véia e está aí descornado…”. Não é o caso, mas, poderia ser… mas, isso é uma visão muito micro da coisa. Tente ampliar a visão e pensar que você é um cidadão do mundo. Do Universo. Pense em como tudo o que está descrito acima afetaria se alguns políticos de merda tivessem essa capacidade de ver as coisas sob outro prisma…

Pense em, no dia de hoje, por exemplo, ao invés de xingar aquele azulzinho corno que te multou, você se ligue em respirar fundo e seguir adiante. Ao invés de ficar feliz porque recebeu o troco a mais do caixa do supermercado, você o devolva porque, se no fim do dia não fechar as contas, é ela quem vai pagar. Pense em não esconder a segunda carne no buffet lá do pé sujo sob uma pilha de arroz, só porque a carne adicional é mais cara. Pense em dar uma bocha na cara daquele abestado que ficou secando a sua mulher na festa e o fato de fazê-lo não vai te tornar mais homem. Pense também que se o fizer e a sua mulher gostar disso, talvez, ela não seja então a mulher certa pra você…

Enfim, pensemos que evoluir gradativamente, através da educação e dos bons exemplos é bem menos traumático, mas, se estivermos nos dando conta de que a educação que recebemos não foi lá tão boa assim e que precisa de ajustes urgentes, pode-se então, tornar a tarefa bem mais complicada, mas, não menos honrosa. Afinal, para despir-se de si mesmo e virar alguém melhor é preciso uma baita coragem. Coisa que pouqíssimos tem…

Não estou dizendo para virarmos monges ou santos do dia para a noite. Mas, o básico mesmo. Comece com o possível, em seguida faça o que der, e, antes que se perceba, estarão fazendo coisas admiráveis… algum sábio disse isso já, mas eu não sei quem é para dar os créditos…

O que eu sei é que as coisas boas da vida, podem não ser tão boas assim se não fizerem parte do bem comum… ou, traduzindo: O que é bom para você tem que ser bom para todos… ou então não é tão bom assim…

Fui.


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*Esse fake, Ferris Bueller (do filme Curtindo a Vida Adoidado), tem um blog interessante e muito original. Pena que o seu autor (não identificado) não está mais postando... Mas fica aí a dica, ainda tem muita coisa boa por lá: http://qcferris.wordpress.com/.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Uma história de fadas*

Por Caio Fernando Abreu




Era uma vez o País das Fadas. Ninguém sabia direito onde ficava, e muita gente (a maioria) até duvidava que ficasse em algum lugar. Mesmo quem não duvidava (e eram poucos) também não tinha a menor idéia de como fazer para chegar lá. Mas, entre esses poucos, corria a certeza que, se quisesse mesmo chegar lá, você dava um jeito e acabava chegando. Só uma coisa era fundamental (e dificílima): acreditar.

Era uma vez, também, nesse tempo (que nem tempo antigo, era,
não; era tempo de agora, que nem o nosso), um homem que acreditava. Um homem comum, que lia jornais, via TV (e sentia medo, que nem a gente), era despedido, ficava duro (que nem a gente), tentava amar, não dava certo (que nem a gente). Em tudo, o homem era assim que nem a gente. Com aquela diferença enorme: era um homem que acreditava. Nada no bolso ou nas mãos, um dia ele resolveu sair em busca do País das Fadas. E saiu.

Aconteceram milhares de coisas que não tem espaço aqui pra contar. Coisas duras, tristes, perigosas, assustadoras, O homem seguia sempre em frente. Meio de saia-justa, porque tinham dito pra ele (uns amigos najas) que mesmo chegando ao País das Fadas elas podiam simplesmente não gostar dele. E continuar invisíveis (o que era o de menos), ou até fazer maldades horríveis com o pobre. Assustado, inseguro, sozinho, cada vez mais faminto e triste, o homem que acreditava continuava caminhando. Chorava às vezes, rezava sempre. Pensava em fadas o tempo todo. E sem ninguém saber, em segredo, cada vez mais: acreditava, acreditava.
Um dia, chegou à beira de um rio lamacento e furioso, de nenhuma beleza. Alguma coisa dentro dele disse que do outro lado daquele rio ficava o País das Fadas. Ele acreditou. Procurou inutilmente um barco, não havia: o único jeito era atravessar o rio a nado. Ele não era nenhum atleta (ao contrário), mas atravessou. Chegou à outra margem exausto, mas viu uma estradinha boba e sentiu que era por ali. Também acreditou. E foi caminhando pela estradinha boba, em direção àquilo em que acreditava.

Então parou. Tão cansado estava, sentou numa pedra. E era tão bonito lá que pensou em descansar um pouco, coitado. Sem querer, dormiu. Quando abriu os olhos — quem estava pousada na pedra ao lado dele? Uma fada, é claro. Uma fadinha mínima assim do tamanho de um dedo mindinho, com asinhas transparentes e tudo a que as fadinhas têm direito. Muito encabulado, ele quis explicar que não tinha trazido quase nada e foi tirando dos bolsos tudo que lhe restava: farelos de pão, restos de papel, moedinhas. Morto de vergonha, colocou aquela miséria ao lado da fadinha.

De repente, uma porção de outras fadinhas e fadinhos (eles também existem) despencaram de todos os lados sobre os pobres presentes do homem que acreditava. Espantado, ele percebeu que todos estavam gostando muito: riam sem parar, jogavam farelos uns nos outros, rolavam as moedinhas, na maior zona. Ao toquezinho deles, tudo virava ouro. Depois de brincarem um tempão, falaram pra ele que tinham adorado os presentes. E, em troca, iam ensinar um caminho de volta bem fácil. Que podia voltar quando quisesse por aquele caminho de volta (que era também de ida) fácil, seguro, rápido. Além do mais, podia trazer junto outra pessoa: teriam muito prazer em receber alguém de que o homem que acreditava gostasse.

Era comum, que nem a gente. A única diferença é que ele era um Homem Que Acreditava.

De repente, o homem estava num barco que deslizava sob colunas enormes, esculpidas em pedras. Lindas colunas cheias de formas sobre o rio manso como um tapete mágico onde ia o barquinho no qual ele estava. Algumas fadinhas esvoaçavam em volta, brincando. Era tudo tão gostoso que ele dormiu. E acordou no mesmo lugar (o seu quarto) de onde tinha saído um dia. Era de manhã bem cedo. O homem que acreditava abriu todas as janelas para o dia azul brilhante. Respirou fundo, sorriu. Ficou pensando em quem poderia convidar para ir com ele ao País das Fadas. Alguém de que gostasse muito e também acreditasse. Sorriu ainda mais quando, sem esforço, lembrou de uma porção de gente. Esse convite agora está sempre nos olhos dele: quem acredita sabe encontrar. Não garanto que foi feliz para sempre, mas o sorriso dele era lindo quando pensou todas essas coisas — ah, disso eu não tenho a menor dúvida. E você?


Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias, 2006, pp. 82-86.


sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

O direito de morrer*



Por Paulo Nogueira


O filósofo e historiador inglês David Hume, um dos mais brilhantes e versáteis intelectuais do século 19, escreveu um livro em defesa do direito ao suicídio. Logo nas primeiras linhas ele disse: “Não conheço de alguém que tenha posto fim à vida enquanto ela valia a pena”.
Nem eu.
Hume me veio à mente depois que li a notícia da morte de uma ex-produtora da BBC, Geraldine McClelland. Aos 61 anos, Geraldine, com um câncer terminal no fígado, decidiu morrer na clínica suíça Dignitas, especializada em suicídios assistidos.
Ela deu uma entrevista, um dia antes de viajar, que comove – mas mais que isso faz pensar.
“Não estou triste”, disse ela. “Estou com raiva da covardia dos nossos políticos. Por causa disso não pude morrer no meu país.”
Na Inglaterra, os médicos não podem ajudar o doente a morrer. São muitos os ingleses que acabam indo para o Dignitas. É um assunto que está sendo objeto de intensa discussão. A pressão para que a legislação se altere é cada vez maior, e com certeza o caso de Geraldine vai inflamar ainda mais o debate.
A lei inglesa é dura.  Imagine que um filho acompanhe a mãe em estado terminal à Dignitas para ampará-la nos momentos finais. Ele pode ser preso ao voltar e pegar até 14 anos de cadeia. Tanto rigor é justificado pela possibilidade de que pessoas velhas e vulneráveis poderiam ser mortas por interessados em apressar o recebimento da herança.
É provável que isso mude, e em breve.
Ótimo.
O suicídio, como escreveu Sêneca, é uma porta de saída legítima para quem, como Geraldine, não vê mais sentido na vida. Na entrevista que ela concedeu, ela conta que poucos dias antes não conseguiu sequer entrar num táxi. “Isso não é vida”, afirmou. O que a esperava? Dor, mais dor, ainda mais dor, e a morte.
Há uma visão para mim errada segundo a qual o suicida é “egoísta”. Egoísta, para mim, é quem não vê que para se matar a pessoa certamente chegou a um estágio em que a vida já não tem nada de bom a oferecer.
Se você pensa  menos em você mesmo e mais no suicida, pode acabar chegando a uma conclusão capaz de mitigar a dor da perda: foi o melhor para ele.
No caso específico de Geraldine, consideradas as perspectivas cruéis que a aguardavam, tenho a convicção de que ir para a Suíça foi a melhor opção entre as poucas que lhe restaram.


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*Sei que a questão é por demais espinhosa, mas penso que a vida de um indivíduo deve estar resguardada pela noção de propriedade privada. Será que existe algo mais meu, mais particular, mais inalienável que minha própria vida? Será que é direito do Estado decidir sobre o melhor para mim, até mesmo na hora da morte? Me recuso a aceitar isso. Assim como me recuso a criticar suicidas. A vida é propriedade de quem a vive. Mas, como um bom republicano, aceito (com muitas ressalvas) quem pensa o contrário. Afinal, quantas coisas envolvem essa questão, não é verdade?
Há algum tempo li uma interessante entrevista do jornalista Geneton Moraes Neto sobre o tema: Bert Keizer, o médico que mata (se o paciente pedir para morrer). É só seguir o link, vale a pena.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Nijinski*

Por Eduardo Galeano




Na Suíça, em 1919, num salão do hotel Suvretta de Saint Moritz, Vaslav Nijinski dançou pela última vez.

Diante de um público de milionários, o bailarino mais famoso do mundo anunciou que ia dançar a guerra. E à luz dos candelabros, dançou-a.

Nijinski girava em furiosos torvelinhos e se desprendia do solo e no ar se partia e ao solo caía, e se revirava como se fosse de barro o chão de mármore e outra vez se lançava a girar e subindo quebrava, uma vez e outra e outra, até que no fim aquele resto dele, aquele alarido mudo, espatifou-se contra a janela e se perdeu na neve.

Nijinski entrou no reino da loucura, sua terra de exílio. Nunca mais voltou.


Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p. 245.

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*Na dança existe um antes e um após Nijinski, um gênio encantado e de passos alucinantes. 
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