quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

O maior desafio do mundo moderno*



Por Paulo Nogueira


Escrevi para a edição da Exame que está nas bancas um artigo sobre um tema que provoca nervosas, apaixonadas, raivosas discussões mundo afora neste momento: a desigualdade social, um processo que ganhou velocidade galopante nas últimas três décadas.
Vejo, satisfeito, que a BBC foi a fundo no assunto, e preparou um documentário chamado “The Wealth Gap” – a disparidade da riqueza, numa tradução livre.
Onde a iniquidade mais se manifesta é nos obcenos salários dos CEOs, os presidentes de empresas. Peter Drucker, o papa da moderna administração, dizia que a relação entre o salário de um presidente e o da média dos funcionários não poderia ser superior a 25 para 1. Ou então se rompiam coisas fundamentais para o sucesso de um empreendimento, como o sentimento de time.
Na Viacom, multinacional americana, o CEO em 2010 ganhou quase 2 000 vezes mais que a média dos empregados: mais de 80 milhões de dólares. Há muitos outros casos. Um levantamento do Senado americano mostrou que a renda do 1% mais rico dos Estados Unidos cresceu 275%  entre 1979 e 2007. Os 20% de baixo da tabela viram sua renda crescer apenas 18%.
Na Inglaterra, atingida por uma crise econômica persistente, os salários dos CEOs das 100 maiores empresas listadas na Bolsa de Valores de Londres cresceram mais de 40% no ano passado – numa desconexão completa com o panorama do país.
Como os governos podem pedir sacrifícios à população quando uma elite ganha mais dinheiro que nunca e comanda uma concentração de renda absurda e injusta?
Uma das reações a esse quadro está na série de protestos que se espalharam pelo mundo nos últimos meses, sob o guarda-chuva do imperativo “Ocupe”. Os 99% estão dizendo basta ao 1% ganancioso que se beneficia de sua proximidade com o poder para extrair vantagens indecentes.
Vejo, satisfeito, que a BBC mudou de tom em relação aos protestos. Os manifestantes que acampam em frente da Catedral de São Paulo, em Londres, eram chamados, antes, de “anticapitalistas” pela BBC. Agora, a BBC reconhece que os protestos são contra a “ganância” corporativa e executiva.
Desigualdade em excesso gera mais crimes, mais insegurança etc etc. Por isso o tema é de interesse público, a despeito de ideologias. Estudos mostram que em países onde a diferença é menor, como no Japão e na Escandinávia, a vida é melhor – para todos, ricos e pobres.
Reduzir as desigualdades sociais é provavelmente o maior desafio do mundo moderno. Ou os governantes se mexem ou os próximos tempos serão plenos de tumultos, porque a paciência e a resignação dos excluídos têm limite — e isso ao longo da história já se manifestou em coisas como reis guilhotinados.




A triste despedida do trema*



Autor (ainda) não identificado


Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüenta anos.

Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio… A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. O “dois pontos” disse que  sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé.

Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C c….. que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I.

Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?

A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, “Kkk” pra cá, “www” pra lá.

Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou “tremendo” de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!

Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus,

Trema

Fonte: Vi o mundo

O espetáculo do trabalho*



Por Josenias Silva




A dimensão do trabalho é uma das mais evidentes quando se observa o cotidiano social das cidades. A historiadora Maria Stella Bresciani, em Londres e Paris no Século XIX: o espetáculo da pobreza (Brasiliense, 1982), assim descreve o “espetáculo assustador” das ruas londrinas no período da transição do processo produtivo em plena revolução industrial.


Toda a agitação anotada pelos contemporâneos se compõe com milhares de homens e mulheres no trânsito cotidiano de suas casas para seus empregos, resultado evidente do declino do sistema doméstico de produção. Impelidos para o mercado de trabalho, vêem-se na contingência de se deslocarem a pé por ruas estreitas e irregulares, impróprias para a passagem de pedestres. Num cenário de cerca de duas milhas de extensão, a grande novidade é a exteriorização da atividade do trabalho. É a amplitude dessa exposição pública das atividades do trabalho o que choca os contemporâneos. Nessa exteriorização, que produz a identidade social do trabalhador, o que mais espanta é estar esse homem coberto com os sinais da miséria, considerados até então atributos de velhos e doentes, dos incapacitados em geral.


Assim, em todos os cantos, desde o instante em que o trabalho deixou de ser feito quase exclusivamente nas oficinas domésticas se vêem trabalhadores pululando na paisagem urbana. Isso ocorre nas grandes e pequenas cidades, umas com um ritmo mais acentuado, outras mais lentas, mais pingadas, mas com certeza não existe esta que não tenha seus trabalhadores, sejam eles de fábricas, do comércio, ambulantes, autônomos, portuários, domésticos, liberais, de “bico” etc. Mas é justamente como “espetáculo” que o trabalho irá assumir uma forma de exteriorização pública da miséria. Quer dizer, daquilo que não estará restrito unicamente as atividades produtivas em si, mas que envolverão todos os processos econômicos, culturais, políticos, afetivos, históricos etc., etc., etc., da (re)produção social da existência.


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Murphy, na prática*



Por Josenias Silva




Depois de um final de semana daqueles, em que definitivamente nada deu certo e o impossível aconteceu, resolvi passar em revista algumas leis básicas (Leis de Murphy) que nunca se deve esquecer sob pena de levar a vida muito a sério.

Compartilho com vocês algumas conclusões elementares que, se não mudam nada, pelo menos explicam alguma coisa.


Se servir para você, com certeza você não entendeu.


Então lá vai:


1. Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível. 





2. A principal causa dos problemas são as soluções.

3. A solução do problema muda o problema.

4. Quando maior você é, mais forte eles batem.

5. Para cada ação existe uma crítica igual e no sentido contrário.

6. Se o sapato couber, ele é feio.




7. A maioria das pessoas se merecem.

8. Perdoe e lembre.

9. Se tudo o mais falhar, siga as instruções.

10. Se as coisas tivessem sido deixadas ao acaso, elas estariam melhores.

11. A outra fila sempre anda mais rápido.




12. Ajude um homem quando ele está com problemas e ele sempre se lembrará de você quando estiver com problemas de novo.

13. Não se irrite, se vingue.

14. Um homem com um relógio sabe que horas são. Um homem com dois relógios nunca tem certeza.

15. Um homem sem religião é como um peixe sem uma bicicleta.

16. Tudo depende.

17. Toda solução cria novos problemas.

18. Nada é tão ruim que não possa piorar.




Para mais, clique Aqui.

Dicas úteis para uma vida fútil*


Por Mark Twain









Num Velório

(1881)


Não faça críticas à pessoa em cuja honra é dada a reunião.

Não faça observações sobre o acessório usado pela pessoa. Se as alças forem de alumínio, melhor fingir que não notou.

Se o cheiro das flores estiver muito forte, lembre-se que elas não foram enviadas para você e que a pessoa para quem foram enviadas está pouco se incomodando com as flores.

Ouça com a expressão mais atenta possível as declarações oficiais sobre a personalidade e a vida da pessoa homenageada com a reunião. Caso os dados não correspondam aos fatos, não cutuque o seu vizinho, não pise no pé dele, nem faça sinais para indicar que estão distribuindo balas aos presentes.

Se as informações sobre a pessoa homenageada na reunião forem exageradas, esqueça. Não interrompa o discurso.

Nos trechos emocionantes, emocione-se, sempre de acordo com sua intimidade com os que promovem a reunião, ou com a pessoa homenageada. No momento em que um parente soluça, um amigo íntimo deve se controlar e um estranho apenas procurar o lenço. Se a cerimônia for em honra de um militar, as emoções devem ser de acordo com o posto; o oficial mais graduado tem precedência no estupor emocional e os demais presentes conciliam seus sentimentos conforme o próprio status na cerimônia.

Não leve seu cachorro.

in: Dicas úteis para uma vida fútil – um manual para a maldita raça humana, 2005, pp. 39-40.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Informações absolutamente inúteis*



Por Millôr Fernandes



• Não existe fábrica alguma que faça três pés de sapato iguais para indivíduos que nasceram tripés. 

• O amor em absoluto não substitui uma boa conta bancária.
 
• Pé de atleta é uma doença facilmente curável: cérebro de atleta é que não tem cura. 

• Os cavalos não apostam nos homens. 

• O cão é o melhor amigo do homem: o gato nem tanto. 

• A coisa que mais separa um homem e uma mulher é viverem juntos.




Eduardo Galeano no Programa Sangue Latino*





Programa de auditório e a fé*



Por Affonso Romano de Sant´Anna





Qual a relação entre um programa de auditório e um culto religioso?

Existe um movimento em todos os credos para transformar os cultos em grandes happenings. Não basta, como antigamente, cantar hinos tristes e solenes, acender velas e orar contritamente,  é preciso animação, festa, gritaria para espantar o demônio e agregar os crentes.

A pastora Ana Lúcia, lá em Belford Roxo, bota prá quebrar. Num ritmo que mistura funk e gospel  vai cantando para o endemoniado: agora quebra, quebra, quebra, tá pegando fogo, tá pegando fogo. E o auditório vibra, canta, chora e dança enquanto os ex-pagodeiros  que agora formam o conjunto Os Gideões, mandam ver.

Assim como as igrejas protestantes e católicas invadiram a televisão com seus cultos, a pastora Ana Lúcia, até então desconhecida, invadiu  o  youtube e seu vídeo já foi visto por quase 400 mil pessoas. É a era da comunicação. Quem não se comunica não se salva (nem ganha dinheiro).

Riobaldo, o personagem de Grande Sertão Veredas de Guimarães Rosa dizia que se Deus resolvesse aparecer no sertão, que aparecesse armado.  Hoje se pode  dizer: se Cristo quisesse fazer o Sermão da Montanha, que  tratasse de trazer o DVD e CD para vender. Esta é que seria a verdadeira multiplicação de pães e peixes.

Quando eu dava aulas e estudava a questão da carnavalização em nossa cultura, ou seja, os rituais e festas, deparei-me com um teólogo protestante que  dizia que tínhamos que pensar que Cristo era um Arlequim e não um Pierrô. Era uma visão vital e alegre da fé em oposição à morbidez tradicional.

Agora, no entanto, criou-se algo bem mais radical. Exemplo disto  é o que eu chamaria de comédia evangélica. Um jornal cita três comediantes que se apresentam, não em teatros e na televisão, mas em igrejas.  Reparem, não é também o que antigamente se chamava de pastor conferencista - aquele pregador excepcional que vinha por uns dias para reativar  a fé amortecida das fiéis. Era sempre um  orador excepcional, Agora, não. Pode ser qualquer um que saiba manejar o bom humor. Um deles, por exemplo, é o radialista Robinho Silva, que antes já fazia o axé  católico e tem um cartaz de propaganda que diz: Evangelização com stand up e muito humor. Ou seja, segue a receita desse tipo de comédia americana: stand up-  que está virando moda no Brasil: um sujeito  sozinho no palco fazendo os outros rirem.

A formula não é nova, e aplicada à religião é apenas invertida. Os cultos tradicionais faziam as pessoas chorarem e desesperarem de suas vidas, a vida era mesmo uma cruz  e um suplício. Ou seja, onde havia morte celebra-se a vida, onde havia imobilidade, o movimento, onde havia murmúrio e reza, agora a dança e a gritaria. Mas o principio é o mesmo: uma pessoa conduzindo a massa, secundado às vezes por um côro, como acontecia nas tragédias gregas.

Como dizem os portugueses, isto tem piada, quer dizer, tem sua graça, pois o dentista Fabio Borges, um desses comediantes da fé, conta por exemplo, que uma fiel rezava assim a Ave Maria: Ave Maria cheia de graça, bendita suas avós entre as mulheres. Isto acontece. Me lembrei que quando eu era criança costumava (seriamente) cantar assim uma das linhas do Hino Nacional: verás que um filisteu não foge à luta.

Isto tudo, está preso àquilo que Gille Dorfles, nos  anos 60 profetizou como a sociedade do espetáculo.  Com efeito, a religião sempre lançou mão de rituais espetaculares, como forma de agregar e emocionar. Mas a modernidade, rompendo fronteiras e transgredindo sempre, está nos presenteando com algo intrigante: a vida virou um grande shopping, um grande programa de auditório onde os perdidos tentam se salvar dançando com muita fé.

(*) Estado de Minas/.15.01.2012




sábado, 14 de janeiro de 2012

Liêdo Maranhão: a praça é do povo (I)*


Por Josenias Silva




As praças públicas têm como característica serem lugares de encontro/passagem/dispersão de distintos grupos da geografia humana. E quem é estudioso da cultura popular, como o pernambucano Liêdo Maranhão, sabe muito bem o quanto as praças podem revelar do fazer social.

Liêdo Maranhão é o que se poderia chamar de homem do povo, um sujeito sem frescuras e sem travas na língua. Nascido no bairro de São José, no Recife, em 1925. Formado em Odontologia na década de 1940, com estágios na França e Espanha, e com um grande interesse pela cultura popular. Chegou, entre os anos de 1960 e 1970, a freqüentar diariamente a Praça do Mercado (e o próprio Mercado) de São José registrando o movimento cotidiano dos vários tipos sociais que ganhavam a vida naquele espaço: camelôs, cantadores, ambulantes, "come vidro", "engole cobra", vendedores de ervas e remédios, prostitutas etc. Desse seu trabalho empírico de registro (fotográfico, oral, material etc.) resultou algumas obras de grande valor documental.

Cito algumas:

O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste: homenagem ao centenário do Mercado de São José 1875-1975. (Recife: Prefeitura, 1977);

O povo, o sexo e a miséria ou o homem é sacana (Recife: Guararapes, 1980);

Conselhos, comidas e remédios para levantar as forças do homem (Recife: Bagaço, 1982);

Cozinha de pobre (Recife: Bagaço, 1992);

Marketing dos camelôs do Recife (Recife: Bagaço, 1996); 


A fala do povão: o Recife cagado-e-cuspido (Olinda, PE: Edição do autor, 2004);

Rolando papo de sexo: memórias de um sacanólogo (Olinda, PE: Livro Rápido, 2005).


Liêdo se define como um “dentista e esquizofrênico cíclico”, como alguém que encontrou um sentido para a realidade das coisas na fala do povo, nas suas expressões e estratégias de sobrevivência. Hoje sua casa abriga um grande acervo “de tudo”, como ele costuma falar. Além de ser um dos maiores colecionadores e conhecedores da literatura de cordel, Liêdo é reconhecidamente uma autoridade quando se trata de cultura popular no nordeste. O que o diferencia, a meu ver, dos demais pesquisadores que se interessam pela questão é que Liêdo não olha ninguém de cima, ele não trata a cultura popular como algo menor, tampouco está preocupado com a polidez da língua ou com título de coisa alguma.

Nada de escritório, nada de frescura ou literatice, como já foi dito em algum momento, Liêdo é o escriba dos excluídos. Seus livros registram a riqueza escondida nas histórias pessoais de quem dele se aproxima, flagram o sexo, a fome, a subversão da língua “culta/oficial” nas expressões e versinhos populares, bem como a criatividade e os sofrimentos de um povo que vive “Jodido, pero contento”.



No Mercado de São José,
Faz raiva a gente se vê.
De tudo que não presta,
Nele já tem pra vender.
No Mercado de São José,
Tem água de prato sujo,
Que dão o nome de café.
Tem sopa de 15 dia,
Que eles vende nos hoté.
Tem carne de sapo cru,
Que dão o nome de sarapaté.
No mercado de São José,
Tem frango, tem rapariga,
Ninguém não liga,
De mais até.

(Gogó de Sola)



Coração numeroso*



Por Braulio Tavares





É um dos meus poemas preferidos de Drummond, um dos primeiros que me conquistaram por completo. Até hoje me surpreende que já aparecesse em seu livro de estréia, Alguma Poesia (1930), por ser de algum modo um poema-síntese que parece já exprimir a visão de um autor maduro. Fala do Rio, mas deve se referir a alguma viagem ocasional, pois precede a mudança do poeta para lá: “Foi no Rio. / Eu passava na Avenida quase meia-noite. / Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis. / Havia a promessa do mar / e bondes tilintavam, / abafando o calor / que soprava no vento / e o vento vinha de Minas”. Soa como uma síntese do complexo processo que fez do poeta um carioca adotivo sonhando eternamente com uma Minas que passou a existir apenas na sua memória e imaginação. Drummond, mesmo escrevendo fartamente sobre o Rio, nunca tirou Minas da cabeça. Sua obra é uma obra de exílio e de aceitação do exílio; de ida sem volta e de aceitação amadurecida do fato de não poder mais voltar. Este poema é sua primeira, precoce e definitiva declaração de amor pelo Rio de Janeiro.

A falta inicial de Minas e a inadaptação crônica do poeta com o mundo o fazem dizer, vagando a esmo na cidade estranha: “Meus paralíticos sonhos desgosto de viver / (a vida para mim é vontade de morrer) / faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente / na Galeria Cruzeiro quente quente / e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro, / nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso”. Quem não já se sentiu assim numa cidade grande e anônima, sem conhecer ninguém, sem se encaixar? Numa cidade onde a vida humana soa alienada, distanciada, estrangeirizada e irredutível? Quem não já vagou de noite sem ter porta a que bater, nome que chamar, recanto onde dormir? Acabemos com isso, claro.

“Mas” (diz o poeta) “tremia na cidade uma fascinação casas compridas / autos abertos correndo caminho do mar / voluptuosidade errante do calor / mil presentes da vida aos homens indiferentes, / que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram. / O mar batia em meu peito, já não batia no cais. / A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu / a cidade sou eu / sou eu a cidade / meu amor”. É, pra mim, um dos grandes momentos da poesia de Drummond: o instante em que a mera existência da cidade toma de assalto o indivíduo numa espécie de náusea sartreana ao contrário. Escolhas verbais, pontuação, fragmentação sintática do texto, a equivalência sutil mar=coração, esse inesperado e insubstituível “meu amor”... É um momento de fusão perfeita entre o ser e o mundo, entre a idéia, a emoção e a palavra. Drummond insuperável.




sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

De tudo, ao meu amor serei atento*



Por Josenias Silva




Acho que todo mundo que conheço já leu o soneto de fidelidade de Vinicius de Moraes. O soneto, se levado ao pé da letra, fala muito da biografia sentimental do próprio Vinicius que, para quem não sabe, casou-se nove vezes.

Ninguém mais que ele levou tão a sério esse negócio de que seja infinito enquanto dure. E foi assim, vivendo cada vão momento, que o poeta casou  fielmente com: Beatriz Azevedo de Melo, Regina Pederneiras, Lila Bôscoli, Maria Lúcia Proença, Nelita de Abreu, Cristina Gurjão, Gesse Gessy, Marta Rodrigues Santamaria e Gilda de Queirós Mattoso.

Ele mesmo, um boêmio inveterado, apreciador de charutos e uísque, sempre dizia em tom de brincadeira a cada novo enlace: “Esta agora será a minha viúva”. No fim, o que se sabe é que ele aproveitou a vida e amou a todas.

Vinicius morreu (curiosamente) dentro da banheira de sua casa, no Rio de Janeiro, no dia 09 de Julho de 1980. Não sei se ele “brincava sério” ou se realmente queria saber, mas ficou para a história que sua última esposa - e viúva oficial - foi Gilda.


Soneto de Fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes in: Nova Antologia poética, 2005, p.40.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Urinando sobre as nossas cabeças*


Por Saul Leblon






A sensibilidade contemporânea foi em grande parte anestesiada pela naturalização midiática da violência social e política. Imagens e relatos burocratizados descarnam corpos e estatísticas de sua história e humanidade. Intencional ou não, o mecanismo dissolve a fronteira que separa a vítima do algoz. Mesmo o sangue, assim liquefeito, não deixa espaço para suas causas seminais. Às vezes um ruído cênico sacode a monotonia. 

Risos sobre cadáveres, por exemplo. Soldados urinando sobre corpos sem vida. Vozes celebrando a 'chuva dourada' em corpos cinzas. Foi o que fez um vídeo postado no YouTube, nesta 4ª feira, em que mariners brancos, jovens, alegres aliviam suas bexigas e a humanidade que lhes resta sobre talibãs mortos a seus pés (
http://www.liveleak.com). Um carrinho de pedreiro ao lado dos corpos, despejados com alguma simetria, e a sincronia real ou simulada das bexigas, sugere que a exibição teve o dedo de um cenógrafo cuidadoso. 

O virtuosismo amador ganhará seu minuto de glória para sucumbir em seguida no fluxo que já tragou outras cenas de horror. As fotografia vazadas de Abu Ghraib em 2004 e 2006, por exemplo; as fotos reveladas pela Der Spiegel, em março de 2011, em que soldados igualmente jovens, posam sorridentes segurando cabeças de afegães abatidos como se fossem troféus de caça; ou ainda a esquecida humilhação de prisioneiros em uniforme cenoura, encapuzadas e enjaulados de joelhos na base militar dos EUA, em Guantánamo, sem direito a julgamento, sem comprovação de crime, sem prazo para sair do limbo jurídico.

O buraco negro da monotonia ensandecida poderia ser sacudido se o conformismo midiático desse à perversão a sua contrapartida racional. Humanos são feitos de razão e circunstâncias. As circunstâncias desse desfrute de impunidade tem sua origem institucional no arbítrio de um poder que reafirma sistematicamente seu direito imperial de decretar o estado de exceção a um planeta reduzido à condição de fronteira estendida de seus interesses. Foi o que reiterou o simpático Barack Obama na nebulosa dispersão do último dia de 2011. 

Horas antes de embarcar de férias ao seu Havaí natal, o democrata eleito com a promessa de fechar Guantánamo, revalidou o Ato de Autorização de Defesa Nacional. Na essência, o mesmo sancionado por Bush, há dez anos, que 'legaliza' a existência do campo de concentração e proíbe o ingresso de seus prisioneiros ao território americano, impedindo-os de desfrutar do direito a habeas corpus, do veto a prisão sem evidencia formal de crime e outros marcos de legalidade que distinguem uma democracia de um estado de exceção. 

Dias depois, em cinco de janeiro, o mesmo Obama anunciaria cortes no orçamento da defesa compensados, como advertiu, pela ênfase em operações secretas. Leia-se: atos de sabotagem, guerra cibernética e ataques fulminantes a alvos específicos. A julgar pelos assassinatos em série que já mataram quatro cientistas ligados ao programa nuclear iraniano, vetado pelo Império, a nova doutrina tem eficácia comprovada. 

O alívio aterrador de bexigas militares nos cadáveres talibãs, portanto, ampara-se em precedente institucional à altura: o jorro contínuo de cinismo institucional despejado pela grande democracia do norte nas nossas cabeças.





Fundação do tráfego urbano*



Por Eduardo Galeano





Relinchavam os cavalos, amaldiçoavam os cocheiros, silvavam os chicotes no ar.

O nobre senhor estava que era uma fúria só. Fazia séculos que esperava. Sua carruagem tinha sido bloqueada por outra carruagem, que em vão tentava dar volta entre muitas outras carruagens. E perdeu a nenhuma paciência que lhe sobrava, desceu, desembainhou a espada e estripou o primeiro cavalo que encontrou atravessado em seu caminho.

Isso aconteceu ao anoitecer de um sábado do ano de 1766, na Place des Victoires, em Paris.

O nobre senhor era o Marquês de Sade.

Muito mais sádicos são os engarrafamentos de hoje.



Eduardo Galeano, Espelhos, 2009, p. 331.


Salvação pelo riso*



Por Affonso Romano de Sant’Anna





Talvez por causa de Ruy Barbosa, talvez por causa do Padre Vieira, os baianos sempre foram relacionados com a oratória. E estou me lembrando aqui de um grande orador sacro, que poucos conhecem e que viveu na Bahia no século 17 chamado Frei Antonio das Chagas.

Dizem que seus sermões eram verdadeiros espetáculos. Para comover a platéia, ele não apenas gritava, chorava, arranhava o próprio rosto, mas carregava uma caveira para o púlpito, e esbofetando-a, conduzia os crentes a pensarem que somos pó  e ao pó retornaremos. Assim ele ia arrastando multidões em procissão dentro e fora da igreja.

Estou dizendo isto, porque nesses dias li várias reportagens que relatam que os pregadores hoje são verdadeiros animadores de auditório. Um bom animador de auditório tem o público na sua mão. Vejam o Sílvio Santos! Há uns 20 anos os partidos de centro e direita estavam tão desarvorados que queriam até que ele fosse candidato à presidência. E ele, grande animador de auditório, provavelmente ganharia o apoio das massas,  não fosse o Supremo  Tribunal Federal, através do juiz Francisco Rezek interferir nesse processo.

Vocês estão sabendo que a Baby Consuelo  fundou uma igreja que se reúne regularmente no Rio e tem como lema: No céu não vai ter molenga. Só casca grossa. Não é só ela. Muitos cantores viraram celebridades cantando músicas tipo Gospel. O sistema Globo sucumbiu a essa realidade musical. Pastores e padres rebolam, cantam e dançam alegando que o Rei Davi na Bíblia saía dançando enquanto tocava harpa. E agora apareceu um novo gênero: o comediante da fé. O indivíduo que em vez de fazer shows de humor em boites e teatros, conta piadas religiosas nas igrejas. E com isto, atraem multidões como o radialista Robinho, Denys Ricardo e o dentista Fábio Borges. Este prega que Rir é um santo remédio.

Os tempos mudaram. Os teólogos medievais diziam que o riso era coisa do diabo. E que Cristo nunca sorriu.

Será?



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