quarta-feira, 14 de março de 2012

Sabedoria na dor*



Por Friedrich Nietzsche


A Coluna Partida", óleo sobre tela de Frida Kahlo, 1944


Na dor há tanta sabedoria como no prazer: ambos estão na primeira linha das forças conservadoras da espécie. Se assim não fosse com a dor, há muito tempo ela teria desaparecido; que ela cause sofrimento, esse não é um argumento contra ela, ao contrário, é sua essência. Ouço na dor a ordem do capitão do navio: “Arriem as Velas!”

O intrépido navegador “homem” deve ser treinado a orientar as velas de mil maneiras, de outro modo não tardaria a desaparecer e o oceano o engoliria depressa.

É preciso que saibamos viver também com uma energia reduzida: logo que a dor dá seu sinal de segurança, é o momento de reduzi-la – algum grande perigo, uma tempestade se prepara e agimos prudentemente ao oferecer a menor “superfície” possível.


in. A Gaia Ciência. Ed. Escala, 2006, p. 185.

8 passos para se resolver um problema*



Por Josenias Silva




Problemas fazem parte da vida de qualquer pessoa. Até mesmo os bebês têm problemas. O choro, por exemplo, muitas vezes é uma estratégia para a resolução de problemas “simples” como a fome, a fralda suja ou mesmo a falta do colo da mãe. Porém, você cresce e o choro definitivamente deixará de resolver todos os seus problemas.  Tampouco adiantará fazer biquinho, ok? O guarda de trânsito não se apiedará de você. O seu chefe não se apiedará de você. O seu orientador não se apiedará de você. O seu credor? Esse, duvideodó. Nem mesmo eu me apiedarei de você. E ponto final.

O que fazer então? 

Primeiro, não existe uma fórmula! Cada problema é único como a sua digital. Mas, como tudo na vida, há caminhos já trilhados que nos informam como proceder em determinadas situações. Independentemente do problema (e escrevo isso no instante mesmo em que acabo de resolver um) sempre existirá no mínimo duas soluções.

Segue abaixo 8 dicas que dou aos que estão com problemas:


1° Tome consciência do problema. Isso é fundamental. Compare com uma doença. Quanto mais cedo descoberta, mais chances de cura você terá. No caso do problema, quanto mais cedo descoberto mais possibilidades de resolução você terá.

2° Sempre encare os problemas de frente. Não é aconselhável às pessoas que tem problemas tangenciar a resolução deles. Não adianta! Um problema sempre será um problema. Quanto mais você fugir dele, maior ele ficará e mais frágil serão suas possibilidades de êxito na resolução. Ou como diria Maquiavel, na sua lição aos príncipes, quem adia uma batalha estará fadado à derrota.

3° Fragmente esse problema. Uma estratégia bastante aconselhável é dividir os problemas. Que podem ser de várias naturezas; com prazos para resolução variados (use o tempo a seu favor sempre); e com graus de importância para a sua vida naquele momento.

4° Vá do simples ao complexo. Esse conselho está no “discurso do método” do filósofo Descartes. E na sabedoria da minha avó, que sempre me ensinou a comer a sopa quente pelas beiradas. Assim são os problemas, comece pelas beiradas. Resolva os de ordem e parta para os grandes dramas que afligem a sua vida.

5° Crie estratégias. A estratégia do bebê é o choro. A sua, pode ser qualquer coisa que lhe ajude a resolver um problema. Ter paciência ajuda. Usar a razão é uma das minhas estratégias preferidas. Pense. Use seu poder de análise e como um obstinado cientista vá testando mentalmente hipóteses (soluções) até chegar aquela que mais se adequa a seu tipo de problema. Sempre haverá mais de uma, pode ter certeza.

6° Se articule. Contar somente com você mesmo é fundamental. Porém, ser uma pessoa articulada ajuda e muito. Assim, tenha pessoas em que possa confiar. Pode ser a esposa, o marido, a mãe, o pai, um amigo etc. Isso é necessário porque sempre precisamos das pessoas nos bons e, principalmente, nos maus momentos. Às vezes, um simples apoio moral dado pelas pessoas que mais amamos já nos dá força suficiente para encararmos qualquer problema.

7° Aprenda com os problemas. Se desesperar faz parte da vida, mas não resolverá seu problema. Somente a partir do instante em que você começar a aprender com os problemas irá se sentir mais seguro(a) diante deles. Na verdade, os problemas são importantes ferramentas para a vida, eles têm o poder pedagógico de ensinar a viver. Seja você uma criança de colo ou um velho de 130 anos, respeite e aprenda com os problemas.

8° Não deixe de sorrir. Tudo na vida é momentâneo. Não deixe de sorrir; de buscar sempre o melhor; de ter fé no futuro e em você mesmo; de passar confiança e alegria para as pessoas. Lembre-se, se você tem um problema é porque você está vivo. O que tecnicamente já é uma grande coisa. Aproveite a vida e aprenda a conviver com suas dificuldades. Você é maior que elas, pode ter certeza.


Se pude ajudar alguém, fico feliz. 


Agora deixa eu ir porque outro problema me chama.


Fui.




Sobre os clássicos*



Por Italo Calvino



1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo..." e nunca "Estou lendo...".

2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.

11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.



in. Por que ler os clássicos. Ed. Comp. das Letras, 2007, pp. 9-16.



terça-feira, 13 de março de 2012

Sobre a vingança*



Por Fiódor Dostoiévski


"inimigos", série de  trabalhos do artista plástico Gil Vicente

O homem se vinga porque acha que está fazendo justiça. Isso significa que ele encontrou o motivo original, o fundamento, ou seja: a justiça. Disso decorre que ele está tranqüilo de todos os lados e conseqüentemente, efetua sua vingança tranqüila e eficiente, pois está convencido que executa uma ação honesta e justa.

[fragmento]


in. Notas do subsolo. Ed. L&PM, 2010, p. 27.




Carga*


Por Alcenor Candeira Filho


Carrego uma carteira de identidade
e mais outra de motorista
um titulo de eleitor
um certificado de reservista
um cartão de C.P.F.
uma certidão de nascimento
e outra de casamento
um diploma de bacharel
um seguro de vida
(em todos eles ALCENOR RODRIGUES CANDEIRA FILHO)
carrego uma calça
(uns trocados no bolso)
uma camisa
uma cueca
um sapato
muitas chaves
um automóvel
e um relógio
— e mais o peso abstrato da existência. 


in. Seleta em verso e prosa, Ed. Sieart, 2010, pp. 205-206.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Política da solidão*



Por Marcia Tiburi



Algo vai muito mal com a autocompreensão do ser humano sob a crença de que existe um padrão normal dos afetos que calibraria o todo da experiência emocional humana. A crença na normalidade confirma apenas que vivemos mergulhados na incomunicabilidade. Os sentimentos humanos são nebulosos e confusos, mas não são expressos senão por meio de atos desesperados que falam por si mesmos.

Se a norma fosse estabelecida pelo que há de mais comum, teríamos de voltar ao paradoxo de Bacamarte: o anormal é normal, o normal é anormal.

O fenômeno contemporâneo da psiquiatrização da vida nasceu como tentativa de eliminar a estranheza humana. Hoje ele sustenta a indústria cultural da saúde, que se serve do sofrimento humano como a hiena se serve da carniça.

Para os fins do logro capitalista já não basta aproveitar a desgraça do outro, também se pode ajudar a incrementar a produção do infortúnio usando a arma do discurso. A moral une-se à ciência nessas horas e quem paga o preço é o indivíduo humano, do qual se extirpa a capacidade de pensar sobre sua própria vida.

Se a indústria farmacêutica depende da evolução das drogas e dos remédios, depende também da existência de doenças. Criar um remédio pode implicar a criação da doença.

Assim é que uma das mais fundamentais experiências humanas na mira dos sacerdotes da moral que propagam a psiquiatrização da vida é, hoje, a solidão. A banalidade da proposta não é pouco violenta.

Em pesquisa recentemente divulgada, um médico norte-americano definiu a solidão não apenas como doença, mas como epidemia. Tratou-a como uma tendência contrária à evolução. Definida como um erro da “natureza humana”, a solidão passa a ser vista fora de sua dimensão social e histórica. Como doença, ela seria a causa do sofrimento e não o efeito da perda de sentido da convivência entre as pessoas. Em última instância, daquilo que seria o significado mais próprio da política como universo da integração entre indivíduos e comunidades.

Em um mundo em que a política foi destruída pelo poder transformado em violência, a solidão é o sintoma do medo do outro que ameaça o indivíduo.

Diz-se indivíduo daquele que não pode ser dividido, que é inteiro. Podemos dizer que a solidão é constitutiva de si no mais simples sentido metafísico. Mas há a solidão como um fato que diz respeito à vida vivida fora das relações. É essa solidão que deve ser inscrita na filosofia política como afeto político.

Mas não há nada de anormal em um indivíduo viver só. A solidão da qual muitos se queixam hoje como um desprazer pode ser para outros tantos um prazer. Viver em comunidade não faz sentido para todo mundo e isso não leva necessariamente à conclusão de antissociabilidade da qual o indivíduo seria a vítima ou o culpado.

A solidão nas cidades grandes é muito mais um sinal da precariedade do sentido da comunidade e da convivência, é mais um problema sociocultural do que de escolha individual.

Selva de pedra

Certamente ela reflete a impossibilidade de retornar às florestas, como um dia fez Henry Thoreau. As florestas estão em extinção, assim como, curiosamente, a ideia de humanidade. Resta fugir para a moderna caverna na selva de pedra – sem querer reeditar lugares-comuns – que é a casa de cada um.

A solidão é, assim, a categoria política que expressa a nostalgia de uma vivência de si mesmo. Ela é, por isso, a tentativa de preservar a subjetividade e a intimidade consigo mesmo que não tem lugar no contexto de relações sociais transformadas em mercadorias baratas.

A sociedade da antipolítica precisa tratar a solidão como uma pena e um mal-estar quando não consegue olhar para a miséria da vez: o fetiche da hiperconectividade, que ilude que não somos sozinhos.




O imperador dos contos de fadas*



Por Karl Erik Schøllhammer


Ilustração do livro A nova roupa do imperador, por John A. Rowe

O imperador adora roupas novas! Gosta de se exibir, ficar bonito e trocar de traje a toda hora. Displicente, ao ponto de esquecer suas responsabilidades políticas e militares, a vaidade faz dele uma presa fácil para dois gatunos forasteiros que chegam de longe vendendo ilusões. Uma roupa tão incrivelmente fina que só é visível para quem cumpre com competência suas obrigações de ofício! Ninguém enxerga nada e ninguém tem a coragem de admitir o fracasso. A história é bem conhecida, uma das imortais do grande narrador e escritor dinamarquês, Hans Christian Andersen. Publicada pela primeira vez em 1837, A nova roupa do Imperador expõe a sociedade do espetáculo que, o autor, declaradamente fascinado pela fotografia e pelas novas tecnologias visuais soube vislumbrar precocemente. No final da sátira, o olhar inocente da criança não se deixa enganar pela hipocrisia da população que assiste a procissão da alta sociedade em suas vestimentas de fantasia. Basta o grito “Ele está nu” e o riso acaba com a impostura.

O próprio Andersen foi um menino ingênuo do interior do país que chegou sozinho a Copenhague com apenas 14 anos em busca de fortuna e oportunidade entre as famílias de bem da sociedade dinamarquesa. Muitas vezes sentiu-se um intruso e até um impostor à procura do sucesso nas salões da alta burguesia. Ele nasceu numa casa pobre de um só quarto no dia 2 de abril de 1805. Filho de uma lavadeira e de um sapateiro, apesar da origem humilde o menino possuía um dom poético e grandes ambições. Cresceu formando uma memória prodigiosa e recontava as histórias que ouvia das velhas senhoras no asilo de pobres em Odense. Muito cedo começou a escrever peças de teatro que recitava em voz alta ao mesmo tempo em que dançava ou fazia mímica. Foram as lendas e relatos populares da sua região, da província de Fiônia, que lhe serviram de matéria prima para suas próprias histórias. Na sua autobiografia inconclusa – Levnedsbogen (O Livro da Minha Vida) – e só encontrado e editado em 1926, Andersen observou como as velhas crendices rurais e costumes tradicionais ainda eram vivas em Odense, uma pequena cidade de apenas 6.000 habitantes, e foram uma fonte inesgotável da sua fantasia criativa. Apesar da pobreza de seu lar, Andersen encontrava livros entre os pertences de seu pai e suas primeiras leituras da Bíblia, das 1001 Noites, das comédias do escritor dinamarquês Holberg e de Shakespeare foram essenciais para seu desenvolvimento.

Diferente de outros compiladores de contos de fadas no século 19, Andersen se apropriou livremente da tradição dos contadores, construiu uma ponte entre dois mundos: o velho mundo da oralidade coletiva popular e o mundo moderno do livro e do autor artista. Foi um escritor extremamente prolífico, sua obra inclui seis romances, 40 peças de teatro, 800 poemas, vários livros de viagem e autobiografias. Entretanto, conhecemos Andersen hoje porque introduziu na literatura algo que nem antes nem depois encontraríamos na literatura mundial – contos que formavam um gênero particular que ele chamou de “Eventyr”, ou literalmente “Aventura”. Traduzido para o português como “conto de fada”, em realidade tratava-se de um estilo novo com traços ao mesmo tempo tradicionais e modernos. É frequentemente ignorado que a obra de Andersen é muito maior e extensa de que sua produção de contos de fada. Na nova edição das obras completas, editadas em 2005 em 18 tomos, apenas três volumes são ocupados por contos.

O verdadeiro sucesso veio em 1835, com  o lançamento do primeiro livro de contos de fadas com quatro pequenas histórias destinadas (e dedicadas) à filha de um amigo, Ida Thielst: Contos de Fadas narrados para Crianças(Eventyr, fortalte for Børn). Os leitores gostaram e quiseram mais, e assim se iniciou a verdadeira reputação mundial de Andersen com os livros de “Eventyr”, que, a partir desse momento, eram editados sem o sufixo “narrados para crianças”. Foram 13 livros com um total de 168 contos de fadas, escritos tal como ele os havia contado para os filhos das famílias frequentadas em Copenhague.  

Hoje, pela atualidade que continuam evidenciando, reconhece-se que os contos não são exclusivos para crianças; pelo contrário, escritos com o domínio técnico do grande escritor, tendendo as vezes a aprofundar o que há de estranho, obscuro inquietante e fantástico nas histórias e personagens, colocavam-se em sintonia com o espírito romântico. Aqui, também se expressava um pressentimento dos fantasmas da modernidade, a idolatria da imagem e a cultura da aparência e do faz de conta que o autor capturava de modo agudo. O riso derruba a impostura mas também traz conciliação e a possibilidade de conviver com as fraquezas humanas.




Sobre a loucura*



Por Michel Foucault


A extração da pedra da loucura
Hieronymus Bosch, c. 1475-1480
Óleo sobre madeira 48 x 35 cm


Não há civilização sem loucura. Essa parte de sombra, ou se vocês preferirem, de iluminação, ela acompanha o homem por todo lugar onde haja imposição de limites, onde se estabeleça instituições, onde leis sejam fixadas cada vez, sem dúvida, que ele fala. Há civilizações onde a loucura é parente próxima da religião; em outras, ela se aparenta, ao contrário, à magia ou ainda à medicina.

[...]

Conhecer e sujeitar. Saber e comandar. Estas são coisas que estão intimamente ligadas e, se vocês quiserem, eu as descobri em estado puro no hospital psiquiátrico, onde o saber médico, o conhecimento, aparentemente único: reino especulativo dos psiquiatras é absolutamente indissociável de um poder extraordinariamente meticuloso, sabiamente hierarquizado que se desvela no hospício.

[...]

A palavra que me parece mais pérfida não é a palavra “louco”. A que eu mais temo é “doença mental”. A passagem do louco ao doente, que é aparentemente uma nova qualificação, mas que é uma tomada de poder, foi isso que me interessou.


  
in. Michel Foucault par lui même (Documentário).  

Assista aqui


domingo, 11 de março de 2012

As pessoas de Pessoa*



Por Eduardo Galeano


Fernando Pessoa, ou seria alguma de suas Pessoas?

Era um, era muitos, era todos, era nenhum.

Fernando Pessoa, burocrata triste, prisioneiro do relógio, solitário autor de cartas de amor que não mandava jamais, tinha um manicômio dentro de si.

De seus habitantes conhecemos os nomes, as datas e até as horas de nascimento, os horóscopos, os pesos e as estaturas.

E as obras, porque todos eram poetas.

Alberto Caeiro, pagão, zombador da metafísica e demais acrobacias dos intelectuais que reduzem a vida aos conceitos, escrevia erupções;

Ricardo Reis, monárquico, helenista, filho da cultura clássica, que nasceu várias vezes e teve vários horóscopos, escrevia construções;

Álvaro de Campos, engenheiro de Glasgow, vanguardista, estudioso da energia e temeroso do cansaço de viver, escrevia sensações;

Bernardo Soares, mestre do paradoxo, poeta em prosa, erudito que dizia ser esforçado ajudante de algum bibliotecário, escrevia contradições;

e Antonio Mora, psiquiatra e demente, internado em Cascais, escrevia elucubrações e loucubrações;

Pessoa também escrevia, quando eles dormiam.


in. Espelhos, Ed. L&PM, 2009, p. 262.


À procura da felicidade*



Chris Gardner (Will Smith) conversando com seu filho em cena do filme À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, EUA, 2006). 

trailer aqui

Rondó da ronda noturna*



Por Ricardo Aleixo



  
in. Festin, 1992.

Terceiro ato*



Por Antonio Prata
   


Aos dez anos, eu acreditava que a idade adulta começava aos vinte. Aos vinte, achei que ainda não havia chegado lá e decretei que adultos eram só os com mais de trinta. (Convenhamos, a apenas seis primaveras da oitava série você é, no máximo, um pós-adolescente: provavelmente ainda mora com os pais, deixa a toalha molhada em cima da cama e siglas como IPTU ou FGTS fazem muito menos sentido do que MILF ou THC.) Ao completar a terceira década de vida, contudo, não tive como protelar: alguns fios brancos no queixo, projetos de rugas nos cantos dos olhos e entradas moderadas avançando pelo couro - já não tão - cabeludo me atestavam, no espelho; eis aí um espécime maduro, acabado e plenamente desenvolvido de Homo sapiens sapiens. E, sabe o que? Fiquei bastante contente com a descoberta.

A infância é terrível. Você precisa chamar as autoridades competentes até mesmo para limpar a bunda, é incapaz de organizar verbalmente as ideias mais rudimentares e quando o faz por outras vias, como, por exemplo, pintando a parede da sala com seu estojo de canetinhas, fica um mês sem sobremesa. A infância é uma espécie de condicional, após a solitária do útero. Uma liberdade vigiada, que deve te preparar para a próxima fase infeliz: a adolescência. Ser adolescente é mais ou menos como mendigar em Paris ou estagiar numa empresa bacana: você já está lá, onde tudo acontece, mas não pode participar da festa; porque é duro, porque é nerd, porque é prego, ou porque tem que decorar o número atômico dos alcalinos terrosos e a função das mitocôndrias, para a prova da FUVEST.

Só tive o que comemorar, portanto, quando terminaram essas duas fases de tutela e me vi finalmente livre. Aos trinta, você escolhe bola, campo e o time em que quer jogar. Tá bom, pode reclamar que sua bola não é uma Jabulani, que o gramado está mais pra uma várzea do Tamanduateí do que pro tapete do Camp Nou, que no seu time só tem perna de pau. Mas uma das vantagens da idade adulta é que, ao contrário da infância e da adolescência, que passam num piscar de olhos – ou num xixizinho e numa ejaculação precoce, para nos atermos a imagens mais condizentes com o assunto -, a maturidade dura quatro décadas; é tempo suficiente para você se acostumar consigo mesmo ou para mudar a situação. E talvez seja essa a maior lição da maturidade: saber discernir entre as coisas que você pode e precisa lutar para mudar e aquelas que deve simplesmente aceitar. Na infância ou na adolescência, ser ruim nos esportes era algo que me atormentava. “Por que, ó, Deus, fizeste-me o último a ser escolhido em todos os times, na Educação Física?”, eu perguntaria ao Senhor, se Nele acreditasse e decidisse importuná-Lo com meus resmungos. Hoje, isso é apenas um dado, quase indiferente, como ter cabelo castanho ou ser canhoto.

Se você está em torno dos trinta, pode lutar durante os próximos quarenta anos para realizar projetos e conquistar a(s) mulher(es) por quem estiver afim, para correr uma maratona ou ganhar dinheiro; mas vai ter que aceitar suas orelhas de abano ou pernas finas, o fato de não ter a lábia de Don Juan, a inteligência do Einstein nem a conta do Bill Gates. E por que não aceitaria? O mundo é grande, tá cheio de gente interessante e tem um monte de coisa boa pra fazer, mesmo não podendo pegar sempre a mais gata da festa, jamais descobrir uma segunda teoria da relatividade nem comprar um iate, numa quarta-feira à tarde, se estiver um pouco entediado.

Três décadas. Dá o que pensar. Mas não tenhamos pressa. Como disse uma amiga minha, nos últimos minutos dos meus vinte e nove: “Não se preocupe, meu querido, os homens começam as trinta”. Com calma, vamos aproveitar esse longo terceiro ato, antes que chegue o quarto – a velhice – e o quinto - sobre o qual não convém falar, por estar muito lá pra frente, só bem depois dos noventa. Ou dos cem? Cento e dez? Cento e quinze, cento e vinte...



A mão de tinta*



Por Braulio Tavares

Ezra Pound, por Wyndham Lewis


Existe hoje um frenesi de novidade, de originalidade, de ter que estar todo dia fazendo alguma coisa pela primeira vez. Não nego a importância da primeira vez. Tudo tem que nascer em algum ponto, tem que começar em algum ponto. Mas a segunda vez é tão importante quanto a primeira. Lembram daquele lugar comum da crítica, “o segundo disco (filme, romance) é mais difícil de fazer do que o primeiro”? Se é mais difícil (e muitas vezes é mesmo) é porque essa segunda vez pede alguma coisa que a primeira não pôde dar, e não poderia. 

Muitas coisas na cultura são como a pintura de uma casa, onde geralmente não basta dar uma mão de tinta, tem que dar depois a segunda, a terceira. À tinta não basta estar ali, precisa estar ali com mais peso, mais espessura, não só para não largar, como também para que sua luminosidade e sua cor sejam vistas com mais firmeza. (Não sabemos, mas quando vemos uma parede bem pintada vemos essas várias camadas sobrepostas de cor, umas através das outras, porque a luz as atravessa e se reflete várias vezes simultâneas por entre elas.) A segunda mão de tinta vem para salvar a primeira, a terceira vem para salvar a segunda. Como o tempo deixamos de perceber que são muitas, parecem uma só, e a intenção é esta.

De modo parecido, nas artes e nas culturas as coisas têm que ser ditas muitas vezes e por muitas vozes. Quanto mais pessoas aderem a uma nova forma de dizer, mais espessa e mais visível ela vai ficando, muito mais do que se tivesse se limitado à contribuição daquele criador solitário. O que seria a Bossa Nova se tivesse tido apenas João Gilberto, o Cinema Novo se tivesse tido apenas Glauber Rocha, o baião se tivesse tido apenas Luiz Gonzaga? Cada artista que se deixou contaminar pela obra destes e criou sua própria obra seguindo seus passos deu uma mão de tinta a mais no que estava sendo feito. 

É por isto que os chamados movimentos estéticos (Cubismo, Nouvelle Vague, Surrealismo, Folk-Rock, Expressionismo, etc.) se impõem com mais solidez na História. São compostos de um gesto inicial de um Inventor (no sentido que Ezra Pound usava: o que cria formas novas de fazer) e de gestos consecutivos de Mestres (o que não inventa, mas consegue fazer aquilo talvez até melhor do que o Inventor). Quando a crítica se queixa de que “todo mundo agora está indo na onda de Fulano” pode até exprimir um descontentamento legítimo diante de obras medianas e pouco inventivas, mas não deve fechar a porta a essas novas contribuições. Quem vai ajudar a fixar na memória do tempo a obra de Fulano são aqueles que tentaram suplantar Fulano num momento em que todos estavam mergulhados num impulso único pelo novo.

(9.3.12)




sábado, 10 de março de 2012

La nouvelle mode*


(1) século XIX

  

(2) até fins do século XX



(3) Hoje



A fronteira*



Por Milan Kundera



Já era noite alta; eles estavam em casa de Edwige, e uma garrafa de uísque esvaziada pela metade estava diante deles sobre uma mesa baixa.

– O que você quer dizer com isso? – perguntou ela.

– Quero dizer que – respondeu Jan –, quando um homem e uma mulher fazem a mesma coisa, não é a mesma coisa. O homem violenta, a mulher castra.

– Você quer dizer com isso que é feio castrar um homem, mas que é uma bela coisa violentar uma mulher.

– Com isso, quero dizer apenas que – replicou Jan – a violação faz parte do erotismo, mas que a castração é sua negação.

Edwige esvaziou seu copo de um só gole e respondeu, encolerizada:

– Se a violação faz parte do erotismo, isso quer dizer que todo o erotismo é dirigido contra a mulher e que é preciso, portanto, inventar outro.


[fragmento]


in. O livro do riso e do esquecimento, 1990, p.198.

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