segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Cinco razões para ter medo*

A primeira razão é que o medo é inevitável. É possível que alguém passe a vida inteira sem experimentar o amor, a saudade, o ódio. Mas – o medo? Duvido. Pense num bebê de um ou dois anos, no rosto assustado com que ele encara um desenho, uma imagem na TV. Amor e ódio precisam de um mínimo de justificativa; o medo não. É um sistema-de-alarma embutido em nossos neurônios há milhões de anos. Devemos em grande parte a esse sistema a nossa sobrevivência como espécie. Se não há como fugir dele, temos que experimentá-lo, saboreá-lo, medi-lo, conhecê-lo a fundo.


Em segundo lugar: o medo é uma revelação. Ele vem de um lugar oculto, e só vem quando quer, não quando nós queremos. Não sei de que modo alguém possa sentir medo voluntariamente. Isso não existe. O medo é algo que nos sobrevém, que nos envolve, queiramos ou não. Podemos gerá-lo artificialmente (e aqui entram os livros e filmes de terror, etc.), mas será sempre isto: um medo artificial, um medo de mentirinha. Não é o terror pânico, aquele que nos amolece as pernas e nos esvazia os intestinos. Quando experimentar este, caro leitor, agradeça, por mais que a experiência tenha sido humilhante ou constrangedora. Agora você está mais perto de saber quem realmente é.


Terceiro: o medo nos faz manter os pés no chão. E neste caso em particular estou me referindo não ao medroso contumaz, mas ao sujeito metido a valente, ao ousado, ao aventureiro, ao que gosta de enfrentar desafios. Se ele tem a cabeça no lugar, ele sabe que o medo é um bom conselheiro. O conselho que o medo nos dá não é “Bora correr!” Quando sentimos medo, algo está nos dizendo que finalmente estamos diante de uma coisa que pode nos servir de peso e de medida. Já disse algum filósofo que sujeito corajoso não é o que não sente o Medo, mas o que sabe mantê-lo sob controle e continuar fazendo o que tem pra fazer.


O quarto motivo é que o medo é um ativador aleatório de sistemas. Não sabemos quais são os sistemas de reflexos físicos e mentais que ele vai ativar em nós, mas só saberemos se o experimentarmos. O campo de batalha já mostrou valentões que se encolhem apavorados e sujeitos lesos que se transformam em heróis. A experiência-limite que desencadeia o medo desencadeia também outras reações correlatas que variam de caso para caso.


Em quinto lugar (e esta é uma razão para convencer os mais cínicos) o medo dá dinheiro. Vejam a imensa indústria atual do filme de terror, do romance de terror. (Curiosamente, não se cultiva mais hoje em dia um teatro de terror, a não ser como sátira ou paródia; foram-se os dias do Grand Guignol francês) É um medo de mentirinha, como afirmei acima, mas pessoas sensatas argumentarão que se é pra sentir medo é melhor divertir-se sentindo um medo inofensivo e sob controle (aí estão os parques de diversão com suas montanhas-russas e o escambau) do que o medo de alguma coisa hostil que nos ameaça pra valer.

Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

Visão 1944*



Meus olhos são pequenos para ver
a massa de silêncio concentrada
por sobre a onda severa, piso oceânico
esperando a passagem dos soldados.

Meus olhos são pequenos para ver
luzir na sombra a foice da invasão
e os olhos no relógio, fascinados,
ou as unhas brotando em dedos frios.

Meus olhos são pequenos para ver
o general com seu capote cinza
escolhendo no mapa uma cidade
que amanhã será pó e pus no arame.

Meus olhos são pequenos para ver
a bateria de rádio prevenindo
vultos a rastejar na praia obscura
aonde chegam pedaços de navios.

Meus olhos são pequenos para ver
o transporte de caixas de comida,
de roupas, de remédios, de bandagens
para um porto da Itália onde se morre.

Meus olhos são pequenos para ver
o corpo pegajento das mulheres
que foram lindas, beijo cancelado
na produção de tanques e granadas.

Meus olhos são pequenos para ver
a distância da casa na Alemanha
a uma ponte na Rússia, onde retratos,
cartas, dedos de pé boiam em sangue.

Meus olhos são pequenos para ver
uma casa sem fogo e sem janela
sem meninos em roda, sem talher,
sem cadeira, lampião, catre, assoalho.

Meus olhos são pequenos para ver
os milhares de casas invisíveis
na planície de neve onde se erguia
uma cidade, o amor e uma canção.

Meus olhos são pequenos para ver
as fábricas tiradas do lugar,
levadas para longe, num tapete,
funcionando com fúria e com carinho.

Meus olhos são pequenos para ver
na blusa do aviador esse botão
que balança no corpo, fita o espelho
e se desfolhará no céu de outono.

Meus olhos são pequenos para ver
o deslizar do peixe sob as minas,
e sua convivência silenciosa
com os que afundam, corpos repartidos.

Meus olhos são pequenos para ver
os coqueiros rasgados e tombados
entre latas, na areia, entre formigas
incompreensivas, feias e vorazes.

Meus olhos são pequenos para ver
a fila de judeus de roupa negra,
de barba negra, prontos a seguir
para perto do muro —e o muro é branco.

Meus olhos são pequenos para ver
essa fila de carne em qualquer parte,
de querosene, sal ou de esperança
que fugiu dos mercados deste tempo.

Meus olhos são pequenos para ver
a gente do Pará e de Quebec
sem noticia dos seus e perguntando
ao sonho, aos passarinhos, às ciganas.

Meus olhos são pequenos para ver
todos os mortos, todos os feridos,
e este sinal no queixo de uma velha
Que não pôde esperar a voz dos sinos.

Meus olhos são pequenos para ver
países mutilados como troncos,
proibidos de viver, mas em que a vida
lateja subterrânea e vingadora.

Meus olhos são pequenos para ver
as mãos que se hão de erguer, os gritos roucos,
os rios desatados, e os poderes
ilimitados mais que todo exército.

Meus olhos são pequenos para ver
toda essa força aguda e martelante,
a rebentar do chão e das vidraças,
ou do ar, das ruas cheias e dos becos.

Meus olhos são pequenos para ver
tudo que uma hora tem, quando madura,
tudo que cabe em ti, na tua palma,
ó povo! que no mundo te dispersas.

Meus olhos são pequenos para ver
atrás da guerra, atrás de outras derrotas,
essa imagem calada, que se aviva,
que ganha em cor, em forma e profusão.

Meus olhos são pequenos para ver
tuas sonhadas ruas, teus objetos,
e uma ordem consentida (puro canto,
vai pastoreando sonos e trabalhos).

Meus olhos são pequenos para ver
essa mensagem franca pelos mares,
entre coisas outrora envilecidas
e agora a todos, todas ofertadas.

Meus olhos são pequenos para ver
o mundo que se esvai em sujo e sangue,
outro mundo que brota, qual nelumbo
— mas veem, pasmam, baixam deslumbrados.

Carlos Drummond de Andrade in. A Rosa do Povo. Ed. Circulo do Livro, 1988. pp. 161-4.


sexta-feira, 10 de agosto de 2012

A Guilhotina*



Uma alta porta sem porta, um batente vazio. No alto, suspensa, a lâmina mortal.

Teve vários nomes: a Máquina, a Viúva, a Barbeadora. Quando decapitou o rei Luís, passou a se chamar Luisinha. E finalmente foi batizada, para sempre, de Guilhotina.

Em vão foram os protestos de Joseph Guillotin. Mil vezes alegou que não era filha dele essa carrasca que semeava terror e atraía multidões. Ninguém escutava as razões daquele médico, inimigo jurado da pena de morte: dissesse o que dissesse, todo mundo continuava acreditando que ele era o pai da atriz principal do espetáculo mais popular das praças de Paris.

E todo mundo também acreditou, e continua acreditando, que Guillotin morreu guilhotinado. Na verdade, ele exalou o último suspiro na paz do leito, com a cabeça bem colada no corpo.

A guilhotina trabalhou até 1977, quando um modelo ultra-rápido, de comando elétrico, executou um imigrante árabe no pátio da prisão de Paris.


Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009. pp. 172-3.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Gota d´água*


Tudo está na natureza encadeado e em movimento – cuspe, veneno, tristeza, carne, moinho, lamento, ódio, dor, cebola e coentro, gordura, sangue, frieza, isso tudo está no centro de uma mesma e estranha mesa / Misture cada elemento – uma pitada de dor, uma colher de fomento, uma gota de terror / O suco dos sentimentos, raiva, medo ou desamor, produz novos condimentos, lágrima, pus e suor / Mas, inverta o segmento, intensifique a mistura, temperódio, lagrimento, sangalho com tristezura, carnento, venemoinho, remexa tudo por dentro, passe tudo no moinho, moa a carne, sangre o coentro, chore e envenene a gordura / Você terá um ungüento, uma baba, grossa e escura, essência do meu tormento e molho de uma fritura de paladar violento que, engolindo, a criatura repara o meu sofrimento co’a morte, lenta e segura / Eles pensam que a maré vai mas nunca volta / Até agora eles estavam comandando o meu destino e eu fui, fui, fui, fui recuando, recolhendo fúrias. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraca / Quando eles virem invertida a correnteza, quero saber se eles resistem à surpresa, quero ver como eles reagem à ressaca.

BUARQUE, Chico e PONTES, Paulo. “Gota D’Água”. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira Ed., 1982, pp.160-161.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Vida*



     " ... a vida sempre transborda de qualquer cálice."


Boris Pasternak

Esses índios aí*


Pra que serve o índio? Índio não colabora com o PIB, não contribui com a ciência, não dourará nosso quadro de medalhas nas Olimpíadas e ainda é dono de Bélgicas e Bélgicas de terra improdutiva! Esses folgados deviam era tomar vergonha na cara, botar uma roupa, arrumar um emprego, mudar pra um apartamento de 25 metros quadrados e passar duas horas no trânsito, todo dia, como qualquer ser humano normal, é ou não é?!

Tirando a ironia do apartamento e do trânsito, o discurso acima não é muito diferente do que eu ouvi tantas vezes, na época em que cursava ciências sociais e explicava a algum curioso do que tratava a antropologia.

Lembrei-me dessas pérolas na semana passada, ao ler aqui na Folha a notícia de que uma portaria da Advocacia-Geral da União prevê a possibilidade de o setor público construir em áreas indígenas sem consultar seus habitantes. A ideia, pelo que eu entendi, é que as reservas não sejam reservadas. Genial.

Uma vez perguntaram a um antropólogo "por que os índios precisam de reserva?". Resposta: "porque eles existem". Simples assim. Por existirem, viverem da caça, da pesca, da colheita, de pequenas produções de subsistência -e, diga-se de passagem, por estarem aqui há pelo menos 5.000 anos-, devem ter as partes que lhes cabem entre nossos latifúndios.

Que baita desperdício! -dirá a turma do primeiro parágrafo. Debaixo das terras onde esses pelados estão a comer pitangas há minérios valiosíssimos! Minérios essenciais para a fabricação de celulares, por exemplo. Enquanto eles estão lá, rezando pro grande Deus da mandioca, poderíamos estar diminuindo em 0,001 centavo o preço dos smartphones, permitindo a mais gente tirar fotos de seus cachorros para pôr no Facebook, possibilitando que mais gente desse "like" nas fotos dos cachorros de mais gente, contribuindo, assim, para a grande marcha da civilização -mas esses índios...

Não, não direi que o índio é bom e a gente é ruim, caro leitor, nem acho que um caiapó viva necessariamente melhor do que o morador da Caiowá. Sou feliz com os antibióticos, as séries da HBO, as cervejas artesanais e outras conquistas da civilização. E é justamente a herança iluminista desta civilização à qual pertenço que me obriga a concordar que, se não há uma finalidade última para a existência, tanto faz gastarmos o tempo que nos foi dado vestidos e postando fotos de cachorros no FB ou pelados e cantando para a mandioca. Mais ainda: é essa mesma tradição, cujas grandes criações tanto admiro -de Hamlet ao microchip-, que me faz lamentar o tesouro que desperdiçamos ao menosprezar os quase 240 povos indígenas brasileiros, com suas mais de 800 mil pessoas falando cerca de 180 línguas. Quantas Ilíadas e Gênesis, Medeias e Gilgameshs, quantos belos poemas, cosmogonias e epopeias deixam de fazer parte do rio de nossa cultura por preconceito e ignorância?

Garantir a terra e a sobrevivência desses índios é aumentar a riqueza da experiência humana. A deles e a nossa. E, mesmo que não fosse, mesmo que "esses índios aí" não pudessem trazer nada de bom para nós, ainda mereceriam as reservas. Porque eles existem. Simples assim.

Antonio Prata in. Folha de São Paulo

sábado, 21 de julho de 2012

A suprema felicidade*


                        ... a suprema felicidade da vida é ter a convicção de que somos amados.

Victor Hugo

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Uma história do corpo feminino*

A medicina é uma disciplina dominante na percepção da carne e dos ossos humanos, e a medicina grega persistiu como modelo para a ciência ocidental por séculos. Galeno, o principal médico do século II d.C., foi o livro-texto em hospitais europeus mesmo após Willian Harvey descobrir a circulação do sangue 1.500 anos depois; a compreensão da histeria, por exemplo, a doença feminina par excellence, sempre dependeu de modelos da mente e do corpo feminino profundamente influenciados por essa longa tradição. A medicina formula nossa compreensão do corpo, e a medicina grega concebia o corpo feminino através de maneiras particularmente significativas.

Para a medicina clássica dos textos hipocráticos, o corpo de uma mulher é como um cântaro, com tubos interconectados para a circulação do sangue e dos fluidos - tubos que podem ser perigosamente obstruídos. Portanto, caso se queira verificar a fertilidade de uma menina, deve-se colocar um pedaço de alho em sua vagina à noite. Se de manhã ela tiver mau hálito, isso indica que, por sorte, seus tubos estão devidamente desobstruídos e que não há impedimento para a gravidez. O tubo que se estende das narinas até o útero deve estar desobstruído. Essa via de conexão explica por que os médicos gregos podiam pensar que a voz da mulher engrossava depois da primeira relação sexual: a desobstrução do orifício de baixo naturalmente afeta o orifício de cima. A conexão entre boca e vagina ainda vigora no vocabulário médico moderno: médicos se referem aos "lábios" vaginais e à "cérvice" (pescoço) do útero. A fisiologia feminina requer explicações científicas - e a ciência concebe ao leitor, e ao médico, poder sobre o mundo. A medicina é uma das maneiras como o lugar da mulher na sociedade é demarcado. A medicina modifica nossa visão sobre o corpo das mulheres.

[fragmento]

Simon Goldhill. in. "Amor, sexo & tragédia": como os gregos e romanos influenciam nossas vidas até hoje. Ed. Zahar, 2007. p. 44.

terça-feira, 17 de julho de 2012

O Diabo é pobre*


Nas cidades do nosso tempo, imensos cárceres que trancam os prisioneiros do medo, as fortalezas dizem ser casas e as armaduras simulam ser ternos.

Estado de sítio. Não se distraia, não baixe a guarda, não confie. Os amos do mundo dão a voz de alarme. Eles, que impunemente violam a natureza, sequestram países, roubam salários e assassinam multidões, nos advertem: cuidado. Os perigosos acossam, tocaiados nos subúrbios miseráveis, mordendo invejas, engolindo rancores.

Os perigosos, os pobres: os pobres-diabos, os mortos das guerras, os presos dos cárceres, os braços disponíveis, os braços descartáveis.

A fome, que mata calando, mata os calados. Os especialistas, os pobrólogos, falam por eles. E nos contam em que não trabalham, o que não comem, o quanto não pesam, o quanto não medem, o que não têm, o que não pensam, o que não votam, em que não crêem.

Só nos falta saber por que os pobres são pobres. Será porque sua fome nos alimenta e sua nudez nos veste? 

Eduardo Galeano. in. Espelhos. Ed. L&PM, 2009. p. 116.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Alma humana*



     ... Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana seja apenas outra alma humana.

C. Gustav Jung

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Não dá pra ler tudo*


O aumento exponencial de textos eletrônicos disponíveis e gratuitos causa uma euforia sem limites e um pessimismo sem volta. Centenas de milhares de livros, milhares de filmes, milhões de músicas!  Tudo ao alcance de um clique, de graça!  O único senão é o fato de que o dia continua tendo apenas 24 horas.  Nosso tempo de leitura é o mesmo de que dispunham os leitores do século 18, ou mesmo os leitores da Grécia Antiga (e mesmo eles certamente se queixavam de que “não dava pra ler tudo”).  Esse “não dá pra ler” é relativo, e não faz muita diferença. Digamos que eu conseguisse ler um livro por dia; seriam 30 livros por mês.  Se meu limite é esse, não faz muita diferença se estou deixando de ler 100 livros ou um milhão.  Leio trinta, e acabou-se.

A questão é: Que trinta?  Porque era mais fácil escolher trinta entre 100 do que trinta entre um milhão. Não teríamos desculpa para estar lendo algo a contragosto, porque teríamos acesso, se não a tudo, pelo menos a uma quantidade inesgotável de obras que de fato queremos ler.  Tem muitos leitores de bibliotecazinhas humildes do interior, mundo afora, que ficam relendo seus autores preferidos, ou avançando aos bocejos por entre obras que não lhes interessam, apenas porque não aparecem livros novos.

E como ter acesso a informações novas, a autores que ainda não conhecemos? Cory Doctorow (do saite BoingBoing) diz: “Twitter e blogs são a única maneira de administrar a enorme quantidade de material disponível. Sem isto, ninguém sairia de sua órbita de contatos sociais, ninguém trocaria idéias com os milhões de pessoas que conhecem outros milhões, os polinizadores que pegam uma informaçãozinha aqui e levam para acolá. Sem eles, a conversa morreria. Essas pessoas garantem que o que é realmente bom acabará chegando ao topo da pilha e ficando acessível”.

O dia continua tendo apenas 24 horas, mas por isso mesmo é preciso preenchê-las bem. O leitor não deve imaginar que os milhões de livros possíveis de ler já lhe pertencem, ou estão de alguma maneira a cobrar-lhe um posicionamento. O leitor deve se perguntar: Entre trabalho e outras atividades, hoje em terei meia hora para ler.  Ou duas horas, ou cinco, etc.  Vou preencher esse tempo com que?  Você não precisa ter um iPod com mil romances, basta ter um livro por perto, um livro que lhe interesse. (Tanto pode ser digital quanto de papel.) Se você pensar nos mil livros extraordinários que gostaria de ler, não vai sair do canto. Basta ter sempre coisas boas por perto, e todo dia pensar: vou ler o que?  O fato de haver 100 vezes mais títulos disponíveis não me obriga a ler 100 vezes mais, apenas me ajuda a escolher melhor.


Braulio Tavares. in. Mundo Fantasmo

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Sobre a Educação e o inacabamento do ser humano*


Não é possível fazer uma reflexão sobre o que é a educação sem refletir sobre o próprio homem.

Por isso, é preciso fazer um estudo filosófico-antropológico. Comecemos por pensar sobre nós mesmos e tratemos de encontrar, na natureza do homem, algo que possa constituir o núcleo fundamental onde se sustente o processo de educação.

Qual seria este núcleo captável a partir de nossa própria experiência existencial?

Este núcleo seria o inacabamento ou a inconclusão do homem.

O cão e a árvore também são inacabados, mas o homem se sabe inacabado e por isso se educa. Não haveria educação se o homem fosse um ser acabado. O homem pergunta-se: quem sou? de onde venho? onde posso estar? O homem pode refletir sobre si mesmo e colocar-se num determinado momento, numa certa realidade: é um ser na busca constante do ser mais e, como pode fazer esta auto-reflexão, pode descobrir-se como um ser inacabado, que está em constante busca. Eis aqui a raiz da educação.

A educação é uma resposta da finitude à infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado e sabe-se inacabado. Isto leva-o à sua perfeição. A educação, portanto, implica uma busca realizada por um sujeito que é homem. O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser o objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém.

Por outro lado, a busca deve ser algo e deve traduzir-se em ser mais: é uma busca permanente de "si mesmo" (eu não posso pretender que meu filho seja mais em minha busca e não na dele).

Sem dúvida, ninguém pode buscar na exclusividade, individualmente. Esta busca solitária poderia traduzir-se em um ter mais, que é uma forma de ser menos. Esta busca deve ser feita com outros seres humanos que também procuram ser mais e em comunhão com outras consciências, caso contrário se faria de umas consciências, objetos de outra. Seria "coisificar" as consciências.

Jaspers disse: "Eu sou na medida em que os outros também são."

O homem não é uma ilha. É comunicação. Logo, há uma estreita relação entre comunhão e busca.

[Fragmento].

Paulo Freire. in. "Educação e Mudança". Ed. Paz & Terra, 1982. pp. 27-28.

Nota do Blog: Esse fragmento é só um aperitivo de um texto importante para o Educador e para aqueles que acreditam em um modelo de educação crítica, em que tanto professores quanto alunos devam atuar enquanto sujeitos de sua própria realidade com vias a transformá-la para melhor. Sugerimos a leitura completa do texto que se encontra na seguinte referência: FREIRE, Paulo. A Educação e o Processo de Mudança Social. In. _____. Educação e Mudança. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1982.  pp. 27 - 41.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O Nordeste da TV: invenção e tradição


Este ano se comemora o centenário de nascimento de dois ícones da cultura brasileira, Luiz Gonzaga (1912 – 1989) e Jorge Amado (1912 – 2001), ambos representantes de um discurso regionalista nordestino marcado pelo folclore e pela tradição. O Nordeste, ao que parece, ganhou em virtude desse fato mais espaço na TV, são novelas, musicais, entrevistas e programas especiais em torno da cultura, da natureza e do povo nordestino.

Eis que emerge dessa curiosidade “estrangeira” um Nordeste exótico recortado e recontado através de regularidades imagético-discursivas que o dotam de certas características invariáveis. A seca, a rusticidade do povo, o cangaço, o retirante, a religiosidade e a dureza da caatinga foram (e ainda não deixaram de ser) ao longo de décadas imagens utilizadas para ser referir ao Nordeste e ao modo de ser nordestino. Segundo o historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior:

“Antes que a unidade significativa chamada Nordeste se constituísse perante nossos olhos, foi necessário que inúmeras práticas e discursos ‘nordestinizadores’ aflorassem de forma dispersa e fossem agrupados posteriormente.” (in: A invenção do Nordeste e outras artes. Ed. Cortez, 2009, p. 79).

Nessa linha de pensamento, o Nordeste da Tv – naturalizado e folclorizado – tende a encobrir as disputas políticas, econômicas e ideológicas por trás da produção desse espaço no imaginário coletivo do país. Esse Nordeste, a-histórico, tradicional e mitificado, se apropria da literatura acadêmica (especialmente do romance de 30), do cordel, da música popular (especialmente de Luiz Gonzaga), da iconografia, etc. E se une a estes “discursos nordestinizadores” apagando as múltiplas possibilidades de práticas, costumes, modos de ser e de fazer de um Nordeste atual em nome de um Nordeste inventado, gestado a partir de estratégias midiáticas e de interesses escusos.

A força desse discurso gera, dentro e fora deste recorte geográfico (Nordeste), uma busca pelas raízes mais profundas e originais de uma nordestinidade. Inventa-se dessa forma um Nordeste da tradição, da festa junina, da comida típica, do cabra da peste, das Vidas Secas e dos Sertões, onde o sertanejo é antes de tudo um forte, um sujeito resignado na vida e fervoroso na fé. Neste percurso esquece-se, por exemplo, no Nordeste a prevalência do urbano (73,2%) sobre o rural (26, 8%); o aumento da escolarização; a melhoria na qualidade e expectativa de vida; o crescimento da geração de emprego e renda; a modernização de certos setores da economia; o movimento de retorno daqueles que se alocaram por anos a fio em subempregos e submoradias no Sul e Sudeste do país, etc. Enfim, nega-se o estágio atual de desenvolvimento do Nordeste, que obviamente ainda apresenta indicadores sociais bastante negativos, e procura-se reforçar uma imagem secular de atraso e subdesenvolvimento. Dessa forma, não é de se espantar as manifestações de preconceito contra nordestinos, amplamente divulgadas em redes sociais, e, o que é mais grave, essa estereotipizacão tem levado também a baixa auto-estima do próprio nordestino em relação à sua condição.

O Nordeste da Tv, em grande medida, é uma caricatura do Nordeste de fato e não serve à informação do grande público. Assim como sabemos que o Rio de Janeiro não se resume à violência, São Paulo aos congestionamentos e Brasília à corrupção, o Nordeste também não se resume à seca e à pobreza congênita. Todos estes espaços são produtos de embates históricos e processos políticos, não foram dados ao natural, portanto, reduzi-los a meros estereótipos é um risco que se corre em um país que ainda está em processo de auto-reconhecimento como o Brasil.


[Josenias Silva é Professor, Mestre em História do Brasil]

Ps.: O autor do texto, que é nordestino, reconhece o problema gravíssimo enfrentado por milhares de famílias vitimas da estiagem e lamenta o fato de o mesmo ser agravado por questões meramente "politiqueiras", quando não por desvio de verbas e sucateamento dos órgãos responsáveis para o combate à estiagem.

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