terça-feira, 23 de abril de 2013

Alteridade*



Cada um é indutor da sociabilidade para o outro, e a simbologia corporal é uma memória que deve ser cultivada amiúde e alimentada no espelho do comportamento e das palavras do outro.

*David Le Breton in. “As paixões ordinárias”. Ed. Vozes, 2009, p.35.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Livros Clandestinos*



Meu nome é Sonntag, e sou bombeiro. Meu pai o foi também, e queimou muitos livros. Quando começou a salvá-los às escondidas, foi descoberto e morto pelas forças de segurança. Cresci ouvindo este exemplo ameaçador. Tornei-me bombeiro para conhecer essas obras proibidas, mesmo correndo o risco de ser executado. Enganava-me. Hoje em dia o Sistema balança, racha-se em fendas; a corrupção impera. Encontram-se livros à venda nos mercados negros de armas, de próteses, de venenos. Minhas leituras fervorosas e às escondidas são alimentadas por essa rede escusa de delinquentes, que fervilha nas favelas, nas ruínas ocupadas, nos casebres de beira-rio. Não se consegue saber de onde extraem esses tesouros.

Há boatos sobre bibliotecas soterradas, mas a verdade é que livros já não são impressos há mais de dois séculos. O papel é descartável, perecível. Cada exemplar merece ser preservado, porque tudo que está impresso é precioso. O que foi confiado ao papel constitui o esqueleto, a estrutura da existência humana; os pixels coloridos da TV são mera distração ou adorno. Daí que cada folha impressa valha uma pequena fortuna: trechos de romances dos quais não sabemos título nem autoria, mas que por isso mesmo tornam-se mais cheios de mistério e de valor. Não direi que entendo tudo que leio, mas nesses momentos sinto-me compartilhando de um ritual místico de transcendência, ainda que numa língua que me é desconhecida.

Muito ouvi falar em Shakespeare; para mim, são onze páginas arrancadas não sei de onde e costuradas umas às outras, pelas quais paguei uma pequena fortuna, no meu tempo de estudante. Tornei-me bombeiro e aumentei meu capital. Em menos de dois meses na corporação reuni exemplares completos de obras como “Meu nome é uma bala”, “Férias de amor”, “Apólogos Edificantes”, “As libertinas”, “Anais da Câmara de Vereadores”. Tornei-me capitão, e entrei para um grupo de jovens oficiais progressistas que lutam discretamente pelo fim do banimento.

Visados pelo Governo, temos que dobrar nossas precauções para que não encontrem nossos tesouros. Compro tudo que me aparece pela frente. Somente nesta semana um traficante vendeu-me vinte páginas de um livro do célebre Nabokov, a história marítima da caça a uma baleia; outro, um conto de Baudelaire intitulado “O poço e o pêndulo”; de um terceiro adquiri sonetos de Homero. Nomes que evocam memórias de um tempo mítico em que a cultura era acessível a todos. Tesouros que guardo num cofre por trás de uma parede secreta, feliz em saber que por mais que as ditaduras massacrem a cultura e o saber não há como destruir as grandes obras do pensamento humano.

*Braulio Tavares in. Mundo Fantasmo

terça-feira, 16 de abril de 2013

Filosofia em tempo de terror*



Na era do terror não há equilíbrio possível: desde que forças incalculáveis, mais do que estados soberanos, representam a verdadeira ameaça, o próprio conceito de responsabilidade torna-se potencialmente incalculável. Quem é responsável pelo quê, em que estágio de planejamento, diante de que corpo jurídico?

Como a Guerra Fria, o espectro do terrorismo global persegue o nosso sentido de futuro, porque assassina a promessa da qual depende uma relação positiva com o nosso presente. Em todo o seu horror, 11 de setembro deixou-nos esperando pelo pior. A violência dos ataques as Torres Gêmeas e o Pentágono revelou um abismo de terror que irá perseguir nossa existência e nosso pensamento pelos anos e talvez pelas décadas vindouras.

*Giovanna Borradori in. “Filosofia em Tempo de Terror”. Ed. Jorge Zahar, 2004, p. 32.

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domingo, 14 de abril de 2013

Brevíssima arqueologia do texto e da leitura*


(...) como a maioria das inscrições romanas, o poema não tinha pontuação nem parágrafos ou espaços entre as palavras. As unidades de som e de sentido estavam provavelmente mais próximas dos ritmos da fala que das unidades tipográficas (...) da página impressa. A própria página como unidade do livro data apenas do século III ou IV d.C. Antes disso, para ler um livro, era preciso desenrolá-lo. Depois que as páginas reunidas (o codex) substituíram o rolo (volumem), os leitores podiam ir e voltar com mais facilidade ao longo dos livros, e os textos passaram a ser divididos em segmentos que podiam ser destacados e postos em índices. Mas, mesmo depois de os livros terem adquirido sua forma moderna, por muito tempo a leitura continuou a ser uma experiência oral, desempenhada em público. Em algum momento indeterminado, talvez em alguns mosteiros no século VII e seguramente nas universidades do século XIII, as pessoas começaram a ler sozinhas em silêncio. É possível que a passagem para a leitura silenciosa tenha implicado uma maior adaptação mental do que a passagem para o texto impresso, pois ela fazia da leitura uma experiência individual e interior.

A impressão fez alguma diferença, é claro, mas provavelmente menos revolucionária do que geralmente se imagina. Alguns livros tinham frontispícios, índices de conteúdo, índices remissivos, paginação e editores que faziam muitas cópias nos “scriptoria” para um grande público leitor, antes da invenção do tipo móvel. Nos primeiros cinquenta anos de sua existência, o livro impresso continua a ser uma imitação do livro manuscrito. Não há duvida de que era lido pelo mesmo público e da mesma maneira. Mas, a partir de 1500, o livro, o panfleto, o folheto, o mapa e o cartaz impressos começaram a atingir novos tipos de leitores e a estimular novos tipos de leitura. Com um formato cada vez mais padronizado, um preço cada vez mais barato e uma distribuição mais ampla, o novo livro transformou o mundo. Não se limitava a fornecer mais informações. Proporcionava um tipo de compreensão, uma metáfora fundamental para entender a vida.

Foi assim que, no século XVI, as pessoas tomaram posse do Verbo, no século XVII começaram a decodificar o “livro da natureza”, e no século XVIII aprenderam a ler a si mesmas.

*Robert Darnton in. “O beijo de Lamourette”. Ed. Companhia das Letras, 2010, pp. 199-200.

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La Liseuse, c. 1845-1850 
Huile sur toile, 42,5 x 32,5 cm 
Jean-Baptiste Camille Corot (1796-1875) 
Zurich, Fondation Collection E.G. Bührle 


sábado, 13 de abril de 2013

A dança e a alma*



Portrait of Annette Kellerman by Orval Hixon, , c.1920.

             Naquele instante nada mais lhe importava. E ela dançou como se fosse a última noite do universo.


domingo, 7 de abril de 2013

A hagiografia ou “a vida dos santos”*


A biografia se apresenta, desde a Antiguidade, como um gênero à parte, distinto da história. Dá-se o mesmo com a escrita das vidas de santos, a hagiografia. Esse gênero literário privilegia as encarnações humanas do sagrado e ambiciona torná-las exemplares para o resto da humanidade. Como gênero literário, seu regime de verdade permanece distinto daquilo que se espera do historiador. Distante do pacto de verdade que a escrita histórica pressupõe, a vida de santo ensina ao leitor algo bem diverso do fato atestado. [...] Como bem diz Michel de Certeau, as hagiografias procuram muito mais investigar a concepção de mundo veiculada pelo hagiógrafo do que produzir a vida real do santo biografado. [...] O relato de vida tem valor de testemunha de uma travessia experiencial, a da relação entre Deus e aquele que foi canonizado como santo. A hagiografia reflete uma estrutura particular, na qual “a individualidade conta menos que a personagem”. À diferença da biografia, que acompanha uma evolução no tempo das potencialidades do indivíduo, a hagiografia postula que tudo está na origem. A hagiografia enfatiza as descrições espaciais de lugares sagrados para enraizar a figura santa que é seu espírito protetor. Só como meio utiliza a narração. Já a biografia ressalta a narração, o percurso da existência no tempo, e atribui a descrição de estados de alma, retratos e balanços das ações ou obras um papel secundário, para animar a lógica narrativa temporal. O desdobramento da história, para o hagiógrafo, não passa de uma epifania progressiva do estado inicial de vocação ou eleição do santo, segundo uma concepção intrinsecamente teleológica. A vida do santo situa-se numa temporalidade fixa, a da constância do próprio ser, de tal modo que “o fim repete o começo. Do santo adulto, remonta-se à infância na qual já se reconhece a efígie póstuma. O santo nada perde daquilo que recebeu”. É, pois, diferente do herói, esse palco de conflito trágico que o domina até abalá-lo e por vezes induzi-lo a transgredir as leis divinas e humanas. O santo é inteiriço, imutável, pronto a enfrentar todas as provas sem nenhuma alteração.

*François Dosse in. “O Desafio Biográfico”. Ed.Edusp, 2009, pp. 137-138.

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Saint George and the Dragon, c 1889-1890.
Óleo sobre tela, 141 x 96.5 cm
Gustav Moreau, 1826-1898.


sábado, 6 de abril de 2013

O desafio biográfico*


O trabalho do biógrafo é muitas vezes identificado ao labor do beneditino, a tal ponto o biógrafo precisa consagrar sua própria existência a esclarecer a vida de um estranho, ao preço de sacrifícios pessoais que transformam sua escolha em sacerdócio. O biógrafo sabe que jamais concluirá sua obra, não importa o número de fontes que consiga exumar. Diante dele abrem-se pistas novas, onde corre o risco de se enredar a cada passo. Temos por hábito distinguir as biografias ao estilo anglo-saxônico (que corresponde melhor ao afã quase obsessivo de acompanhar o sujeito biografado em seus mínimos atos) das biografias à maneira francesa, menos ambiciosas em termos de informações, porém mais próximas da ficção por seu tratamento literário; mais arrebatadas, elas tomam partido, elas têm uma visão parcial e tendenciosa da figura biografada. Todavia, nos dois casos, podemos falar como Roger Dadoun numa autêntica “possessão” do biógrafo: “Mas, como tudo que vai e volta, a possessão se exerce igualmente em sentido contrário, numa relação de reciprocidade. O biógrafo acaba possuído pelo biografado.” Essa apropriação mergulha o biógrafo num universo de exterioridade. Em conseqüência da projeção necessária e exigida pela empatia com o tema, o biógrafo acaba modificado, transformado pela figura cuja biografia escreve, como passa a viver, durante o período de pesquisas e redação, no mesmo universo, a ponto de não poder conseguir distinguir o exterior do interior.

*François Dosse in. “O Desafio Biográfico”. Ed. Edusp, 2009, pp. 13-14.

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Antoine Josse [french surrealist sculptor and painter]



Os inumanos*


Em outros tempos, eu achava que ser humano era o objetivo mais alto que um homem podia ter, mas vejo agora que isso se destinava a destruir-me. Hoje, orgulho-me em dizer que sou inumano, que não pertenço a homens e governos, que não tenho nada a ver com crenças e princípios. Nada tenho a ver com a maquinária rangente da humanidade, eu pertenço à Terra! Digo isso deitado em meu travesseiro e sinto os chifres nascendo na minha testa. [...] Um homem que pertence a essa raça [os inumanos] precisa ficar em pé no lugar alto, com palavras desconexas na boca, e arrancar as próprias entranhas. [...] Quero rios que criem oceanos [...], rios que não sequem no vazio do passado. Oceanos, sim! Tenhamos mais oceanos, novos oceanos que apaguem o passado, oceanos que criem novas formações geológicas, novas vistas topográficas e continentes estranhos e assustadores, oceanos que destruam e preservem ao mesmo tempo, oceanos nos quais possamos navegar, partir para novas descobertas, novos horizontes. [...] precisamos procurar fragmentos, lascas, unhas dos dedos dos pés, qualquer coisa que contenha mistério, que seja capaz de ressuscitar corpo e alma. [...] Fora biografias, histórias, bibliotecas e museus! Que os mortos comam os mortos. Dancemos nós, os vivos, à beira da cratera, uma última e agonizante dança. Mas que seja uma dança!

*Henry Miller in. “Tropico de Câncer”. Ed. José Olympio, 2006, pp. 324-327.

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Henry Miller, 1891-1980.


domingo, 31 de março de 2013

In vino, veritas*


“In vino, veritas"

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Baco, 2,03 m,  c 1496-1498
Michelangelo Buonarroti , 1475-1564
Museu Nacional de Bargello, Florença, Itália.


sábado, 30 de março de 2013

Por uma história social da leitura*


A leitura tem uma história. Não foi sempre a mesma em todos os lugares. Podemos imaginá-la como um processo direto de extrair informação de uma página, mas, considerando-a um pouco mais além, concordaríamos que a informação precisa ser peneirada, classificada e interpretada. Os esquemas interpretativos fazem parte de configurações culturais, que variam imensamente ao longo do tempo. Como nossos antepassados viviam em mundos mentais diferentes, deviam ler de maneira diferente, e a história da leitura pode ser tão complexa quanto a historia do pensamento. (...) Não existem vias diretas nem atalhos, porque a leitura não é uma coisa distinta, como uma constituição ou uma ordem social, que possa ser rastreada ao longo do tempo. Ê uma atividade que envolve uma relação específica – de um lado o leitor, de outro o texto. Ainda que os leitores e os textos tenham variado de acordo com as circunstâncias sociais e tecnológicas, a história da leitura não deve ser reduzida a uma cronologia dessas variações. Deve ultrapassá-las, para enfrentar o elemento de relação que se encontra no núcleo da questão: como leitores mutáveis interpretam textos variáveis? A pergunta tem um ar abstruso, mas muita coisa depende dela. Pense-se na freqüência com que a leitura alterou o curso da história – a leitura de Paulo por Lutero, a leitura de Hegel por Marx, a leitura de Marx por Mao. Esses pontos sobressaem num processo mais amplo e mais vasto: o esforço infindável do homem em encontrar sentido no mundo em torno e dentro dele mesmo. Se conseguíssemos compreender como ele lia, poderíamos vir a compreender melhor como ele entendia a vida, e, por essa via – a via histórica –, quem sabe chegaríamos a satisfazer uma parte de nosso próprio anseio por um sentido.

*Robert Darnton in. “O beijo de Lamourette”. Ed. Companhia das Letras, 2010, pp. 200-201.

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La liseuse, c 1895
Oil on Canvas 117cm x 81 cm
William Adolphe Bouguereau, 1825-1905.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Em constante alegria com os livros*

(imagem: reprodução biblioteca Usp)


Depois de se afastar de atividades no governo, Michel se isola na torre do castelo da família, na região de Montaigne. No teto de sua biblioteca, grava frases em grego e latim de seus autores favoritos da Antiguidade. Passa a respirar diariamente aqueles nomes. Memoriza aqueles versos. Repete cada sentença. Comenta linha a linha aqueles autores vindos de muitos séculos. Incorpora-os. Dialoga com eles como quem conversa à mesa ou troca confissões em espaços de intimidade.
É esse o clima de fundo para a escrita de Ensaios, entre 1580 e 1588, que revolucionou a literatura em três pontos essenciais. Primeiro, ao criar um novo gênero literário homônimo, no qual a digressão é mais importante que o assunto. Segundo, por trazer à luz um dos primeiros pensadores ocidentais a incorporar, a partir dos relatos dos viajantes, o relativismo antropológico, e a refletir filosoficamente sobre os costumes dos índios brasileiros. Inspirando-se nas descrições de Jean de Léry, recém-chegado à França, compara-os aos sábios da Antiguidade grega. Terceiro: traz para o primeiro plano da literatura a interioridade e a consciência do autor. Como diz Montaigne ao leitor: “Eu mesmo sou a matéria deste livro.” Em um de seus impecáveis ensaios, cujo tema é justamente os livros, lemos uma de suas centenas de máximas: “Não faço nada sem alegria.”

É justamente essa frase em francês o ex libris que consta na primeira página de cada um dos 40 mil volumes da biblioteca pessoal doada pelo empresário José Mindlin e sua mulher Guita à Universidade de São Paulo (USP). Parte desse acervo pertencia ao bibliófilo Rubens Borba de Moraes, cuja biblioteca foi guardada pelo casal desde a sua morte. Mas antes dessa forma final, conhecida como brasiliana, quem guardava essas preciosidades era a própria casa de José e Guita, no Brooklin, em São Paulo. Espaço geograficamente muito distante das torres do castelo de Montaigne, mas muito próximo do nobre Michel, em seus mergulhos silenciosos na interioridade infinita dos livros.

Colecionador de obras raras

Por outro lado, um dos corações dessa brasiliana é a coleção de obras raras escritas pelos primeiros viajantes que percorreram e descreveram as terras brasileiras. Desse modo, além de viver, como Montaigne, em constante alegria com os livros, Mindlin refez o seu percurso em ordem inversa. Enquanto Montaigne sinaliza a boa nova dos novos costumes descobertos em além-mar e no Novo Mundo, Mindlin preserva todos os pontos de vista deixados por esses viajantes e naturalistas europeus do antigo continente, cujas obras, em sua heterogeneidade, são uma das maiores fontes de estudo e compreensão da natureza e da cultura dos povos que habitaram o Brasil entre os séculos 16 e 19.
Literaturas brasileira e portuguesa; relatos de viajantes e de naturalistas que escreveram sobre a terra brasilisem diversas línguas; manuscritos históricos e literários, tanto originais quanto provas tipográficas; periódicos; álbuns ilustrados; livros científicos e didáticos; edições valiosas de grandes obras da literatura nacional; compêndios de iconografia; livros de artistas; gravuras e muitas primeiras impressões e volumes autografados pelos próprios autores. Primeiro a biblioteca tomou o próprio espaço interior da casa dos Mindlin. Em seguida, ainda dentro dos seus domínios, ocupou duas construções, na parte dos fundos, climatizadas e concebidas para receber um a um os livros que iam se somando à coleção monumental.

Por fim, como o cavalheiro Michel deixou os serviços do Estado para se dedicar aos ensaios e ao convívio com os livros, ao se aposentar, em 1996, da Metal Leve, empresa que fundou e presidiu, Mindlin pôde se aprofundar nessa atividade que havia começado na adolescência: colecionar obras raras. Foi assim que conseguiu construir a maior e a mais importante biblioteca particular do Brasil. Diferentemente de outros colecionadores, ao tratar de Mindlin, percorre-nos sempre uma atmosfera de proximidade, criada por sua personalidade e sua ligação afetiva emblemática com os livros. Falar de Mindlin é sempre recompor o passado. Aguçar a memória para ler as entrelinhas dos gestos. Encontrar para cada expressão facial um livro. Um autor. Um volume. Uma palavra.
O mundo e a palma da mão

Toda biblioteca pessoal, antes de ser uma biblioteca, é pessoal. Uma extensão daquele que a criou. Cada livro, um vestígio de sua vida. Um livro não traduz apenas aquele que o escreveu. Contém em si todos os que o leram. Revela todos os que, de mãos em mãos, o preservaram. Mindlin sempre frisou que ele e a mulher nunca foram proprietários da biblioteca, aberta aos amigos e a quem quisesse visitá-la. Eram seus dois guardiães. Em sua casa, em primeiro plano, duas poltronas, a de José e a de Guita. Ao fundo, uma estante na qual os títulos se avolumavam. Destacava-se, na horizontal, a enorme edição dos desenhos de Debret sobre fauna e flora brasileiras, que depois ganhariam vida nas melhores páginas de Guimarães Rosa.
Lembro-me de Mindlin folheando a edição parisiense, saída dos prelos de Firmin Didot Frères, em 1834. Vejo-o cotejando os diversos volumes de Henri Ternaux-Compans sobre a descoberta da América, publicados em 1841. Ele passa o indicador pelas ranhuras gastas das gravuras, placidamente observando a gravura de um ritual antropófago descrito por Hans Staden, na edição de Marpurg e Kolben, de 1557. Pássaros, plantas, mamíferos e árvores pintados por Von Martius, nos diversos volumes da edição de Leipzig, de 1871. Imagino-o observando a cartografia de todas as ilhas do mundo, composta por Benedetto Bordone na edição vêneta de Francesco Di Leno, no início do século 16. Ainda hoje posso visualizá-lo, andando em companhia de Francisco Adolfo de Varnhagen, nas edições Laemmert, de 1854. Entrevejo-o a sós, analisando a coletânea de viagens de Fracanzano da Montalbodo, na edição de 1507, que noticia a viagem de Cabral, primeiro livro em que o Brasil foi mencionado.
De onde vem essa ambição de abranger o mundo em uma sala de leitura? Talvez o livro seja justamente a materialização dessa nostalgia da unidade inapreensível da vida. Isso porque o livro é a tecnologia mais revolucionária que jamais foi criada, pois consiste em converter, em um único gesto (a leitura) duas dimensões aparentemente inconciliáveis: o mundo e a palma da mão. É, desde o seu surgimento, uma maneira de exteriorizar o sistema nervoso central e a memória humana sob a forma de um objeto material. Por isso seu fascínio indescritível, que deu ensejo até à definição das chamadas religiões do livro.
A memória nos trai bem

Talvez possamos identificar esse desejo de conciliar duas magnitudes, amplidão mundana e interioridade reflexiva, logo nos primeiros passos de Mindlin. Sua primeira obra rara, comprada aos 13 anos, chama a atenção: Discurso Sobre a História Universal, de Bossuet, em uma edição de 1740. Estaríamos aqui diante de uma ânsia juvenil de englobar o mundo? O adolescente já intuía a vocação de colecionador de amplos voos que lhe caberia? Por que, em vez de jogar bola, começou a brincar, nessa idade tenra, com o orbe da Terra? O que descobriu em segredo entre páginas amarelecidas de outras eras? A história sacra narrada pelo grande pregador francês do século 17 confere um sentido de salvação à história humana. Por isso, é abrangente. Universal. Pretende descrever as motivações divinas que regem as vidas no interior do tempo. Reconverter o tempo do mundo em tempo histórico. Fazer os extremos se tocarem. O eterno e o instante. O cosmos e o ser humano. Como diria Jorge Luis Borges, o universo e a biblioteca.

Mindlin não mensurava os livros por uma distinção de raridade ou valor, mas de preciosidade. Distinguia os mais queridos. Os mais almejados. Os mais difíceis de ser obtidos valiam mais. Diferentemente do que muitos possam supor, mesmo tendo à mão as edições mais raras, Mindlin deixava em um lugar privilegiado de sua poltrona de leitura a obra de um de seus escritores favoritos: Marcel Proust. Não poderia ser diferente. Depois de Montaigne, apenas Proust conseguiu tocar aqueles espaços poéticos de pura intimidade e recolhimento, aquela região da vida que, em solidão povoada, materializa o próprio ato da leitura.
A busca do tempo perdido realizada por Proust é também uma busca da relação entre verdade e imaginação. Desdobra-se naqueles espaços de devaneio, nos quais somos o que poderíamos vir a nos tornar no futuro e seremos o que está virtualmente inscrito em um passado hipotético que ignoramos. Por isso, a memória nos trai. Mas nos trai maravilhosamente bem, pois há muitos momentos recordados que têm mais força e espessura vital do que os momentos vividos. Isso não diminui em nada a vida de quem se entrega à doce traição da leitura, às minúsculas infrações dos livros, nos quais nos separamos da vida cotidiana por um tempo para vivermos uma espécie de isolamento feliz e consentido.
As impressões digitais

Penso aqui se toda essa obra deixada por Mindlin não foi um gesto proustiano de redescobrir o tempo e revivê-lo, em espirais cada vez mais vastas, transformando o passado imaginado em uma realidade presente. O lampejo do primeiro livro, comprado aos 13 anos, é a marca da memória por meio da qual Mindlin conseguiu iluminar a si com mais força. Tornou o passado ainda mais presente aos seus olhos, cercado pelos objetos que amava, reverberando em círculos. Assim, repetiu não apenas a raridade de seu primeiro Bossuet, mas também o seu conteúdo. Traduziu a história universal de homens anônimos na forma universal singularizada de um indivíduo e de sua biblioteca.
O belo prédio que agora abriga a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), no campus da USP, foi concebido por Eduardo de Almeida e Rodrigo Mindlin Loeb, que se inspiraram na New York Public Library e na Biblioteca Nacional de Paris. Alguns andares circulares guardam a brasiliana, como a biblioteca hexagonal sonhada por Borges.
Caminho por seus corredores, toco as lombadas gastas, observo em perspectiva a forma indefinida que a infinidade de livros cria quando abertos ao horizonte. Os círculos concêntricos se espelham, no interior das paredes de vidro. As impressões digitais de Mindlin continuarão aqui. Escritas em formas invisíveis, como na indefectível torre de Montaigne. E ele, sentado, nas poltronas de couro do saguão. Agora ele se mistura aos buritis de uma edição autografada por Guimarães Rosa, às anotações minuciosas de Manuel Bandeira, aos desenhos infantis de Oswald de Andrade, às falenas de uma edição de 1870, à caligrafia das anotações às margens de Machado.
Com alegria

Como dizia Mindlin, o vírus do amor aos livros é incurável. É preciso inoculá-lo no maior número possível de pessoas. Eu menti. Infelizmente, nunca conheci José Mindlin. O que fiz nestas linhas foi um exercício de admiração, como os do filósofo romeno Emil Cioran. Esboços de intimidade e de leituras incorporadas. Marcas de fisionomias alheias que incorporamos sem as ter conhecido. Porém, em outra ordem de realidade, não tenho dúvida de que um dia estive na casa dos Mindlin e folheei as primeiras edições de alguns dos seus maiores escritores. Naveguei pelo Atlântico, cruzei tempestades, naufraguei em meio a canibais, observei a fauna e a flora das costas brasileiras no século 16. E agora, ao atravessar o umbral da brasiliana, é a torre de Michel que se abre e fecha suas portas às minhas costas. Para que em silêncio eu possa povoar esse labirinto que no conduz à liberdade.
Por mais monumental que seja o edifício. Por mais grandiosa que seja a erudição. Por mais preciosas que ressoem as raridades que se espalham nessas estantes, em nenhum momento perco de vista que tudo começou com alegria.
*Rodrigo Petrônio in. “Eu&Fim de Semana” . Valor Econômico, 22/3/2013.

domingo, 24 de março de 2013

A cidade e as esfinges*


Toda a fauna das imaginações com sua vegetação marinha, como através de uma cabeleira de sombra se perde e se perpetua nas zonas mal aclaradas da atividade humana. Lá é que aparecem os grandes faróis espirituais, vizinhos, pela forma, de sinais menos puros. Uma fraqueza humana abre a porta do mistério e lá estamos, nos reinos da sombra. Um passo em falso, uma sílaba engasgada revelam o pensamento de um homem. Há na inquietação dos lugares fechaduras que se trancam sobre o infinito. Lá onde se persegue a atividade mais equivoca dos seres vivos, o inanimado se reveste, às vezes, dum reflexo de clarões, e mais segredos móveis: nossas cidades são assim povoadas por esfinges desconhecidas que não detêm o passante sonhador se ele não volta para elas sua distração meditativa, esfinges que não lhe colocam questões mortais. Mas, caso ele saiba advinhá-las, então este sábio que as interroga irá sondar ainda, novamente, seus próprios abismos graças a esses monstros sem rosto. A luz moderna do insólito: eis o que doravante irá retê-lo.


*Louis Aragon in. “O Camponês de Paris”. Ed. Imago, 1996, pp. 43-44.

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Churchgate Station, Western Railroad Line, Bombay, India, 1995.
Gelatin silver print. 21 3/8 x 31 1/2 in. (54.3 x 80 cm).
Photo: Sebastião Salgado


sábado, 23 de março de 2013

O olho da história*


Ao ocupar-se da narrativa histórica constituída pelas fotografias de imprensa, o historiador não pode situar-se como mero espectador dos fatos passados, tomando tais imagens como janelas que se abrem aos acontecimentos. Ao contrário, há de se posicionar criticamente em relação às operações conceituais e práticas que envolvem a produção, a circulação, o consumo e o agenciamento das fotografias de imprensa pelos sujeitos envolvidos em tais operações: fotógrafos, editores, jornalistas, público etc. Ao julgar tais fotografias como imagens-monumento e imagens-documento, a análise historiográfica vai de encontro às memórias construídas sobre os acontecimentos, desmontando-as, desnaturalizando-as, apontando para seu caráter de construção, comprometimento e subjetividade.

*Ana Maria Mauad in. “História e Imprensa: representações culturais e práticas políticas”. Ed. DP&A, 2006, p. 381.

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Menina de cinco anos rejeita o cumprimento do presidente João Figueiredo em plena ditadura militar no Brasil /Cerimônia no Palácio da Liberdade, Belo Horizonte, 1979. Photo: Guinaldo Nicolaevsky.


O sentido do passado*


Todo ser humano tem consciência do passado (definido como o período imediatamente anterior aos eventos registrados na memória de um indivíduo) em virtude de viver com pessoas mais velhas. Provavelmente todas as sociedades que interessam ao historiador tenham um passado, pois mesmo as colônias mais inovadoras são povoadas por pessoas oriundas de alguma sociedade que já conta uma longa história. Ser membro de uma comunidade humana é situar-se em relação ao seu passado (ou da comunidade), ainda que apenas para rejeitá-lo. O passado é, portanto, uma dimensão permanente da consciência humana, um componente inevitável das instituições, valores e outros padrões da sociedade humana. O problema para os historiadores é analisar a natureza desse “sentido do passado” na sociedade e localizar suas mudanças e transformações.

*Eric Hobsbawm in. “Sobre História”. Ed. Companhia das Letras, 1998, p.22.

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Eric J. Hobsbawm (1917-2012)


A fala dos passos perdidos*


Caminhar é ter falta de lugar. É o processo indefinido de estar ausente e à procura de um próprio. A errância, multiplicada e reunida pela cidade, faz dela uma imensa experiência social de privação de lugar – uma experiência, é verdade, esfarelada em deportações inumeráveis e ínfimas (deslocamentos e caminhadas), compensada pelas relações e os cruzamentos desses êxodos que se entrelaçam, criando um tecido urbano, e posta sob o signo do que deveria ser, enfim, o lugar, mas é apenas um nome, a Cidade.

*Michel de Certeau in. “A invenção do cotidiano: artes de fazer”. Ed. Vozes, 2008, p. 183.

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