quinta-feira, 7 de março de 2013

A colonização da mulher*


A invasão do cenário urbano pelas mulheres, no entanto, não traduz um abrandamento das exigências morais, como atesta a permanência de antigos tabus como o da virgindade. Ao contrário, quanto mais ela escapa da esfera privada da vida doméstica, tanto mais a sociedade burguesa lança sobre seus ombros o anátema do pecado, o sentimento de culpa diante do abandono do lar, dos filhos carentes, do marido extenuado pelas longas horas de trabalho. Todo um discurso moralista e filantrópico acena para ela, de vários pontos do social, com o perigo da prostituição e da perdição diante do menor deslize. (...) Vários procedimentos estratégicos masculinos, acordos tácitos, segredos não confessados tentam impedir sua livre circulação nos espaços públicos ou a assimilação de práticas que o imaginário burguês situou nas fronteiras entre a liberdade e a interdição.

*Margareth Rago in. “Do Cabaré ao Lar: a utopia da cidade disciplinar”. Ed. Paz & Terra, 1997, p. 63.

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Photo: Washington, D.C., circa 1919.


quarta-feira, 6 de março de 2013

As mulheres dos Deuses*


Ruth Landes, antropóloga norte-americana, vem ao Brasil em 1939. Ela quer conhecer a vida dos negros num país sem racismo. No Rio de Janeiro, é recebida pelo ministro Osvaldo Aranha. O ministro explica a ela que o governo se propõe a limpar a raça brasileira, suja de sangue negro, porque o sangue negro tem a culpa do atraso nacional.

Do Rio, Ruth viaja para a Bahia. Os negros são ampla maioria nesta cidade, onde outrora tiveram seu trono os vice-reis opulentos de açúcar e de escravos, e negro é tudo o que aqui vale a pena, da religião até a comida, passando pela música. E mesmo assim, na Bahia todo mundo acha, e os negros também, que a pele clara é de boa qualidade. Todo mundo, não: Ruth descobre o orgulho da negritude nas mulheres dos templos africanos.

Nesses tempos são quase sempre mulheres, sacerdotisas negras, que recebem em seus corpos os deuses vindos da África. Resplandecentes e redondas como balas de canhão, oferecem aos deuses seus corpos amplos, que parecem casas onde dá prazer chegar e ficar. Nelas entram os deuses, e nelas dançam. Das mãos das sacerdotisas possuídas o povo recebe ânimo e consolo; e de suas bocas escuta as vozes do destino.

As sacerdotisas negras da Bahia aceitam amantes, não maridos. O casamento dá prestígio, mas tira a liberdade e a alegria. Nenhuma se interessa em formalizar o casamento frente ao padre ou ao juiz: nenhuma quer ser esposada esposa, senhora fulano. Cabeça erguida, lânguido balançar: as sacerdotisas se movem como rainhas da Criação. Elas condenam seus homens ao incomparável tormento de sentir ciúmes dos deuses.

*Eduardo Galeano in. “Mulheres”. Ed. l&pm, 2007, pp. 135-136.

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D. Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe do Terreiro Axé Opô Afonjá, 1948.
Photo: Pierre Verger, 1902-1996.


A Autoridade*


Em épocas remotas, as mulheres se sentavam na proa das canoas e os homens na popa. As mulheres caçavam e pescavam. Elas saiam das aldeias e voltavam quando podiam ou queriam. Os homens montavam as choças, preparavam a comida, mantinham acesas as fogueiras contra o frio, cuidavam dos filhos e curtiam as peles de abrigo.

Assim era a vida entre os índios onas e os yaganes, na Terra do Fogo, até que um dia os homens mataram todas as mulheres e puseram as máscaras que as mulheres tinham inventado para aterrorizá-los.

Somente as meninas recém-nascidas se salvaram do extermínio. Enquanto elas cresciam, os assassinos lhes diziam e repetiam que servir aos homens era seu destino. Elas acreditaram. Também acreditaram suas filhas e as filhas de suas filhas.


*Eduardo Galeano in. “Mulheres”. Ed. l&pm, 2007, p. 11.

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Photo: Pedro Martinelli


terça-feira, 5 de março de 2013

Embriagai-vos*


É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo, que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso. Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se. E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso! Com vinho, poesia ou virtude, a escolher”

*Charles Baudelaire in. “O spleen de Paris: pequenos poemas em prosa”. Ed. Imago, 1995, p. 21.

____ Bacante:

Brecha das Almas*


No fundo da China existe um Mandarim mais rico que todos os reis de que a Fábula ou a História contam. Dele nada conheces, nem o nome, nem o semblante, nem a seda de que se veste. Para que tu herdes os seus cabedais infindáveis, basta que toques essa campainha, posta a teu lado, sobre um livro. Ele soltará apenas um suspiro, nesses confins da Mongólia. Será então um cadáver: e tu verás a teus pés mais ouro do que pode sonhar a ambição dum avaro. Tu, que me lês e és um homem mortal, tocarás tu a campainha?

*Eça de Queirós in. “O Mandarim”. Ed. Neolivros, 2008, p.07.

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Photo: Don Hong-Oai, (China, 1922).


sábado, 2 de março de 2013

Filosofia*


A verdadeira filosofia é reaprender a ver o mundo

Maurice Merleau-Ponty, 1908-1961.




Livros*


Os livros são pequenos pedaços do incomensurável.

Stefan Zweig, 1881-1942.

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Das Lesende Mädchen,1844.
Oil on canvas, (31,8 X 24,1cm).
Johann Georg Meyer von Bremen, 1813-1883.


sexta-feira, 1 de março de 2013

Mousikè e pavor*


O pavor nocturnus. Ruído, mordiscar de arganazes, de formigas, gotas de água de torneira ou de calha, respiração no escuro, lamentos misteriosos, gritos abafados, silêncio que não responde repentinamente à norma do som do silêncio do lugar, despertador, ramos batendo ou estalar de chuva sobre o teto, galo.

Pavor diurnos. No santuário. Em um corredor da rua Sébastien-Bottin durante vinte e cinco anos: não há ninguém e no entanto falamos em voz baixa. Cochichos de monges. Risos espremidos às vezes. Somos manequins de vime, o que os romanos chamavam larva, cujos fios são manipulados pelos mortos mais antigos, mais antepassados.

*Pascal Quignard in. “Ódio à música”. Ed. Rocco, 1999, p. 17.

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Photo: Don Hong-Oai, (China, 1922).


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Escrever em cio*


Com efeito, a vida criadora está tão próxima da vida sexual, dos seus sofrimentos e das suas delícias, que é preciso ver nelas duas formas de uma única necessidade, de um único prazer.

*R. M. Rilke in. “Cartas a um jovem poeta”. Ed. Ediouro, s/d, pp. 103-105.

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Rainer Maria Rilke, 1875-1926.
Photo: R.M. Rilke, 1906.


Lido nos muros das cidades*


Gosto tanto da noite que poria um toldo no dia.
Sim, a cigarra não trabalha. Mas a formiga não canta.
Minha avó disse não à droga. E morreu.
A vida é uma doença que se cura sozinha.
Esta fábrica fuma pássaros.
Meu pai mente como um político.
Basta de fatos! Queremos promessas!
A esperança é a última que se perdeu.
Não fomos consultados para vir ao mundo, mas exigimos que nos consultem para viver nele.
Existe um país diferente, em algum lugar.

*Eduardo Galeano in. “De pernas pro ar: a escola do mundo ao avesso”. Ed. l&pm, 2011, p.325.

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France, mai-68.

O Romance*


Todas as metamorfoses do real, todas as formas de conhecimento cabem no perímetro do romance, assim transformado numa espécie de síntese ou de superfície refletora da totalidade do mundo. Dessa conjuntura promana a sua função gnoseológica: mais conhecimento que entretenimento, o romance permite ao escritor construir um projeto ambiciosamente globalizante das multiformes experiências humanas, e ao leitor, desfrutá-lo de modo privilegiado, sem risco para sua própria existência; o prosador conhece o mundo por meio do romance, e dá-o a conhecer ao leitor; não existe, nos quadrantes da criação literária, meio mais completo para se chegar a uma imagem totalizante do Universo.

*Massaud Moisés. in. “Dicionário de Termos Literários”. Ed.Cultrix, 1974, p.452.

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Pierre-Auguste Renoir, 1841-1919.


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Eva*


Eva, c. 1919-20.
Mármore, 82 x 117,5 x 59 cm.
Victor Brecheret, 1894-1955.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Teus cabelos*



Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.

Na Itália te batizariam de Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pêlo.

Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira

pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pêlo.


*Pablo Neruda in. “Cem sonetos de amor”. Ed. l&pm, 1979, p.24.

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América*



Tantas cidades no mapa... Nenhuma, porém, tem mil anos.
E as mais novas, que pena: nem sempre são as mais lindas.
Como fazer uma cidade? Com que elementos tecê-la? Quantos fogos terá?
Nunca se sabe, as cidades crescem,
mergulham no campo, tornam a aparecer.
O ouro as forma e dissolve; restam navetas de ouro.
Ver tudo isso do alto: a ponte onde passam soldados
(que vão esmagar a última revolução);
o pouso onde trocar de animal; a cruz marcando o encontro dos valentes
a pequena fábrica de chapéus; a professora que tinha sardas...
Esses pedaços de ti, América, partiram-se na minha mão.
A criança espantada
não sabe juntá-los.

[Fragmento]

*Carlos Drummond de Andrade in. “Poesia Completa”. Ed. Nova Fronteira, 2007, p.198.

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Detalhe: Ouro Preto, MG.


O mundo*


Um homem da aldeia de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir aos céus. Quando voltou, contou. Disse que tinha contemplado, lá do alto, a vida humana. E disse que somos um mar de fogueirinhas.

— O mundo é isso — revelou. — Um montão de gente, um mar de fogueirinhas.

Cada pessoa brilha com luz própria entre todas as outras. Não existem duas fogueiras iguais. Existem fogueiras grandes e fogueiras pequenas e fogueiras de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem percebe o vento, e gente de fogo louco, que enche o ar de chispas. Alguns fogos, fogos bobos, não alumiam nem queimam; mas outros incendeiam a vida com tamanha vontade que é impossível olhar para eles sem pestanejar, e quem chegar perto pega fogo.


*Eduardo Galeano in. “O livro dos abraços”. Ed. l&pm, 2010, p.13.

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Noite Estrelada sobre o Ródano, 1888.
Óleo em tela, 72,5 cm x 92 cm.
Vincent van Gogh, 1853-1890.


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